Cancro colorretal: o que revela a nossa microbiota oral?

Um grupo de investigadores irlandeses mostrou que as bactérias da cavidade oral podem desempenhar um papel no desenvolvimento do cancro gastrointestinal. A sua deteção nos intestinos pode ajudar a identificar precocemente os indivíduos em risco.

 

Vários estudos mostraram anteriormente que a microbiota intestinal de doentes com cancro colorretal está perturbada. Alguns também sugeriram que certas bactérias podem estimular o aparecimento desta doença. Acredita-se que algumas das bactérias carcinogénicas em questão provenham da nossa cavidade oral. Na revista científica Gut, investigadores da Universidade Nacional da Irlanda mostraram que várias espécies bacterianas naturalmente presentes nas nossas bocas viajam pelo trato digestivo; uma vez no cólon, acredita-se que desempenhem um papel no desenvolvimento do cancro.

Espécies protetoras?

Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram amostras de: saliva, mucosas do cólon e fezes obtidas de 99 doentes com cancro colorretal, 32 doentes com pólipos intestinais (tumores benignos suscetíveis de se desenvolverem em tumores malignos) e 103 voluntários saudáveis. Em primeiro lugar, a análise indicou que a colonização dos intestinos por bactérias da cavidade oral estava aumentada em doentes que sofriam de cancro ou pólipos, em comparação com indivíduos saudáveis. Os resultados também mostraram que certas bactérias parecem impedir a implantação de bactérias patogénicas associadas ao cancro colorretal. Os autores consideram que a sua presença benéfica seria promovida por uma dieta equilibrada, pobre em gordura e açúcares.

Deteção precoce de indivíduos em risco

O estudo também revelou que os intestinos destes três grupos não alojavam as mesmas populações bacterianas. Os investigadores sugerem que estas populações poderiam ser usadas para distinguir doentes com cancro, indivíduos com pólipos e indivíduos saudáveis. E, ao procurar bactérias específicas na saliva, identificaram corretamente mais de um em cada dois doentes com cancro e dois em cada três doentes com pólipos. Em combinação com uma análise das fezes, os resultados são ainda mais precisos: três quartos dos casos de cancro e quase 90% dos doentes com pólipos foram corretamente detetados. Os investigadores, no entanto, admitem que estudos em larga escala, que terão em conta a idade dos voluntários, bem como o consumo de tabaco, álcool e o estádio da doença, são essenciais para confirmar esses resultados promissores.


 

 

Fontes :

Flemer B, Warren RD, Barrett MP, et al. The oral microbiota in colorectal cancer is distinctive and predictive. Gut 2018;67:1454-1463