Doença de alzheimer: a influência da disbiose intestinal na patologia amiloide

Um estudo veio esclarecer o papel da microbiota intestinal na patologia amiloide associada à doença de Alzheimer. Esse papel envolve compostos bacterianos capazes de atingir o cérebro na sequência de uma reação inflamatória sistémica.

Publicado em 03 Março 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021
Actu PRO : Alzheimer : comment la dysbiose intestinale influencerait la pathologie amyloïde

Sobre este artigo

Publicado em 03 Março 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021

A presença de disbiose intestinal nos pacientes com doença de Alzheimer, e o envolvimento da microbiota na acumulação cerebral de proteínas amiloides associada com a doença, já se encontram demonstrados. O objetivo deste novo estudo foi, portanto, procurar as vias de sinalização através das quais a microbiota intestinal dos pacientes contribui para referida patologia amiloide.

Em busca de correlações

O estudo abrangeu 89 pessoas com idades entre os 50 e os 85 anos e diferentes desempenhos cognitivos, entre o normal e a perturbação cognitiva com perda de memória, associados ou não à doença. Os depósitos amiloides foram avaliados e quantificados nas diferentes zonas do cérebro por Tomografia por Emissão de Positrões (PET), enquanto se procedeu a análises do doseamento no sangue de moléculas derivadas da microbiota intestinal (lipopolissacarídeos – LPS – e ácidos gordos de cadeia curta – acetato, propionato, valerato, butirato), de marcadores pró e anti-inflamatórios (incluindo interleucinas – IL), e de marcadores de disfunção endotelial (moléculas de adesão celular – CAMs).

Envolvimento dos mediadores bacterianos

Independentemente da zona do cérebro afetada, os depósitos amiloides apresentaram-se em correlação positiva com os níveis sanguíneos de LPS, acetato, valerato, determinadas citocinas pró-inflamatórias (IL-1b, IL6, entre outras) e numerosas CAMs (por exemplo, P-selectina, PECAM-1); contudo, essa correlação revelou-se negativa quanto aos níveis de butirato e de IL-10 (anti-inflamatória). Por fim, alguns biomarcadores da disfunção endotelial encontravam-se positivamente correlacionados com os níveis de acetato, valerato, IL1b e IL-4, mas mais uma vez negativamente face ao butirato e à IL-10. Todas estas relações são interpretadas pelos autores como uma participação simultaneamente direta e indireta dos parâmetros sanguíneos associados à disbiose intestinal na patologia amiloide.

Inflamação, função de barreira e Alzheimer

Assim, a redução dos níveis de butirato associada a um aumento dos de etilo, valerato e LPS poderá comprometer a integridade da barreira intestinal, provocar e manter uma inflamação sistémica de baixa intensidade e alterar a barreira hematoencefálica, para por fim permitir a penetração dos compostos pró-inflamatórios no sistema nervoso central, o que vai desencadear a cascata patológica da doença de Alzheimer. Embora alertando quanto à impossibilidade de se estabelecer um nexo de causalidade a partir dos seus dados, os autores enfatizam que o grau das associações descobertas suporta esta hipótese fisiopatológica. E concluem que existe a possibilidade de se elaborarem estratégias de prevenção baseadas no enriquecimento da microbiota com bactérias ou metabolitos benéficos, uma vez que a assinatura microbiana associada à doença de Alzheimer estará, assim, determinada.

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