Microbiota e Saúde Pediátrica: Destaques da LASPGHAN 2025
Pela Prof. Natascha Sandy
Clínica Levy, Condomínio Atlantis, São Paulo, Brazil
Área para o público geral
Encontre aqui o seu espaço dedicadoen_sources_title
en_sources_text_start en_sources_text_end
Capítulos
Sobre este artigo
O 25.º Congresso da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN), realizado em Mérida, reforçou o papel central da microbiota na saúde e nas doenças de foro pediátrico. As discussões realçaram uma abordagem rigorosa, baseada em evidências e específica para cada estirpe quanto à utilização de probióticos, em consonância com o mais recente documento de posição da ESPGHAN e o próximo consenso da LASPGHAN. O foco mudou da suplementação empírica para indicações apoiadas por ensaios clínicos randomizados e meta-análises, destacando o modo como a modulação microbiana pode influenciar os resultados gastrointestinais, imunológicos e metabólicos em diferentes fases da infância. Há um reconhecimento crescente de que a impressão da microbiota no início da vida pode ter consequências para toda a vida na programação metabólica e na tolerância imunológica, sublinhando a importância da nutrição perinatal, da amamentação e da prevenção da utilização desnecessária de antibióticos como determinantes-chave da resiliência microbiana.
Diarreia infeciosa aguda
As diretrizes atuais recomendam certas estirpes de Saccharomyces e de Lacticaseibacillus como as estirpes mais bem documentadas para a gastroenterite aguda e a prevenção da diarreia associada a antibióticos em crianças 1-4. Ensaios clínicos randomizados e meta-análises demonstram de forma consistente uma redução clinicamente relevante na duração da doença e na frequência das fezes quando estes probióticos são utilizados em conjunto com terapia de re-hidratação oral. No caso da diarreia associada a antibióticos, ambas as estirpes mantêm evidências de qualidade moderada e perfis de segurança favoráveis, tornando-as as opções mais fiáveis nos cuidados pediátricos de rotina. Alguns Limosilactobacillus também podem ser considerados na diarreia aguda e na cólica infantil, refletindo a compreensão crescente de que a modulação microbiana no início da vida apoia a tolerância imunológica e a maturação da barreira intestinal 5. Para além dos probióticos isolados, estudos emergentes apresentados na LASPGHAN exploraram o modo como as combinações com substratos prebióticos podem acelerar a restauração da diversidade da microbiota após a infeção ou a exposição a antibióticos. Esta abordagem “biótica” sinérgica pode representar uma nova fronteira para prevenir a recorrência e melhorar a recuperação intestinal em crianças.
Distúrbios gastrointestinais funcionais e cólicas
Para além dos casos agudos, o papel dos probióticos nos distúrbios gastrointestinais funcionais está a ser definido com mais cautela. Algumas estirpes de Lacticaseibacillus demonstraram potencial para reduzir a frequência da dor abdominal e melhorar a qualidade de vida em casos de dor abdominal funcional e síndrome do intestino irritável, quando combinadas com medidas dietéticas e comportamentais 1, 3. A força geral das evidências permanece modesta, mas existem dados emergentes que sugerem um papel para estirpes específicas como adjuvantes no âmbito de uma abordagem de gestão multimodal. Na obstipação funcional, o Lacticaseibacillus também pode ser utilizado como adjuvante à terapia padrão, enquanto na cólica infantil continua a ser a estirpe mais consistentemente recomendada. A utilização preventiva de Lacticaseibacillus desde o nascimento até aos quatro meses tem sido associada a uma menor incidência de cólicas em bebés de alto risco 2. A seleção da estirpe deve sempre considerar o fenótipo do paciente, o padrão de sintomas e intervenções concomitantes, como a ingestão de fibras ou a terapia comportamental. Integrar probióticos ou simbióticos numa estratégia de gestão holística — em vez de utilizá-los como suplementos isolados — surge como um princípio fundamental para otimizar os resultados em distúrbios gastrointestinais funcionais.
Alergia alimentar e imunidade mucosa
Tem sido dada uma atenção cada vez maior à interação entre a microbiota e o desenvolvimento imunológico. O Lacticaseibacillus administrado durante pelo menos três meses pode ajudar a promover a tolerância e a melhoria clínica na alergia à proteína do leite de vaca 1 ,2. Estas descobertas são biologicamente plausíveis, dadas as propriedades imunomoduladoras da estirpe e a sua capacidade de influenciar as respostas epiteliais e de citocinas. No entanto, são necessários mais estudos para validar a magnitude e a durabilidade desses efeitos nos resultados alérgicos a longo prazo.
Prevenção da enterocolite necrosante
A utilização profilática de certas estirpes de Lacticaseibacillus durante ≥ 30 dias continua a ser recomendada para reduzir a enterocolite necrosante e a mortalidade, desde que a qualidade do produto, a identidade da estirpe e a vigilância clínica sejam garantidas em bebés prematuros 1. O benefício parece depender da estirpe, o que sublinha a necessidade de formulações padronizadas e a rastreabilidade microbiológica nos cuidados neonatais. Evidências recentes destacam o modo como a exposição microbiana precoce — por meio do parto vaginal, da amamentação e da diversificação alimentar — modula a imunidade da mucosa e a tolerância oral. O conceito dos “primeiros 1000 dias” continua a ser uma janela essencial para intervenções que têm o objetivo de prevenir doenças alérgicas e inflamatórias. Dados crescentes sobre pós-bióticos, produtos microbianos não viáveis com potencial sinalizador e anti-inflamatório, estão a abrir novas perspetivas terapêuticas na prevenção de alergias e na educação imunológica.