Colite ulcerosa: um protocolo de transplante fecal inovador

A preservação de bactérias anaeróbias em transplantes fecais pode conduzir a um tratamento menos intensivo, mas tão eficiente quanto os métodos standard em doentes com colite ulcerosa (CU).

Publicado em 14 Julho 2020
Atualizado em 17 Julho 2024
Photo : Ulcerative colitis: an innovative fecal transplant protocol

Sobre este artigo

Publicado em 14 Julho 2020
Atualizado em 17 Julho 2024

Embora o envolvimento da microbiota intestinal em doenças inflamatórias intestinais crónicas (Crohn e colite ulcerosa) tenha sido comprovado, o Transplante de Microbiota Fecal (do termo em inglês FMT) ainda está sob investigação. Parece haver um donor effect significativo: quanto mais diversa for a microbiota transplantada, melhores serão os resultados. Neste contexto, um grupo de investigadores australianos desenvolveu uma técnica inovadora.

Microrganismos anaeróbios preservados, protocolo simplificado

Os cientistas levantaram a hipótese de que os microrganismos anaeróbios poderiam estar envolvidos no efeito terapêutico dos transplantes fecais para o tratamento da CU. Assim, desenvolveram uma técnica de preparação que preserva estas espécies, que são destruídas em grande escala por métodos standard levados a cabo na presença de oxigénio. O protocolo de administração foi menos intensivo do que o utilizado anteriormente: uma dose (de uma mistura de vários dadores) recebida por colonoscopia, seguida de duas doses administradas por enema num período de 7 dias, em comparação com uma colonoscopia e cinco enemas por semana durante 8 semanas num estudo de referência*.

Protocolo eficaz relativo à dependência de corticosteroides

Setenta e três doentes com CU leve a moderada foram incluídos neste estudo. Para além do seu tratamento de base, os participantes receberam prednisolona (dose < 25 mg/dia). O desmame completo de corticosteroides foi o primeiro endpoint na semana 8, aquando da realização de uma nova colonoscopia, bem como de um exame clínico. No grupo que recebeu TMF de dadores (TMFd), a taxa de remissão foi de 32%, em comparação com 9% do grupo controlo que recebeu TMF autóloga (TMFa). A redução média na pontuação geral de Mayo** foi de 3,5 pontos no grupo TMFd (4 doentes tiveram uma pontuação de Mayo de 0), versus 1,2 pontos no grupo TMFa. É de referir que a maior abundância de espécies anaeróbias (Anaerofilum pentosovorans e Bacteroides coprophilus) esteve fortemente associada a uma melhoria da doença no grupo TMFd. Este estudo confirma os benefícios da TMF no tratamento da CU e conclui que o método de preparação anaeróbia poderia otimizar o protocolo terapêutico e melhorar a vida dos doentes, mantendo a eficácia.

* Paramsothy et al., Multidonor intensive faecal microbiota transplantation for active ulcerative colitis: a randomised placebo-controlled trial.Lancet 2017

**https://www.igibdscores.it/en/info-mayo-full.html