Transplantes fecais para restaurar a microbiota dos bebés nascidos por cesariana?

Um novo estudo, publicado na revista científica Cell, mostra que a microbiota intestinal das crianças nascidas por cesariana pode ser restabelecida mediante um transplante de microbiota fecal proveniente da mãe, passando a assemelhar-se à das crianças nascidas por parto normal.

Publicado em 15 Março 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021
Actu PRO : La transplantation fécale pour restaurer le microbiote des bébés nés par césarienne ?

Sobre este artigo

Publicado em 15 Março 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021

Os bebés nascidos por cesariana (CS) apresentam uma microbiota intestinal diferente da dos que nascem por via vaginal, devido a não terem sido expostos às bactérias da mãe durante o parto. Alguns estudos sustentam que a cesariana poderá gerar consequências a curto e a longo prazo para a saúde dos lactentes, aumentando o risco de doenças imunológicas crónicas (asma, alergias, etc.), embora tal conclusão seja ainda alvo de controvérsia. Uma equipa finlandesa avaliou a eficácia e a segurança dos transplantes de microbiota fecal (TMF) para o restabelecimento da microbiota intestinal nos lactentes nascidos por cesariana.

Protocolo clínico rigoroso

Foram recolhidas amostras de fezes de 17 futuras mães, 3 semanas antes da data prevista para a cesariana. No total, foram selecionadas sete mulheres, após uma triagem rigorosa dos patógenos presentes nas respetivas fezes. Cada bebé recebeu, pelo biberão, nas 2 horas subsequentes ao nascimento por cesariana, um TMF da mãe - contendo cerca de 106 a 107 células bacterianas viáveis - ou seja, 1 ml de fezes maternas diluídas no leite materno, para um volume total de 5 ml. A microbiota intestinal e o estado de saúde de cada um dos recém-nascidos foram avaliados no momento do nascimento, ainda na maternidade durante 2 dias, semanalmente, em seguida, ao longo de um mês e, finalmente, aos 3 meses. A composição das suas microbiotas intestinais foi analisada por sequenciação do gene 16S rRNA, e comparada com a das microbiotas de 82 bebés nascidos por via vaginal ou também por cesariana mas sem terem recebido TMF.

Resultados prometedores

O TMF não provocou nos bebés quaisquer efeitos secundários ou complicações ao longo da duração do estudo. O desenvolvimento da microbiota intestinal dos bebés de CS tratados por TMF e o dos nascidos de parto normal diferiu nos primeiros dias, mas tornou-se semelhante após 1 semana, permanecendo bastante diferente do da microbiota dos bebés de CS que não receberam transplante. O TMF pareceu corrigir a assinatura bacteriana da cesariana, ao normalizar a abundância de Bacteroidales e Bifidobacteriales de forma comparável à dos nascidos de parto normal. Além disso, a presença de potenciais agentes patogénicos foi inferior nos bebés CS tratados por TMF na 1.ª semana e aos 3 meses, em comparação com os bebés CS não tratados. Esta primeira investigação de prova do conceito demonstra a segurança e a eficácia potencial dos TMF no restabelecimento da microbiota intestinal dos bebés nascidos por cesariana. Serão ainda necessários estudos a uma escala mais alargada, mas estes resultados vêm também dar respaldo adicional à tese da importância da transferência natural da microbiota da mãe para o filho durante o parto.

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