As infeções respiratórias agudas em crianças podem ser determinadas pela microbiota nasal?

Les infections respiratoires aiguës infantiles, déterminées par le microbiote nasal ?

Por que razão algumas crianças são mais vulneráveis do que outras a infeções respiratórias agudas em geral e, em particular, a infeções das vias aéreas inferiores (traqueia, brônquios, pulmões)? Os autores de um estudo publicado no British Medical Journal questionam o papel da microbiota nasal, cuja composição pode determinar a frequência e a gravidade destas infeções.

 

Seja uma simples constipação, ou uma doença mais grave, as infeções respiratórias agudas são muito frequentes nos primeiros anos de vida. As infeções das vias aéreas inferiores (principalmente pneumonia e bronquiolite) são a principal causa de hospitalização em crianças menores de 5 anos. Mas, enquanto algumas crianças têm infeções umas após as outras (5 a 7 por ano) ou contraem formas graves, outras são capazes de iludir os micróbios. Obviamente que há fatores de risco conhecidos (prematuridade, creche, idade) que podem explicar essa diferença de sensibilidade, mas apenas parcialmente. Será que a microbiota nasal pode ter um papel nesta questão?

5 perfis de microbiota

Uma equipa de investigadores finlandeses analisou os resultados um estudo de grande dimensão que incluiu 839 recém-nascidos saudáveis, monitorizados desde o nascimento até os dois anos de idade. Com base nas amostras da microbiota nasal recolhidas aos dois meses de idade, foram identificados 5 perfis diferentes, de acordo com o grupo bacteriano dominante: Moraxella (30,4%), Streptococcus (22,4%), Dolosigranulum (22,4%), Staphylococcus (17,9%) e Corynebacteriaceae (6,9%). Os cientistas concluíram que a frequência de infeções respiratórias agudas dependia de cada um dos perfis.

Mais Moraxella, mais infeções

Os resultados do estudo indicaram que as microbiotas dominadas pela bactéria Moraxella eram menos abundantes e menos diversificadas, estando associadas a uma maior incidência de infeções respiratórias agudas, principalmente infeções das vias aéreas inferiores, e a sintomas mais duradouros. As crianças afetadas também partilhavam outros fatores: tinham mais irmãos e eram mais propensas a ter sintomas respiratórios leves logo aos dois meses de idade.  Foi também observado nas crianças cuja microbiota era dominada pelas bactérias Staphylococcus; em sentido inverso, as crianças com um perfil dominado pela bactéria Corynebacteriaceae ficavam doentes com menos frequência.

Identificação de crianças em risco

Apesar de alguns limites reconhecidos pelos autores, este estudo substancia uma ligação entre a microbiota nasal e incidência / gravidade das infeções respiratórias agudas. São agora necessários mais estudos para elucidar as complexas interações entre esse ecossistema, a imunidade e as infeções, com o objetivo de identificar as crianças que correm um maior risco.

 

Fontes:

Toivonen L, Hasegawa K, Waris M et al. Early nasal microbiota and acute respiratory infections during the first years of life. Thorax . 0:1–8. 2019; doi:10.1136/thoraxjnl-2018-212629