Exposição aos antibióticos entre os 0 e os 6 anos: microbiota intestinal alterada, desenvolvimento da criança perturbado

Um recente estudo demonstra que a exposição a antibióticos durante os primeiros 6 anos de vida poderá alterar a longo prazo a microbiota intestinal e afetar o desenvolvimento das crianças.

Publicado em 06 Abril 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021

Sobre este artigo

Publicado em 06 Abril 2021
Atualizado em 06 Outubro 2021

Os recém-nascidos submetidos a tratamento com antibióticos durante as primeiras semanas de vida apresentam alterações na composição da microbiota intestinal. No entanto, os efeitos microbiológicos e clínicos a longo prazo dessa exposição são ainda desconhecidos. Dadas as ligações entre causa e efeito que relacionam a microbiota intestinal com o crescimento, a obesidade ou as doenças metabólicas, os investigadores aventaram a hipótese de os antibióticos tomados durante os primeiros dias de vida poderem vir a exercer efeitos duradouros no crescimento das crianças, por perturbarem o processo natural de colonização da microbiota intestinal.

Desenvolvimento afetado…

Um estudo, realizado junto de 12.422 crianças nascidas de gravidez única a termo, é esclarecedor. Os lactentes estudados não apresentavam quaisquer anomalias conhecidas que pudessem afetar o crescimento, e não tiveram necessidade de qualquer tratamento profilático a longo prazo com antibióticos. 9,3% dos recém-nascidos desta coorte receberam (sidenote: Combinação de benzilpenicilina e gentamicina por via intravenosa no caso da maioria dos recém-nascidos )  nos primeiros 14 dias de vida. Entre os lactentes expostos, apenas os do sexo masculino apresentaram um peso significativamente inferior ao dos recém-nascidos não expostos durante os primeiros 6 anos de vida. Por outro lado, também se constatou que tinham uma altura e um índice de massa corporal (IMC) nitidamente menores entre os 2 e os 6 anos. Este resultado foi confirmado numa coorte alemã de 1.707 crianças acompanhadas desde o nascimento até aos 5 anos. Em contraste, a exposição a antibióticos durante os primeiros 6 anos de vida mas fora do período neonatal foi associada a um IMC significativamente mais elevado, tanto nos rapazes como nas raparigas.

... e uma microbiota intestinal alterada

Para se estudar o efeito da exposição neonatal aos antibióticos sobre a microbiota intestinal, foram recolhidas amostras fecais aos 1, 6, 12 e 24 meses de idade num novo grupo de 33 recém-nascidos, treze dos quais receberam benzilpenicilina e gentamicina por via intravenosa durante as primeiras 48 horas de vida. O grupo de controlo integrou 20 recém-nascidos saudáveis e não expostos a antibióticos durante o período neonatal. A microbiota fecal foi analisada por sequenciação do gene do ARN ribossómico 16S. Após 1 e 6 meses, foram observadas diferenças significativas entre a composição da microbiota intestinal do grupo tratado com antibióticos e a do grupo de controlo, o que demonstra a persistência na microbiota dos efeitos da exposição aos antibióticos. Além disso, o género Bifidobacterium surgiu como sendo o mais afetado, e sua abundância surgiu significativamente reduzida até 24 meses após a exposição dos recém-nascidos.

A disbiose intestinal implicada?

Para estudarem as relações de causa-efeito entre a exposição neonatal a antibióticos, a disbiose intestinal e o impacto para o desenvolvimento das crianças, os investigadores realizaram um estudo complementar com (sidenote: Ratos axénicos Ratos sem germes, criados em ambiente estéril ) . Estes receberam um transplante de microbiota fecal (TMF) de crianças 1 mês e 2 anos após a exposição neonatal das mesmas a antibióticos. Observou-se uma redução significativa no aumento de peso dos ratos macho que receberam o TMF das crianças 1 mês e até 2 anos após a exposição neonatal, em comparação com os ratos não expostos. Em contrapartida, o desenvolvimento dos ratos fêmea não surgiu afetado. Estes dados sugerem que o potencial nexo de causalidade entre a exposição a antibióticos nos primeiros 6 anos de vida e os distúrbios do crescimento na infância poderá ser induzido pela disbiose intestinal gerada durante o desenvolvimento da microbiota intestinal.

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