Genes de resistência aos antibióticos “sobem a bordo” da microbiota intestinal durante as viagens internacionais

Sabe-se que os antibióticos salvam vidas. Mas sabe-se também que o seu uso excessivo e abuso é o principal fator que conduziu ao aparecimento de agentes patogénicos resistentes. O que começamos a saber é que o desenvolvimento das viagens internacionais favorece a aquisição de genes de resistência aos antibióticos. O que ainda permanece incerto é a extensão e a magnitude da propagação desse fenómeno. Um novo estudo publicado em Genome Medicine escalpeliza a questão.

Publicado em 09 Fevereiro 2022
Atualizado em 09 Fevereiro 2022

Sobre este artigo

Publicado em 09 Fevereiro 2022
Atualizado em 09 Fevereiro 2022

Desde 2015, a OMS organiza todos os anos a (sidenote: World Antimicrobial Awareness Week Semana Mundial para a Utilização Adequada dos Antimicrobianos Aprofundar: https://www.who.int/campaigns/world-antimicrobial-awareness-week/2021 ) . Objetivo? Sensibilizar os profissionais de saúde e o público em geral sobre a utilização adequada de antimicrobianos para combater (sidenote: A resistência aos antibióticos ) . Os autores contribuem com novos conhecimentos sobre os mecanismos através dos quais a resistência aos antibióticos se propaga pelo mundo. O problema é atualmente mais grave nos países detentores de rendimentos médios ou baixos. Além disso, a capacidade de um gene de resistência se espalhar através das viagens (sidenote: Prevalência do gene de resistência na região, bactérias portadoras do gene e presença de elementos genéticos móveis na proximidade dele que possam promover a sua propagação ) . Portanto, os investigadores procuraram avaliar se as viagens internacionais para certos países onde a resistência a determinados antibióticos é muito elevada poderia facilitar a sua disseminação para regiões mais protegidas.

As viagens internacionais promovem a aquisição de genes de resistência

Para confirmarem esta hipótese, os referidos investigadores recorreram a um grupo de 190 viajantes dinamarqueses (média de idades: 50,7 anos) oriundos da coorte COMBAT (Carriage Of Multiresistant Bacteria After Travel). Os membros desse grupo foram divididos em 4 subgrupos de acordo com seu local de estadia em zonas com elevada prevalência de resistência a antibióticos: Sudeste Asiático, Sul da Ásia, Norte de África e África Oriental. Foi colhida uma amostra fecal de cada um dos participantes imediatamente antes e depois das respetivas viagens, que tiveram entre 1 semana e 3 meses de duração.

A equipa combinou a utilização de ferramentas de sequenciação shotgun, metagenómica funcional e modelagem estatística para analisar minuciosamente o resistoma intestinal dos participantes. Comparando as amostras antes e depois das viagens, descobriu-se um aumento no número de genes de resistência a antibióticos no regresso dessas viagens. Além disso, detetou-se que a aquisição de genes de resistência era maior nos viajantes de regresso do Sudeste Asiático em comparação com os provenientes de outros destinos.

56 genes de resistência adquiridos durante a viagem

Os investigadores detetaram a aquisição de 56 genes de resistência (e a perda de 4) durante as viagens, e os que codificam proteínas responsáveis pelo efluxo dos antibióticos e pela modificação do alvo foram os mais constantes. Entre eles, genes de resistência clássicos e bem conhecidos (blaCTX-M, resistente às β-lactaminas, mcr-1, resistente à colistina ou variantes de tetX, resistentes a tetraciclinas e qnr, resistente a fluoroquinolonas), e outros nunca antes identificados. Os autores constataram que 6/56 genes adquiridos estão associados ao destino, incluindo 3/6 detetados em viajantes provenientes do sudeste asiático a corresponderem a variantes dfrA1 que conferem resistência à trimetoprima. Por outro lado, a identificação de determinado número de elementos genéticos de alta mobilidade na vizinhança dos genes de resistência poderá contribuir para a aquisição da abundante quantidade de genes de resistência observada nos participantes com estadias na referida região.

Compreender melhor os mecanismos de propagação da resistência aos antibióticos: é também nesse sentido que a Biocodex Microbiota Foundation está a trabalhar, tendo lançado recentemente a sua bolsa internacional 2022 cujo tema de investigação é "estrutura e função do resistoma intestinal". Face à resistência aos antibióticos, há uma capacidade de resposta multidisciplinar e coletiva que se organiza.

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