A microbiota oral relacionada com o cancro do pâncreas
Um estudo prospectivo em grande escala confirma a associação entre a microbiota oral — bacteriana e fúngica — e o risco posterior de cancro do pâncreas. Determinadas espécies surgem como marcadores de risco robustos que poderão ser utilizados para implementar um rastreio não invasivo.
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Sobre este artigo
O cancro do pâncreas mantém-se como um dos tipos de cancro mais temíveis, com uma taxa de sobrevivência a cinco anos de cerca de 13%. Os seus fatores de risco confirmados — tabagismo, obesidade, pancreatite, genética — explicam apenas 30% dos casos.
Vários estudos epidemiológicos têm demonstrado que a má saúde orodentária, nomeadamente a presença de doenças periodontais e de candidíase oral, se encontra associada a este tipo de cancro. No entanto, o conhecimento sobre a real intervenção dos microrganismos orais continua a ser limitado.
Um estudo prospetivo de grande envergadura, resultante das coortes do estudo Cancer Prevention Study-II da American Cancer Society e do ensaio PLCO (Prostate, Lung, Colorectal and Ovarian Cancer Screening Trial), revelou recentemente que a microbiota oral, nomeadamente bacteriana e fúngica, poderá desempenhar um papel significativo no posterior desenvolvimento do cancro do pâncreas.
Bactérias periodontais: uma ligação robusta
De entre os 122 mil participantes que forneceram uma amostra bucal, 445 desenvolveram cancro no pâncreas ao fim de quase nove anos de acompanhamento. Os investigadores cruzaram-nos com 445 pessoas saudáveis para compararem as respetivas microbiotas orais.
Os resultados, publicados na revista JAMA Oncology 1, revelam que três bactérias patogénicas importantes, conhecidas por estarem associadas a doenças periodontais (Porphyromonas gingivalis, Eubacterium nodatum, Parvimonas micra), aumentam significativamente o risco.
A análise exaustiva dos genomas bacterianos revela que, no total, 21 espécies influenciam o risco de cancro do pâncreas, umas com efeitos protetores e outras com efeitos nocivos. Tais táxons estarão associados a vias metabólicas que podem promover a transformação neoplásica das células pancreáticas durante a sua migração da boca para o pâncreas.
Candida na linha da frente
A análise da microbiota fúngica oral — um parâmetro raramente abordado neste contexto — revela ainda que o género Candida está associado a um aumento do risco de cancro do pâncreas.
Candida tropicalis e Candida spp surgem associadas a um risco acrescido, enquanto C. albicans apresenta uma relação inversa. Dentro do género Malassezia, apenas M. globosa apresentou uma associação com o cancro, exercendo um efeito protetor.
Os investigadores referem ainda ter confirmado, em pacientes com cancro, a presença de Candida em amostras biológicas provenientes de tecidos pancreáticos cancerosos. Isto confirma, uma vez mais, a hipótese de uma deslocação deste fungo para o tumor e de uma ação direta na carcinogénese.
Como é que um fungo pode causar cancro?
De momento, desconhecem-se os mecanismos através dos quais os fungos da microbiota oral contribuem para o cancro do pâncreas. Mas, segundo os autores, os resultados de vários estudos realizados em animais levantam algumas pistas.
A Candida albicans, por exemplo, tem a capacidade de produzir compostos cancerígenos chamados nitrosaminas, além de induzir mutações genéticas. A Candida tropicalis, por sua vez, parece aumentar a capacidade das células cancerosas de escaparem à deteção e destruição pelas células do sistema imunitário.
A caminho de um diagnóstico precoce e de uma melhor compreensão dos fatores de risco
Com o objetivo de se avaliar o impacto desses microrganismos considerados como um todo, os investigadores calcularam para cada participante um Microbial Risk Score (MRS) que integra 27 espécies bacterianas e fúngicas associadas ao cancro. Resultado: cada aumento de um desvio padrão do MRS multiplica por mais de 3 o risco de cancro do pâncreas (OR 3,44).
De acordo com os autores, a pontuação MRS foi replicável entre as duas coortes, o que indica que a microbiota oral poderá um dia ser utilizada como biomarcador na prevenção primária no sentido de identificar pacientes de alto risco.
De uma forma mais geral, os dados deste estudo reforçam a hipótese de a saúde bucodentária ser um importante fator de prevenção do cancro do pâncreas. Só falta agora compreender melhor como as comunidades fúngicas e bacterianas bucais contribuem para os processos de cancerização.
Assunto a acompanhar, portanto!