O papel dos antibióticos e da microbiota na doença de parkinson

Um estudo demonstrou haver uma correlação positiva entre a exposição a certos antibióticos orais (nomeadamente antibióticos de largo espectro com efeitos antianaeróbicos) e o risco de desenvolver a doença de Parkinson. Foi também encontrada uma correlação para fármacos antifúngicos.

Publicado em 09 Setembro 2020
Atualizado em 30 Março 2022
Photo : Role of antibiotics and microbiota in parkinson's disease

Sobre este artigo

Publicado em 09 Setembro 2020
Atualizado em 30 Março 2022

 

O objetivo deste estudo caso-controlo finlandês era simples: avaliar o impacto da exposição a antibióticos sobre o risco de desenvolver a doença de Parkinson (DP) Embora se saiba que os doentes com DP apresentam alterações na microbiota intestinal e que a exposição a antibióticos pode afetar a composição da microbiota, a possível ligação entre a exposição a antibióticos e o risco de DP nunca foi estudada.

Estudo caso-controlo

A equipa identificou todos os doentes diagnosticados com DP entre 1998 e 2014 na Finlândia (13 976 indivíduos) e comparou as suas aquisições de antibióticos orais entre 1993 e 2014 com as de 40 697 indivíduos controlo. O estudo encontrou correlações entre o uso de antibióticos e o risco de DP, sendo o mais alto risco observado para macrólidos e lincosamidas. Estes antibióticos são excretados na bílis, e, portanto, podem ser encontrados em elevada concentração nas fezes, e são responsáveis por grandes e duradouras alterações na microbiota: os doentes que adquiriram cinco destes antibióticos tiveram um risco aumentado de 42 % de desenvolver DP dentro de 10 a 15 anos, um atraso normalmente observado entre o início de lesões periféricas e os primeiros sinais motores. No entanto, na opinião dos autores, esta associação é discutível, pois não passou na análise de Benjamini-Hochberg que controla a taxa de falsos positivos (Taxa de Falsas Descobertas ou TFD).

Uma forte correlação para alguns antibióticos

Por outro lado, mesmo após a correção da TFD, entre um a quatro antibióticos com efeitos antianaeróbicos foram associados a um risco aumentado de 14 % de DP no período de 10-15 anos. Com base em resultados anteriores, este período de tempo pode corresponder a uma alteração da microbiota seguida por uma cascata de eventos fisiológicos que conduziram às primeiras lesões periféricas e ao diagnóstico alguns anos mais tarde. Da mesma maneira, o uso de tetraciclinas (10 a 15 anos antes) ou de sulfonamida e trimetropim (1 a 5 anos antes) estavam fortemente correlacionados com a DP. Por último, tomar fármacos antifúngicos também aumentava o risco de DP, mas até 26 % para duas aquisições 1 a 5 anos antes. Consequentemente, as ligações entre o uso de antibióticos e o risco de DP variam de acordo com a classe dos antibióticos, e são mais fortes naqueles que têm efeitos antianaeróbicos. Além disso, observou-se uma correlação positiva entre o uso de antibióticos de largo espectro e o risco de DP.

Alteração da microbiota?

De acordo com os autores, uma vez que a microbiota intestinal é principalmente composta por bactérias anaeróbicas, os antibióticos antianaeróbicos e de largo espectro são os mais passíveis de ter um forte impacto na sua população microbiana. Ora isto vem em auxílio da ideia ainda não confirmada de que uma alteração da microbiota pelos antibióticos explica a ligação entre o uso de antibióticos e o risco de DP.

 

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