Lantibióticos: um novo caminho na luta contra bactérias resistentes

A colonização do trato gastrointestinal por uma estirpe de Enterococcus faecium resistente à vancomicina pode ser drasticamente reduzida pela administração de bactérias que sintetizam naturalmente um lantibiótico* eficaz e seletivo.

Publicado em 14 Julho 2020
Atualizado em 29 Março 2022
Photo : Lantibiotics: a new avenue in the fight against resistant bacteria

Sobre este artigo

Publicado em 14 Julho 2020
Atualizado em 29 Março 2022

Como podemos lutar contra a transmissão de patógenos altamente resistentes a antibióticos, como o Enterococcus faecium resistente à vancomicina (ERV), nos estabelecimentos de saúde? Surgiu uma abordagem promissora, baseada no reforço da resistência intestinal à colonização através da administração de bactérias intestinais protetoras. Em ratinhos, o transplante bacteriano parece restabelecer a resistência à colonização e reduzir a densidade intestinal de ERV. Isto foi conseguido através da uma combinação denominada “CBBPSCSK” de 4 estirpes bacterianas, incluindo Blautia producta (BPSCSK; em que SCSK designa a estirpe Blautia). Contudo, o mecanismo subjacente envolvido ainda teria de ser desvendado. Isso foi parcialmente conseguido em trabalhos de cientistas americanos, publicados recentemente na Nature.

Um lantibiótico simular ao corante E234

Tendo em conta resultados experimentais, o BPSCSK pode ajudar a reduzir o crescimento de ERV pela secreção de um lantibiótico semelhante à nisina, produzido pelo Lactococcus lactis e amplamente usado na indústria alimentar como conservante (E234). Semelhante, mas… muito mais eficaz e seletivo.

Mais eficaz e seletivo in vivo

Embora o crescimento do ERV seja inibido tanto pelo BPSCSK como pelo L. lactis in vitro, in vivo é muito diferente: apenas o BPSCSK é detetado no cólon (onde representa cerca de 25% das bactérias presentes, 5 dias após a administração de CBBPSCSK); reduz a quantidade de ERV e inibe patógenos Gram+ enquanto preserva outras bactérias intestinais comensais. Pelo contrário, o L. lactis não é capaz de colonizar o trato gastrointestinal e tem um espetro de ação mais alargado, à custa de algumas bactérias benéficas.

Um potencial agente probiótico

Os resultados também enfatizam que os genes que codificam a síntese de lantibióticos estão presentes naturalmente nos microbiomas humanos de indivíduos saudáveis; e que as espécies produtoras de lantibióticos inibem o ERV. Adicionalmente, em 22 doentes com risco elevado de infeção por ERV (já que iriam fazer um transplante de células hematopoiéticas), uma maior abundância de genes codificadores de lantibióticos foi associada a uma menor quantidade de E. faecium. Do mesmo modo, em ratinhos germ-free transplantados com preparações fecais destes doentes, correlacionou-se a resistência à colonização por ERV com a abundância de genes lantibióticos. Isto suporta a ideia de que as bactérias intestinais produtoras de lantibióticos reduzem a colonização por ERV e são potenciais agentes probióticos que podem restabelecer a resistência contra este patógeno.

*péptido bacteriano de baixo peso molecular com atividade antimicrobiana, produzido por um grande número de bactérias Gram-positivas.

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