Gripe: cuidar da microbiota intestinal evita complicações?

Investigadores franceses descobriram que a gripe interrompe o equilíbrio da microbiota intestinal, enfraquecendo as defesas imunológicas pulmonares e aumentando a probabilidade de superinfeções bacterianas.

 

Todos os invernos, milhões de franceses contraem gripe1. Apesar das campanhas de vacinação e tratamento, os mais vulneráveis podem desenvolver complicações que às vezes se revelam fatais. Essas formas graves estão de uma forma geral relacionadas com a pneumonia causada por superinfeções bacterianas. Um estudo recente publicado numa revista de prestígio sugere que a microbiota intestinal está envolvida nesse processo.

Desequilíbrio da flora intestinal

É agora reconhecido que a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental no bom funcionamento do sistema imunológico. Neste estudo, ratinhos infetados com gripe mostraram um desequilíbrio transitório na composição e atividade de sua microbiota intestinal (disbiose). Além disso, a produção de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC)2 foi bastante reduzida. Os AGCC, especialmente o acetato, têm a capacidade de agir à distância do intestino em determinadas células imunes dos pulmões (macrófagos), estimulando a sua atividade antibacteriana. Em suma, acredita-se que uma disbiose da microbiota intestinal associada à gripe reduza a produção de acetato, comprometendo as defesas imunológicas dos pulmões contra as bactérias.

O papel da dieta

Esse desequilíbrio intestinal não é causado diretamente pelo próprio vírus, mas parece ser o resultado de uma redução na ingestão de alimentos devido à perda de apetite, um sintoma frequente da gripe. Como tal, para preservar a integridade da microbiota intestinal e fortalecer as defesas imunológicas, recomenda-se consumir alimentos ricos em fibras (por exemplo, legumes, frutas e leguminosas). Por outro lado, é fortemente desaconselhado reduzir a ingestão calórica ou jejuar durante surtos de gripe.

Novas estratégias terapêuticas

Foi demonstrado em ratinhos que essa suscetibilidade à superinfeção bacteriana pode ser corrigida com tratamento com acetato. Com base nessas descobertas, um tratamento à base de acetato, ou de compostos semelhantes, poderá ser uma abordagem terapêutica valiosa. Além disso, segundo os autores, devem ser avaliadas estratégias terapêuticas baseadas no uso de prebióticos e probióticos.

 

1 - Dados da Santé Publique France (agência francesa de saúde pública)https://www.santepubliquefrance.fr/maladies-et-traumatismes/maladies-et-infections-respiratoires/grippe

2 - Os ácidos gordos de cadeia curta, ou AGCC, são substâncias que resultam da fermentação da fibra alimentar por bactérias intestinais específicas.

 

Fontes:

Sencio V, Barthelemy A, Tavares LP, et al. Gut Dysbiosis during Influenza Contributes to Pulmonary Pneumococcal Superinfection through Altered Short-Chain Fatty Acid Production. Cell Rep. 2020;30(9):2934–2947.e6. doi:10.1016/j.celrep.2020.02.013