Kefir: bom para a saúde intestinal?
Já o vimos em todas as prateleiras dos supermercados e no TikTok. O kefir, uma bebida fermentada com mais de 3.000 anos, tornou-se um ícone do bem-estar, sendo apresentado como um alimento saudável e uma moda no mundo da nutrição. Mas, enquanto o marketing avança a passos largos, a ciência vai-se esforçando discretamente por acompanhar o ritmo, e o que tem a dizer sobre o seu efeito na saúde pode surpreender-nos.
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O mercado do kefir encaminha-se a passos largos para atingir os 2780 milhões de dólares até 2030. Os influenciadores fazem questão em recomendá-lo. Os supermercados dedicam-lhe prateleiras inteiras.
No entanto, uma nova análise científica apresenta uma conclusão bem mais moderada: quando os investigadores se perguntaram qual é, de facto, o efeito do kefir na nossa microbiota, na saúde intestinal e no equilíbrio metabólico, a resposta sincera a que chegaram foi: ainda não sabemos ao certo.
Uma bebida com mais de 3.000 anos de história encara a ciência moderna
Muito antes de existirem as batas de laboratório, já os pastores das montanhas do Cáucaso fermentavam leite para obterem uma bebida efervescente e picante, utilizando uns “grãos” misteriosos — aglomerados de bactérias e leveduras num meio gelatinoso.
Três milénios depois, os cientistas conseguiram finalmente espreitar o interior desses grãos e descobriram uma espécie de microcidade em permanente atividade:
- bactérias do ácido láctico,
- bactérias do ácido acético,
- e leveduras a trabalharem em conjunto através da fermentação.
Entre os habitantes encontram-se nomes familiares como Lentilactobacillus kefiri e Saccharomyces cerevisiae, espécies microbianas já anteriormente associadas ao ecossistema do leite fermentado. A esperança é que o consumo desta comunidade viva possa enriquecer a nossa microbiota, o nosso intestino, a nossa boca, o nosso ecossistema interno e, eventualmente, influenciar as nossas respostas imunitárias, metabólicas e inflamatórias.
Microbiome
A vasta comunidade invisível de micróbios que vivem no interior e na superfície do nosso corpo.
Cada órgão, o intestino, a boca, a pele, tem a sua própria comunidade específica, que age discretamente para moldar a nossa digestão, a nossa imunidade, a nossa saúde metabólica e até mesmo o nosso estado de espírito.1
Bactérias do ácido láctico
As simpáticas fermentadoras que conferem ao kefir o seu sabor picante.
Através da fermentação, transformam o açúcar do leite em ácido láctico e, em simultâneo, produzem compostos naturais capazes de expulsar da vizinhança os microrganismos indesejáveis.1
A boca: onde o kefir se destaca claramente
De todas as microbiotas do corpo, é na boca que os efeitos do kefir parecem ser mais consistentes. Em quatro estudos 1, realizados em adultos, em crianças com aparelhos ortodônticos e em crianças em tratamento de cáries, os consumidores de kefir apresentaram níveis mais baixos de Streptococcus mutans, o principal responsável pela cárie dentária, o que sugere um possível efeito positivo na saúde oral.
Streptococcus mutans
A principal bactéria por trás da cárie dentária. Alimenta-se de açúcares na nossa boca e produz ácidos que desgastam o esmalte.
Reduzir os seus números consiste num dos principais objetivos da moderna saúde oral e é uma área onde o kefir parece realmente ajudar, embora o seu efeito clínico nas cáries ainda precise de ser melhor comprovado.1
Pensemos nisto como uma competição: ao encher-nos a boca de micróbios benéficos provenientes de alimentos fermentados, o kefir deixa menos espaço para os microrganismos nocivos. Mas há aqui um senão: estes estudos mediram apenas as contagens de microrganismos na saliva e não o número de cáries propriamente ditas. Se isso se traduz em menos visitas ao dentista é uma questão que permanece em aberto para a investigação no domínio da saúde oral e da nutrição.
Fermentação
Um processo ancestral que combina a cozinha com a biologia, através do qual os micróbios transformam os alimentos, convertendo o leite em kefir, as couves em chucrute e as uvas em vinho.
Os micróbios fazem a pré-digestão dos alimentos e libertam compostos que o organismo é capaz de utilizar; é por isso que a fermentação permanece fundamental para a nutrição, para uma alimentação saudável e para a moderna investigação sobre a microbiota.1
Regime psicobiótico: alimentos fermentados ou ricos em prebióticos para reduzir o stress?
Quanto ao intestino, a história ainda está a ser escrita
Mais abaixo, o panorama torna-se mais confuso.
Alguns estudos indiciam pequenas vantagens: as mulheres com Síndrome Metabólica Poliendócrina do Ovário (anteriormente conhecida como Síndrome do Ovário Poliquístico) apresentaram alterações no perfil da sua microbiota; pessoas com doença inflamatória intestinal eferiram sentir-se melhor; e doentes em estado crítico mostraram sinais precoces de recuperação.
Mas há outros estudos que não encontram quase nada. Porquê tanta confusão? Porque não há dois kefires iguais
Os grãos, o leite ou a duração da fermentação: cada variável altera a bebida final e, em última análise, a composição em termos de espécies e os efeitos potenciais.
Portanto, se gostamos de kefir, devemos consumi-lo no âmbito de uma alimentação equilibrada. Não podemos é esperar que seja um alimento milagroso.
A ciência ainda está a tentar perceber o que é que a microbiota pensa dele.