Cerveja e queijo Roquefort: a microbiota revela as refeições dos nossos antepassados

Cereais, legumes e frutos... É assim que imaginamos as frugais refeições dos nossos antepassados europeus. No entanto, a sua microbiota intestinal diz-nos, mediante a análise de fezes humanas preservadas por mais de 3.000 anos em minas de sal austríacas, que também usavam queijo azul e cerveja na ementa.

Publicado em 12 Janeiro 2022
Atualizado em 18 Janeiro 2022

Sobre este artigo

Publicado em 12 Janeiro 2022
Atualizado em 18 Janeiro 2022

Ossos, cerâmica, armas, bocados de tecido... Os tesouros descobertos pelos arqueólogos durante as suas escavações permitem-nos compreender melhor o estilo de vida dos nossos antepassados. Temos tendência a esquecê-lo, mas as fezes são igualmente um excelente material para se recolher informações sobre a dieta dos nossos avoengos! Assim, em algumas estações arqueológicas, como as minas de sal subterrâneas de Hallstatt, na Áustria, houve excrementos humanos pré-históricos, ou "paleofezes", que sobreviveram aos séculos desde a Idade do Ferro, bem protegidas da degradação. E essas “minas de fezes” são outras tantas minas de informações sobre a dieta, a saúde e a microbiota intestinal dos nossos distantes ancestrais. Foi isso o que motivou investigadores italianos e austríacos a examinarem algumas amostras.

Uma microbiota que comprova uma dieta de tipo “não ocidental” até à época barroca

O estudo microscópico de (sidenote: 4 amostras de fezes Uma amostra da Idade do Bronze, uma segunda da Idade do Ferro e 2 amostras do período barroco. ) permitiu constatar que a alimentação dos nossos antepassados europeus se baseava em cereais (cevada, espelta, milho, etc.), legumes, frutos silvestres (maçãs, mirtilos) e frutos de casca dura, como as nozes. A análise do ADN das bactérias contidas nas fezes mostrou que a sua microbiota intestinal era semelhante à de populações com uma dieta de tipo não ocidental baseada em produtos não processados, frutas e vegetais. Esse tipo de dieta terá perdurado na Europa até ao século XVIII, até então surgirem um estilo de vida mais moderno, com uma (sidenote: Dieta ocidental A alimentação de tipo ocidental carateriza-se por excesso de açúcares, de algumas gorduras, de alimentos processados e de pesticidas ambientais e por carência de fibras. Este tipo de dieta tem sido associado à obesidade e a determinadas afeções inflamatórias e metabólicas, como a diabetes tipo 2, a resistência à insulina e as doenças inflamatórias crónicas do intestino.
Siracusa F, Schaltenberg N, Villablanca EJ, et al. Dietary Habits and Intestinal Immunity: From Food Intake to CD4+ T H Cells. Front Immunol. 2019 Jan 15;9:3177.
)
(widget definição) e avanços da medicina, que começaram a exercer impacto sobre a microbiota intestinal, pensam os investigadores.

Há quase 3000 anos, o queijo Roquefort integrava já os gostos gastronómicos 

Uma das amostras provenientes da Idade do Ferro provocou a estupefação dos cientistas. De facto, era excepcionalmente rica em DNA de duas espécies de (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueias, os protozoários, etc., e são vulgarmente designados "micróbios". What is microbiology? Microbiology Society. ) : Penicillium roqueforti e Saccharomyces cerevisiae. Na verdade, estas duas leveduras ainda hoje se utilizam, a primeira para fazer os queijos “azuis” e a segunda para produzir cerveja, vinho e pão! O que demonstra que já havia então “alimentos processados” nas mesas europeias. 

Já se sabia que os nossos antepassados produziam cerveja na Idade do Ferro. Mas os investigadores pensam que a presença de queijos azuis é uma prova da sofisticação das tradições culinárias dos antigos europeus. Salgados através do sal natural e levedados com recurso ao referido fungo em cubas de madeira, os queijos teriam beneficiado de condições ideais de temperatura e humidade para a sua maturação. Uma receita que ainda hoje continua a ser válida para a produção do queijo Roquefort que atualmente apreciamos!

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