Quando a função renal se degrada, o chocolate negro pode protegê-la?

Alguns pedaços de chocolate negro por dia poderão ajudar a combater as complicações em caso de doença renal crónica (DRC)? Pode muito bem ser o caso, tendo em vista os efeitos benéficos do cacau para a saúde cardiovascular, a microbiota ou o cérebro.

Publicado em 06 Abril 2021
Atualizado em 22 Fevereiro 2022
Actu GP : Quand la fonction rénale s’altère, le chocolat noir fait-il barrière ?

Sobre este artigo

Publicado em 06 Abril 2021
Atualizado em 22 Fevereiro 2022

Já sabia? Theobroma cacao, o nome botânico que designa o cacaueiro, é composto por cacao, cacau, e theobroma, que em grego significa "alimento dos deuses". Iguaria outrora reservada a sacerdotes e a reis, o chocolate, felizmente para nós, democratizou-se. É hoje consumido e apreciado em todo o mundo pelo seu sabor delicioso e pelos seus efeitos benéficos para o organismo. Com um teor de cacau superior a 80%, o chocolate negro é, sem dúvida, o que mais benefícios apresenta para a saúde. E quais são esses benefícios? Contém compostos específicos que poderão atenuar as complicações nos pacientes com doença renal crónica (DRC).

Chocolate negro e microbiota intestinal: uma combinação vencedora?

Os pacientes com DRC sofrem uma redução da capacidade funcional dos seus rins, que deixam de filtrar adequadamente o sangue que circula no organismo. Essa disfunção resulta numa acumulação anómala de moléculas no sangue, nomeadamente toxinas urémicas1. Estes pacientes apresentam uma microbiota intestinal desequilibrada ( (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) ) e que pode contribuir para a produção dessas toxinas. A ingestão de cacau permitirá regular a microbiota intestinal, promovendo a colonização do intestino por bactérias conhecidas pelos seus efeitos benéficos (Lactobacillus e Bifidobacterium). Uma série de estudos indica, igualmente, que comer chocolate, graças à modulação que este realiza da microbiota intestinal, melhora a integridade da barreira intestinal, diminui a inflamação e reduz as toxinas urémicas.

O chocolate negro, paladino imaculado do nosso sistema cardiovascular

Os doentes com DRC apresentam um risco mais elevado de doença cardiovascular e de morte prematura. Vários estudos já demonstraram que o consumo regular de chocolate negro terá efeitos cardioprotetores para as pessoas saudáveis. Como? Ao melhorar a circulação sanguínea (melhora o funcionamento dos vasos sanguíneos e reduz a tensão arterial). Essas melhorias permitirão, também, uma redução do risco de acidente vascular cerebral (AVC).

Chocolate, a solução contra a depressão

Muitas vezes esquecemo-nos, mas uma doença crónica tem frequentemente impacto psicológico para o paciente. Para além do simples prazer de saborear, o consumo regular de chocolate escuro pode proporcionar conforto psicológico ao estimular a produção de serotonina (neurotransmissor envolvido no controlo dos comportamentos), a qual possui efeitos antidepressivos. Embora a ingestão de chocolate negro (contendo um mínimo de 80% de cacau) pareça constituir uma alternativa interessante para os pacientes que sofrem de DRC, os potenciais impactos desse consumo regular na inflamação e no risco cardiovascular e os seus efeitos sobre a microbiota intestinal nessas doenças ainda não foram estudados no âmbito de qualquer estudo clínico prospetivo. Mas que não seja isso que nos impeça de cedermos à volúpia de um bom chocolate!

1 No total, há mais de 80 moléculas que são consideradas toxinas urémicas: trata-se de hormonas, péptidos e até mesmo compostos orgânicos.

Old sources

Fontes:

Fanton S, Cardozo LFMF, Combet E, Shiels PG, Stenvinkel P, Vieira IO, Narciso HR, Schmitz J, Mafra D. The sweet side of dark chocolate for chronic kidney disease patients. Clin Nutr. 2021 Jan;40(1):15-26. doi: 10.1016/j.clnu.2020.06.039.

en_view en_sources

    Leia também