Resistência aos antibióticos: curiosos “souvenirs” relatados de viagens exóticas

Um avanço médico formidável que é vítima do seu sucesso. Depois da sua descoberta, no início do século XX, os antibióticos salvaram milhões de vidas. Mas a utilização massiva e, às vezes inadequada, destes tratamentos tornam-nos cada vez mais ineficazes para tratar as infeções. Resultados: hoje, numerosas bactérias são resistentes! Porém, o uso excessivo ou inadequado não é o único responsável por esta antibiorresistência. Um estudo1 revela que as viagens internacionais favorecem a aquisição de genes de resistência aos antibióticos e poderiam contribuir para a propagação da antibiorresistência. Embarque imediato para algumas explicações.

Publicado em 03 Novembro 2021
Atualizado em 03 Novembro 2021

Sobre este artigo

Publicado em 03 Novembro 2021
Atualizado em 03 Novembro 2021

Todos os anos, desde 2015, a World Antimicrobial Awareness Week (WAAW) sensibiliza-nos relativamente ao aumento da resistência aos (sidenote: Antibiorresistência Fala-se de resistência aos microrganismos uma vez que as bactérias, os vírus, os fungos e os parasitas não respondem mais aos medicamentos devido à sua evolução no tempo. Os antibióticos e outros medicamentos antimicrobianos perdem a sua eficácia e as infeções tornam-se cada vez mais difíceis ou mesmo impossíveis de combater. Esta resistência aos microbianos aumenta o risco de propagação da forma grave da doença ou mesmo da morte. A antibiorresistência corresponde à resistência dos antibióticos às bactérias. Fonte: Résistance aux antimicrobiens. 26 de outubro de 2020. )  (também chamada de antibiorresistência). Este fenómeno, associado ao mau uso ou a um consumo excessivo de antibióticos, designa a capacidade de uma bactéria resistir à ação do antibiótico. Desde 2020, a WAAW ampliou o alcance da sua campanha aos (sidenote: Antimicrobianos Os antimicrobianos - como os antibióticos, os antivirais, os antifúngicos e os antiparasitários - são medicamentos para prevenir e tratar infeções nos seres humanos, nos animais ou nos vegetais. WHO Antimicrobial Resistance; Oct 2020 ) : antivirais, antifúngicos, antiparasitários... Ou seja, medicamentos indispensáveis para combater os (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são pequenos demais para serem vistos a olho nu. Eles incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueas, os protozoários, etc... E são comumente chamados de “micróbios” Fonte: What is microbiology? Microbiology Society.
 
)
  (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) - Reduzindo as possibilidades de tratamento das infeções, a antibiorresistência ameaça a saúde de todos2. Numerosas pesquisas procuram compreender a sua expansão para controlá-la melhor ou mesmo pará-la.

Uma antibiorresistência que passa sob os radares

Hoje todos sabemos que a antibiorresistência deve-se, principalmente, à utilização excessiva de antibióticos na medicina humana como também às criações e à agricultura2. Um recente estudo revela-nos, entretanto, um mecanismo de propagação desconhecido: as nossas férias e os nossos deslocamentos profissionais para países exóticos! Na verdade, as viagens internacionais favorecem a propagação de (sidenote: Gene Um gene é a unidade física e funcional básica da hereditariedade. Os genes são constituídos de DNA. Fonte: What is a gene?MedlinePlus.gov. 
 
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 de resistência aos antimicrobianos no intestino. Pesquisadores reuniram 190 viajantes neerlandeses, distribuídos em 4 subgrupos em função do seu destino. Os locais de permanência foram escolhidos segundo as áreas de forte incidência de antibiorresistência: Sudeste da Ásia, sul da Ásia, norte e leste africano. Estes pesquisadores procuraram determinar se os deslocamentos internacionais para estas regiões poderiam facilitar a sua disseminação para regiões mais poupadas. Desta forma, para avaliar o transporte destes genes a nível intestinal, foi recolhida uma amostra de fezes de cada participante antes e depois da viagem.

Uma mala diplomática de antibiorresistência ao nível intestinal?

Graças à utilização de uma técnica de ponta (a (sidenote: Metagenómica Método de estudo do conteúdo genéticode amostras de tecido vindos de ambientes complexos (intestino, oceano, solos, ar, etc.) recolhidas na natureza (por oposição às amostras cultivadas em laboratório). Esta abordagem permite uma descrição dos genes contidos numa amostra como também uma visão do potencial funcional de um ambiente. Fonte: Riesenfeld CS, Schloss PD, Handelsman J. Metagenomics: genomic analysis of microbial communities. Annu Rev Genet. 2004;38:525-52. ) ), a equipa constatou um aumento do número de genes de resistência aos antibióticos entre a partida e o regresso, particularmente nos viajantes vindos do sudeste da Ásia. No total, cerca de cinquenta genes de resistência aos antibióticos foram detetados durante a viagem. Entre eles, os genes de resistência aos antibióticos clássicos e bem conhecidos (entre eles a família das β-lactaminas, das tetraciclinas fluoroquinolonas entre outros) como também de novos genes nunca antes identificados.

Viajar: uma questão de saúde pública?

Os resultados deste estudo são claros: os viajantes internacionais colonizados pelos genes de resistência durante as suas viagens poderiam trazer nas suas malas, bactérias resistentes aos antibióticos. Face ao risco de propagação, os autores acionam o alarme e destacam a importância de se iniciarem rapidamente ações nos países particularmente afetados pela antibiorresistência. Uma chamada que ecoa com a campanha da OMS.

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