Cálculo renal, uma mistura de minerais... e bactérias?
E se os cálculos renais, ou pedras nos rins, não forem apenas depósitos minerais? Um estudo revela a presença de bactérias no interior dos cálculos de oxalato de cálcio, o que sugere que estas poderão estar relacionadas com a sua formação nos rins.
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Sobre este artigo
Os cálculos renais, ou litíase renal, são “pedrinhas” que se formam nos rins a partir de minerais presentes na urina.
Na maioria dos casos, trata-se dos chamados cálculos cálcicos, uma vez que são compostos por cálcio, nomeadamente sob a forma de oxalato de cálcio.
Até agora, a formação destes cálculos era principalmente explicada como um fenómeno químico: quando a urina é demasiado rica em cálcio e oxalato, formam-se cristais, que crescem e, posteriormente, se aglomeram nas vias urinárias.
70% Os cálculos com base em cálcio representam mais de 70% do total dos cálculos, o que os torna, de longe, o tipo mais frequente de litíase urinária em todo o mundo. ¹
1/11 A prevalência da litíase renal (doença das pedras, ou cálculos, nos rins) tem aumentado à escala mundial ao longo das últimas décadas, com um risco ao longo da vida estimado de 1 em cada 11 pessoas. ¹
80% Foi observada uma taxa de recidiva que pode atingir os 80% em determinados tipos de cálculos renais. ¹
Mas esta noção pode estar errada, tal como a crença segundo a qual a urina é estéril, quando na verdade alberga uma microbiota urinária, importante para a saúde.
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Os principais tipos de cálculos renais são:
- os cálculos de cálcio, que são os mais habituais.
- os cálculos de estruvita, geralmente causados por uma infeção, nomeadamente uma infeção urinária.
- os cálculos de ácido úrico, normalmente relacionados com uma elevada concentração de ácido na urina. 1
Bactérias nos cálculos cálcicos
Um estudo 1 publicado na revista PNAS em 2026 levanta a hipótese de também existir um agente biológico que desempenha um papel importante: as bactérias.
O que levou os investigadores a seguir esta pista foi uma observação surpreendente: foram descobertas, em cálculos renais de oxalato de cálcio, bactérias e estruturas do tipo “biofilme”, uma espécie de matriz protetora que abriga comunidades bacterianas.
Quais são os sintomas da litíase renal?
É possível que não se note a presença de cálculos renais mais pequenos. Na maioria dos casos, eles são excretados na urina sem causar desconforto.
Os cálculos renais de maior dimensão podem causar vários sintomas, em particular:
- dor na parte lateral do abdómen (barriga);
- uma dor intensa que vem e vai em crises;
- náuseas ou vómitos. 2
O papel das bactérias na formação do cálculo
Ao analisarem com mais detalhe, os investigadores chegaram à conclusão de que os cálculos não são homogéneos: apresentam uma organização em camadas, alternando zonas minerais e zonas orgânicas ricas em bactérias.
Em termos microbiológicos, foram detetadas bactérias em quase metade dos cálculos analisados, mesmo em doentes sem quaisquer sinais de infeção urinária.
As espécies mais frequentemente encontradas foram :
- a Escherichia coli
- a Enterococcus faecalis
- a e Proteus mirabilis.
Mais de um terço das amostras continham várias espécies bacterianas, formando verdadeiras comunidades microbianas.
Quais são as causas da litíase renal?
Os resíduos existentes no sangue podem, por vezes, formar cristais que se acumulam nos rins. Com o tempo, esses cristais podem agregar-se e formar uma massa dura semelhante a uma pedra: um cálculo renal.
O risco de formação de cálculos é maior quando:
- não se bebe líquidos suficientes;
- se toma determinados medicamentos;
- se sofre de qualquer doença que aumente a concentração de certas substâncias na urina.
Assim que se forma um cálculo renal, o organismo procura normalmente eliminá-lo de forma natural durante a micção (emissão de urina). 2
Para os investigadores, as bactérias poderão desempenhar um papel ativo na formação de cálculos. Elas produzirão biofilmes ricos em ADN extracelular, capazes de captar os iões de cálcio e de os concentrar a nível local.
E essas estruturas criarão, por sua vez, "pontos de partida" propícios para a formação de cristais de oxalato de cálcio.
Esses cristais desenvolver-se-iam em seguida em torno e através dos biofilmes, que se integrariam progressivamente em camadas sucessivas na estrutura do cálculo renal.
Cálculo renal, um biocompósito?
Portanto, os cálculos renais poderão não ser apenas depósitos minerais resultantes de um desequilíbrio químico, mas sim estruturas híbridas que combinam componentes minerais e biológicos — verdadeiros “biocompósitos”.
Se este modelo se confirmar, poderá alterar a compreensão da doença e abrir novas pistas para a sua prevenção e o tratamento, visando não só os cristais, mas também os biofilmes bacterianos que participam na sua formação.
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