Como a nossa flora intestinal favorece ou prejudica o nosso sono
Acha que dormir é algo que depende apenas do cérebro? Está enganado. A nossa flora intestinal também tem uma palavra a dizer. E ela é muito faladora.
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Sobre este artigo
Se temos dificuldade em dormir, a culpa pode ser… das nossas bactérias intestinais. É que a nossa microbiota intestinal — esses milhares de milhões de microrganismos que habitam o nosso intestino — está constantemente a comunicar com o nosso cérebro, e essa comunicação afeta diretamente a qualidade do nosso sono. 1
Continuam a surgir estudos que revelam ligações entre a microbiota intestinal, o cérebro e o sono:
- as pessoas que sofrem de insónias e de apneias do sono apresentam uma flora intestinal menos diversificada;
- o trabalho noturno e o “jet lag” estão frequentemente associados a um aumento da inflamação e da permeabilidade intestinal;
- observam-se desequilíbrios na microbiota intestinal em várias patologias geralmente associadas a um sono de má qualidade (depressão, Parkinson, Alzheimer); etc.
3 canais de comunicação
Como é que as nossas bactérias intestinais podem interagir com o cérebro? As nossas bactérias intestinais produzem:
- serotonina (a hormona da felicidade),
- melatonina (a hormona do sono),
- GABA (um neurotransmissor calmante), etc.,
que vão parar à nossa corrente sanguínea e alcançam o nosso cérebro.
Mas há mais: as bactérias intestinais atuam também sobre o nervo vago, que é uma ligação direta entre o intestino e o cérebro, e influenciam as áreas cerebrais associadas ao sono. Uma microbiota sujeita a stress significa um cérebro à beira do colapso nervoso e uma noite em claro pela frente.
Terceira via de comunicação: a inflamação. Dormir mal desencadeia uma reação inflamatória no intestino, que fragiliza a respetiva parede e afeta, por sua vez, o sistema nervoso, incluindo o cérebro.
Além disso, o eixo intestino-cérebro permite uma comunicação bidirecional, o que gera o risco de se criar um círculo vicioso que pode arruinar as nossas noites!
1/10 As insónias afetam 1 em cada 10 adultos. ²
2/10 2 em cada 10 adultos apresentam sintomas ocasionais de insónias. ²
Bactérias anti-insónias?
Como conseguir um sono reparador? Sabendo-se que os medicamentos para dormir tradicionais estão associados a uma lista de efeitos secundários tão longa como uma noite de insónias, os investigadores voltaram-se para a microbiota em busca de novos tratamentos.
- Os (sidenote: Probiotics Microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios para a saúde do hospedeiro. FAO/OMS, Joint Food and Agriculture Organization of the United Nations/ World Health Organization. Working Group. Report on drafting guidelines for the evaluation of probiotics in food, 2002. Hill C, Guarner F, Reid G, et al. Expert consensus document. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the scope and appropriate use of the term probiotic. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2014;11(8):506-514. ) (Lactobacillus, Bifidobacterium) apresentam resultados encorajadores em pessoas que sofrem de insónias.
- Os (sidenote: Prebióticos Os prebióticos são fibras alimentares específicas não digeríveis que têm efeitos benéficos na saúde. São utilizados de forma seletiva pelos micro-organismos benéficos da microbiota do indivíduo. Os produtos específicos que combinam probióticos e prebióticos chamam-se produtos simbióticos. Gibson GR, Hutkins R, Sanders ME, et al. Expert consensus document: The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of prebiotics. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2017;14(8):491-502. Markowiak P, Śliżewska K. Effects of Probiotics, Prebiotics, and Synbiotics on Human Health. Nutrients. 2017;9(9):1021. ) prolongam o sono profundo.
- Os prebióticos e os (sidenote: Simbióticos Em biologia, é associação estreita e mutuamente benéfica entre dois ou mais organismos diferentes. ) (prebióticos + probióticos) podem melhorar a qualidade percebida do sono e prolongar as fases de sono profundo.
- E, nos casos mais graves, o (sidenote: Transplante de microbiota fecal (FMT) Um procedimento terapêutico para restaurar a microbiota intestinal por meio da transferência de bactérias fecais de um doador saudável para um receptor. Aprofundar: https://www.science.org/doi/10.1126/scitranslmed.abo2750 ) apresenta taxas de remissão animadoras, especialmente entre os doentes com síndrome pós-COVID.
Portanto, a medicina personalizada do sono poderá, futuramente, vir a passar pelos nossos intestinos.
Enquanto aguardamos, é importante comermos bem, nomeadamente alimentos ricos em fibras, para alimentarmos adequadamente a microbiota intestinal e assim aumentarmos as hipóteses de termos noites de sono tranquilas. Será que o ditado deve ser “quem jantar (melhor) dorme (melhor)”?