Volta ao mundo dos alimentos fermentados

A fermentação é uma forma simples e natural de conservar os alimentos através da ação de microrganismos, nomeadamente leveduras ou bactérias. Foi por isso que este método se difundiu por todo o mundo, tanto para conservar arenques na Suécia como para armazenar manteiga no deserto, entre os tuaregues. Mas as vantagens da fermentação não ficam por aí: em muitos casos, ela torna os produtos mais fáceis de digerir. 

Publicado em 02 Setembro 2026
Atualizado em 03 Setembro 2026
A world tour of fermented foods

Sobre este artigo

Publicado em 02 Setembro 2026
Atualizado em 03 Setembro 2026

Estados Unidos, Índia...
Picles: a arte ancestral dos legumes fermentados

Para muitos, o termo “picles” remete para os pepinos em vinagre, com um sabor acre, típicos dos hambúrgueres americanos. A origem exata dos picles é desconhecida, mas já em 2030 AC haveria pepinos no subcontinente indiano a serem preservados através de fermentação.1 Ainda hoje, os picles de várias frutas e legumes, como a manga, o limão, o pimentão, etc. – conhecidos na Índia como achar – ocupam um lugar de destaque na cozinha indiana.Porém, atenção, nem todos os picles são iguais: os picles tradicionais são fermentados durante vários meses em salmoura extremamente salgada, um ambiente pouco oxigenado e propício à fermentação graças às bactérias lácticas, enquanto outras receitas, mais rápidas, combinam uma fermentação com a adição de vinagre; por sua vez, os picles “refrigerados” só fermentam durante alguns dias e têm de ser conservados no frigorífico.2
As versões fermentadas durante um longo período apresentam vantagem em termos de nutriçãos : contêm mais microrganismos vivos, alguns dos quais poderão contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal, para a digestão e até mesmo para o sistema imunitário, embora estes benefícios para a saúde ainda não tenham sido confirmados.3–5

Suécia
Surströmming: um arenque fermentado em conserva

Esta especialidade sueca, com base em arenques frescos salgados e posteriormente imersos numa salmoura ligeira, continua o seu processo de fermentação na lata de conserva,6 a qual incha naturalmente com o passar do tempo. As propriedades benéficas para a saúde desta surpreendente receita, de sabor bastante ácido e ligeiramente efervescente,6 estarão sobretudo relacionadas com o peixe que a integra: este é rico em proteínas e em ácidos gordos do tipo ómega-3.7 Há quem atribua aos peixes fermentados, em geral, efeitos antioxidantes e anti-hipertensivos, e até mesmo uma ação protetora contra determinados tipos de cancro e efeitos benéficos na microbiota intestinal (aumento de Bacteroidetes e diminuição de Firmicutes).8
Estes benefícios têm de ser relativizados, uma vez que estão longe de ser consensuais: num ensaio realizado em seres humanos, o consumo de surströmming durante uma semana não provocou alterações significativas na microbiota intestinal dos voluntários.9 

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Marrocos, Argélia
Smen: uma manteiga de conservação prolongada

O smen é uma manteiga fermentada e clareada(1), tradicionalmente feita no norte da África a partir de leite de camela: após a fermentação espontânea do leite, a manteiga é separada ao ser batida e depois é fermentada, salgada e armazenada em frascos de barro hermeticamente fechados, onde pode envelhecer durante vários anos.12 Com o passar do tempo, desenvolve aromas fortes e um sabor muito intenso. Tal como acontece com todos os produtos lácteos fermentados, presume-se que a fermentação possa libertar pequenas moléculas ativas benéficas para a saúde. No entanto, os efeitos benéficos para a saúde que se atribuem ao smen – desde o tratamento das hemorroidas até ao das doenças reumáticas, passando pelas constipações e pelas queimaduras – resultam, na maioria das vezes, de transmissão cultural,13 e não de qualquer realidade cientificamente comprovada. Contudo, foram demonstradas in vitro propriedades antibacterianas contra o Staphylococcus aureus e a Escherichia coli, e comprovou-se uma aceleração da cicatrização de feridas em animais (mas não – ainda? – em seres humanos).14

(1) A clarificação consiste em remover a água e as proteínas do leite (especialmente a caseína), de modo que praticamente apenas a gordura permaneça, o que melhora a sua conservação.12

Bulgária
Iogurtes: para uma boa digestão do leite

O iogurte é um produto lácteo fermentado que é obtido graças a duas bactérias específicas: Streptococcus thermophilus e Lactobacillus delbrueckii subsp. bulgaricus.10 Estas transformam o açúcar do leite (lactose) em ácido láctico, o que dá ao iogurte sua textura e sabor característicos e facilita a sua digestão. Existem outras bactérias que podem também realizar este processo, mas, nesse caso, estamos a falar de leite fermentado e já não de “iogurte”. Consequência direta deste processo de fermentação láctica: uma melhor digestão nas pessoas com baixa tolerância à lactose.10 O consumo de iogurtes e outros produtos lácteos fermentados poderá também estar associado a uma redução do risco de cancro da mama e de cancro colorretal, de diabetes tipo 2, e a uma manutenção mais eficaz do peso, bem como a uma melhoria da saúde cardiovascular, óssea e digestiva.10,11 
Mas, uma vez mais neste caso, é necessário manter a cautela, pois a ciência ainda está longe de poder provar relações de causa e efeito.

Etiópia
Injera: um pão chato sem glúten 

A injera é um pão achatado e fermentado, tradicional da Etiópia, preparado com farinha de teff,15 um cereal ancestral sem glútenSendo o alimento base da dieta etíope, é particularmente rico em hidratos de carbono, mas também em proteínas, fibras e minerais. A fermentação ocorre com base em leveduras – nomeadamente na famosa levedura de cerveja Saccharomyces cerevisiae – e em bactérias lácticas.16–19 A sua ação melhora aparentemente a digestibilidade das proteínas, a atividade de compostos benéficos, como os fenóis, e a atividade antioxidante,15,20 mas além disso reduz os compostos (denominados fatores antinutricionais) existentes naturalmente nos cereais, os quais dificultam a absorção de certos nutrientes.21

Nigéria
Gari: um alimento acessível à base de mandioca

O gari é uma farinha granular e cremosa obtida pela torrefação de uma pasta de mandioca fermentada.22 Este alimento básico, graças à sua disponibilidade e acessibilidade, contribui para a alimentação diária de milhões de nigerianos. O processo tradicional de fabrico consiste em ralar a mandioca, adicionar geralmente óleo de palma (dendém), fermentar, escorrer (desidratar), peneirar, torrar numa placa aquecida para gelificar o amido e, por fim, arrefecer:22 todas estas etapas contribuem para reduzir certos compostos indesejáveis, como o cianeto, embora também destruam as vitaminas. O gari é rico em hidratos de carbono e fibras, mas pobre em proteínas. Pode conter fenóis com propriedades antioxidantes, dependendo, no entanto, da forma como o gari é confecionado e do tipo de mandioca utilizado.23

Quais são os alimentos para uma microbiota equilibrada?

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Indonésia
Tempeh: a qualidade nutricional da soja, ainda melhor

Originário da ilha de Java, o tempeh é um alimento básico indonésio atualmente famoso entre vegetarianos de todo o mundo. Este produto fermentado a partir da soja, de gosto muito menos neutro do que o seu parente tofu, transmite sabores a avelã e a cogumelos a muitos dos pratos indonésios. O respetivo fabrico baseia-se na fermentação das sementes de soja pelo fungo Rhizopus oligosporus, técnica que se acredita ter sido inspirada nos métodos tradicionais chineses de elaboração do molho de soja.24 A referida fermentação melhora a absorção das proteínas, minerais, vitaminas e isoflavonas da soja, reduzindo simultaneamente os fatores antinutricionais. O resultado final é um produto de boa qualidade nutricional, que poderá contribuir para prevenir a malnutrição.24,25 Alguns autores atribuem-lhe alguns benefícios (redução do colesterol LDL e mesmo da tensão arterial,26 efeitos antioxidantes, digestivos e cognitivos,24 e até melhores desempenhos desportivos) 27 mas essas conclusões são ainda muito preliminares.

Filipinas
Bagoong: um condimento rico em proteínas..., mas também em sal e histaminas

O bagoong é um condimento típico das Filipinas, preparado a partir de peixe ou de pequenos camarões (krill) esmagados e fermentados com sal. Rica em proteínas, a composição nutricional desta pasta varia, no entanto, consoante a receita.28,29 Por exemplo, o Bagoong de krill (também conhecido pelo nome genérico de terasi na Ásia, de belacan na Malásia, de kapi na Tailândia, etc.) parece ser um pouco mais rico em gorduras e menos rico em minerais. Os efeitos na saúde (antioxidante? redutor do colesterol?)30 foram muito pouco estudados e, quase sempre, em ensaios laboratoriais e não em seres humanos, o que torna os resultados muito pouco fiáveis. Atenção: o bagoong pode apresentar um elevado teor de histaminas (com risco de intoxicação, por vezes designada síndrome de pseudoalergia alimentar) e de sal (cujo consumo é necessário que todos reduzamos).28,29,31

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas.

Alimentos fermentados: um vasto conjunto de benefícios para a saúde

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Fontes

1. Chakraborty R, Roy S. Exploration of the diversity and associated health benefits of traditional pickles from the Himalayan and adjacent hilly regions of Indian subcontinent. J Food Sci Technol. 2018;55(5):1599-1613. 

2. Stankus T. Pickled Vegetable Condiments: A Global Industry and Its Literature. J Agric Food Inf. 2014;15(1):3-18. 

3. Tan X, Cui F, Wang D, Lv X, Li X, Li J. Fermented Vegetables: Health Benefits, Defects, and Current Technological Solutions. Foods. 2024;13(1):38. 

4. Ahmada Kh A, A.A Abdo A, Khan S, Aleryani H, Mi S, Wang X. Advancing Pickling Techniques to Enhance Bioactive Compounds and Probiotic Content in Pickled Vegetables. Food Rev Int. 2026;42(1):31-57.

5. Hafeez SH, Khalid A, Ahmed S, et al. Fermented pickles improve gut microbiota and immune profile in women in a community trial in rural Pakistan. Sci Rep. 2025;15(1):34522. 

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11. Tremblay A, Drouin-Chartier JP, Marette A, Drapeau V. Yogurt and health: a focus on its matrix. Crit Rev Food Sci Nutr. 2026;66(2):342-351. 

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13. El Lamti F, Mennane Z, Elmtili N, Mrani Alaoui M. Ethnomedicinal Knowledge and Traditional Methodology for the Preparation of Fermented Butter “ Smen ” Among the Rural People of Northern Morocco: A Field Study. J Med Food. 2024;27(11):1133-1139. 

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