Um estudo demonstrou recentemente que a microbiota intestinal pode participar na formação de cálculos renais. Os doentes com histórico de nefrolitíase recorrente parecem ter uma menor quantidade de bactérias digestivas que fazem a degradação de oxalato.
Uma equipa italiana estudou a microbiota intestinal de 52 doentes que tiveram pelo menos dois episódios sintomáticos de cálculos renais compostos por mais de 80% de cristais de oxalato de cálcio (grupo C+), e comparou-a com 48 indivíduos do grupo de controlo saudável. Este tipo de cálculos está presente em 70% dos casos de cólica renal, geralmente sem uma causa primária identificada. A dieta (ingestão muito alta de cálcio e oxalato) é o único fator atualmente identificado na génese desta litíase idiopática, que geralmente é recorrente. O envolvimento da microbiota intestinal já tinha sido sugerido num estudo que demonstrou a capacidade de uma bactéria intestinal (Oxalobacter formigenes) de degradar o oxalato, reduzindo assim a sua absorção e excreção urinária.
Géneros bacterianos envolvidos na hiperoxalúria
Novos estudos sustentam a hipótese: as amostras do grupo C+ continham menor diversidade e, taxonomicamente, uma representação significativamente menor de três géneros: Faecalibacterium, Enterobacter, Dorea. No entanto, o conteúdo de Oxalobacter formigenes detetado em cada amostra foi muito baixo e não demonstrou diferença entre os grupos. Os cientistas investigaram, de seguida, uma potencial diferença na atividade de degradação do oxalato. Cinco amostras de cada grupo foram analisadas através de um método de sequenciação específico, focado nos genes envolvidos na degradação do oxalato. As amostras do grupo C+ continham uma proporção reduzida destes genes, que estava inversamente correlacionada com hiperoxalúria após 24 horas e com a defecação. Esta abordagem genética também identificou, pela primeira vez, bactérias e Archaea com genes envolvidos na degradação do oxalato (Escherichia coli, entre outros), cujo conteúdo foi maior no grupo saudável de controlo.
Modulação da microbiota: um caminho promissor?
Os estudos anteriores não foram capazes de demonstrar a eficácia dos pré e probióticos direcionados para o Oxalobacter formigenes em prevenir a recorrência de cálculos renais. Segundo os investigadores, esta falha pode advir do envolvimento de outras espécies no equilíbrio do oxalato de cálcio. É por essa razão que estes trabalhos fornecem novas linhas de investigação no eixo intestino-fígado e na fisiopatologia da nefrolitíase. Deverão tornar possível a avaliação de novas estratégias terapêuticas relacionadas com a modulação da microbiota intestinal.
O atrofio do crescimento é uma consequência da malnutrição crónica, sendo provavelmente desencadeado ou exacerbado por infeções entéricas recorrentes e má higiene. As crianças afetadas parecem apresentar disbiose intestinal caracterizada pela presença inesperada de microrganismos orais e faríngeos.
O atrofio do crescimento afeta um quarto das crianças abaixo dos 5 anos de idade, em todo o mundo. Uma causa possível é a disfunção entérica ambiental (DEA), uma síndrome responsável pela malnutrição que associa infeções bacterianas intestinais repetidas (causadas por má higiene) a inflamações crónicas atribuíveis ao SBID*. De acordo com um estudo francês em crianças com atrofio no crescimento (de Madagáscar e da República Centro Africana), esta síndrome não é fator único.
Translocação da microbiota oral
Apesar das diferenças genéticas, ambientais e nutricionais entre ambos os países, os investigadores descobriram que nas crianças afetadas de qualquer um havia colonização da microbiota intestinal por bactérias da microbiota orofaríngea. Foram observadas espécies pertencentes aos géneros Haemophilus, Neisseria, Moraxella e até Porphyromonas (que normalmente colonizam a flora oral) em 57 amostras gástricas e em 46 amostras duodenais recolhidas. No entanto, de acordo com a literatura científica, algumas destas bactérias estão associadas a doenças inflamatórias (incluindo cancro gástrico, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares).
Um marcador fecal com valor de diagnóstico
Estas bactérias orofaríngeas também foram encontradas em amostras duodenais e estavam sobre representadas nas 404 amostras peri-rectais recolhidas de crianças com atrofio no crescimento, mas não nas de crianças do grupo controlo. Bactérias enteropatógenas pertencentes aos géneros Escherichia coli/Shigella e Campylobacter também eram mais abundantes. Um decréscimo em Clostridiales também foi encontrado em crianças afetadas. Estas bactérias produzem butirato, um ácido gordo de cadeia curta (AGCC) que serve de alimento às células epiteliais e participa na defesa do hospedeiro à proliferação de bactérias oportunistas. As fezes de crianças afetadas podem então conter uma assinatura característica do atrofio do crescimento dada pela combinação de bactérias da orofaringe, enteropatógenos e um nível baixo de Clostridiales. Isto pode abrir o caminho ao desenvolvimento de marcadores não invasivos.
Nova hipótese
O estudo sugere que a presença de bactérias orofaríngeas na microbiota fecal pode ser um fator contributivo para a fisiopatologia da DEA. A proliferação destas bactérias da orofaringe no intestino delgado e no cólon pode conduzir a inflamação. Associada à presença de enteropatógenos e a níveis diminuídos de butirato, pode conduzir a malnutrição crónica em crianças e resultar assim no atrofio do crescimento. Esta hipótese pode ser confirmada por um estudo de coorte, com 1000 crianças, que se encontra atualmente em progresso.
*SBID = Supercrescimento bacteriano no intestino delgado
Investigadores franceses descobriram que a gripe interrompe o equilíbrio da microbiota intestinal, enfraquecendo as defesas imunológicas pulmonares e aumentando a probabilidade de superinfeções bacterianas.
Todos os invernos, milhões de franceses contraem gripe. Apesar das campanhas de vacinação e tratamento, os mais vulneráveis podem desenvolver complicações que às vezes se revelam fatais. Essas formas graves estão de uma forma geral relacionadas com a pneumonia causada por superinfeções bacterianas. Um estudo recente publicado numa revista de prestígio sugere que a microbiota intestinal está envolvida nesse processo.
Desequilíbrio da flora intestinal
É agora reconhecido que a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental no bom funcionamento do sistema imunológico. Neste estudo, ratinhos infetados com gripe mostraram um desequilíbrio transitório na composição e atividade de sua microbiota intestinal ( (sidenote:
Disbiose
A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano.
Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232.)). Além disso, a produção de ácidos gordos de cadeia curta ( (sidenote:
AGCC
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (combustível) para as células do indivíduo. Interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Fontes:
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.
)) foi bastante reduzida. Os AGCC, especialmente o acetato, têm a capacidade de agir à distância do intestino em determinadas células imunes dos pulmões (macrófagos), estimulando a sua atividade antibacteriana. Em suma, acredita-se que uma disbiose da microbiota intestinal associada à gripe reduza a produção de acetato, comprometendo as defesas imunológicas dos pulmões contra as bactérias.
O papel da dieta
Esse desequilíbrio intestinal não é causado diretamente pelo próprio vírus, mas parece ser o resultado de uma redução na ingestão de alimentos devido à perda de apetite, um sintoma frequente da gripe. Como tal, para preservar a integridade da microbiota intestinal e fortalecer as defesas imunológicas, recomenda-se consumir alimentos ricos em fibras (por exemplo, legumes, frutas e leguminosas). Por outro lado, é fortemente desaconselhado reduzir a ingestão calórica ou jejuar durante surtos de gripe.
Novas estratégias terapêuticas
Foi demonstrado em ratinhos que essa suscetibilidade à superinfeção bacteriana pode ser corrigida com tratamento com acetato. Com base nessas descobertas, um tratamento à base de acetato, ou de compostos semelhantes, poderá ser uma abordagem terapêutica valiosa. Além disso, segundo os autores, devem ser avaliadas estratégias terapêuticas baseadas no uso de prebióticos e probióticos.
Fontes:
Sencio V, Barthelemy A, Tavares LP, et al. Gut Dysbiosis during Influenza Contributes to Pulmonary Pneumococcal Superinfection through Altered Short-Chain Fatty Acid Production. Cell Rep. 2020;30(9):2934–2947.e6.
Os efeitos benéficos da dieta mediterrânea sobre a microbiota intestinal é considerada a melhor defesa contra a síndrome da fragilidade relacionada com a idade.
O envelhecimento está associado à deterioração de inúmeras funções corporais e à inflamação generalizada, que contribuem para a (sidenote:
A síndrome da fragilidade
A síndrome da fragilidade é diagnosticada com base em três dos seguintes cinco critérios: estilo de vida sedentário, perda de peso recente, exaustão ou fadiga, diminuição da força muscular e ritmo lento de caminhada. Envolve um risco de declínio funcional, institucionalização e morte (Academia Nacional Francesa de Medicina, 2013). http://www.academie-medecine.fr/wp-content/uploads/2014/10/tap-pages-1009-1020.pdf) entre os idosos. Pensa-se que este tipo de alimentação tenha um papel importante nesse processo, uma vez que a falta de variedade leva a alterações na microbiota intestinal que pode levar a um aumento do risco de fragilidade. Por outro lado, é possível que uma dieta equilibrada contribua para manter ou restaurar a flora bacteriana e ajudar a combater a fragilidade. Um grupo de investigadores procurou descobrir se é esse o caso, concentrando-se especificamente na (sidenote:
Dieta mediterrânea
Rica em frutas, vegetais, cereais, oleaginosas (nozes) e peixe, e com baixo teor de carne vermelha, gorduras saturadas e laticínios.
Lăcătușu CM, Grigorescu ED, Floria M, et al. The Mediterranean Diet: From an Environment-Driven Food Culture to an Emerging Medical Prescription. Int J Environ Res Public Health. 2019 Mar 15;16(6):942.).
Bactérias “boas” associadas ao envelhecimento “bom”
De acordo com vários estudos, a dieta mediterrânea é a mais saudável e oferece muitos benefícios, incluindo a redução da inflamação, da doença e da mortalidade. Está também associada a alterações na microbiota intestinal. Os cientistas analisaram a microbiota intestinal de aproximadamente 600 indivíduos com idades entre 65 e 79 anos, com poucos ou nenhum sinal de fragilidade. Durante um ano, os participantes seguiram uma dieta normal ou mediterrânea por um ano, tendo sido feitas avaliações antes e no fim de cada regime alimentar. Os investigadores concluíram que a microbiota dos participantes que seguiram uma dieta mediterrânea permaneceu diversificada (o que se associa a uma boa saúde), tendo aumentado o número de bactérias "boas" (associadas à diminuição da fragilidade, melhoria da função cerebral e redução da inflamação). Foi também observado, a melhoria da memória, aumento da velocidade da passada e da força nas mãos dos participantes deste grupo.
Bactérias que protegem contra a fragilidade?
Estes resultados confirmam os benefícios da dieta mediterrânea nos idosos e revelam que parte desses benefícios está diretamente relacionada com alterações na microbiota intestinal. Estas descobertas abrem, por isso, novos caminhos para a prevenção da fragilidade entre as pessoas em risco, com base na administração direta das bactérias “boas” agora identificadas.
Recomendado pela nossa comunidade
"Com certeza, envelhecer graciosamente muitas vezes começa de dentro para fora! Uma dieta balanceada, rica em nutrientes, especialmente aqueles que apoiam a saúde intestinal, pode desempenhar um papel fundamental no bem-estar geral à medida que envelhecemos. Nunca é tarde para adotar hábitos alimentares saudáveis para uma vida vibrante e saudável. vida ativa. Um brinde à saúde e à longevidade!" -Aware Health Rewards App (Da My health, my microbiota)
Ghosh TS, Rampelli S, Jeffery IB, et al. Mediterranean diet intervention alters the gut microbiome in older people reducing frailty and improving health status: the NU-AGE 1-year dietary intervention across five European countries. Gut 2020 Jul;69(7):1218-1228.
Com a contínua propagação da COVID-19, todos esperamos ter as armas necessárias para o seu combate. Logo, e desde que nascemos, o sistema imunológico cumpre a sua missão de defesa, em estreita cooperação com a microbiota intestinal.
Seja o coronavírus ou não, qualquer micróbio (bactéria, vírus ou fungo) que entra no nosso organismo pode ser potencialmente perigoso. Quando isso acontece são acionados mecanismos de defesa cuidadosamente orquestrados pelas células imunológicas e pela flora intestinal para a sua eliminação. Essa barreira protetora, erguida pelo intestino, impede que corpos estranhos penetrem na corrente sanguínea.
Barreira intestinal
O objetivo dessa aliança entre o sistema imunológico e o intestino é promover e manter o equilíbrio intestinal durante toda a vida. A microbiota intestinal forma um revestimento microbiano que impede que as bactérias prejudiciais colonizem o intestino e se multipliquem. Este equilíbrio entre as células intestinais e a microbiota cria um ambiente propício ao desenvolvimento de bactérias benéficas. Pelo contrário, qualquer mudança nesse ecossistema pode modificar as interações envolvidas, estabelecendo-se um círculo vicioso, no qual a inflamação promove a colonização por microrganismos nocivos, que por sua vez agravam essa mesma inflamação. Por seu turno, as células intestinais formam uma barreira física natural revestida por um muco espesso, garantindo que bactérias, vírus e fungos fiquem confinados no centro do trato gastrointestinal.
Células de defesa intestinal
Algumas células imunes, como os (sidenote:
Macrófagos e linfócitos são glóbulos brancos que atuam como células imunitárias. Estes defendem o corpo eliminando os “intrusos”.
) promovem uma imunidade inata, que é de ação rápida, mas (sidenote:
A ação não específica é genérica e não é direcionada contra uma molécula ou micróbio específico.
): “Vejo-te, apanho-te, mato-te.” As restantes células, incluindo os (sidenote:
Macrófagos e linfócitos são glóbulos brancos que atuam como células imunitárias. Estes defendem o corpo eliminando os “intrusos”.
), fazem parte do sistema imunológico adaptativo que se mobiliza de uma forma mais lenta, mas mais (sidenote:
Ação específica é direcionada contra uma molécula ou micróbio específico.
) e que tem gravado em si infeções anteriores: “Reconheço-te, apanho-te, mato-te”. Entre outras funções, as células do sistema imunológico adaptativo produzem anticorpos. Ora, um controlo preciso do sistema imunológico evita a inflamação excessiva em resposta às bactérias benéficas e evita as alergias alimentares, ao permitir a tolerância dos (sidenote:
Nutrientes
Nutrientes são pequenas moléculas libertadas durante a digestão dos alimentos.
).
Cooperação altamente sincronizada
As bactérias estão em constante diálogo com o intestino, diretamente ou através da transmissão de sinais. As mensagens recebidas permitem que as células imunológicas estejam em alerta constante e fortaleçam a barreira intestinal sempre que necessário. Este processo também facilita a ativação das respostas imunes inatas e adaptativas. Segundo estudos realizados em animais, as trocas afetam igualmente outros órgãos: uma alimentação rica em fibras permite à microbiota produzir pequenas moléculas com um efeito benéfico nas respostas alérgicas pulmonares. De facto, a microbiota pode abrandar a inflamação excessiva mesmo à distância do intestino (infeção, stress,alergia sazonalou (sidenote:
A intolerância alimentar acontece quando o sistema imunológico identifica incorretamente as moléculas dos alimentos como substâncias prejudiciais.
)).
Impulsionar a nossa microbiota
Mesmo que estes mecanismos tenham ainda de ser confirmados em seres humanos, embora os estudos sobre uma possível ligação entre a infeção COVID-19, a microbiota e o sistema imunológico sejam incompletos, um estilo de vida saudável que cuida da microbiota (com uma alimentação equilibrada, por exemplo) parece ser a melhor forma de manter intacta a nossa barreira intestinal.
Fontes
Gaboriau-Routhiau, Cerf-Bensussan. Microbiote intestinal et développement du système immunitaire 2016. Med Sci (Paris). 32(11): 961–967.
Caminero A, Meisel M, Jabri B, et al. Mechanisms by which gut microorganisms influence food sensitivities. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2019;16(1):7‐18.
Será que o vaping afeta o equilíbrio da microbiota oral, provocando infeções orais? Um estudo tentou provar essa teoria, enquanto lançava dúvidas sobre a segurança dos cigarros eletrónicos.
Os cigarros eletrónicos são extremamente populares entre os jovens americanos, sendo utilizados por mais de 20% dos estudantes do ensino secundário e quase 5% dos alunos do 9.º ano nos Estados Unidos. Retratados até agora como uma alternativa saudável ao tabaco, provavelmente não serão assim tão inofensivos. A última geração de cigarros eletrónicos tem níveis de nicotina e toxicidade comparáveis aos do tabaco e acredita-se que sejam responsáveis por uma cascata de reações inflamatórias devido ao seu efeito na microbiota oral. No entanto, um estudo publicado em 2018 tinha considerado que os cigarros eletrónicos não tinham efeitos adversos nas microbiotas intestinais, orais ou salivares.
Desequilíbrio da microbiota oral entre os consumidores
Para medir o impacto do vaping na microbiota oral,uma equipa de investigadores dividiu cerca de cem voluntários em três grupos: fumadores (meio maço por dia, em média), vapers (meio cigarro eletrónico por dia) e não fumadores. A sua primeira descoberta revelou que o índice de gravidade das doenças dos dentes, gengivas e boca entre os vapers (42,5%) foi significativamente menor do que entre os fumantes (72,5%), mas acentuadamente maior que entre os não fumadores (28,2%). Uma segunda descoberta mostrou que os vapers apresentavam um desequilíbrio (disbiose) da microbiota oral comparável à dos fumadores. A sua saliva era geralmente mais rica em bactérias do que a de não fumadores e mostrava proliferação de várias espécies prejudiciais à saúde oral. Além disso, as células humanas expostas a aerossóis de cigarros eletrónicos revelaram uma maior sensibilidade a infeções bacterianas em comparação com as células expostas ao ar.
Compreendendo os efeitos a longo prazo
Segundo os investigadores, os resultados deste estudo - realizado em seres humanos (in vivo) e em células (in vitro) - confirmam que o vaping provoca o desequilíbrio da microbiota oral e aumenta a suscetibilidade a infeções (como cáries ou (sidenote:
periodontite
inflamação das gengivas ao redor dos dentes.
)). No entanto, essa relação ainda precisa de ser confirmada, sendo necessários estudos mais aprofundados sobre os efeitos gerais do vaping na saúde oral, respiratória e cardiovascular, principalmente a longo prazo.
Pushalkar S., Paul B., Li Q., et al. Electronic Cigarette Aerosol Modulates the Oral Microbiome and Increases Risk of Infection. iScience. 2020 Mar 27;23(3):100884.
Existem muitas doenças que podem afetar os nossos pulmões. As infeções respiratórias são objeto de muitos estudos principalmente durante o período de pandemia que atravessamos. O envolvimento da microbiota intestinal em determinadas doenças respiratórias abre caminhos para novas opções terapêuticas. Contudo, ainda precisamos de entender melhor os mecanismos subjacentes.
Recentemente, investigadores redescobriram o papel fundamental da microbiota intestinal nos nossos mecanismos de defesa contra infeções. De facto, alterações na composição da microbiota intestinal (disbiose) que pode afetar a nossa resposta imunitária e, como resultado, poderá estar relacionado com o aparecimento de determinadas doenças respiratórias, como a asma, a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e infeções respiratórias. Cientistas australianos lançaram agora novas pistas sobre a relação entre a microbiota e o eixo "intestino-pulmão".
Foco na asma e DPOC
No caso da asma, a redução de certos componentes bacterianos nas fezes (lipopolissacarídeos), além de revelar disbiose intestinal, parece estar associada ao risco de desenvolver sintomas. Já na DPOC, embora seja ainda difícil especificar se as alterações na microbiota intestinal ou na microbiota respiratória são a causa ou a consequência da doença, sabe-se que existe uma relação inegável "intestino-pulmão".
O efeito protetor da microbiota intestinal
Por fim, e no caso das infeções respiratórias, o efeito protetor da microbiota intestinal tem sido amplamente reconhecido: vários estudos demonstraram uma relação de causa-efeito entre o desequilíbrio na microbiota e as interrupções nos mecanismos de defesa imunológica e o desenvolvimento de infeções respiratórias bacterianas ou virais. Aliás, determinadas cepas probióticas (particularmente determinados lactobacilos e bifidobactérias) demonstraram utilidade clínica nessas circunstâncias. Segundo os investigadores, embora sejam necessários estudos adicionais para entender melhor a relação entre a microbiota intestinal e as doenças respiratórias, o resultado abre caminho para o lançamento de novas opções terapêuticas.
Sabia que consome até 100 milhões de bactérias quando come uma maçã? Durante a quarentena - e ao longo do resto do ano -, esses microrganismos são um suplemento para a sua microbiota intestinal e ajudam a manter uma boa saúde geral.
“An apple a day keeps the doctor away” (“Uma maçã por dia mantém o médico afastado”.) A explicação que fundamenta este velho ditado pode ser encontrada na abundância de vitaminas, minerais e outros antioxidantes presentes nesta fruta, mas não só: as maçãs também são uma fonte importante de microrganismos (bactérias, vírus, fungos) com muitos benefícios à saúde, e que colonizam e enriquecem temporariamente a nossa microbiota intestinal. Poucos estudos se debruçaram sobre os efeitos desses micróbios “bons”, pois a maioria está focada nos microrganismos responsáveis por doenças transmitidas por alimentos. Recentemente, uma equipa de investigadores australiana, decidiu fazer essa abordagem e as suas descobertas foram publicadas na revista Frontiers in Microbiology.
Alimentos orgânicos proporcionam maior diversidade
Os cientistas analisaram todos os microrganismos presentes no interior, na pele, no caule e nas sementes de maçãs, bem como o impacto do método de cultivo utilizado. A sua primeira observação foi que a maioria das bactérias se concentra no caule, nas sementes e no cálice, partes da maçã que geralmente não comemos. Contudo, o interior e a pele também contêm concentrações elevadas de bactérias. Outra constatação foi que a microbiota de maçãs orgânicas, embora não fosse bastante abundante, era mais diversificada e homogénea do que a das maçãs convencionais. Este facto pode limitar a presença de microrganismos prejudiciais que podem causar doenças transmitidas por alimentos. E boas notícias: a maior diversidade foi encontrada na polpa da fruta orgânica.
Bactérias que são boas para a nossa saúde
Um outro estudo revelou igualmente que as maçãs orgânicas contêm principalmente lactobacilos, com propriedades benéficas conhecidas, além de outro tipo bacteriano responsável pelo sabor dos morangos. Quanto à microbiota de maçãs comuns, é fortemente dominada por Enterobacteriaceae, uma família de bactérias que inclui algumas espécies (como Escherichia coli), responsáveis por doenças transmitidas através dos alimentos. Os investigadores acreditam que essas diferenças na composição microbiana são devidas principalmente a diferentes práticas agrícolas e condições de armazenamento. Aguarda-se a descrição do perfil nutricional indicado nos rótulos do conteúdo de macronutrientes, vitaminas e minerais destes alimentos.
Wassermann B, Müller H, Berg G. An Apple a day: which bacteria do we eat with organic and conventional apples? Front. Cell. Infect. Microbiol. 10:1629. doi.org/10.3389/fmicb.2019.01629
Um novo método de análise ao sémen tem o potencial de substituir as técnicas tradicionais. Os métodos tradicionais utilizados para detetar microrganismos que colonizam ou infetam o trato genital masculino são considerados muito caros para alguns laboratórios ou de uso limitado.
Embora microbiota intestinal seja a mais conhecida, a mais importante e mais estudada, esta não é a única comunidade microbiana existente no nosso organismo. Bactérias, vírus e leveduras colonizam todos os nossos fluidos corporais, mesmo os mais íntimos. Uma equipa de cientistas americanos decidiu identificar e analisar os microrganismos presentes no sémen utilizando uma técnica normalmente usada para avaliar se os genes são ou não funcionais. O seu objetivo era verificar se esta seria uma abordagem adequada para avaliar a diversidade da microbiota no sémen.
Menos rica, mas mais diversificada que a microbiota vaginal
Os microrganismos residentes no trato genital masculino, provém principalmente do contato direto com as mulheres durante a relação sexual. A Escherichia coli, que está relacionada com infeções genitais e uretrais, é a bactéria mais frequentemente observada. A microbiota genital masculina compartilha 85% das suas espécies bacterianas com a microbiota vaginal, mas é menos abundante e mais diversificada.
Uma amostra infetada
Os investigadores analisaram o sémen de 85 homens que estavam num relacionamento heterossexual. A técnica utilizada permitiu identificar as principais bactérias que colonizam o trato genital masculino. Apenas uma amostra apresentou uma mistura microbiana muito diferente, mostrando um conteúdo particularmente elevado em Streptococcus agalactiae. Esta espécie bacteriana é responsável por infeções sexuais em homens e mulheres e pode provocar aborto espontâneo ou natimorto. A sua abundância é difícil explicar, sendo a causa mais provável a infeção pelo parceiro.
Uma técnica de diagnóstico eficaz
Os investigadores concluem que esse novo método parece ser tão eficaz no diagnóstico da colonização bacteriana ou infeção do sémen quanto o método tradicionalmente usado para analisar a microbiota humana.
Seja por motivos religiosos ou por ser uma tendência, a verdade é que provavelmente o jejum intermitente tem um impacto na nossa microbiota intestinal. Embora esta ligação já tenha sido demonstrada em ratinhos, até agora nenhum estudo foi realizado em humanos e menos ainda durante o Ramadão.
O jejum e seus efeitos sobre a composição da microbiota intestinal foram objeto de muito poucos estudos, por serem difíceis de modelar. No entanto, como a alimentação é um dos principais fatores ambientais que podem modificar a nossa microbiota intestinal, não é difícil imaginar que a privação prolongada de alimentos possa alterar a composição dessa mesma comunidade microbiana. Nesse sentido, uma equipa de investigadores turcos realizou um pequeno estudo com nove pessoas muçulmanas (sete mulheres e dois homens) que jejuaram durante o Ramadão. Pilar do Islão, essa prática milenar envolve a abstenção de alimentos e bebidas do nascer ao pôr do sol por um período de 29 dias. No estudo, realizado entre 18 de junho e 16 de julho de 2015, o jejum diário durou 17 horas.
Uma microbiota intestinal mais saudável
No final do Ramadão, as amostras de fezes obtidas dos participantes mostraram uma maior abundância em bactérias benéficas, como a Bacteroides fragilis e Akkermansia muciniphila. Este último grupo representa entre 3% a 5% da comunidade microbiana em indivíduos saudáveis, sendo essa proporção mais baixa no caso das pessoas obesas. Por outro lado, os investigadores verificaram que a quantidade de outras bactérias diminuiu, embora não significativamente. Jejuar também resultou numa redução no colesterol total e nos níveis de açúcar no sangue em jejum, confirmando os resultados de um estudo anterior. No entanto, os autores não observaram a diminuição significativa no (sidenote:
Índice de Massa Corporal.
Razão entre o peso em kg e o quadrado da altura em m.
)* observada noutros estudos, provavelmente devido ao reduzido número de participantes envolvidos.
Resistência à mudança
Os investigadores sugerem que a composição melhorada da microbiota intestinal após o jejum se deve à resistência de espécies de bactérias benéficas - como Bacteroides e Akkermansia - às mudanças na alimentação. Estes são resultados preliminares e requerem ser confirmados em estudos de maior dimensão. Contudo, fornecem uma melhor compreensão da relação entre o jejum e a microbiota intestinal.
Özkul C, Yalınay M, Karakan T. Islamic fasting leads to an increased abundance of Akkermansia muciniphila and Bacteroides fragilis group: A preliminary study on intermittent fasting. Turk J Gastroenterol 2019; 30(12): 1030-5.