Microbiota intestinal: uma característica comum das perturbações psiquiátricas?

Depressão, psicose, anorexia… Há cada vez mais provas da existência de perturbações da microbiota intestinal em pessoas com diferentes perturbações psiquiátricas. Então, será que existe uma característica comum ou será que cada uma destas perturbações tem especificidades? Uma meta-análise esclarece a questão.

Será que se pode avaliar a saúde mental através das alterações da microbiota intestinal? Em caso afirmativo, será que há biomarcadores que permitem distinguir diferentes perturbações? Sim e não. É esta a conclusão de uma meta-análise de 59 estudos caso-controlo assente em oito perturbações psiquiátricas, sendo as mais representadas a depressão, a esquizofrenia, a psicose, as perturbações bipolares e a anorexia. Se existem biomarcadores ao nível da microbiota intestinal indicadores de perturbações mentais, não surgiu nenhuma especificidade em relação aos dados analisados.

Pouco efeito na riqueza da microbiota...

Para chegarem a este resultado, os autores compararam a abundância relativa das bactérias intestinais entre grupos em termos:

A diversidade alfa estava significativamente reduzida nos pacientes que sofriam de perturbações bipolares. Além disso, não se verificou nenhuma diferença significativa ao nível dos índices de diversidade ao medir, alternadamente, a diversidade e a uniformidade de distribuição entre as espécies presentes, nomeadamente dos índices de Shannon (comunicados em 29 estudos) e de Simpson (comunicados em 11 estudos). 

Em relação à diversidade beta, os resultados apresentam diferenças semelhantes na estrutura filogenética dos pacientes que sofrem de depressão e de psicose/esquizofrenia em comparação com as pessoas do grupo de controlo. Contudo, os autores verificam que o método de classificação dos pacientes, baseado nos sintomas ou no diagnóstico, poderá afetar este resultado.

… Mas mudanças de composição efetivas

Este estudo indica também a existência de disbioses relativamente constantes nas pessoas que sofrem destas doenças, tais como:

  • a diminuição de Faecalibacterium (15 em 17 estudos referentes a este género);
  • a diminuição de Coprococcus (10 estudos em 10);
  • e o enriquecimento em termos de Eggerthella (10 estudos em 11).

Biomarcadores microbianos e perturbações psiquiátricas: não se podem tirar conclusões precipitadas

Assim, os autores concluem que há perturbações microbianas comuns na depressão, nas perturbações bipolares, na ansiedade, na psicose e na esquizofrenia: 

  • um empobrecimento em termos de bactérias anti-inflamatórias produtoras de ácido butanoico e 
  • um enriquecimento em termos de bactérias pró-inflamatórias.

Esta característica partilhada poderá ser o ponto de partida para a criação de uma terapia transdiagnóstica focada nestas disbioses semelhantes.

Como tal, estes resultados ainda devem ser interpretados com cuidado, pois podem ser enviesados por fatores de confusão (medicamentos psiquiátricos tomados, regime alimentar, etc.).

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Cerveja e queijo Roquefort: a microbiota revela as refeições dos nossos antepassados

Cereais, legumes e frutos... É assim que imaginamos as frugais refeições dos nossos antepassados europeus. No entanto, a sua microbiota intestinal diz-nos, mediante a análise de fezes humanas preservadas por mais de 3.000 anos em minas de sal austríacas, que também usavam queijo azul e cerveja na ementa.

A microbiota intestinal

Ossos, cerâmica, armas, bocados de tecido... Os tesouros descobertos pelos arqueólogos durante as suas escavações permitem-nos compreender melhor o estilo de vida dos nossos antepassados. Temos tendência a esquecê-lo, mas as fezes são igualmente um excelente material para se recolher informações sobre a dieta dos nossos avoengos! Assim, em algumas estações arqueológicas, como as minas de sal subterrâneas de Hallstatt, na Áustria, houve excrementos humanos pré-históricos, ou "paleofezes", que sobreviveram aos séculos desde a Idade do Ferro, bem protegidas da degradação. E essas “minas de fezes” são outras tantas minas de informações sobre a dieta, a saúde e a microbiota intestinal dos nossos distantes ancestrais. Foi isso o que motivou investigadores italianos e austríacos a examinarem algumas amostras.

Uma microbiota que comprova uma dieta de tipo “não ocidental” até à época barroca

O estudo microscópico de (sidenote: 4 amostras de fezes Uma amostra da Idade do Bronze, uma segunda da Idade do Ferro e 2 amostras do período barroco. ) permitiu constatar que a alimentação dos nossos antepassados europeus se baseava em cereais (cevada, espelta, milho, etc.), legumes, frutos silvestres (maçãs, mirtilos) e frutos de casca dura, como as nozes. A análise do ADN das bactérias contidas nas fezes mostrou que a sua microbiota intestinal era semelhante à de populações com uma dieta de tipo não ocidental baseada em produtos não processados, frutas e vegetais. Esse tipo de dieta terá perdurado na Europa até ao século XVIII, até então surgirem um estilo de vida mais moderno, com uma (sidenote: Dieta ocidental A alimentação de tipo ocidental carateriza-se por excesso de açúcares, de algumas gorduras, de alimentos processados e de pesticidas ambientais e por carência de fibras. Este tipo de dieta tem sido associado à obesidade e a determinadas afeções inflamatórias e metabólicas, como a diabetes tipo 2, a resistência à insulina e as doenças inflamatórias crónicas do intestino.
Siracusa F, Schaltenberg N, Villablanca EJ, et al. Dietary Habits and Intestinal Immunity: From Food Intake to CD4+ T H Cells. Front Immunol. 2019 Jan 15;9:3177.
)
(widget definição) e avanços da medicina, que começaram a exercer impacto sobre a microbiota intestinal, pensam os investigadores.

Há quase 3000 anos, o queijo Roquefort integrava já os gostos gastronómicos 

Uma das amostras provenientes da Idade do Ferro provocou a estupefação dos cientistas. De facto, era excepcionalmente rica em DNA de duas espécies de (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueias, os protozoários, etc., e são vulgarmente designados "micróbios". What is microbiology? Microbiology Society. ) : Penicillium roqueforti e Saccharomyces cerevisiae. Na verdade, estas duas leveduras ainda hoje se utilizam, a primeira para fazer os queijos “azuis” e a segunda para produzir cerveja, vinho e pão! O que demonstra que já havia então “alimentos processados” nas mesas europeias. 

Já se sabia que os nossos antepassados produziam cerveja na Idade do Ferro. Mas os investigadores pensam que a presença de queijos azuis é uma prova da sofisticação das tradições culinárias dos antigos europeus. Salgados através do sal natural e levedados com recurso ao referido fungo em cubas de madeira, os queijos teriam beneficiado de condições ideais de temperatura e humidade para a sua maturação. Uma receita que ainda hoje continua a ser válida para a produção do queijo Roquefort que atualmente apreciamos!

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Doenças mentais e microbiota intestinal: o fim de um quebra-cabeças?

Foram identificados desequilíbrios da microbiota em várias doenças psiquiátricas como a esquizofrenia, a depressão e as perturbações obsessivo-compulsivas (POC). Mas será que cada doença está associada a uma disbiose particular ou será que existem alterações microbianas comuns? Uma análise de estudos esclarece a questão.

A microbiota intestinal A microbiota ORL A microbiota da pele A microbiota vaginal Saúde mental

Recentemente, realizaram-se vários estudos em todo o mundo com o objetivo de identificar as particularidades das perturbações da microbiota intestinal das pessoas que sofrem de doenças mentais. Será que a flora intestinal destas pessoas é menos rica do que a das pessoas saudáveis? Será que é menos diversificada? Estarão presentes determinadas espécies de micro-organismos? Ou estarão em falta? O desafio é importante porque, se se detetarem especificidades associadas a uma ou mais doenças mentais em diferentes estudos, podem servir de marcadores úteis para fazer o diagnóstico dos pacientes, definir a estratégia terapêutica ou avaliar a reação aos tratamentos. Contudo, até à data, estes estudos apresentam resultados ainda contraditórios.

Desequilíbrios comuns a várias doenças psiquiátricas 

Uma publicação no  (sidenote: JAMA Journal of the American Medical Association   )  Psychiatry analisou de forma abrangente cerca de 60 estudos realizados sobre este assunto. O objetivo dos seus autores era confirmar que as doenças mentais estão associadas às perturbações da microbiota intestinal, bem como determinar se são específicas de cada doença:

Os cientistas constataram que há uma diminuição significativa da riqueza da microbiota intestinal dos pacientes com perturbações mentais, mas poucas diferenças em termos de diversidade de espécies, em comparação com a microbiota dos participantes saudáveis. Em vez de salientarem características específicas de cada doença, estes estudos demonstram que há desequilíbrios semelhantes da flora intestinal partilhados por vários problemas mentais. Estas perturbações traduzem-se, nomeadamente, no aumento de determinadas espécies que promovem a inflamação e na diminuição de outras espécies que possuem uma ação anti-inflamatória nas perturbações bipolares, na esquizofrenia e na ansiedade.

Fatores de confusão a ter em conta

A análise acabou por permitir determinar os fatores responsáveis pelas variações dos resultados dos diferentes estudos. Por um lado, a área geográfica: a alimentação e, por conseguinte, a microbiota e os desequilíbrios da microbiota, na China e nos países ocidentais não são iguais. Por outro lado, os medicamentos tomados: os medicamentos psicotrópicos parecem promover o aparecimento de disbioses. Desta forma, os investigadores deverão ter em mente estes parâmetros para conseguirem desvendar todos os mistérios da relação entre a microbiota intestinal e as doenças mentais, para benefício dos pacientes.

Recomendado pela nossa comunidade

"Ainda bem que estão a ser feitas mais investigações nesta área!! Continuem assim!!!" - Comentário traduzido de Amanda Robertson (Da My health, my microbiota)

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Associação entre metabolitos séricos e microbiota intestinal: para um melhor diagnóstico do cancro colorretal?

De acordo com um novo estudo publicado em Gut, poderá ser usada uma assinatura que associe o perfil dos metabolitos séricos à microbiota intestinal como novo instrumento para o diagnóstico precoce, fiável e não invasivo dos adenomas e cancros colorretais.

Os desequilíbrios da microbiota, ou disbioses poderão estar associados a várias patologias, como a diabetes, a obesidade, as doenças neuropsiquiátricas ou neurodegenerativas, ou mesmo alguns cancros. Os metabolitos produzidos pelas bactérias intestinais penetram precocemente na corrente sanguínea. Neste contexto, um novo estudo propôs-se determinar o perfil dos metabolitos séricos ligados à microbiota intestinal (MI). Objetivo? Descobrir se existe uma assinatura metabolómica sérica associada à MI nas pessoas com cancro ou adenoma colorretal. Este método de deteção não invasivo, rápido e preciso permitiria o diagnóstico precoce dos adenomas e do cancro colorretal (CCR).

Variações metabolómicas em todos os estágios

A análise de amostras de soro de uma coorte de investigação (31 indivíduos saudáveis, 12 pacientes com adenoma e 49 com CCR) permitiu a identificação de 885 metabolitos séricos cuja quantidade diferia nos pacientes com adenoma ou CCR em comparação com os controlos saudáveis.
As alterações na MI podem reprogramar o metaboloma fecal nos pacientes com anomalias colorretais, mas poderão fazê-lo ao nível sérico? Para se determinar a potencial contribuição desses marcadores para a previsão de anomalias colorretais, foi realizada uma análise metagenómica fecal da MI e dos metabolitos séricos em 11 indivíduos saudáveis e em 33 pacientes com patologia colorretal. Desta forma, foram identificados 322 metabolitos como estando associados à MI, incluindo espécies que se sabe estarem relacionadas ao início e à evolução do CRC (Fusobacterium nucleatum, Parvimonas micra, etc.). Recorreu-se depois a algoritmo que permitiu identificar com precisão 8 metabolitos séricos capazes de distinguir nesta coorte os indivíduos saudáveis dos portadores de adenoma e CCR (área sob a curva de 0,96). Estes foram selecionados como painel preditivo de patologia colorretal: GMSM (Gut Microbiome-associated Serum Metabolites, ou metabolitos séricos associados à microbiota intestinal).

Em direção a um modelo preditivo?

Este modelo foi testado numa coorte de modelização (72 indivíduos saudáveis e 120 pacientes com patologia colorretal) e numa coorte de validação independente (53 indivíduos saudáveis e 103 pacientes colorretais anormais) e permite distinguir de forma fiável os pacientes com adenoma e CRC dos saudáveis (área sob a curva de 0,98 e 0,92, respetivamente). Por fim, o modelo foi comparado com outros meios de deteção vulgarmente usados: o antígeno carcinoembrionário (CEA) e o teste imunoquímico fecal (FIT). Enquanto o teste ACE distingue os pacientes dos indivíduos saudáveis na coorte de validação com uma área sob a curva de apenas 0,72, o teste imunoquímico fecal parece também ser inferior ao painel GMSM (sensibilidade de 65,2% contra 83,5%) na separação entre os 2 grupos.

A disbiose intestinal que se observa nos pacientes com CCR estará, portanto, associada a alterações nos metabolitos séricos. A identificação destes marcadores no soro é muito promissora e permite a deteção precoce e não invasiva de pacientes com adenomas ou CCR.

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A microbiota intestinal: uma nova esperança para prevenir a obesidade infantil?

Segundo a OMS1, o flagelo do nosso século foi o facto de quase 40 milhões de crianças com menos de 5 ano terem excesso de peso ou serem obesas em 2019. Para prevenir a obesidade infantil e voltar a equilibrar a balança energética, é habitual incidir-se na alimentação e no exercício físico, algo que é necessário, mas insuficiente. Agora as esperanças voltam-se para a microbiota intestinal, um interveniente fundamental no metabolismo e na comunicação com o cérebro. Desencriptação.

A microbiota intestinal Obesidade

40 milhões quase 40 milhões de crianças com menos de 5 ano terem excesso de peso ou serem obesas em 2019

Microbiota e obesidade: a disbiose na ordem do dia

A microbiota intestinal é um verdadeiro ecossistema microbiano situado nas nossas entranhas, sendo essencial para a nossa saúde. Em relação à obesidade, atualmente sabemos que o facto de existir uma diversidade reduzida na microbiota intestinal e uma sobrerrepresentação de algumas espécies bacterianas aumenta o risco de adiposidade, de resistência à insulina e de inflamação. Desta forma, os pacientes obesos teriam uma flora menos rica do que as pessoas magras, embora os resultados ainda não sejam todos unânimes.

Microbiota e obesidade: os fatores de risco

Além dos fatores genéticos, há outros fatores que contribuiriam para o desenvolvimento de obesidade nas crianças: a alimentação da mãe durante a gravidez, o tipo de parto, a alimentação do bebé (amamentação vs. alimentação ao biberão), tratamento com antibióticos durante a infância... Os mecanismos biológicos através dos quais estes fatores de risco vão influenciar o desenvolvimento de obesidade ainda não estão claramente determinados. No entanto, suspeita-se e dá-se particular atenção à microbiota

Microbiota e obesidade: comprovado pela ciência

Verifica-se que a obesidade é uma doença multifatorial. Como tal, ainda é muito cedo para dizer que há uma relação de causa-efeito exclusiva entre a microbiota e a obesidade no ser humano. No entanto, esta relação está comprovada nos animais, com estudos que demonstram que a característica "obeso" pode ser passada de um rato dador "obeso" para um rato recetor "magro" através de um transplante de microbiota fecal e vice-versa. 

Houve apenas um estudo em que se experimentou transplantar microbiota de pessoas magras para pessoas com excesso de peso. Por enquanto, não se observou nenhuma diminuição do (sidenote: Índice de Massa Corporal (IMC) IMC o Índice de Massa Corporal avalia a corpulência de uma pessoa, estimando a massa gorda do corpo com recurso ao cálculo da relação entre o peso (kg) e a altura elevada ao quadrado (m2) da pessoa. https://www.nhlbi.nih.gov/health/educational/lose_wt/BMI/bmicalc.htm https://www.euro.who.int/en/health-topics/disease-prevention/nutrition/a-healthy-lifestyle/body-mass-index-bmi ) .

Microbiota e obesidade: quando as bactérias controlam o nosso prato e o nosso peso

Qual é a relação entre apetite e obesidade? A relação entre alimentação microbiota e obesidade é complexa. O modus operandi é o seguinte: os alimentos são digeridos, os nutrientes são metabolizados pelas bactérias e as moléculas produzidas, tais como os (sidenote: Ácidos biliares Os ácidos biliares facilitam a digestão e a absorção dos lípidos no intestino. Também exercem funções de tipo hormonal e estão envolvidos em diversos processos metabólicos. A microbiota intestinal vai modificar os ácidos biliares que, por sua vez, vão afetar a composição da microbiota intestinal. Staels B, Fonseca VA. Bile acids and metabolic regulation: mechanisms and clinical responses to bile acid sequestration. Diabetes Care. 2009;32 Suppl 2(Suppl 2):S237-S245.  Li R, Andreu-Sánchez S, Kuipers F, Fu J. Gut microbiome and bile acids in obesity-related diseases. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2021;35(3):101493.  ) , os (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. ) ou outras moléculas, por sua vez, vão dar início a determinados mecanismos que terão impacto na obesidade. Por exemplo, uma microbiota alterada afetará o controlo do armazenamento de gordura e aumentará demasiado a recuperação de energia. O intestino e o cérebro vão deixar de conseguir comunicar corretamente, o que leva à desregulação do apetite e da sensação de saciedade.

Microbiota e obesidade: personalizar a nossa alimentação para prevenir melhor

Verifica-se que a nossa alimentação influencia a composição da nossa microbiota. A microbiota da criança evolui durante os primeiros anos de vida, refletindo o ambiente em que se encontra inserida e a sua alimentação. Para os investigadores, é importante realizar intervenções alimentares neste período. Como? Através dos prebióticos naturalmente presentes nos alimentos e que as bactérias adoram, bem como dos probióticos, que são micro-organismos que podemos ingerir diretamente.

Adaptar a alimentação em função das especificidades da microbiota: esta nova abordagem permite prevenir melhor o risco de obesidade desde a infância. E se esta alimentação personalizada for um aliado de peso na luta contra a obesidade, um flagelo mundial que quase triplicou em meio século1? Continua em aberto o campo das possibilidades e das esperanças...

 

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight

Fontes

Baranowski T, Motil KJ. Simple Energy Balance or Microbiome for Childhood Obesity Prevention? Nutrients. 2021;13(8):2730. Published 2021 Aug 9.  

 

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Cancro da mama, antibióticos e microbiota intestinal: uma combinação perdedora

O recurso a antibióticos é habitual em pacientes com cancro da mama, por exemplo para prevenir infeções oportunistas ou durante períodos de imunodeficiência. Neste estudo, os investigadores demonstram, num modelo de rato com cancro da mama, que os antibióticos, ao induzirem desequilíbrios na microbiota intestinal, podem acelerar o crescimento do tumor.

A microbiota intestinal (MI) tem participação na evolução de certas doenças e de vários cancros. No entanto, existem poucos estudos visando determinar a sua influência no cancro da mama. Por sua vez, os antibióticos têm impacto na população bacteriana da MI. Contudo, a utilização de antibióticos é habitual em pacientes com cancro, apesar de haver controvérsia quanto aos seus benefícios. O que faltava ainda demonstrar? Não existiam investigações que permitissem avaliar os efeitos dos antibióticos na MI e o respetivo impacto na evolução do cancro da mama. Essa lacuna foi agora preenchida através de um estudo em modelo de rato, recentemente publicado em iSciences.

Crescimento acelerado do tumor e depauperamento da microbiota nos ratos tratados com antibióticos

Antes e depois da injeção de células tumorais específicas do cancro da mama, os ratos foram submetidos a um cocktail de antibióticos: vancomicina, neomicina, metronidazol, anfotericina e ampicilina (VNMAA). Relativamente ao grupo de controlo, estes animais exibiram rapidamente um crescimento tumoral significativamente acelerado e um depauperamento considerável da microbiota intestinal.

Os investigadores concentraram-se depois nas consequências de um antibiótico amplamente utilizado em pacientes com cancro da mama: a cefalexina. Ora, embora a cefalexina tenha um impacto mais limitado sobre a microbiota do que o cocktail VNMAA, o aumento no crescimento do tumor foi similar ao induzido por este.

Papel antitumoral de determinadas bactérias intestinais

Nos ratos sob terapia por antibióticos, a metagenómica tornou possível demonstrar a existência de disbiose, não favorável às bactérias patogénicas, mas em detrimento de bactérias protetoras. De facto, os animais tratados com VNMAA e cefalexina apresentaram uma redução da abundância relativa de bactérias que se pensa desempenharem uma função antitumoral: Lactobacillus reuteri, Lachnospiraceae bacterium e Faecalibculum rodentium. A simples reintrodução desta última bactéria tornou possível restaurar o nível de crescimento tumoral anterior.

Os mastócitos, motores do crescimento tumoral em caso de disbiose

As perturbações na microbiota induzidas pelos antibióticos não têm impacto significativo sobre o microambiente imunitário do tumor. Em contrapartida, induzem um aumento do número de mastócitos no estroma tumoral.

Os investigadores trataram os ratos sob terapia antibiótica e os de controlo com cromoglicato, um estabilizador de mastócitos. Embora o cromoglicato mostrasse inibir o crescimento do tumor nos animais tratados com antibióticos, não exerceu qualquer influência sobre os do grupo de controlo. Estes dados sugerem um potencial papel dos mastócitos na evolução do cancro da mama em indivíduos com disbiose induzida por antibióticos.

Ainda que este estudo se concentre num modelo de rato, ele abre novas perspetivas para o tratamento do cancro da mama. É agora essencial compreender de onde vem o referido aumento dos mastócitos, que mudanças ocorrem nestes em resposta à perturbação da microbiota e o que é responsável por induzir essas mudanças e como as promove.

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Microbiota intestinal e quimioterapia: efeitos secundários indesejáveis ou melhor eficácia do tratamento?

Um artigo de análise da literatura avalia as ligações entre a microbiota intestinal e a eficácia e os efeitos secundários indesejáveis da quimioterapia. Explicação.

A quimioterapia melhorou dramaticamente a sobrevivência global dos pacientes com cancro. Em contrapartida, os seus (sidenote: Mais de 87% dos pacientes sob quimioterapia tiveram pelo menos um efeito secundário indesejável. ) continuam a afetar fortemente o respetivo bem-estar físico (vómitos, diarreia, obstipação, fadiga, afrontamentos, etc.) e psicológico (depressão, insónias, problemas cognitivos, etc.). Sem esquecer a incidência de infeções e a morbidade e mortalidade decorrentes, ligadas à imunossupressão. Paralelamente, suspeita-se que a microbiota intestinal esteja associada à eficácia da quimioterapia e aos seus efeitos secundários, embora existam poucos dados disponíveis. Daí esta revisão da literatura abrangendo 17 estudos (ou seja, (sidenote: 5 estudos sobre o cancro colorretal, 3 sobre a leucemia mieloide aguda, 2 sobre o linfoma não-Hodgkin, 1 sobre o cancro da mama, 1 sobre o cancro do pulmão, 1 sobre o cancro dos ovários, 1 sobre o cancro do fígado e os últimos 3 sobre vários outros tipos de cancro. ) ) dedicada à relação entre a microbiota intestinal, a quimioterapia e os efeitos colaterais desta.

Microbiota, eficácia e toxicidade da quimioterapia

Dos 17 estudos examinados, 7 eram de natureza observacional. Três desses estudos avaliaram a ligação entre a microbiota intestinal, a eficácia da quimioterapia e a ocorrência de efeitos secundários recorrendo a amostras fecais colhidas antes da quimioterapia. Os quatro outros averiguaram a associações entre a microbiota intestinal, a quimioterapia e a ocorrência de efeitos secundários pós-quimioterapia usando amostras fecais colhidas após o tratamento. Resultado? A microbiota intestinal está associada à eficácia da quimioterapia e à ocorrência de efeitos colaterais.
 

Os outros 10 estudos, já de natureza prospetiva (permitindo perspetivar relações de causa e efeito), monitorizaram o impacto da quimioterapia na microbiota intestinal (riscos de infeção, diarreia, etc.) durante o tratamento através de múltiplas colheitas de amostras de fezes (antes, durante e/ou após a quimioterapia). E as respetivas conclusões? A quimioterapia modifica a microbiota intestinal das pessoas com cancro. Esse efeito modulador estará associado a um risco acrescido de infeção e exercerá impacto na eficácia do tratamento. Além disso, a disbiose assim induzida parece estar relacionada com os efeitos secundários indesejáveis.

Biomarcação e modulação


Estes resultados abrem amplas perspetivas: a microbiota intestinal não só poderá ser usada como biomarcador para a previsão dos resultados da quimioterapia e dos seus efeitos indesejáveis, como a respetiva modulação durante o tratamento permite a esperança de se poder vir a reduzir os efeitos secundários indesejáveis e melhorar a eficácia do tratamento. Tal esperança é confirmada pelos resultados de alguns estudos de intervenção (prebióticos, atividade física, etc.).


Esta análise das relações complexas entre a microbiota intestinal e a quimioterapia destaca o potencial de pesquisas futuras para se vir a melhorar a prestação de cuidados aos pacientes. E isto mesmo que se saiba da necessidade de realização futura de ensaios multicêntricos internacionais destinados ao fornecimento de dados que tenham em conta os diversos fatores de equívocos (idade, origem étnica, sexo, comorbilidades, drogas, espaço de vivência, dieta, atividade, etc.).

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Quando determinadas bactérias vaginais "marcam na roupa interior" a progressão do cancro do colo do útero

A composição da microbiota do colo do útero altera-se de forma característica no caso de lesões pré-cancerígenas evolutivas. De tal forma que a presença de determinadas bactérias pode levar à suspeita de lesões graves ou até de cancro.

A microbiota vaginal Cancro do estômago

O cancro do colo do útero é o terceiro cancro feminino mais frequente a nível mundial (2.o nas mulheres dos 15 aos 44 anos) e é causado pela persistência do famoso vírus do papiloma humano (HPV), um inimigo público perseguido ativamente nas citologias. De forma geral, o surgimento de um possível cancro é precedido por uma longa fase pré-cancerígena com lesões evolutivas. Os investigadores apresentaram a hipótese de a microbiota vaginal ser um fator influenciador do risco de contaminação pelo HPV, da sua persistência e do desenvolvimento das lesões.

Menos lactobacilos

Ao analisar a microbiota do muco cervical de 94 mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 52 anos, os investigadores provaram que este difere consoante a fase da doença. Quanto mais avançadas estiverem as lesões, maior é a diversidade bacteriana na flora do colo do útero de cada mulher e menor é a predominância dos lactobacilos (bactérias em forma de palitos) que são substituídos por outras bactérias. Contudo, contrariamente à microbiota intestinal, a microbiota vaginal está equilibrada quando apresenta uma diversidade reduzida e uma grande predominância de lactobacilos (> 70% da comunidade bacteriana das mulheres saudáveis). No caso das mulheres com cancro do colo do útero acontece o contrário: máxima diversidade e perda de posição dominante dos lactobacilos.

Microbiota vaginal está equilibrada quando apresenta uma diversidade reduzida!

Saiba mais

Marcadores de lesões avançadas ou de cancro

Segunda observação da equipa: a microbiota vaginal das mulheres com lesões de grau elevado, ou até mesmo cancro, distingue-se cada vez mais daquela das mulheres saudáveis em matéria de leque de bactérias presentes. A existência de novas espécies bacterianas (Porphyromonas, Fusobacterium, Prevotella e Campylobacter) parece estar associada à presença de um cancro cervical, enquanto outras bactérias (Sneathia) indicam a presença de lesões de grau elevado. São as lesões que desequilibram a flora, ou é o desequilíbrio da flora que promove o desenvolvimento de lesões? A relação de causalidade precisa de maior aprofundamento.

De acordo com os investigadores, a presença destas bactérias pode, no futuro, ser analisada como marcador de progressão da doença. A análise da microbiota cervical pode, assim, fazer parte do diagnóstico, ou até mesmo da prevenção e tratamento do cancro do colo do útero. Enquanto esperamos, as citologias regulares continuam a ser a forma de detetar possíveis lesões o mais cedo possível.

Fontes

Wu S, Ding X, Kong Y et al. The feature of cervical microbiota associated with the progression of cervical cancer among reproductive females. Gynecol Oncol. 2021 Sep 6:S0090-8258(21)01314-7.

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