HIV, afeções bucais e microbiota oral: ligações a explorar

Estomatites, gengivites, cáries, doenças periodontais... Mesmo sob tratamento antirretroviral, as pessoas que vivem com o VIH estão particularmente expostas ao risco de doenças que afetam a cavidade oral. As perturbações imunitárias que conduzem a essa vulnerabilidade não estão todas esclarecidas, mas parece haver o envolvimento de uma inflamação persistente e de um desequilíbrio da microbiota oral.

A microbiota ORL
VIH

Por ocasião do Dia Mundial de luta contra a SIDA, a 1 de dezembro, lembremo-nos de que o vírus da imunodeficiência humana (VIH) ataca certos glóbulos brancos, os linfócitos T CD4. O sistema imunitário enfraquecido permite o desenvolvimento de infeções oportunistas, vários tipos de cancro e outras doenças dos órgãos. Hoje, graças à terapia antirretroviral, o número de linfócitos T CD4 pode ser restaurado e a carga viral reduzida para níveis indetetáveis. Infelizmente, no entanto, nem todos os efeitos nocivos da infeção desaparecem. As inflamações que afetam a cavidade oral são, portanto, particularmente vulgares em pessoas que vivem com HIV e costumam estar associadas a um desequilíbrio da microbiótico oral.

Desequilíbrio intestinal envolvido na resposta imunítaria em caso de infeção 

Aquando da infeção pelo VIH, os linfócitos T CD4 ativam-se e posteriormente esgotam-se na luta contra o vírus; o vírus termina por destruir os linfócitos ou por impedir que eles funcionem adequadamente. Além disso, a microbiota intestinal desequilibra-se, o que se designa por disbiose: certas bactérias benéficas (como os (sidenote: Lactobacilos Bactérias em forma de bastonete cuja característica principal é a de produzirem ácido láctico. É por essa razão que se fala em “bactérias do ácido láctico”. 
Estas bactérias estão presentes no ser humano ao nível das microbiotas oral, vaginal e intestinal, mas também nas plantas ou nos animais. Podem ser consumidas nos produtos fermentados: em produtos lácteos, como o iogurte e alguns queijos, e também em outros tipos de alimentos fermentados – picles, chucrute, etc..
Os lactobacilos são também consumidos em produtos que contêm probióticos, com algumas espécies a serem conhecidas pelas suas propriedades benéficas.   W. H. Holzapfel et B. J. Wood, The Genera of Lactic Acid Bacteria, 2, Springer-Verlag, 1st ed. 1995 (2012), 411 p. « The genus Lactobacillus par W. P. Hammes, R. F. Vogel Tannock GW. A special fondness for lactobacilli. Appl Environ Microbiol. 2004 Jun;70(6):3189-94. Smith TJ, Rigassio-Radler D, Denmark R, et al. Effect of Lactobacillus rhamnosus LGG® and Bifidobacterium animalis ssp. lactis BB-12® on health-related quality of life in college students affected by upper respiratory infections. Br J Nutr. 2013 Jun;109(11):1999-2007.
)
) diminuem em favor de outras espécies, incluindo certos agentes (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença. Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) . A infeção agride também a mucosa intestinal, que perde sua impermeabilidade e libera seu conteúdo, causando uma inflamação que se espalha por todo o corpo e danifica órgãos. Surge assim um círculo vicioso, uma vez que essa inflamação vai promover a proliferação do vírus! A terapia antirretroviral precoce permite preservar a integridade da mucosa intestinal e o equilíbrio da microbiota intestinal, mas infelizmente não previne a continuação da inflamação, aumentando provavelmente o risco de afeções orais.

VIH e afeções orais: primeiras hipóteses e soluções

Porque é que a infeção pelo VIH, mesmo controlada  através de tratamento, enfraquece as mucosas orais e aumenta o risco de doenças da boca? Talvez por alterar a produção na saliva de imunoglobulinas A secretoras, anticorpos que são considerados a principal linha de defesa contra os agentes patogénicos orais. Ou também porque a perda de linfócitos T CD4, como acontece na microbiota intestinal, induz a inflamação e a disbiose oral. Mas há poucos estudos que se têm concentrado na análise da composição da microbiota oral das pessoas infetadas com o VIH e os respetivos resultados nem sempre coincidem. Além disso, é atualmente muito difícil avaliar o impacto nas comunidades bacterianas orais do próprio vírus face ao tratamento.

(sidenote: Uma revisão cientifica publicada em setembro de 2021 faz o ponto da situação. ) . Delas depende a possibilidade de desenvolverem terapias para alívio dos sintomas orais dolorosos das pessoas que vivem com o VIH. Já foi proposta a solução «probióticos» para a prevenção das afeções da boca, havendo equipas a trabalhar, nomeadamente, sobre uma espécie bacteriana que origina cáries, visando torná-la menos patogénica. Agora cabe aos cientistas testar a eficácia das cepas probióticas e dos agentes antimicrobianos nas funções imunitárias orais, através de estudos clínicos rigorosos.

Fontes

Coker, Modupe O et al. “HIV-Associated Interactions Between Oral Microbiota and Mucosal Immune Cells: Knowledge Gaps and Future Directions.” Frontiers in immunology vol. 12 676669. 20 Sep. 2021.

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Microbiota: uma rede interligada para a sua saúde!

As pesquisas científicas mais recentes sugerem que nossa microbiota formará uma rede de interconexões entre os intestinos, os pulmões, a pele, a boca e o trato urinário e genital. Ao comunicarem, esses ecossistemas exercerão forte influência na nossa saúde e quanto ao aparecimento de doenças.

Embora seja a mais conhecida, a microbiota intestinal não é a única microbiota que possuímos. Há vários outros ecossistemas microbianos alojados no interior dos nossos órgãos, e essas microbiotas surgem muitas vezes em destaque nas publicações científicas e na comunicação social. A cada novo estudo que é publicado, a sua ação na nossa saúde parece ser mais decisiva. Análise aprofundada no seio dessa vasta “rede”.

Microbiota humana: uma comunidade de microrganismos...

A microbiota humana é o conjunto de todos os microrganismos - principalmente bactérias, mas também vírus e fungos - que habitam nosso corpo. Na sua grande maioria (70%), encontra-se no sistema digestivo, que abriga assim 1,5 quilos de bactérias. Mas há cinco outros órgãos que também (sidenote: Alojam É o organismo que fornece abrigo e cobertura aos germes que o colonizam.  )  microbiota: a pele, a boca, os pulmões, o trato urinário e o trato genital. Os microrganismos da microbiota são (sidenote: Simbióticos Em biologia, é associação estreita e mutuamente benéfica entre dois ou mais organismos diferentes. ) ; nós damos-lhes as condições necessárias para a sua sobrevivência e, em troca, eles contribuem para o bom funcionamento do nosso organismo (digestão dos alimentos, proteção contra as infeções, síntese das vitaminas). Ambas as partes ganham! Uma microbiota equilibrada é a garantia de que nos mantemos de boa saúde. Pelo contrário, uma microbiota desequilibrada é uma situação propícia ao surgimento de várias doenças. Fala-se então de disbiose.

…no seio de uma rede de ecossistemas interligados

Na aparência, os ecossistemas da microbiota encontram-se compartimentados em cada um dos seis órgãos do hospedeiro. Mas isso é só na aparência... Muitos estudos têm demonstrado que o desequilíbrio de um órgão pode repercutir nos outros. Por exemplo, uma microbiota intestinal alterada estará associada a determinadas doenças de pele (dermatite, psoríase) e dos pulmões (asma, bronquite crónica, cancro), e a higiene oral deficiente aumentará o risco de desenvolvimento de infeções pulmonares. Os mais recentes estudos científicos sugerem, portanto, a existência de uma interconexão entre esses diferentes ecossistemas, os quais formam uma rede com um elemento central: o intestino. Falamos de eixos intestino-cérebro, intestino-pele, intestino-pulmões, intestino-boca e intestino-fígado... O intestino canalizará as informações e atuará como um retransmissor perante os ecossistemas periféricos. 

O intestino como única torre de controlo?

Há investigações que sugerem a existência de outras trocas entre as diferentes regiões do corpo sem a participação do intestino, como o eixo pulmão-boca, ou outros ligados à respetiva proximidade anatómica - a microbiota urinária influenciará a microbiota do trato genital. Assim, toda a microbiota distribuída pelos seis órgãos poderá formar uma rede em comunicação constante, influenciando de sobremaneira o nosso estado de saúde.

Perspetivas promissoras para a investigação e para a medicina

A investigação sobre a microbiota encontra-se ainda nos seus primórdios. Para se confirmar a hipótese de uma rede interligada em torno do sistema digestivo e entre os órgãos, são necessários novos estudos que abarquem a microbiota como um todo. No entanto, as respetivas aplicações na medicina parecem ser promissoras: ao restaurarmos o equilíbrio de um ecossistema, poderíamos alterar o de outro órgão doente, o que abre caminho a estratégias de tratamento inovadoras.

Recomendado pela nossa comunidade

"Interessante" - Comentário traduzido de Brian Gorman (Da My health, my microbiota)

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Microbiota humana: uma rede interligada que determina o equilíbrio entre a saúde e a doença?

Uma resenha da literatura publicada em agosto de 2021 na revista Nutrients postula a hipótese de uma organização da microbiota humana sob a forma de uma rede interligada centrada no trato digestivo e entre diferentes regiões do corpo humano. O estudo sugere que a disbiose existente num órgão pode desequilibrar outras microbiotas e contribuir para o aparecimento de múltiplas patologias.

Sabe-se que microbiota humana é um elemento-chave para a saúde do hospedeiro que a aloja. Ela encontra-se repartida pelo trato digestivo (70%), pele, trato respiratório, orofaringe, trato urinário e aparelho genital. Essas várias microbiotas surgem compartimentadas, albergando microrganismos diferentes. No entanto, a disbiose de um órgão parece ter repercussões à distância, gerando patologias metabólicas, inflamatórias, imunológicas, neoplásicas, cognitivas, degenerativas e genéticas. Os autores da referida resenha debruçaram-se sobre os vários eixos de comunicação entre os diferentes locais da microbiota humana, no sentido de explorarem a ligação entre disbiose e patologia.

Microbiota: um sistema de eixos de comunicação centrado na microbiota intestinal?

Eixo intestino-pulmões

Vários estudos relatam a existência de associação entre a disbiose intestinal e doenças respiratórias: infeciosas (tuberculose, pneumopatia), genéticas (fibrose quística), inflamatórias (asma, DPOC) e neoplásicas. A microbiota intestinal difere de acordo com as patologias, mas apresente sempre uma proliferação de Proteobacteria e Firmicutes. O SARS-CoV-2, por outro lado, surge associado a uma disbiose intestinal que pode persistir após a recuperação.

Eixo intestino-fígado

De acordo com um estudo, mais de 50% dos pacientes cirróticos sofrem de proliferação microbiana excessiva no intestino delgado (SIBO, ou Small Intestinal Bacterial Overgrowth) associada a endotoxemia.

Eixo intestino-pele

Vários estudos encontraram uma ligação entre as perturbações da microbiota intestinal e a prevalência da dermatite inflamatória e da psoríase.

Eixo intestino-boca

Alguns estudos revelaram a existência de disbiose oral em pacientes com cancro colorretal e com cirrose hepática. A migração de bactérias periodontais para o intestino poderá ser a respetiva causa. A disbiose oral e a digestiva encontram-se também associadas a patologias sistémicas, em particular à artrite reumatoide e à lúpus.

Eixo boca-pulmões

A microbiota respiratória será formada principalmente mediante a migração de microrganismos orofaríngeos durante as primeiras semanas de vida. Vários estudos associam a disbiose oral com asma e a pneumonia. Além disso, o SARS-CoV-2 acumula-se na cavidade orofaríngea, criando nela um desequilíbrio. Os pacientes com COVID-19 nos cuidados intensivos apresentam maior risco de infeção pulmonar adicional por bactérias da microbiota oral. 

Eixo vagino-urinário

A microbiota urinária e a vaginal são contíguas e comunicam entre si, partilhando múltiplas bactérias. De acordo com um estudo, a microbiota urinária altera-se em caso de vaginose.

Eixo oral-genital-retal

Nas mulheres, as microbiotas retal e vaginal estão ligadas. Algumas microbiotas retais poderão ser consideradas fatores de risco de vaginose bacteriana. Nos homens, observam-se disfunções da microbiota seminal em pacientes inférteis, as quais são associadas a alterações na microbiota retal. As microbiotas dos órgãos genitais dos homens e das mulheres comunicam durante as relações sexuais. Vários estudos relacionam a microbiota com o risco de transmissão de DSTs. A microbiota do pénis influenciará também a ocorrência da vaginose bacteriana. Outros estudos sugerem também a participação de outra microbiota, a microbiota oral, na ocorrência da vaginose bacteriana. Observa-se frequentemente nas pacientes disbiose simultânea da microbiota oral e vaginal.

Mecanismos de comunicação entre as microbiotas

Há vários mecanismos não exclusivos que poderão explicar a interligação entre as diferentes microbiotas:

  • Difusão sistémica de metabolitos imunomoduladores da fermentação de fibras dietéticas, em particular ácidos gordos de cadeia curta (SCFA). Através da corrente sanguínea, esses metabolitos poderão chegar às outras microbiotas. A acumulação de SCFAs no trato respiratório será, por exemplo, responsável pela inflamação pulmonar e pela hipersensibilidade aos alérgenos. 
  • Circulação sistémica de fragmentos bacterianos, especialmente de vesículas extracelulares bacterianas. 
  • Migração de bactérias inteiras:
    • Devido à contiguidade (por exemplo, entre a cavidade oral e o trato respiratório, ou entre o trato urinário e o trato genital).
    • Por penetração sistémica em caso de perda de integridade de uma barreira epitelial (translocação intestinal em especial).

Novas pistas para a investigação

Os autores concluem sua análise aludindo a necessidade de novos estudos para se esclarecer as interligações da microbiota, e em particular a relação de causalidade ou consequência entre a disbiose e as doenças. Futuras investigações multiómicas que integrem dados globais (genomas, transcriptomas, metabolomas, proteomas, microbiomas, fenótipos) permitirão uma melhor compreensão das relações entre a microbiota, os órgãos hospedeiros e a patologia humana, abrindo caminho a novas abordagens terapêuticas.

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Prever a alergia através do mecónio

Uma menor maturação da microbiota intestinal que afete o desenvolvimento imunitário pode ser resultante da vida in utero. O que chegará para identificar precocemente as crianças com risco alérgico. Ou mesmo para prevenir o aparecimento de sensibilidade às alergias?

É imediatamente após o nascimento que começa a maturação da microbiota intestinal. Essa maturação continua durante os primeiros anos, paralelamente à do sistema imunitário. Ora, o estabelecimento dessa flora intestinal e o desenvolvimento imunitário desempenham parte ativa nas alergias, havendo, para cada uma delas, a suspeita de fatores influenciadores pré-natais. O mecónio, primeiras fezes do bebé, contém metabolitos produzidos ainda in utero. Reflexo das influências perinatais, uma vez que se forma a partir da 16.ª semana de gestação, representa também o substrato de base para a microbiota inicial da criança. Daí este estudo tentar relacionar as assinaturas metabólicas do mecónio, a maturação da microbiota e o desenvolvimento do sistema imunitário.

Menos maturação, mais atopia

Após terem analisado (ARNr 16s) as fezes recolhidas aos 3 meses e 1 ano de 950 crianças da coorte canadiana Child (Canadian Healthy Infant Longitudinal Development), os investigadores chegaram a um primeiro balanço: a microbiota intestinal dos futuros pacientes alérgicos está menos madura, mesmo antes do surgimento da atopia. Assim, os 212 lactentes que com 1 ano de idade viriam a surgir com atopia apresentavam, a partir dos 3 meses, uma microbiota menos madura do que a dos lactentes que não se tornaram atópicos. A abundância relativa de 13 dos 15 taxa mais envolvidos na maturação da microbiota era reduzida nos bebés atópicos.

Influência das exposições pré-natais

Para compreenderem a origem dessa diferença de maturação, os investigadores voltaram atrás no tempo e analisaram, num subgrupo de 100 crianças, amostras de mecónio. Foi lá que puderam observar uma menor diversidade bacteriana nos futuros atópicos. A diversidade metabólica também surgia reduzida, com menos moléculas associadas ao metabolismo dos aminoácidos, vitaminas e hormonas. Isto sugere a existência, desde o nascimento, de diferenças que influenciam o desenvolvimento da microbiota e, em última instância, o próprio desenvolvimento imunitário. Assim, a atopia aos 12 meses de idade estará associada a um mecónio metabolicamente menos rico no momento do nascimento e a uma redução na diversidade e na maturação da microbiota no início da vida. Tal sugere um possível mecanismo de ação: os metabolitos do mecónio, reflexo da exposição pré-natal, seriam metabolizados e fermentados pelas bactérias. Assim, a microbiota intestinal no início da vida, e, consequentemente, o desenvolvimento imunitário, poderão sofrer o impacto da vida intrauterina.

O mecónio não é estéril:

Prevenir... e prever?

Uma melhor compreensão das determinantes pré-natais da composição do mecónio e dos efeitos diretos e indiretos dos seus metabolitos no desenvolvimento imunitário e na colonização bacteriana nos recém-nascidos poderá, em última instância, permitir a prevenção do aparecimento de sensibilidade às alergias. Ou também prever esse risco através das assinaturas metabólicas, embora os primeiros testes dos investigadores (combinando dados do mecónio com dados clínicos da mãe e da criança) apresentem resultados que, embora certamente encorajadores, não são ainda suficientemente precisos.

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Publicações científicas: o estranho caso do Dr. Ciência e Mr. Fraude

O mundo das publicações científicas, indispensável à partilha dos resultados da investigação, é hoje em dia atormentado por dois males: as revistas predatórias e as fábricas de artigos.
Análise de um mundo sem lei nem fé.

Em investigação científica, é a publicação de artigos que permite aos investigadores partilharem as suas descobertas. Há um sistema de revisões cruzadas que garante a qualidade dos trabalhos publicados: qualquer artigo científico numa revista digna desse nome tem de ter sido revisto por outros especialistas nessa área, que podem recusar a publicação se o julgarem incorreto ou sem interesse, podem pedir ao autor melhorias ou explicações, etc. Mas…

Revistas predatórias (predatory journals)

Há revistas que disso só têm o nome: são as revistas predatórias. O seu princípio é simples: o autor paga para ser publicado, não importa a qualidade do artigo. Problema: os próprios investigadores são por vezes enganados, tanto enquanto autores (algumas revistas não predatórias pedem uma contribuição para os custos de publicação), como na qualidade de leitores desses artigos, que eles imaginam serem corretamente sujeitos a revisão por pares. Já em 2012, o americano Jeffrey Beall denunciou essas revistas1,2 propôs uma lista de critérios para as reconhecer (aceitação demasiado rápida de artigos, etc.) e elaborou uma lista dessas ovelhas negras3. Desde então, vários coletivos retomaram o testemunho, incluindo predatoryjournals.com. Para denunciar a extensão dessas práticas, alguns autores chegam a apresentar artigos incríveis: por 55 dólares, autores franco-suíços ridicularizaram uma dessas revistas ao conseguirem a publicação de um artigo alucinante assinado por coautores fictícios, de institutos inexistentes e com nomes sugestivos (Institute for Quick and Dirty Science), usando uma metodologia absurda, com conclusões delirantes (enriquecer o sal de mesa com hidroxicloroquina para reduzir acidentes de trotinete) e apresentando uma bibliografia disparatada.

Fábricas de artigos (paper mills)

E como se esse mal não bastasse, há uma segunda praga assola a publicação científica: as fábricas de artigos (paper mills). Estas fornecem a autores com falta de inspiração, de tempo e de ética, mas que desejam promover as suas carreiras mediante pagamento, artigos prontos a usar cujos dados são totalmente inventados. Como esses artigos podem ser publicados em revistas clássicas (e não apenas em revistas predatórias), torna-se difícil identificá-los. A fraude terá já assumido proporções industriais, podendo atingir os milhares ou dezenas de milhares de artigos4.

A resistência organiza-se

A comunidade científica está a organizar-se para lutar também contra este segundo flagelo. Com cientistas, como a microbiologista Elisabeth Bik5, a assumirem o papel de detetives voluntários. Ao procurar imagens demasiado semelhantes para serem verídicas, ela denunciou no seu blog6, em 2020, 400 artigos presumivelmente de uma única fábrica de artigos chinesa. O Irão e a Rússia estão igualmente no banco dos réus. Na sequência disso, os editores estão a examinar os artigos denunciados, retirando muitos deles ou anexando-lhes a uma menção de "preocupante"7. Os editores sérios têm também mais cuidado com os novos pedidos de publicação, não hesitando em pedir aos autores os dados brutos para poderem validar a veracidade dos estudos realizados.

400 artigos presumivelmente de uma única fábrica de artigos chinesa

Dada a magnitude destes dois fenómenos, a prudência e o sentido crítico permanecem na ordem do dia, porque qualquer pessoa pode ser enganada. Ciente de tais fraudes, o Biocodex Microbiota Institute dedica o maior cuidado à escolha dos artigos que coloca em destaque no seu site.

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Burla, (falsa) ciência e publicações

A publicação de artigos científicos, indispensável à investigação, enfrenta atualmente dois males: as revistas predatórias e os artigos manipulados. Explicação. 

Parecem-se com artigos ou revistas científicas, pelo menos na forma... mas não são nem uma coisa nem outra digna desse nome. Hoje, dois males assolam o mundo da publicação científica: revistas “falsas” e artigos “falsos”. 

Revistas predatórias (predatory journals)

O princípio das revistas predatórias é simples: publicam artigos porque os respetivos autores lhe pagam para o fazer, e não devido à qualidade desses artigos. Tal permite a alguns autores a publicação de resultados medíocres sem qualquer mérito. Permite também a grupos de interesses dar destaque a estudos que sabem ser tendenciosos ou falsificados, no sentido de promover o produto ou o setor por eles representado (por exemplo um medicamento). Problema: é difícil reconhecer essas revistas predatórias porque se parecem como duas gotas de água com as verdadeiras, das quais plagiam por vezes até o nome. E isto a tal ponto que enganam bons cientistas, quer fazendo com que permitam a publicação nelas de bons artigos, quer levando-os a deixarem-se influenciar pelos maus que leem. Felizmente, há listagens on-line dessas revistas predatórias (mais de 14.000 títulos recenseados no início de 2021), publicadas por associações e por investigadores que não deixam de as perseguir, como https://predatoryjournals.com.

Fábricas de artigos (paper mills)

Além dessas "revistas falsas", há também "artigos falsos" escritos por "fábricas" cujo trabalho é fornecer ao preço da chuva artigos prontos a usar a autores em busca de inspiração ou de promoção na carreira. O problema é que, frequentemente, os resultados científicos são quase totalmente inventados e os dados em que se baseiam inteiramente errados. De tal forma que é possível ler aqui e ali, mesmo em revistas muito boas e que foram enganadas, artigos sobre o cancro, por exemplo, cujos dados são pura ficção científica.

14.000 Mais de 14.000 títulos recenseados no início de 2021

400 Mais de 400 artigos de investigação falsos que foram publicados

Elisabeth Bik, uma microbiologista holandesa especializada em integridade científica (e em microbiota!), identificou mais de 400 artigos de investigação falsos que foram publicados na China por apenas uma dessas fábricas de artigos1. Por isso, e embora os investigadores persigam implacavelmente essas ovelhas negras da publicação científica, é necessário cautela, porque qualquer pessoa pode ser enganada. Ciente de tais fraudes, o Biocodex Microbiota Institute dedica o maior cuidado à escolha dos artigos que coloca em destaque no seu site.

Criadora dos blogs Integrity Digest (sobre integridade científica) e Microbiome Digest (sobre a investigação no domínio da microbiota).

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Síndrome do cólon irritável: o transplante de microbiota fecal é eficaz a longo prazo

Este estudo de acompanhamento1 confirma que os efeitos benéficos do transplante de microbiota fecal recorrendo a um único "super-doador" se mantêm, um ano após o tratamento, no que respeita aos sintomas da síndrome do intestino irritável e à melhoria da qualidade de vida.

SII

Depois de terem demonstrado, no decurso de um estudo anterior2, que o transplante de microbiota fecal (TMF) era eficaz durante 3 meses na melhoria dos sintomas abdominais, da fadiga e da qualidade de vida em pacientes com Síndrome do Cólon Irritável (SCI), os investigadores decidiram prolongar o acompanhamento da sua coorte durante um ano para avaliar os efeitos a longo prazo. Esse é o objeto deste novo estudo.

Os benefícios mantêm-se passado 1 ano 

Entre os pacientes com SCI, 77 dos 91 pacientes que apresentaram resposta ao TMF no estudo anterior (redução ≥ 50 pontos no critério de avaliação da gravidade da SCI) foram acompanhados durante 1 ano após o TMF. Entre esses pacientes, 31 deles haviam recebido um transplante de fezes de 30 g e 40 outros de 60 g, de um único "super-doador".

"Super-doador"

 Com 36 anos de idade, este homem caucasiano foi qualificado de "super-doador" por estar de boa saúde, ter um IMC normal e fazer regularmente exercício. Tinha nascido de parto natural e sido amamentado. Não tomava qualquer medicamento, tinha recebido apenas três tratamentos com antibióticos ao longo da vida e tomava regularmente suplementos alimentares.

Um ano após o TMF, 86,5% dos pacientes do grupo dos 30 g e 87,5% do grupo dos 60 g mantiveram a resposta ao transplante; além disso, os sintomas abdominais e a fadiga surgiram significativamente menos graves e a qualidade de vida significativamente melhor após 1 ano do que após 3 meses. Paralelamente, 32,4% dos pacientes do grupo de 30 g e 45% do grupo de 60 g apresentaram remissão completa ao fim de 1 ano, em comparação com 21,6% e 27,5% (respetivamente) após 3 meses (p = 0,1 e p = 0,4, respetivamente). Todos os pacientes com recidivas (n = 10) utilizavam medicação regularmente. Não existiram diferenças nas taxas de resposta e de melhoria dos sintomas entre homens e mulheres, nem entre os diferentes subtipos de SCI.

Melhoria da diversidade bacteriana intestinal

Embora o índice de disbiose (ID) não tivesse melhorado no estudo anterior um mês após o TMF, isso alterou-se passado um ano, sinal do aumento da diversidade bacteriana. Nos grupos de 30 g e de 60 g, a abundância de várias bactérias aumentou significativamente um ano depois do TMF; a abundância de Bacteroides stercoris e Alistipes spp., bem como de Bacteroides spp. e Prevotella spp., surgiu inversamente correlacionada com a gravidade da SCI e da fadiga do paciente em ambos os grupos, tal como a de Parabacteroides spp. para o grupo de 60 g. Nenhum marcador bacteriano apareceu significativamente alterado no grupo de pacientes com recidiva clínica um ano após o TMF. Por outro lado, os ácidos gordos de cadeia curta fecais também se alteraram - aumento dos ácidos isobutírico e isovalérico, diminuição do ácido acético - nos pacientes em remissão completa e nos que apresentaram resposta, sugerindo que o metabolismo microbiano mudou de um padrão de fermentação sacarolítica para outro de fermentação proteolítica nestes pacientes um ano após TMF. 

Além de leves dores abdominais intermitentes, diarreia e obstipação que ocorreram durante os primeiros dois dias após o TMF, nenhum evento adverso foi comunicado durante o período de acompanhamento. Tal como o primeiro estudo, o TMF confirma seu potencial. Parece assim ser altamente promissor  para o tratamento a longo prazo dos sintomas da SCI e para a restauração da microbiota intestinal. 

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Antibióticos: fator de perturbação no desenvolvimento neurológico dos bebés?

Os antibióticos são muitas vezes indispensáveis ao tratamento de certas infeções desde a mais tenra idade. Mas, ao desequilibrarem a microbiota, será que poderão influenciar o desenvolvimento do sistema nervoso da criança e contribuir para certas doenças como o autismo?
Um recente estudo experimental1 em ratos fornece respostas iniciais - que são cautelosas.

A microbiota intestinal Transtornos do espetro do autismo 6 coisas essenciais sobre os antibióticos

Aquilo que designamos por perturbações do desenvolvimento neurológico (PDN), como o autismo ou a perturbação de défice de atenção com ou sem hiperatividade (PHDA ) deve-se a distúrbios que ocorrem nos primeiros meses de vida, quando o sistema nervoso central (cérebro, nervos, medula espinal, etc.) se encontra ainda em construção. A sua origem ainda é pouco conhecida, mas sabe-se que há múltiplos fatores genéticos e ambientais que entram em jogo no seu aparecimento. E se os antibióticos fossem um deles? 

Antibióticos

Salvaram milhões de vidas, mas a sua utilização excessiva e inadequada suscitou agora sérias preocupações para a saúde, nomeadamente com a resistência aos antibióticos e a disbiose microbiota. Todos os anos, a OMS organiza a Semana Mundial de Conscientização Antimicrobiana (WAAW) para aumentar a consciência sobre a resistência antimicrobiana. Vamos ver esta página. 

Antibióticos: que impacto na microbiota e na saúde?

Saiba mais

O eixo intestino-cérebro em questão

Há muitas pistas que poderão indicar isso, de acordo com cientistas americanos. De facto, as PDN têm aumentado claramente nas últimas décadas, enquanto os antibióticos só se encontram disponíveis desde o pós-guerra. Nos Estados Unidos, as crianças tomam antibióticos, em média, três vezes antes dos 2 anos, um período crítico para o desenvolvimento neurológico. 

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WMD_quiz periodo perinatal_PT

Sabe-se também que o intestino é nosso "segundo cérebro": existe um "eixo" de comunicação bioquímica entre os dois órgãos. Pesquisas recentes tendem a sugerir que os antibióticos tomados durante a infância perturbam a microbiota intestinal ainda em construção e que as disbioses estão associadas a várias doenças, inclusivamente neurológicas ou psiquiátricas.2 

Os investigadores administraram, portanto, doses muito baixas de antibióticos da família da penicilina em ratinhos recém-nascidos durante 3 semanas. Ao compararem a sua microbiota com a de ratinhos não tratados, observaram uma alteração na respetiva flora intestinal, em particular uma diminuição das bactérias “boas”, os lactobacilos. Mas, além disso, identificaram 74 genes no seu córtex frontal e 23 genes na amígdala apresentando diferenças na sua atividade. Ora, essas duas partes do cérebro têm forte participação nas funções emocionais e cognitivas, mas também são altamente vulneráveis a perturbações iniciais. Os investigadores conseguiram ainda demonstrar a ligação entre certos microrganismos da microbiota e expressões genéticas nessas zonas do cérebro.

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Dysbiose pathologies PT

O papel e o impacto dos antibióticos no desenvolvimento neurológico das crianças necessitam ainda de ser explorados 

A toma de antibióticos muito cedo na vida, mesmo que em doses reduzidas, pode, por conseguinte, ter efeitos na atividade de certos genes em áreas do cérebro do rato (córtex frontal e amígdala), as quais, nos seres humanos, têm participação nas PDN. Mas os cientistas mostram-se cautelosos: não determinaram com toda a certeza se essas mudanças na expressão genética eram diretamente decorrentes dos antibióticos ou dos respetivos efeitos na microbiota. Também ficou ainda por provar se essas alterações são importantes para o desenvolvimento neurológico. E, é claro, os resultados obtidos em ratos não são necessariamente transponíveis para o ser humanos: servem, sobretudo, para abrir caminho para novas investigações.

O que é a Semana Mundial de Sensibilização para os Antimicrobianos?

Todos os anos, desde 2015, a OMS organiza a Semana Mundial da Conscientização Antimicrobiana (WAAW), que tem como objetivo aumentar a sensibilização para a resistência antimicrobiana mundial.

A resistência antimicrobiana ocorre quando as bactérias, vírus, parasitas e fungos alteram-se com o tempo e já não respondem aos medicamentos. Como resultado da resistência aos medicamentos, os antibióticos e outros medicamentos antimicrobianos tornam-se ineficazes e as infeções tornam-se cada vez mais difíceis ou impossíveis de tratar, aumentando o risco de propagação de doenças, doenças graves e morte.

Realizada entre 18 e 24 de novembro, esta campanha incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizar cuidadosamente antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasíticos, de forma a evitar o surgimento futuro de resistência antimicrobiana. 

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Aspirina: efeito antibiótico no cancro colorretal?

Conhecida pelos seus efeitos anti-inflamatórios, a aspirina também manifesta ação antibiótica face a certas bactérias envolvidas no cancro colorretal. Ao ponto de prevenir, in vitro e in vivo, a tumorigénese.

O conhecimento das correlações clínicas e dos potenciais papéis mecanicistas de certos microrganismos do intestino e da microbiota tumoral no início, progressão e sobrevivência do cancro colorretal (CCR) está a avançar. Mas ainda há um longo caminho a percorrer antes de se chegar a abordagens diagnósticas, preventivas ou terapêuticas que envolvam a microbiota. Mais um passo acaba, contudo, de ser dado: uma equipa demostrou que a aspirina, um quimiopreventivo recomendado pela (sidenote: United States Preventive Services Task Force Um painel independente e voluntário de especialistas nacionais em prevenção de doenças e em medicina baseada em evidências. 
 
)
para a profilaxia do CCR, exerce efeitos específicos sobre a (sidenote: Fusobacterium nucleatum Presença acrescida nos adenomas do cólon e CCR do ser humano, responsável pela proliferação tecidual in vitro e nos modelos animais.  ) , uma bactéria associada à doença.

Efeito in vitro e in vivo

Investigadores americanos acabaram de demonstrar que a aspirina interrompe o crescimento da cepa Fn7-1 de F. nucleatum ou pode mesmo matá-la, in vitro, em culturas de tecidos de adenomas do cólon humano. Em doses que não inibem o crescimento bacteriano, a aspirina influencia a expressão genética de Fn7-1: 55 genes são sobrerregulados e 155 são subregulados.

Foram também realizadas experiências in vivo pelos investigadores a fim de avaliar a relevância da modulação de F. nucleatum pela aspirina. Num modelo de rato, foi inoculada diariamente Fn7-1 por via oral para induzir um tumor intestinal: uma dieta enriquecida com aspirina bastou para inibir a tumorigénese observada nos ratos em comparação com a que não recebeu aspirina. O efeito protetor da aspirina também foi encontrado relativamente a outras cepas de F. nucleatum, incluindo algumas isoladas de tecidos CRC humanos, revelando-se estas mais sensíveis do que a cepa Fn7-1. Em contrapartida, o efeito protetor revelou-se muito mais moderado face a outras bactérias associadas ao CCR, como a Bacteroides fragilis enterotóxica e a Escherichia coli produtora de colibactina.

Finalmente, uma (sidenote: PCR quantitativa Método específico de PCR (reação em cadeia da polimerase) que permite medir a quantidade inicial de ADN. 
 
)
realizada no ADN de adenomas de pessoas que tomam aspirina diariamente, mostrou uma abundância 2 a 3 vezes menor de fusobactérias nesses tecidos em comparação com a dos pacientes do grupo de controlo. Este resultado sugere que o efeito modulador observado in vitro se verifica no ser humano.

Efeito antibiótico além do efeito anti-inflamatório

O conjunto destes dados confirma a atividade antibiótica direta da aspirina contra as cepas de F. nucleatum. O seu efeito protetor nos adenomas e no cancro colorretal excede, portanto, o seu papel anti-inflamatório. Parece promissor ter em consideração os efeitos da aspirina na microbiota para se otimizar a avaliação do risco/benefício da sua utilização na prevenção e tratamento do CCR. No entanto, o efeito anti-inflamatório da aspirina não é provavelmente suficiente para interromper a tumorigénese em sua totalidade. Portanto, continuam a ser necessários mais estudos antes de se perspetivar a sua utilização para melhorar o prognóstico do CCR, que é a segunda causa de morte por cancro em todo o mundo.

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