Os antibióticos favorecem o crescimento de fungos: este facto parecia ser um dado adquirido. No entanto, a amoxicilina-ácido clavulânico reduz a carga fúngica da micobiota intestinal, segundo sugere um estudo publicado na revista Microbiome. Esse efeito surpreendente, provavelmente ligado a um aumento das espécies Enterobacteriaceae, lança luz sobre o delicado equilíbrio entre as microbiotas bacteriana e fúngica nos intestinos.
Os fungos foram durante muito tempo negligenciados nos estudos sobre a microbiota intestinal (MI) em favor dos respetivos microrganismos maioritários, as bactérias. As suas relações com as comunidades bacterianas do trato intestinal e o impacto dos antibióticos na micobiota intestinal continuam a ser pouco conhecidos. Investigadores franceses debruçaram-se sobre o assunto, estudando o efeito da amoxicilina-ácido clavulânico (AMC) na MI bacteriana e fúngica de ratos e de lactentes.
Uma quebra inesperada, dependente dos antibióticos, na carga fúngica intestinal
O estudo que realizaram em ratos convencionais demonstrou, conforme o esperado, que a AMC administrada durante 10 dias reduzia a quantidade de bactérias presentes nas fezes e nos intestinos. Mas o tratamento também reduziu significativamente a população total de fungos em comparação com os controlos, o que já foi muito mais surpreendente! Um "cocktail" de antibióticos de largo espetro (ampicilina, metronidazol, neomicina, vancomicina [VA], etc.) apresentou o mesmo impacto. No entanto, quando os ratinhos receberam um transplante de microbiota fecal (TMF) de um adulto saudável, a resposta da micobiota ao tratamento revelou-se dependente do antibiótico: a carga fúngica foi efetivamente reduzida com AMC, mas aumentou com VA. Paralelamente, os investigadores analisaram 19 amostras de MI de 7 bebés com idades compreendidas entre os 2 e os 4 meses tratados com amoxicilina (AMX) devido a otite média: este antibiótico, muito semelhante ao AMC, reduziu igualmente a carga bacteriana e fúngica entre o início e o fim do tratamento.
Equilíbrio bacteriano e fúngico alterado pela amoxicilina-ácido clavulânico
Os investigadores verificaram que a diversidade alfa e beta da população fúngica nas fezes dos ratinhos convencionais tratados com AMC tinha diminuído, embora a proporção de Aspergillus, Cladosporium e Valsa tenha aumentado em comparação com os ratinhos não tratados. A diversidade alfa bacteriana foi igualmente reduzida, mas a análise diferencial revelou uma mudança nas famílias bacterianas da MI após o tratamento, com um aumento de Enterobacteriaceae.
Suspeitando da existência de uma ligação entre o aumento desta família de bactérias e a redução da carga fúngica, os investigadores incubaram com S. cerevisiae 13 isolados bacterianos provenientes das fezes de ratinhos tratados com AMC: 9 inibiram o crescimento de leveduras, sendo todas Enterobacteriaceae. Estas Enterobacteriaceae, em particular E. hormaechei, reduziram também a proliferação de Candida albicans. Além disso, em ratinhos submetidos a transplante de microbiota fecal (TMF) humana, a colistina, que tem precisamente como alvo as Enterobacteriaceae, aumentou a carga fúngica intestinal. Após mais testes in vitro e in vivo que lhes permitiram observar as interações entre as bactérias intestinais e os fungos, os investigadores concluíram que as Enterobacteriaceae estavam, pelo menos em parte, envolvidas na disbiose da micobiota intestinal causada pela AMC. Poderá haver vários mecanismos em jogo, entre os quais o da competição entre estas bactérias e os fungos por certos nutrientes.
O fim de um paradigma?
Embora concentrado em ratos e numa pequena coorte de bebés, este estudo vem colocar em causa um equívoco comum: nem todos os antibióticos promovem a proliferação de fungos na MI. A amoxicilina-ácido clavulânico, um antibiótico amplamente receitado, reduz a abundância global da população fúngica intestinal, remodelando simultaneamente a composição da MI em termos de espécies fúngicas e bacterianas. Esta investigação revela também as ligações estreitas entre as comunidades bacterianas e os fungos da microbiota intestinal, através das alterações complexas que os antibióticos podem induzir no equilíbrio das respetivas populações. A confirmação destes resultados em coortes mais alargadas poderá provocar alterações na prática clínica, particularmente em situações em que a micobiota desempenhe um papel importante na saúde do paciente.
O que é a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM?
Realizada entre 18 e 24 de novembro, esta campanha incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizarem cuidadosamente os antimicrobianos, a fim de evitar o surgimento de uma maior resistência aos antimicrobianos.
Será a terapêutica de substituição de estrogénio proposta às mulheres na menopausa e com depressão uma abordagem que trata a consequência (a diminuição da taxa de estradiol) mas não a verdadeira causa? A responsável poderá ser uma bactéria intestinal.
Não somos todos iguais perante a depressão: as mulheres são duas vezes mais afetadas do que os homens, sem dúvida em consequência das diferenças hormonais. Foi demonstrado em ratos que a diminuição da taxa de estradiol induzia um síndrome depressivo. O estradiol é excretado por via biliar no sistema digestivo e parcialmente reabsorvido. Em estudos anteriores foi demonstrado que a passagem das hormonas esteroides em contacto com a nossa microbiota digestiva pode afetar o seu nível sérico. Para obter mais informações sobre os mecanismos em causa, uma equipa chinesa acompanhou 91 mulheres com depressão, na casa dos 30 anos, e 98 mulheres sem depressão.
A microbiota responsável
Os resultados demonstram que, em mulheres com depressão, os níveis de estradiol são significativamente inferiores (54 pg/mL vs 95 pg/mL). E a sua microbiota poderá ser a responsável: in vitro, no período de 2 horas, a microbiota de 5 mulheres com depressão revelou-se capaz de degradar 77,8 % dos 100 mg/L de estradiol administrados, contra apenas 19,3 % degradados pela microbiota de 5 mulheres sem depressão. Noutra experiência, o transplante desta “microbiota depressiva” para ratos foi suficiente para baixar os níveis de estradiol sérico dos roedores e a sua moral.
Duas vezes
As mulheres têm cerca de duas vezes mais probabilidades de sofrer de depressão do que os homens.
mais de 100 anos
A ideia de uma ligação entre o estradiol e a depressão nas mulheres foi proposta há mais de 100 anos.
3 a 4%
das mulheres apresentam uma descida dos níveis de estradiol que não se deve à menopausa, à amamentação ou à gravidez.
Klebsiella aerogenes na linha de mira
A resposta a esta degradação será a bactéria Klebsiella aerogenes. Uma experiência confirma: os ratos que consumiram K. aerogenes apresentam níveis de estradiol reduzidos e sintomas depressivos. A administração de um antibiótico ao qual a bactéria é sensível é suficiente para suprimir os sintomas. Tudo indica que a K. aerogenes degrada o estradiol. Por outro lado, a bactéria pode apresentar o gene que codifica a enzima responsável por esta degradação. E, no caso das mulheres com depressão, esta bactéria e esta enzima são mais abundantes. Mas a K.aerogenes poderá não ser a única bactéria intestinal capaz de produzir esta enzima. Outras bactérias, tais como a Bacteroides thetaiotaomicron e a Clostridia, poderão também estar envolvidas.
Determinação do tipo de bactérias
Estes primeiros resultados podem abrir novas vias de tratamento para a redução da depressão em mulheres: a terapêutica de substituição de estrogénio. De acordo com os autores, as bactérias degradam o estradiol no intestino e ver quais são as enzimas expressas por estas bactérias poderá ajudar a definir melhor os alvos.
E se a depressão nas mulheres em idade fértil e na pré-menopausa se resumisse a uma ou algumas bactérias? É esta a tese dos investigadores, que identificaram microrganismos da microbiota intestinal capazes de deteriorar o estradiol e, com esta hormona, o nosso estado de espírito e a nossa saúde.
Pela sua natureza, as mulheres, sem problemas hormonais específicos, desde a puberdade até à menopausa, estão sujeitas a uma variação hormonal mensal.
O resultado é um estado de espírito irregular. Uma das hormonas envolvidas é o estradiol, que aumenta durante a primeira metade do ciclo e depois diminui. Isto explica o pico da libido aquando da ovulação (quando esta hormona está no auge), um estado de espírito elevado durante a gravidez (níveis recorde) e a lentidão sentida na segunda metade do ciclo. Mas isso não é tudo. Nas mulheres com depressão e na pré-menopausa, os níveis de estradiol no sangue são quase duas vezes mais baixos do que nas mulheres da mesma idade sem sentimentos de tristeza. E o trabalho meticuloso de uma equipa chinesa parece apontar o dedo a uma responsável por estes problemas : a bactéria intestinal Klebsiella aerogenes.
Quando a microbiota desativa as nossas hormonas
Com efeito, em boas condições de saúde, o estradiol é uma hormona que segregamos no nosso sistema digestivo através da bílis, que depois reabsorvemos. No entanto, durante esse percurso intestinal, a hormona entra em contacto com a nossa microbiota local. Porém, determinadas bactérias, nomeadamente a K. aerogenes, são capazes de produzir uma molécula chamada 3b-hidroxiesteróide desidrogenase (3b-HSD), uma enzima que tem por efeito cortar quimicamente o estradiol e desativá-lo.
Efetivamente, as 91 mulheres na casa dos 30 anos com depressão na pré-menopausa que aceitaram participar na experiência tinham na sua flora intestinal uma quantidade superior desta bactéria e desta enzima do que as 98 mulheres da mesma idade, mas sem depressão. E quando a sua microbiota intestinal é misturada (sidenote:
In vitro
Experiência efetuada num tubo de ensaio, fora de um organismo vivo
) com estradiol, ocorre uma deterioração de ¾ em apenas duas horas… Ao passo que a microbiota das mulheres sem depressão destrói quatro vezes menos. Por fim, o transplante da microbiota de mulheres com depressão na pré-menopausa, ou simplesmente da bactéria K. aerogenes, para ratos é suficiente para tornar os roedores depressivos.
Duas vezes
As mulheres têm cerca de duas vezes mais probabilidades de sofrer de depressão do que os homens.
mais de 100 anos
A ideia de uma ligação entre o estradiol e a depressão nas mulheres foi proposta há mais de 100 anos.
3 a 4%
das mulheres apresentam uma descida dos níveis de estradiol que não se deve à menopausa, à amamentação ou à gravidez.
Cortar o mal pela raiz
Esta investigação, que revela o envolvimento da microbiota na depressão das mulheres em pré-menopausa e os mecanismos envolvidos, poderia pôr em causa a responsabilidade das mulheres com depressão e a sua saúde. Atualmente, é-lhes proposto um tratamento de "substituição hormonal", que consiste em tomar um suplemento de estrogénios. No entanto, a causa destes problemas de saúde, nomeadamente as bactérias presentes na microbiota intestinal e responsáveis pela degradação desta hormona, não está a ser tratada. Por conseguinte, existe o risco de recaída quando o tratamento é interrompido. Para os autores, é necessário cortar o mal pela raiz: atacar diretamente as bactérias que deterioram o estradiol no intestino, até mesmo as enzimas expressas por essas bactérias.
Não há necessidade de se fazer exercícios físicos intensos para se ter uma microbiota saudável. O que importa é movermo-nos pelo menos 2h30 por semana... e tentarmos manter a linha! É isto o que um novo estudo acaba de colocar em evidência.1
Sabia-se que os grandes atletas tinham uma microbiota diferente da das pessoas mais sedentárias e que a atividade física intensa modificava significativamente a flora intestinal.
Mas qual é o efeito para a saúde de uma atividade física mais moderada? E esse efeito é o mesmo se a pessoa for magra ou tiver excesso de peso?
Várias centenas de participantes voluntários
Para responder a estas questões, uma equipa de investigadores canadianos e de institutos europeus recrutou 350 homens e mulheres com idades compreendidas entre os 38 e os 65 anos e dividiram-nos em dois grupos: um composto por voluntários com peso normal ( (sidenote:
Índice de Massa Corporal (IMC)
IMC o Índice de Massa Corporal avalia a corpulência de uma pessoa, estimando a massa gorda do corpo com recurso ao cálculo da relação entre o peso (kg) e a altura elevada ao quadrado (m2) da pessoa.
https://www.nhlbi.nih.gov/health/educational/lose_wt/BMI/bmicalc.htm
https://www.euro.who.int/en/health-topics/disease-prevention/nutrition/a-healthy-lifestyle/body-mass-index-bmi) entre 18,5 e 25) e outro apenas com pessoas com excesso de peso (IMC entre 25 e 30, portanto, não obesas).
Os cientistas perguntaram-lhes que tipo de atividade física praticavam diariamente: ligeira (caminhar, lavar a louça ou cozinhar...), moderada (caminhada rápida, jardinagem, ciclismo, badminton...) ou intensa (trabalhos pesados, corrida, musculação, basquetebol, futebol...).
O número de horas dedicadas a estas atividades foi igualmente anotado relativamente a cada participante (menos de 2h30, entre 2h30 e 8 h ou mais de 8 h).
Por fim, os investigadores recolheram as fezes de todos os participantes para analisar a respetiva microbiota intestinal.
Atividade física: o que é que a OMS recomenda?
É ponto assente que a atividade física é essencial para a saúde física e mental e que um estilo de vida sedentário é uma das principais causas das doenças crónicas e da obesidade.
Para a Organização Mundial de Saúde, atividade física é "qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que exija um dispêndio de energia", quer esse movimento seja realizado num contexto de trabalho, de tempos livres ou de deslocações.
Mas quanto tempo é que um adulto deve dedicar a isso para colher benefícios? De acordo com a OMS, pelo menos 2h30 a 5 h por semana para uma atividade de "intensidade moderada", ou 1h15 a 2h30 para uma atividade de "intensidade sustentada". É possível uma combinação das duas. Outra recomendação: limitar o tempo em que permanecemos imóveis ou, se isso não for possível, ultrapassar as recomendações... para compensar os efeitos negativos de um estilo de vida sedentário! 2
Vantagens para a saúde de todos..., mas mais amplas para as pessoas magras
Os resultados mostram, em primeiro lugar, que a melhoria na diversidade e na riqueza da microbiota está mais relacionada com o número de horas dedicadas à atividade física do que com a intensidade dessa atividade. Quer se tenha ou não quilos a perder, pelo menos 2h30 de atividade física por semana são suficientes para se obter benefícios intestinais.
Esta é uma boa notícia para as pessoas com excesso de peso, uma vez que essa diversidade e riqueza estão associadas a um menor risco de doenças crónicas (diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, etc.) e a uma melhor resiliência da microbiota.
No entanto, só nos voluntários com peso normal (IMC < 25) é que foram visíveis alterações na composição bacteriana. De facto, quanto mais tempo dedicavam à atividade física, mais rica era a sua microbiota em:
Actinobactérias, um grupo de bactérias conhecido pelos seus inúmeros benefícios para a saúde cardiometabólica: redução do colesterol, produção de acetato – (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.) –,digestão de hidratos de carbono complexos como o amido resistente, etc.;
Collinsella, bactérias pertencentes à família das Actinobactérias, que protegem contra a permeabilidade intestinal e produzem butirato, outro AGCC com propriedades anti-inflamatórias.
O efeito também dependerá do sexo biológico
Outra observação: nas pessoas magras, mas também nas mulheres com excesso de peso, quanto maior era a força de preensão (força na mão), mais a sua microbiota continha Faecalibacterium prausnitzii, bactérias conhecidas pelas suas propriedades anti-inflamatórias e pelos seus efeitos contra a (sidenote:
Disbiose
A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano.
Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232.).
O IMC e o sexo biológico desempenharão, portanto, um papel nos efeitos da atividade física sobre a microbiota. Mais um grande passo em frente na nossa compreensão do funcionamento do eixo músculo-intestino!
"Isso é fascinante! A atividade física pode, de facto, ter um impacto positivo no seu microbiota intestinal. Trata-se de alimentar um ecossistema microbiano diversificado no seu intestino, que pode contribuir para uma melhor digestão e saúde geral. Lembre-se, o mais importante é encontrar uma atividade de que goste, pois a consistência é a chave para colher os frutos." -Aware Health Rewards App (Da My health, my microbiota)
De acordo com um estudo dinamarquês, a microbiota intestinal das mulheres com anorexia nervosa encontra-se profundamente desequilibrada. Ao atuar sobre o eixo intestino-cérebro e o metabolismo, pensa-se que este desequilíbrio contribui para a evolução e a manutenção de perturbações ligadas à doença, como as perdas de apetite e de peso.
A anorexia nervosa é um distúrbio alimentar que afeta 1% da população, incluindo 95% de mulheres. Caracteriza-se por distorções da imagem corporal e obsessões com a perda de peso, levando a uma drástica restrição voluntária da ingestão de alimentos.
Resultados: magreza e complicações de saúde que por vezes podem causar a morte. As causas da anorexia nervosa continuam mal compreendidas e o seu tratamento complicado: resulta em remissão em menos de metade dos casos. Estudos anteriores englobando um pequeno número de pacientes já tinham demonstrado um desequilíbrio na microbiota intestinal (disbiose) associado à doença. Poderá essa disbiose favorecer a evolução da doença?
1%
A anorexia nervosa é um distúrbio alimentar que afeta 1% da população
95%
incluindo 95% de mulheres
A microbiota intestinal contribui para os distúrbios do comportamento alimentar
Em seguida, os investigadores transplantaram amostras de fezes de mulheres com anorexia nervosa para ratinhos (sidenote:
Ratos axénicos
Ratos sem germes, criados em ambiente estéril
) (germ-free). Após 3 semanas de redução da ingestão de alimentos em 30% (para imitar o comportamento alimentar dos pacientes que sofrem de anorexia), os ratos que receberam amostras de fezes de mulheres com anorexia tiveram uma maior perda de peso inicial e demoraram mais tempo a recuperar o peso normal do que os ratos “controlos”. Uma análise funcional das bactérias presentes nas fezes dos ratos confirmou então o papel da microbiota intestinal no controlo do comportamento alimentar.
Os resultados deste estudo sugerem que a disbiose intestinal e os desequilíbrios dos metabolitos sanguíneos nas mulheres que sofrem de anorexia nervosa podem contribuir para a evolução da doença. Tais compostos podem atuar por via sanguínea através da rede neuronal do eixo intestino-cérebro e afetar a regulação do apetite, as emoções e o comportamento.
A perda de densidade óssea é um bem conhecido efeito colateral da microgravidade nos astronautas. A microbiota poderá contrabalançar este efeito, de acordo com um estudo recente com ratinhos publicado na revista Cell Reports.
Embora sem darem tanto nas vistas como a cadela Laika, os ratos astronautas estão a participar num importante programa de investigação da NASA cujo objetivo é avaliar o efeito da microgravidade na homeostase óssea.
O que se pretende é encontrar formas de atenuar as consequências das longas viagens espaciais. De facto, as viagens espaciais são acompanhadas de uma diminuição da formação e um aumento da reabsorção ósseas.
Estudos recentes estabeleceram uma ligação entre as alterações da microbiota intestinal e as doenças ósseas, como a osteoporose, através de efeitos mediados pelos ácidos gordos de cadeia curta (AGCC) no sistema imunitário, na regulação endócrina, nas carências de vitaminas e nutrientes e no metabolismo energético. Para compreender melhor os mecanismos envolvidos na saúde óssea, a missão Rodent Research 5 avaliou a influência da microgravidade na microbiota intestinal e oral de 20 ratinhos fêmeas que tinham passado 4,5 semanas (10 roedores) ou 9 semanas (10 roedores) na Estação Espacial Internacional (ISS). Isso é o equivalente a uma estadia de vários anos para Marcos Pontes porque a esperança de vida dos seres humanos é de 30 a 40 vezes maior do que a desses pequenos roedores.
Em todo o mundo, a osteoporose é responsável por mais de 8,9 milhões de fraturas por ano, ou seja, 1 fratura osteoporótica a cada 3 segundos.
Efeito de uma longa viagem espacial
Após 4,5 semanas no espaço, a microbiota dos ratos manteve-se globalmente comparável, em termos de diversidade, ao de 20 roedores de controlo deixados na Terra em condições idênticas (com exceção da microgravidade). Em contrapartida, quando a permanência no ISS foi prolongada (9 semanas), a diversidade da microbiota intestinal aumentou, a abundância relativa de Firmicutes cresceu e a de Bacteroidetes diminuiu. Especificamente, uma estadia longa no espaço resultou num enriquecimento em Lactobacillus murinus (do filo Firmicutes) e Dorea sp., em comparação com uma estadia de 4,5 semanas.
Além disso, nos ratinhos que passaram 9 semanas no espaço (em comparação com os que ficaram na Terra), verificou-se uma estimulação das vias metabólicas associadas à produção dos ácidos lático, málico e butírico, bem como de glutatião e de aminoácidos como a leucina e a isoleucina.
1 em cada 3 mulheres
com mais de 50 anos sofrerá uma fratura osteoporótica
1 em cada 5 homens
com mais de 50 anos sofrerá uma fratura osteoporótica
Ligações com a densidade óssea
Como se sabe, esses metabolitos estão relacionados com a densidade mineral óssea dos roedores. Por exemplo, o glutatião promove a sobrevivência dos precursores dos osteoblastos e, por conseguinte, a regeneração óssea; e a leucina e a isoleucina, dois aminoácidos de cadeia ramificada, são ativamente importados para os osteoblastos durante a condrogénese.
Daí a deduzir-se que, numa situação de microgravidade, a microbiota e o organismo dos ratinhos tentam compensar a perda óssea, é um passo curto, mas os investigadores recusam-se a dar este passo até que sejam efetuados estudos mecanicistas que validem realmente estas hipóteses. E isto sabendo-se que as repercussões podem ser importantes: a identificação de potenciais tratamentos com bactérias probióticas envolvidas na manutenção da densidade óssea poderá não só ajudar os astronautas a manterem-se mais saudáveis no espaço, mas também simples terráqueos que sofrem de doenças ósseas como a osteopenia ou a osteoporose.
A vaginose bacteriana está relacionada com um desequilíbrio da microbiota vaginal, pode ser causada por bactérias presentes na microbiota do pénis de alguns homens e transmitida durante a relação sexual.
A vaginose bacteriana (VB) é uma infeção muito comum. Esta doença apresenta habitualmente poucos sintomas, mas pode ter consequências graves, aumentando o risco de infeções sexualmente transmissíveis (incluindo o VIH) e de complicações durante a gravidez (parto prematuro, trabalho de parto prematuro e, posteriormente, aborto). Faltam tratamentos com eficácia a longo prazo e a VB volta a ocorrer em até 50% das mulheres num período de 6 a 12 meses após o tratamento.
Foi detetada na microbiota do pénis e da vagina a mesma espécie de bactérias
Uma equipa de investigadores acompanharam 168 casais, em que a parceira não tinha nenhuma infeção no início do estudo. Após um ano de acompanhamento, quase uma em três mulheres desenvolveu vaginose bacteriana. De acordo com as análises, a ocorrência da VB parecia estar diretamente relacionada com a composição da microbiota do pénis. Os autores identificaram sete espécies bacterianas cuja presença fazia prever de forma precisa a ocorrência de vaginose bacteriana. Várias destas espécies também foram detetadas na microbiota vaginal das mulheres infetadas.
Tratar os homens para proteger as mulheres?
Estes resultados levaram a que os investigadores propusessem duas hipótese: ou as bactérias da microbiota do pénis são transmitidas diretamente durante as relações sexuais ou estas interferem na flora vaginal e causam infeção a longo prazo. Em qualquer um dos cenários, os investigadores defendem a inclusão dos parceiros masculinos no tratamento das mulheres infetadas e sugerem a avaliação de um tratamento que, ao alterar a microbiota do pénis, previna a ocorrência ou recorrência da vaginose bacteriana.
Mehta SD, Zhao D, Green SJ et al. The Microbiome Composition of a Man's Penis Predicts Incident Bacterial Vaginosis in His Female Sex Partner With High Accuracy. Front Cell Infect Microbiol. 2020 Aug 4;10:433. .https://doi.org/10.3389/fcimb.2020.00433
Um estudo publicado em Nature Microbiology revela que a microbiota intestinal e o metaboloma sérico das mulheres com anorexia nervosa apresentam alterações que contribuem para a doença. Inclui trabalhos em modelos de ratinhos que revelam determinados mecanismos da inter-relação entre a restrição alimentar e a disbiose intestinal.
A anorexia nervosa (AN) afeta 1% da população, incluindo 95% de mulheres. O tratamento desta doença grave, com elevada morbilidade e mortalidade, só consegue uma remissão em menos de metade dos casos. As causas da AN permanecem desconhecidas, mas pensa-se que englobam fatores genéticos e ambientais. Ao influenciarem a regulação do apetite, do comportamento e das emoções através do "eixo intestino-cérebro", a microbiota intestinal e os seus metabolitos poderão desempenhar um papel na doença. Estudos em pequena escala revelaram já disbiose da microbiota intestinal nos doentes afetados.
Uma microbiota intestinal profundamente alterada nas mulheres que sofrem de anorexia
Uma equipa da Universidade de Copenhaga (Dinamarca) comparou a sequenciação genómica de amostras fecais (shotgun) e o perfil do metaboloma sérico de 77 mulheres com AN, com os de 70 mulheres saudáveis da mesma idade. Os investigadores constataram que a composição da MI das mulheres que sofrem de AN era diferente da das mulheres saudáveis: em particular, as espécies Roseburia intestinalis e R. Inulinivorans – bactérias envolvidas na digestão de polissacarídeos vegetais e benéficas para a saúde – surgiram em redução.
Além disso, as espécies de Clostridium foram positivamente correlacionadas com distúrbios alimentares e a saúde mental, o que sugere que estão envolvidas na regulação do comportamento alimentar e dos sintomas neuropsiquiátricos. Por fim, a microbiota intestinal destas doentes era mais rica em vírus, nomeadamente em fagos de Lactococcus.
O metaboloma sérico das pacientes com AN também mostrou diferenças significativas em relação ao das mulheres saudáveis. Os investigadores observaram um aumento de vários ácidos biliares, incluindo o ácido indol-3-propiónico, um metabolito associado à secreção do peptídeo 1 semelhante ao glucagon, que estimula a saciedade e retarda o esvaziamento gástrico. As análises de inferência causal levadas a cabo pela equipa sugerem que os metabolitos bacterianos medeiam certos efeitos da disbiose intestinal nas perturbações alimentares.
Redução do aumento de peso e alteração do metabolismo energético em ratinhos
Em seguida, os investigadores transplantaram para ratinhos (sidenote:
Ratos axénicos
Ratos sem germes, criados em ambiente estéril
) sob dieta hipocalórica amostras de fezes de mulheres com AN ou de mulheres saudáveis (ratinhos de controlo). Após 3 semanas de redução da ingestão de alimentos em 30% (para imitar o comportamento alimentar dos pacientes que sofrem de anorexia), os ratos que receberam amostras de fezes de mulheres com anorexia tiveram uma maior perda de peso inicial e uma recuperação de peso mais lenta do que os ratos de controlo. Por outro lado, nos ratinhos transplantados com fezes de doentes anoréticas, observou-se uma sobrexpressão de genes que suprimem o apetite no hipotálamo e de genes ligados à termogénese no tecido adiposo.
Os resultados deste estudo sugerem que a disbiose intestinal e os metabolitos séricos alterados nas mulheres com AN podem contribuir para o desenvolvimento e a manutenção da doença. Tais compostos podem atuar através da corrente sanguínea ou da sinalização neuronal do eixo intestino-cérebro, afetando a regulação do apetite, as emoções e o comportamento.
Após uma viagem espacial de 9 semanas, a microbiota intestinal dos ratos adapta-se para limitar a osteoporose precoce ligada à microgravidade, uma perda óssea que se observa nos astronautas, segundo um estudo publicado em Cell report 1.
Radiação cósmica, perturbações do sono, perda de densidade óssea: as viagens espaciais não são tarefa fácil. E se quisermos acordar revigorados e prontos para partir apenas um dia depois de chegarmos a Marte, temos de compreender os efeitos do espaço sobre o nosso organismo para os mitigarmos. É essa a missão do programa Rodent Research 5 da NASA, que estuda a evolução da estrutura óssea de roedores enviados para a Estação Espacial Internacional (ISS) durante várias semanas. E os primeiros resultados são surpreendentes: a microbiota digestiva parece adaptar-se à microgravidade, com alterações que podem limitar as perdas ósseas.
Os ossos, um tecido em contínua remodelação
Acha que os ossos, uma vez atingido o seu tamanho máximo não sofrem modificações? Engano seu! Os ossos estão em permanente remodelação, mesmo na idade adulta. Dois tipos de células são responsáveis por este fenómeno: os osteoclastos, que removem o osso antigo e os osteoblastos que formam o novo osso. Quando se está bem de saúde, as suas respetivas atividades estão equilibradas e os ossos regeneram-se de forma permanente. Entretanto, quando a menopausa chega, a falta de estrogénio favorece a ação dos osteoclastos e diminui a dos osteoblastos: os ossos são mais absorvidos e a sua estrutura torna-se frágil. É a osteoporose 2.
Implicações para os astronautas... e para a osteoporose
Os ratos, que passaram 9 semanas da sua curta vida na ISS (o que equivale a vários anos para um astronauta), regressaram à Terra com uma microbiota mais diversificada, cuja composição tinha mudado. Certas espécies bacterianas tornaram-se mais abundantes, nomeadamente Lactobacillus murinus e Dorea sp. Aparentemente, elas poderão produzir moléculas conhecidas por promover a regeneração óssea.
1 em cada 3 mulheres
com mais de 50 anos sofrerá uma fratura osteoporótica
1 em cada 5 homens
com mais de 50 anos sofrerá uma fratura osteoporótica
De facto, não se deve acreditar que os ossos são um tecido "morto" depois de termos crescido e atingido a idade adulta. Muito pelo contrário, o tecido ósseo está constantemente a ser remodelado através de um processo equilibrado e contínuo de destruição e reconstrução. Um equilíbrio que pode, no entanto, ser alterado em caso de doença (osteoporose por exemplo) ou de viagens espaciais, com a ausência de gravidade a perturbar o processo. As bactérias Lactobacillus murinus e Dorea sp. parecem ativar-se quando o seu hospedeiro (o rato) fica sem peso devido à gravidade zero do espaço, produzindo moléculas que promovem a regeneração óssea. De facto, alguns destes compostos surgem em maior quantidade no sangue dos roedores.
Implicações para os astronautas... e para a osteoporose
Por outras palavras, é como se a microbiota intestinal estivesse a ajudar o corpo dos ratos a compensar as perdas ósseas associadas à microgravidade do espaço. No entanto, por mais atrativa que esta hipótese nos pareça, é necessário validá-la antes de se poderem tirar conclusões sobre a microbiota e a saúde óssea. E isto sabendo-se que as repercussões nos tratamentos podem ser significativas: a identificação de potenciais bactérias probióticas envolvidas na manutenção da densidade óssea poderá não só ajudar os astronautas a manterem-se mais saudáveis no espaço... mas também muitos doentes terrestres que sofrem de doenças ósseas como a (sidenote:
Osteoporosis
Osteoporosis is a "skeletal disorder characterized by compromised bone strength predisposing a person to an increased risk of fracture".
NIH Consensus Development Panel on Osteoporosis Prevention, Diagnosis, and Therapy, March 7-29, 2000: highlights of the conference. South Med J. 2001 Jun;94(6):569-73.).
Em todo o mundo, a osteoporose é responsável por mais de 8,9 milhões de fraturas por ano, ou seja, 1 fratura osteoporótica a cada 3 segundos 3.
Perda de diversidade, menor presença de bactérias benéficas, aumento de potenciais agentes patogénicos… Com o passar dos anos, a microbiota intestinal vai-se degradando. Exceto entre as pessoas de mais de 100 anos, de acordo com um estudo abrangendo mais de 1.500 chineses. 1
Menos diversidade, menos microrganismos benéficos e mais agentes patogénicos oportunistas: sabe-se que a microbiota intestinal se modifica com o avançar da idade. Mas, e quanto aos centenários, que conseguiram ter uma vida mais longa e escapar a várias doenças crónicas e infeções? Para estudarem a relação entre a microbiota intestinal e a longevidade, una equipa de cientistas de um instituto de investigação chinês compararam a microbiota intestinal de 1.575 pessoas com idades compreendidas entre os 20 e os 117 anos, todas residentes na província de Guangxi, na China: 314 jovens adultos (20-44 anos), 277 adultos (45-65 anos), 386 idosos (66-85 anos), 301 nonagenários (90-99 anos) e 297 centenários (100-117 anos). Os resultados deste novo estudo sobre o envelhecimento da microbiota foram publicados na revista Nature Aging.
100 anos e uma microbiota de 20 anos
A conclusão foi que a diversidade de espécies da microbiota intestinal diminui com o passar dos anos, atingindo o seu nível mais baixo no grupo etário dos 66-85 anos. Surpreendentemente, no entanto, volta a aumentar nos nonagenários e centenários: estes apresentam mesmo a flora mais rica, mesmo ao nível dos participantes mais jovens. No entanto, os investigadores acreditam que não será tanto a diversidade das espécies, mas antes a homogeneidade das abundâncias relativas das várias espécies, o que poderá estar ligado à longevidade.
Há outros sinais de juventude e de boa saúde na microbiota das pessoas com mais de 100 anos: por um lado, verifica-se uma presença acrescida de Bacteroidetes potencialmente benéficos, em comparação com a dos idosos e a dos os nonagenários; por outro lado, constata-se uma redução das bactérias potencialmente patogénicas, em particular de bactérias inflamatórias.
Prevalência
O mundo tinha 593.000 centenários em 2021 :
incluindo 132.000 no Japão (0,11% da sua população),
90.000 nos Estados Unidos (0,03%),
29.000 na Tailândia (0,04%),
27.000 em França (0,04%),
20.000 na Alemanha (0,02%),
18.000 na Itália (0,03%)
e 14.000 em Espanha (0,03%).
O mundo tinha 593.000 centenários em 2021 :
em 1960, 20.000 ;
em 1970, 27.000 ;
em 1980, 49.000 ;
em 1990, 102.000 ;
em 2000, 169.000 ;
e em 2010, 308.000 2
Uma singularidade que se reforça após os 100 anos
Uma vez que estes primeiros resultados sugerem que existirá uma assinatura específica poderá caraterizar a microbiota intestinal das pessoas com mais de 100 anos, os investigadores efetuaram também um estudo longitudinal das alterações microbianas intestinais em 45 dos 297 centenários, dos quais foi recolhida uma segunda amostra de fezes, em média 1,5 anos mais tarde. O resultado foi que a microbiota intestinal das pessoas com 100 anos de idade se tornou mais uniforme em termos da abundância relativa das espécies presentes, com redução da variação interindividual e com estabilidade na população de Bacteroidetes. A uniformidade da abundância no início do estudo foi correlacionada com a estabilidade da microbiota intestinal dos centenários ao longo dos 1,5 anos, sugerindo que este equilíbrio entre espécies poderá proteger a flora intestinal de perturbações e do envelhecimento.
Segundo os investigadores, as pessoas com 100 anos de idade têm perfis microbiota específicos, apresentando um equilíbrio entre espécies que não só é elevado para a sua idade como continua a crescer, e com a manutenção da abundância em Bacteroidetes. Apesar dos anos, a sua flora intestinal mantém uma grande semelhança com a dos adultos jovens.