Viciado em ameixas secas? A sua microbiota agradece e a sua saúde também!

Os benefícios das ameixas secas para a saúde das mulheres na menopausa estariam ligados aos seus efeitos positivos na microbiota intestinal. É o que sugere um estudo realizado por investigadores americanos 1.

A microbiota intestinal Dieta: Impacto na Microbiota Intestinal
Addicted to prunes? Your microbiota and your health will thank you!

Deliciosas, ricas em fibras e antioxidantes, benéficas para o trânsito intestinal, o coração, os vasos sanguíneos, a saúde dos ossos, excelentes aliadas na perda de peso... em termos de benefícios para a saúde, as ameixas secas têm luz verde para tudo!

Ameixas secas: um modo de atuação ainda misterioso…

A incorporação destes frutos secos na alimentação das mulheres na menopausa não é exceção à regra. Os benefícios das ameixas secas para a saúde das mulheres na menopausa, em particular para a saúde óssea, estão bem documentados. Por outro lado, o seu modo de atuação, nomeadamente através da microbiota intestinal, ainda contém muitas zonas cinzentas.

Quais são exatamente os efeitos destes frutos secos nas bactérias intestinais durante a menopausa? Esta é a questão a que uma equipa de investigadores americanos tentou dar resposta.

Recrutaram 143 mulheres na menopausa com idades compreendidas entre os 55 e os 75 anos e distribuíram-nas aleatoriamente por 3 grupos diferentes:

  • um grupo em que tinham de comer 4 a 6 ameixas secas por dia (50 g),
  • outro em que tinham de comer 10 a 12 (100 g)
  • e um terceiro em que não comiam nada (grupo de controlo).

Antes e depois da experiência, os cientistas recolheram as fezes das voluntárias para analisar e comparar a evolução da sua microbiota.

Osteoporose: as ameixas secas são ideais!

Uma em cada 3 mulheres sofre de osteoporose após a menopausa. Poderão as ameixas secas ser um aliado na luta contra este flagelo? É o que sugere uma revisão dos estudos 2 efetuados sobre este assunto. De acordo com os autores, o consumo regular destes frutos secos poderia:

  • prevenir e diminuir a perda óssea,
  • melhorar a densidade mineral óssea e os biomarcadores ósseos,
  • exercer efeitos anti-inflamatórios (interessante quando se sabe que a inflamação é um fator de risco para a osteoporose!),
  • suprimir a produção de citocinas (os mensageiros pró-inflamatórios do organismo),
  • aumentar as enzimas antioxidantes (que combatem os efeitos oxidantes da inflamação).

Mais bactérias intestinais benéficas

Também recolheram amostras de sangue e urina para medir marcadores de inflamação (um fator de risco para muitas doenças) e "metabolitos fenólicos".

Os metabolitos fenólicos são compostos benéficos derivados da decomposição de antioxidantes (polifenóis). O nível de metabolitos fenólicos urinários reflete o nível de atividade das bactérias da microbiota capazes de degradar os polifenóis.

Após 12 meses de experimentação, os resultados indicam que as mulheres dos grupos "ameixa seca" apresentam modificações significativas na sua microbiota em comparação com as do grupo de controlo. Estas alterações diferem consoante a dose (50 ou 100 g). 

As análises dos investigadores revelam, nomeadamente, um enriquecimento em bactérias da família das Lachnospiraceae, já conhecidas pela sua capacidade de manter a barreira intestinal.

Efeitos anti-inflamatórios mediados pela microbiota

O estudo demonstra que as Lachnospiraceae são capazes de metabolizar os polifenóis da ameixa e fermentar as suas fibras para produzir (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. ) ,que têm propriedades anti-inflamatórias. Os cálculos mostram que a presença de algumas destas bactérias está negativamente correlacionada com marcadores de inflamação e positivamente correlacionada com metabolitos fenólicos.

Segundo os investigadores, ao fornecer fibras e polifenóis, as ameixas secas exercem uma pressão de seleção que favorece as bactérias boas a longo prazo, o que poderia explicar os seus benefícios para a saúde.

Algo a ter em conta quando surge um desejo de açúcar!

A microbiota intestinal

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Obesidade: um ácido gordo bacteriano envolvido?

Uma espécie comensal da microbiota intestinal que produz ácidos gordos trans e saturados agravaria a obesidade induzida por uma dieta rica em gordura. Os seus metabolitos alterariam o metabolismo lipídico e a barreira intestinal do hospedeiro, de acordo com um estudo publicado na revista Cell metabolism.

Obesity: Is a bacterial fatty acid involved?

À medida que a prevalência da obesidade e das doenças metabólicas relacionadas aumenta em todo o mundo, a alteração da dieta não é suficiente para grande parte dos doentes. Compreender o impacto de outros fatores ambientais é crucial para desenvolver outras estratégias terapêuticas. Muitos estudos apontam para uma associação entre a disbiose da microbiota intestinal e a progressão da obesidade, o que poderia explicar, pelo menos em parte, as variações interindividuais na suscetibilidade às doenças metabólicas. No entanto, os mecanismos moleculares e nexo de causalidade entre as bactérias da microbiota intestinal, em particular os seus metabolitos, e o desenvolvimento da obesidade não estão totalmente elucidados.

Dieta rica em gordura e Fusimonas intestini : um efeito sinérgico no aumento de peso

Reconhece-se que uma dieta rica em gordura, especialmente gordura saturada, aumenta o risco de obesidade e as suas comorbilidades metabólicas. Contudo, não se sabe até que ponto certos metabolitos (como os ácidos gordos de cadeia longa) produzidos pelas bactérias da microbiota intestinal influenciam a patogénese destas doenças. Uma equipa japonesa tem vindo a estudar as Lachnospiraceae, uma família bacteriana da microbiota intestinal associada à obesidade e à diabetes tipo 2 em estudos anteriores. Demonstrou que uma das suas espécies comensais, Fusimonas intestini, está significativamente mais presente nos casos de obesidade e hiperglicemia, tanto nos ratos como no homem.

Para identificar uma potencial relação causal entre esta espécie e a obesidade, os investigadores compararam ratos cuja microbiota intestinal era colonizada par Escherichia coli e F. intestini ou apenas por E. coli, alimentados com uma dieta normal ou rica em gordura. Verificaram um aumento significativo do peso corporal e da gordura corporal apenas nos ratos alimentados com uma dieta rica em gordura e colonizados com F. intestini, mesmo em quantidades muito reduzidas. Além disso, os ratos apresentaram um aumento dos níveis plasmáticos de colesterol, bem como da expressão de TNF-α pro-inflamatório, de proteínas de ligação aos lipopolissacáridos e de genes codificadores da leptina. Ao colonizar ratos gnotobióticos com F. intestini e 9 espécies representativas da microbiota humana, os investigadores recuperaram este ganho de massa gorda. Estes resultados sugerem que o consumo elevado de gorduras alimentares e F. intestini atuam em sinergia para alterar o metabolismo do hospedeiro.

Alteração do metabolismo lipídico e da impermeabilidade intestinal

Os investigadores descobriram que a F. intestini produzia uma abundância de vários ácidos gordos de cadeia longa. Na dieta rica em gordura, a microbiota intestinal colonizada por estas bactérias continha duas vezes mais elaidato, um ácido gordo trans  conhecido por aumentar o risco de doenças cardiovasculares, obesidade e resistência à insulina. Continha também mais ácidos gordos saturados, como o palmitato, o estearato e o margarato. Segundo os investigadores, a dieta rica em gordura leva a uma sobre-expressão de genes microbianos envolvidos na produção de lípidos, nomeadamente FadR (Fatty acid metabolism regulator) que regula o metabolismo dos ácidos gordos. As suas análises do sangue e dos tecidos sugerem que os metabolitos de F. intestini degradam a barreira intestinal, conduzindo à endotoxemia que promove o desenvolvimento da obesidade.

Este estudo destaca um dos mecanismos moleculares que ligam a microbiota intestinal e a obesidade através da produção excessiva de metabolitos lipídicos. Segundo os autores, um maior conhecimento do metabolismo das bactérias da microbiota intestinal poderá abrir caminho a novas opções terapêuticas para a obesidade.

Recomendado pela nossa comunidade

"Isto é empolgante" - Comentário traduzido de Kamara Daniel (Da Biocodex Microbiota Institute em X)

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Obesidade e microbiota: uma bactéria agrava o efeito de uma alimentação rica em gordura

A obesidade é a consequência de uma alimentação excessiva e com muita gordura? Não é assim tão simples. A composição e o metabolismo das bactérias da nossa microbiota intestinal também poderiam contribuir para a doença. No caso de uma alimentação rica em gordura, a espécie Fusimonas intestini favoreceria o ganho de peso pela produção de ácidos gordos prejudiciais, revela um estudo recente publicado na revista Cell Metabolism.

A microbiota intestinal
Obésité et microbiote : une bactérie aggrave l’effet d’une alimentation riche en graisses

A obesidade e as doenças metabólicas associadas, como a diabetes tipo 2, estão a afetar cada vez mais a saúde pública em todo o mundo. Para muitas pessoas com obesidade, a correção alimentar por si só não constitui uma solução suficiente. Durante a última década, o papel da microbiota intestinal na obesidade foi destacado em vários estudos. Poderia ser a explicação, pelo menos em parte, das diferenças entre indivíduos no que respeita à sua vulnerabilidade à doença e aos efeitos da dieta. No entanto, nem todos os mecanismos envolvidos foram ainda elucidados. Por conseguinte, os investigadores estão a explorar as particularidades da composição e do funcionamento dos microrganismos da microbiota intestinal que podem influenciar a obesidade.

Bactérias da microbiota que “produzem gordura”

Uma dieta demasiado rica em gordura, especialmente em gorduras saturadas, aumenta o risco de obesidade, como se sabe. Mas as bactérias da microbiota intestinal também produzem ácidos gordos. Em que medida e de que forma é que o seu metabolismo pode contribuir para o desenvolvimento da doença? Para responder a esta questão, uma equipa japonesa do instituto RIKEN analisou as Lachnospiraceae, uma família bacteriana da microbiota intestinal que já foi associada à obesidade e à diabetes tipo 2 em estudos anteriores. Demonstrou que uma das suas espécies, Fusimonas intestini, está significativamente mais presente na microbiota intestinal na obesidade e no excesso de açúcar no sangue, tanto nos ratos como no homem.

A microbiota intestinal

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Para determinar se esta bactéria poderia representar uma causa da obesidade, os investigadores compararam ratos cuja microbiota intestinal estava ou não colonizada por Fusimonas intestini, alimentados normalmente ou com excesso de gordura. Constataram que a dieta “gorda” aumentava o ganho de gordura corporal na presença de bactérias Fusimonas intestini, mesmo em quantidades muito pequenas.

Genes metabólicos prejudicados e fuga através da barreira intestinal

Os investigadores descobriram que a Fusimonas intestini produzia uma abundância de vários ácidos gordos ditos de “cadeia longa”. Apenas como resultado da dieta rica em gordura, a microbiota intestinal colonizada por esta bactéria continha duas vezes mais elaidato, um (sidenote: Ácido gordo trans Os ácidos gordos trans (AGT) não são sintetizados no corpo humano, mas são normalmente consumidos nas nossas refeições. As suas origens são os ruminantes (carne e produtos lácteos) e os de origem industrial. Os AGT, especialmente os de origem industrial, contribuiriam para as doenças cardiovasculares, a obesidade e a diabetes.
Sarnyai F, Kereszturi É, Szirmai K, Mátyási J, Al-Hag JI, Csizmadia T, Lőw P, Szelényi P, Tamási V, Tibori K, Zámbó V, Tóth B, Csala M. Different Metabolism and Toxicity of TRANS Fatty Acids, Elaidate and Vaccenate Compared to Cis-Oleate in HepG2 Cells. Int J Mol Sci. 2022 Jun 30;23(13):7298.
)
 que é conhecido por aumentar o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, obesidade e resistência à insulina. A sua flora intestinal continha também mais ácidos gordos saturados, nomeadamente palmitato, que estão igualmente implicados nestas doenças. A dieta rica em gorduras alteraria a expressão dos genes microbianos que regulam o metabolismo dos ácidos gordos, aumentando assim a produção de lípidos. Mas não é tudo: os metabolitos de Fusimonas intestini alterariam a integridade da barreira intestinal, tornando-a mais permeável e permitindo a passagem de moléculas nocivas. Isto dá origem a um fenómeno chamado  (sidenote: Endotoxemia A endotoxemia é uma doença caracterizada pela presença de endotoxinas no sangue. As endotoxinas são componentes da parede de certas bactérias. São libertadas quando as bactérias morrem ou se multiplicam. Quando a barreira gastrointestinal é quebrada, as endotoxinas entram na corrente sanguínea e iniciam a inflamação.
André P, Laugerette F, Féart C. Metabolic Endotoxemia: A Potential Underlying Mechanism of the Relationship between Dietary Fat Intake and Risk for Cognitive Impairments in Humans? Nutrients. 2019 Aug 13;11(8):1887.
)
, conhecido por causar inflamação no organismo e envolvido no desenvolvimento da obesidade e da diabetes de tipo 2.

Em suma, Fusimonas intestini e as gorduras alimentares parecem atuar em conjunto para nos fazer engordar! De um ponto de vista científico, este estudo permite compreender um dos mecanismos que ligam a microbiota intestinal à obesidade. Segundo os seus autores, o conhecimento mais aprofundado do metabolismo lipídico das bactérias da microbiota intestinal poderia também conduzir a novas soluções terapêuticas para as pessoas que sofrem de obesidade.

Recomendado pela nossa comunidade

"Concordo" -Sue Bouchard (Da My health, my microbiota)

"Legal" -Lucy Ofreneo (Da My health, my microbiota)

"eu concordo" -Lynda Clark (Da My health, my microbiota)

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Covid-19: a microbiota é a chave que faltava?

Após três anos de Covid-19, existem cada vez mais provas de que a microbiota intestinal, mas também a oral, a nasal e a pulmonar, estão significativamente alteradas nos doentes com COVID-19. Como funciona? Existe uma ligação entre o vírus, a imunidade e a microbiota?

 Irina Spacova e Sarah Lebeer (respetivamente, investigadora sénior de pós-doutoramento e professora na Universidade de Antuérpia, na Bélgica) analisam as últimas descobertas importantes.

A microbiota intestinal A microbiota pulmonar A microbiota ORL
Covid-19: is microbiota the missing clue?

Que papel pode desempenhar a microbiota na infeção por Covid-19?

Prof. Irina Spacova and Prof. Sarah Lebeer: A COVID-19 não tem o mesmo efeito em todas as pessoas: algumas pessoas permanecem assintomáticas, enquanto outras sofrem durante meses ou mesmo anos de sintomas residuais, como fadiga e fraqueza muscular. Para além dos fatores sociodemográficos, como a idade, estudos recentes sugerem que as diferenças individuais na nossa microbiota desempenham um papel importante na determinação dos efeitos da COVID-19. De facto, o nosso corpo é habitado por diversas comunidades microbianas no trato gastrointestinal e nas vias respiratórias onde ocorre a infeção por SARS-CoV-2. Muitos dos (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueias, os protozoários, etc., e são vulgarmente designados "micróbios". What is microbiology? Microbiology Society. ) da microbiota desempenham uma função protetora contra (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença. Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. )  invasores.

Importante

No entanto, alguns membros da microbiota são (sidenote: Infeção oportunista Infeção causada por um microrganismo normalmente não patogénico, mas que o pode tornar-se quando o seu anfitrião se encontra em desequilíbrio (há múltiplos fatores que podem causar esse desequilíbrio: enfraquecimento do sistema imunitário, doença, idade, certas drogas, etc.). ) que podem causar superinfeções bacterianas ou fúngicas e inflamação adicional quando a barreira e as defesas imunológicas são perturbadas. Por conseguinte, uma microbiota equilibrada é fundamental para a saúde respiratória e gastrointestinal, especialmente durante uma infeção viral.

O vírus afeta da mesma forma a microbiota intestinal, oral, nasal e pulmonar?

I. S. & S. L.: A COVID-19 está associada a perturbações da microbiota (por vezes também designadas por disbiose)  da microbiota intestinal, oral, nasal e pulmonar, com muitos estudos a relatarem comunidades microbianas menos diversificadas em doentes infetados nestes locais principais de infeção e multiplicação do vírus. No entanto, nem todos os estudos observam as mesmas alterações na diversidade da microbiota. 
Resumimos de seguida as principais conclusões gerais.

Resumimos de seguida as principais conclusões gerais:

  • A cavidade nasal, a boca e sobretudo a garganta (a microbiota ORL) são dois locais chave de infeção e multiplicação do SARS-CoV-2. Os doentes com COVID-19 confirmada têm geralmente uma menor diversidade microbiana nas zaragatoas nasofaríngeas. A riqueza da comunidade microbiana também parece diminuir com o aumento da gravidade da doença 1. Uma maior abundância de uma bactéria específica, por exemplo, patógenos bacterianos como o Pseudomonas aeruginosa também é encontrada na microbiota nasal de pacientes hospitalizados com COVID-19​​​​​​​ 2. TIsto indica que a inflamação induzida por SARS-CoV-2 pode promover o crescimento de patógenos oportunistas no nariz, resultando em superinfeção. Na boca, a microbiota oral também parece ser menos diversificada, associada à gravidade dos sintomas da COVID-19. Por último, os patógenos fúngicos oportunistas Candida e Aspergillus, bem como as bactérias associadas a uma má higiene oral e à periodontite, são mais abundantes nos doentes com COVID-19 3.

A microbiota ORL

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  • A COVID-19 grave pode resultar numa síndrome de dificuldade respiratória aguda (SDRA) associada a uma inflamação generalizada nos pulmões (microbiota pulmonar), que muitas vezes requer ventilação mecânica prolongada em meio hospitalar. Parece haver uma associação significativa entre a COVID-19 grave que requer ventilação mecânica e uma menor diversidade da comunidade microbiana em comparação com amostras de pulmões saudáveis 4. Além disso, as amostras de pulmão destes doentes são frequentemente dominadas por géneros bacterianos únicos que contêm potenciais patógenos, como Staphylococcus e Enterococcus.

A microbiota pulmonar

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  • No trato gastrointestinal (microbiota intestinal), a COVID-19 está associada a sintomas como diarreia e perda de apetite. Por conseguinte, não é surpreendente que tenha sido associada a uma disbiose intestinal. Particularmente, parece haver um aumento de Candida e Aspergillus (patógenos fúngicos oportunistas) na microbiota fecal de pacientes com COVID-19 5 e uma diminuição de bactérias potencialmente benéficas como Faecalibacterium prausnitzii 6. Uma descoberta surpreendente da investigação foi o facto de a composição da microbiota intestinal na admissão poder ser uma previsão de complicações a longo prazo da COVID-19. Na admissão, em comparação com a COVID-19 a longo prazo, aos 6 meses, um total de 13 espécies de bactérias, incluindo a Bifidobacterium longum, estavam negativamente correlacionadas com a COVID-19 a longo prazo: isto significa que quanto mais estas bactérias estiverem presentes no intestino, menor será o risco de desenvolver COVID-19 a longo prazo, o que indica um suposto papel protetor destas espécies na recuperação da infeção 6. Outras espécies, como a Atopobium parvulum, estavam positivamente correlacionadas com os sintomas: quanto mais encontrarmos esta bactéria no intestino, mais a pessoa sofrerá uma infeção grave. Estas diferenças abrem perspetivas para uma melhor monitorização e previsão de sintomas de COVID-19 longa.

A microbiota intestinal

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Qual é a ligação entre o vírus, a imunidade e a microbiota?

I. S. & S. L.: Ainda não é bem percetível se estas alterações observadas no microbiota são causa ou consequência da doença. Para compreender melhor esta questão, também é importante ter em conta o sistema imunitário. É necessário gerar respostas imunitárias eficazes após a infeção por SARS-CoV-2 para eliminar o vírus e prevenir futuras reinfeções.

Mesmo antes de ocorrer a infeção por COVID-19, a microbiota residente pode ter uma função protetora, treinando o nosso sistema imunitário, melhorando a função de barreira 7 ou mesmo inibindo diretamente a aderência ou infecciosidade do vírus 8. Pelo contrário, uma microbiota intestinal perturbada pode aumentar a suscetibilidade a doenças virais através da perturbação da função de barreira da mucosa intestinal, da diminuição das respostas antivirais e do aumento da colonização e adesão de patógenos​​​​​​​ 9.

Uma dieta saudável ou probióticos podem proteger contra o vírus através da modulação da microbiota intestinal?

I. S. & S. L.: Como se compreende, deslindar a complexa relação entre a microbiota e a COVID-19 é uma tarefa difícil, uma vez que a composição da nossa microbiota e o funcionamento imunitário são afetados por muitos fatores diferentes (saúde, genética, estilo de vida). No entanto, uma vez que a dieta é um determinante importante da composição da microbiota intestinal humana, as mudanças de hábitos alimentares são promissoras contra a COVID-19. Por exemplo, um estudo baseado em smartphone com mais de 30.000 casos de COVID-19 no Reino Unido e nos EUA sugeriu que o consumo de alimentos à base de plantas está associado a um menor risco e gravidade da COVID-19 10. Foi proposta uma teoria interessante segundo a qual a ingestão de grandes quantidades de vegetais fermentados, potencialmente contendo microrganismos benéficos, pode ser útil para atenuar a gravidade da doença COVID-19​​​​​​​ 11. É uma abordagem plausível, considerando que a modulação da microbiota intestinal com bactérias (sidenote: Probiotics Microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios para a saúde do hospedeiro. FAO/OMS, Joint Food and Agriculture Organization of the United Nations/ World Health Organization. Working Group. Report on drafting  guidelines for the evaluation of probiotics in food, 2002. Hill C, Guarner F, Reid G, et al. Expert consensus document. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the scope and appropriate use of the term probiotic. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2014;11(8):506-514. ) encontradas frequentemente em alimentos fermentados, pode prevenir ou tratar infeções respiratórias agudas com base em evidências de investigação clínica​​​​​​​ 12.

Probióticos

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Um estudo em pequena escala com a administração de uma mistura de bactérias probióticas por via oral a doentes infetados com SARS-CoV-2 registou uma diminuição do risco de insuficiência respiratória e uma resolução mais rápida da diarreia 13.  

Em geral, a Organização Mundial de Saúde recomenda que os doentes com COVID-19 prefiram uma dieta saudável com alimentos frescos e não processados todos os dias e com menos sal e açúcar, o que poderá contribuir para uma microbiota intestinal equilibrada e uma boa saúde geral. No entanto, esta é uma verdade geral para todos nós em todos os momentos: se ao menos uma alimentação saudável pudesse ser assim tão fácil!

Descubra a entrevista da Prof. Sarah Lebber:

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BMI-23.18

Fontes

1. Smith, N., Goncalves, P., Charbit, B. et al. Distinct systemic and mucosal immune responses during acute SARS-CoV-2 infection. Nat Immunol. 2021 Nov;22(11):1428-1439

2. Rhoades NS, Pinski AN, Monsibais AN, et al. Acute SARS-CoV-2 infection is associated with an increased abundance of bacterial pathogens, including Pseudomonas aeruginosa in the nose. Cell Rep. 2021 Aug 31;36(9):109637

3. Soffritti I, D'Accolti M, Fabbri C, et al. Oral Microbiome Dysbiosis Is Associated With Symptoms Severity and Local Immune/Inflammatory Response in COVID-19 Patients: A Cross-Sectional Study. Front Microbiol. 2021 Jun 23;12:687513.

4. Merenstein C, Liang G, Whiteside SA, et al. Signatures of COVID-19 severity and immune response in the respiratory tract microbiome. mBio. 2021;12:e0177721

5. Zuo T, Zhan H, Zhang F, et al. Alterations in Fecal Fungal Microbiome of Patients With COVID-19 During Time of Hospitalization until Discharge. Gastroenterology. 2020 Oct;159(4):1302-1310.e5. 

6. Liu Q, Mak JWY, Su Q, et al. Gut microbiota dynamics in a prospective cohort of patients with post-acute COVID-19 syndrome. Gut. 2022 Mar;71(3):544-552

7. Kumar P, Chander B. COVID 19 mortality: Probable role of microbiome to explain disparity. Med Hypotheses. 2020 Nov;144:110209.

8. Spacova I, De Boeck I, Bron PA, et al. Topical Microbial Therapeutics against Respiratory Viral Infections. Trends Mol Med. 2021 Jun;27(6):538-553.

9. Baghbani T, Nikzad H, Azadbakht J et al. Dual and mutual interaction between microbiota and viral infections: a possible treat for COVID-19. Microb Cell Fact. 2020 Nov 26;19(1):217.

10. Merino J, Joshi AD, Nguyen LH, et al. Diet quality and risk and severity of COVID-19: a prospective cohort study. Gut. 2021 Nov;70(11):2096-2104.

11. Bousquet J, Anto JM, Czarlewski W, et al. Cabbage and fermented vegetables: From death rate heterogeneity in countries to candidates for mitigation strategies of severe COVID-19. Allergy. 2021 Mar;76(3):735-750

12. Zhao Y, Dong BR, Hao Q. Probiotics for preventing acute upper respiratory tract infections. Cochrane Database Syst Rev. 2022 Aug 24;8(8):CD006895

13. d'Ettorre G, Ceccarelli G, Marazzato M, et al. Challenges in the Management of SARS-CoV2 Infection: The Role of Oral Bacteriotherapy as Complementary Therapeutic Strategy to Avoid the Progression of COVID-19. Front Med (Lausanne). 2020 Jul 7;7:389.

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Endometriose: uma chave da sua progressão na microbiota intestinal?

Apesar da endometriose afetar 10% das mulheres em idade de procriação, a mesma continua a ser mal compreendida e difícil de tratar. Um estudo em ratos fez avançar o conhecimento sobre a doença destacando a implicação da microbiota intestinal e dos metabólitos na sua progressão.

Photo: Endométriose : une clé de sa progression au sein du microbiote intestinal

Apesar de décadas de investigação sobre a endometriose, os meios são limitados para aliviar as pacientes que recidivam apesar da hormonoterapia ou da exérese cirúrgica das lesões. Os fatores que contribuem para o desenvolvimento da doença ainda são pouco conhecidos. As menstruações retrógradas para a cavidade peritonial que afetam 90% das mulheres não seriam eliminadas pelas células imunitárias em 10% delas. O tecido endometrial proliferaria pelo efeito das citocinas inflamatórias e os fatores de crescimento, provocando lesões ectópicas. Além disso, um número crescente de estudos realizados na paciente demonstram a implicação da microbiota intestinal: a disbiose intestinal observada e a implicação dos metabólitos intestinais poderão estar envolvidas na fisiopatologia da endometriose e na sua progressão?

A microbiota intestinal, fator de progressão das lesões da endometriose

No sentido de explorar o papel da microbiota intestinal na progressão da doença, os investigadores desenvolveram um novo modelo de rato com endometriose cuja  (sidenote: Estes ratos possuem menos bactérias nas suas microbiotas intestinais em comparação com os ratos de controlo. ) .Primeira constatação: a depleção da microbiota intestinal não possui efeito deletério na morfologia uterina geral. Por outro lado, o crescimento das lesões da endometriose fica reduzido nos ratos MD em comparação com os modelos de ratos de endometriose cuja microbiota não foi reduzida. O transplante da microbiota fecal (TMF) destes ratos de controlo para os ratos MD provocam a retomada do crescimento das lesões da endometriose enquanto uma outra experiência de TMF de ratos saudáveis (sem endometriose, com a microbiota intestinal não reduzida) não provoca a retomada do respetivo crescimento. Isto confirma que a microbiota intestinal é indispensável ao crescimento das lesões da endometriose.

10% A endometriose afecta 10% das mulheres em idade fértil.

Um metabolito bacteriano aumenta a sobrevida das células endometriais

Outro ensinamento: os investigadores constataram que a microbiota uterina não é necessária para o crescimento das lesões. Além disso, partem do princípio de que a microbiota intestinal tem efeito sobre o crescimento das lesões da endometriose através da modulação das células imunitárias peritoniais. Por conseguinte, identificaram uma assinatura metabólica intestinal específica da endometriose. Um dos metabólitos, o ácido quínico, favorece a sobrevida das células epiteliais do endométrio in vitro e o crescimento das lesões in vivo.

Estes resultados sugerem que a microbiota intestinal e o seu metaboloma contribuem para o crescimento das lesões da endometriose no rato, possivelmente pela modulação de certas populações de células imunitárias. Estes resultados podem ser úteis ao desenvolvimento de ferramentas diagnósticas precoces da doença e da avaliação da sua progressão.

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Uma “superbactéria” para combater os efeitos da desnutrição?

A bactéria Lactiplantibacillus plantarum parece possuir um superpoder: o de minimizar os efeitos da desnutrição no crescimento (peso e altura) dos ratinhos. Esperança para as crianças vítimas de desnutrição?

A microbiota intestinal
Photo: Une « super bactérie » pour combattre les effets de la dénutrition ?

Agarre em ratos recém-desmamados, após 21 dias de amamentação. Dê a alguns deles a bactéria Lactiplantibacillus plantarum, já conhecida por impulsionar o crescimento de drosófilas desnutridas (aquelas pequenas moscas que pairam à volta da sua fruta madura no verão), e aos restantes um placebo. Em seguida, observe o crescimento destes ratos, deliberadamente desnutridos para efeitos do estudo: os ratos que não tiveram a oportunidade de receber a bactéria tornam-se jovens adultos de 56 dias muito raquíticos e que apresentam na balança um peso 10% inferior ao dos outros ratos da experiência, para além de um tamanho 3% a 4% mais pequeno. Por outro lado, os ratinhos que receberam a bactéria são menos desenvolvidos do que os com uma dieta normal, mas o efeito da desnutrição surge fortemente atenuado.

45% Aproximadamente 45% das mortes de crianças com menos de 5 anos estão relacionadas com a desnutrição. Estas ocorrem sobretudo em países de baixos e médios rendimentos.

Lactiplantibacillus plantarum: uma bactéria com superpoderes

Resta saber como tal diferença é possível. É que este estudo 1, demonstra claramente que a alimentação não é o único fator-chave no crescimento dos ratinhos bebés: as bactérias da microbiota intestinal também desempenham um papel essencial. Que mecanismos explicam os superpoderes desta bactéria que consegue criar tanta diferença nos ratinhos desnutridos? Segundo os cientistas, após a ingestão desta bactéria, um composto presente na sua própria parede liga-se a um recetor intestinal específico e provoca a maturação do trato digestivo dos ratos. Com um aparelho digestivo mais amadurecido, os ratinhos pequenos tiram melhor proveito dos alimentos e absorvem melhor os nutrientes, compensando parcialmente a desnutrição e reduzindo a resistência à hormona do crescimento. E pronto!

Uma esperança para 149 milhões de crianças desnutridas

As implicações deste trabalho são importantes, desde que sejam obtidos resultados semelhantes no ser humano. Estes resultados sugerem que será possível, em paralelo com uma estratégia de renutrição, fornecer às crianças desnutridas probióticoscontendo essa bactéria, ou, em alternativa, simples pedaços de paredes dessa bactéria (falamos então de (sidenote: Postbióticos Preparação de microrganismos inanimados e/ou componentes que conferem uma vantagem à saúde do hospedeiro. Salminen S, Collado MC, Endo A, et al. The International Scientific Association of Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of postbiotics. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2021 Sep;18(9):649-667. ) ) para atenuar os atrasos do crescimento inerentes a uma desnutrição prolongada. Uma possível esperança para os 149 milhões de crianças em todo o mundo com menos de 5 anos e que sofrem de desnutrição 2.

149 milhões de crianças Em 2020, havia 149 milhões de crianças com menos de 5 anos que eram raquíticas (demasiado pequenas para a sua idade).

A microbiota intestinal

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Atenuar a desnutrição com bióticos?

E se algumas bactérias probióticas, ou mesmo simples pedaços das suas paredes (pós-bióticos), fossem suficientes para aliviar os efeitos da desnutrição? É esta a esperança suscitada por este estudo realizado numa estirpe de Lactiplantibacillus plantarum.

Photo: Atténuer la dénutrition avec des biotiques ?

Não é só a alimentação que desempenha um papel no crescimento. A microbiota intestinal também é essencial. Uma equipa já tinha demonstrado anteriormente, num modelo de rato, que a microbiota intestinal podia atenuar o efeito pernicioso da subnutrição crónica, ao limitar a resistência do organismo à hormona do crescimento (GH) e os níveis circulantes do fator de crescimento IGF-1. O resultado é um crescimento menos atrofiado. Especificamente, uma estirpe de Lactiplantibacillus plantarum está a receber especial atenção devido à sua capacidade de promover o crescimento num modelo de drosófila desnutrida. A mesma equipa pretendeu desta vez decifrar os mecanismos subjacentes 1.

45% Aproximadamente 45% das mortes de crianças com menos de 5 anos estão relacionadas com a desnutrição. Estas ocorrem sobretudo em países de baixos e médios rendimentos.

Efeito positivo do Lactiplantibacillus plantarum sobre a desnutrição crónica

Para esta nova experiência, os investigadores utilizaram ratinhos recém-desmamados, que foram colocados sob uma dieta de subnutrição proteica, o que significa que a sua ingestão diária de proteínas foi reduzida em 75% em comparação com a dieta normal. Separaram-nos em 2 grupos - um que recebeu a bactéria todos os dias e o outro um placebo durante 56 dias. No final da experiência, os ratinhos que tinham recebido a bactéria apresentavam uma altura e um peso superiores (em comparação com os do placebo), embora não conseguissem compensar totalmente o atraso de crescimento induzido pela desnutrição. Observaram-se também alterações metabólicas e hormonais nos ratos que ingeriram a bactéria, incluindo uma melhoria dos níveis e da atividade do IGF-1 e da insulina. Como? Através de componentes da parede celular bacteriana, nomeadamente o muramil dipeptídeo.

149 milhões de crianças Em 2020, havia 149 milhões de crianças com menos de 5 anos que eram raquíticas (demasiado pequenas para a sua idade).

Absorção de nutrientes facilitada

A desnutrição crónica reduz o número de células estaminais intestinais, levando a uma redução das células epiteliais, as quais também têm vilosidades mais curtas, resultando numa menor absorção de nutrientes. Com base nos seus resultados, os autores pensam que, após a ingestão da bactéria, a parede bacteriana liberta determinados compostos bacterianos, incluindo o muramil dipeptídeo. Este é detetado pelo recetor NOD2 na parede intestinal, levando à sua estimulação e a uma cascata de sinalização celular que permite a proliferação das células intestinais e a maturação do epitélio, facilitando assim a absorção dos nutrientes. Isto provoca uma estimulação da atividade do eixo GH/IGF-1/insulina (sensível aos nutrientes) e a um melhor crescimento pós-natal dos ratinhos.

3 pistas contra a desnutrição

Estes resultados sugerem que, associadas com a renutrição, certas estratégias poderão atenuar o atraso de crescimento observado nos casos de desnutrição:

Xpeer: A lógica por detrás de porquê e como escolher um probiótico

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"Fantástico, que artigo maravilhoso" - Comentário traduzido de Kamara Daniel (Da Biocodex Microbiota Institute em X)

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Noticias Pediatria Gastroenterologia Medicina geral

Fadiga crónica: basta faltar-lhe uma bactéria, e já sente todo o corpo esgotado

Será que a carência de apenas uma bactéria, que já não produz suficientemente uma molécula benéfica para a nossa saúde, bastará para explicar a síndrome da fadiga crónica (SFC) ou a encefalomielite miálgica (EM)? Pelo menos, é esta a via que está a ser seguida pelos investigadores. 1

A microbiota intestinal
Fatigue chronique : une seule bactérie vous manque, et tout votre corps est épuisé

Este é talvez um dos efeitos colaterais da Covid, ou mais precisamente da Covid longa: ter trazido para a ribalta uma patologia com sintomas semelhantes, a síndrome da fadiga crónica, também chamada encefalomielite miálgica.

Definição

A fadiga crónica, também chamada encefalomielite miálgica, é uma doença crónica, incapacitante e inexplicável. Caracteriza-se por uma série de sintomas: fadiga, mal-estar pós-esforço, problemas de memória, dor, disfunção gastrointestinal, anomalias imunitárias e perturbações do sono.

Esta doença crónica atinge as suas vítimas (principalmente mulheres entre os 20 e os 40 anos) com sintomas de exaustão, mal-estar pós-esforço, problemas de memória, disfunção gastrointestinal, anomalias imunitárias e perturbações do sono. Dois estudos publicados na revista Cell Host & Microbe são dedicados a esta patologia misteriosa, e mais especificamente às suas ligações com a microbiota intestinal.

20 - 40 anos A síndrome da fadiga crónica ocorre principalmente em adultos entre as idades de 20 e 40 anos.

Depleção bacteriana na microbiota em caso de síndrome da fadiga crónica

O que estes dois estudos têm em comum é o facto de mostrarem que a presença de uma bactéria intestinal chamada Faecalibacterium prausnitzii é demasiado rara nos doentes. E quanto mais a F. prausnitzii diminui, mais grave é a fadiga sentida. E a história não termina aqui. De facto, esta bactéria é conhecida por produzir um (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. )  chamado butirato, que é benéfico para o hospedeiro (isto é, nós!) : ele protege a nossa barreira intestinal, modula o nosso sistema imunitário… Longe de ficar confinado ao nosso sistema digestivo, até se faz convidado para o nosso sangue, para o nosso maior bem.

0,4% e 2,5% da população mundial A prevalência mundial da EM/SFC situa-se entre 0,4% e 2,5%.

Um sistema imunitário desregulado

Além disso, e é isso que o segundo estudo parece indicar, este ácido gordo poderá explicar a evolução da doença a longo prazo. Com efeito, nos doentes que sofrem de síndrome de fadiga crónica há mais de 10 anos, a microbiota intestinal parece recuperar e conseguir, ano após ano, reencontrar o equilíbrio (mesmo que persistam algumas diferenças em relação às pessoas sem a doença). Por outro lado, estes doentes de longa duração têm sintomas mais graves e o seu sistema imunitário parece estar mais perturbado do que o dos doentes que sofrem da patologia há menos de 4 anos. Os investigadores interpretam este facto como uma demonstração de que as perturbações iniciais da microbiota intestinal e a diminuição do ácido gordo butirato podem, em algumas pessoas, induzir alterações irreversíveis em todo o organismo e levar a um estado de saúde alterado a longo prazo. 2

3 mulheres vs. 1 homem em média É mais habitual nas mulheres do que nos homens, com uma proporção média de 3/1, podendo atingir 6/1.

A microbiota intestinal

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"Gosto disto" - Comentário traduzido de Jon Lohr (Da My health, my microbiota)

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Encefalomielite miálgica: fadiga com a assinatura F. prausnitzii

Uma diminuição da bactéria F. prausnitzii a nível intestinal parece constituir a assinatura da síndrome de fadiga crónica, de acordo com dois estudos publicados na Cell Host & Microbe.

Exaustão, mal-estar pós-esforço, problemas de memória, dor, disfunção gastrointestinal, anomalias imunitárias, perturbações do sono: toda uma série de sintomas que caracterizam a síndrome da fadiga crónica ou encefalomielite miálgica. Trata-se de uma doença incapacitante e crónica, que afeta entre 0,4% e 2,5% da população, principalmente os adultos entre os 20 e os 40 anos e do sexo feminino, que é ainda muito mal compreendida. No entanto, a comunidade científica está interessada no papel da comunicação intestino-cérebro 1 na patologia e, em particular, na participação da microbiota intestinal. Duas publicações recentes na revista Cell Host & Microbe 2,3 centraram-se nas alterações da comunidade microbiana para melhor compreender a doença e para identificar biomarcadores.

Entre 1,5% e 2,5% A prevalência mundial da EM/SFC situa-se entre 0,4% e 2,5%.

20 a 40 anos Esta doença ocorre principalmente em adultos com idade entre 20 e 40 anos.

Bactérias produtoras de butirato no banco dos réus

O primeiro estudo baseia-se em análises metagenómicas e metabolómicas de amostras fecais recolhidas de 106 pacientes e de 91 indivíduos saudáveis para servir de controlo, todos eles residentes em 5 dos estados dos EUA. Destaca a existência de disbiose intestinal significativa nos doentes, com diferenças na diversidade, abundância, vias biológicas funcionais e interações entre as comunidades microbianas dos dois grupos. Especificamente, as bactérias Faecalibacterium prausnitzii e Eubacterium rectale, duas bactérias benéficas produtoras de butirato, encontram-se em recuo nos casos de fadiga crónica. As análises complementares confirmam uma menor síntese de butirato bacteriano em pacientes. E quanto mais a F. prausnitzii diminui, mais grave se torna a fadiga sentida.

Doentes de curta duração face a doentes de longa duração

O segundo estudo, também americano, incluiu 149 doentes e 79 controlos saudáveis, com a particularidade de distinguir dois grupos entre os pacientes: 75 doentes há menos de 4 anos e 74 doentes há mais de 10 anos. Os investigadores descobriram também uma forte disbiose intestinal, especialmente nos doentes de curta duração, com uma diminuição de F. prausnitzii. Nos doentes com doença prolongada, a microbiota intestinal assemelhava-se mais à configuração da dos controlos saudáveis (embora com algumas diferenças notáveis nas espécies com abundância reduzida e na heterogeneidade), o que sugere um regresso a uma homeostasia relativa.

Em contrapartida, estes doentes de longa duração apresentavam sintomas clínicos mais graves e um metabolismo mais alterado do que os outros doentes, incluindo o seu sistema imunitário. Daí a hipótese dos investigadores segundo a qual a fadiga crónica poderá iniciar-se mediante uma perda de bactérias benéficas, nomeadamente as produtoras de butirato, o que conduzirá a alterações metabólicas no hospedeiro. Estas alterações poderão levar a alterações metabólicas e fenotípicas irreversíveis em alguns indivíduos e a uma alteração do estado de saúde a longo prazo.

No entanto, a fim de se eliminar potenciais enviesamentos na análise, é necessária mais investigação para confirmar esta hipótese e abrir caminho para o desenvolvimento de novas ferramentas de diagnóstico e, esperemos, de novos tratamentos.

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As interações sociais moldam a nossa microbiota

As relações entre as pessoas são uma importante força impulsionadora da formação da microbiota e, portanto, do metabolismo associado. Por exemplo, coabitar com alguém significa partilhar em média 12% das espécies da sua microbiota intestinal e 32% das estirpes orais.

Quand les interactions sociales façonnent nos microbiotes

Ao contrário do genoma – herdado dos nossos pais e estável – a microbiota, semeada à nascença, evolui ao longo do tempo de acordo com a nossa alimentação, o nosso tipo de vida... e, mais surpreendentemente, as pessoas com quem convivemos! É isto, de facto, o que tendem a mostrar os resultados de um estudo que analisou um grande painel de dados metagenómicos, cobrindo 4 continentes. No total foram analisadas 9.715 amostras de microbiota, incluindo 7.646 de fezes e 2.069 de saliva.

Quanto maior é a distância geográfica, menor é a partilha de micróbios

Primeira conclusão: a partilha de estirpes de pessoa a pessoa segue um gradiente baseado na distância geográfica, na rede de interação social e no parentesco. Globalmente, ao se analisar a microbiota intestinal, observam-se as taxas mais elevadas de partilha de estirpes de pessoa a pessoa entre as mães e os seus filhos de 0 a 3 anos (34%), seguidas pelas das pessoas (>4 anos) do mesmo agregado familiar (12%), as dos gémeos adultos não coabitantes (8%), e, finalmente, as dos adultos residentes na mesma comunidade - mas não sob o mesmo teto - (8%). Segundo os autores, este perfil microbiano partilhado dentro da mesma aldeia deve-se às interações físicas e ao ambiente comum a todos os habitantes dessa aldeia. Inversamente, os indivíduos que não vivem sob o mesmo teto ou na mesma localidade apresentam uma taxa de partilha de estirpes muito baixa.

38% Um casal partilha 38% da sua microbiota oral.

A transmissão materna vista ao microscópio

Para se perceber melhor a transmissão materna, foram analisadas 3.598 amostras de 711 pares mãe-filho. Elas permitiram destacar taxas progressivamente decrescentes de partilha de estirpes intestinais, de 65% no 1.º dia, 50% na 1.ª semana, 47% ao 1 ano, 27% entre os 1 e os 3 anos, 19% até aos 18 anos e 14% até aos 30 anos. Este declínio gradual na taxa de partilha de estirpes intestinais está provavelmente associado à redução da proximidade física e ao acesso a novos ambientes. No entanto, há alguma filiação da microbiota intestinal que permanece: entre os 50 e os 85 anos de idade, os filhos ainda partilham 16% das estirpes intestinais com a mãe, mesmo que já não vivam sob o mesmo teto.

65% Um recém-nascido e a mãe partilham 65% da respetiva microbiota intestinal no dia do nascimento.

Quanto à microbiota oral, o estudo dos dados dos EUA e das Fiji mostra dinâmicas muito diferentes: as taxas de partilha mãe-filho aumentam com a idade da criança, especialmente após os 3 anos, coincidindo com a acumulação crescente de espécies de microrganismos na microbiota oral. No entanto, a partilha entre uma criança pequena e a sua mãe (30%) ou pai (24%) nunca se aproxima da existente entre um casal (38%), devido à intimidade dos parceiros.

A microbiota ORL

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Pouco impacto do estilo de vida na transmissão da microbiota

Por fim, o estilo de vida (ocidental ou não) mostram muito menos impacto do que o esperado sobre a dinâmica da transmissão da microbiota: as taxas de partilha de estirpes entre indivíduos parecem notavelmente semelhantes, independentemente do país. A maior riqueza em microrganismos que se observa em comunidades não ocidentalizadas não parece, portanto, ser devida a uma maior transmissão através de outros membros do agregado familiar. Ela pode ser mais uma consequência da interação com o ambiente e de dietas e estilos de vida que promovem a diversidade dos microrganismos.

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