Para nos protegermos dos vírus da dengue e do zika, vamos proteger os mosquitos! Esta é, essencialmente, a estratégia proposta por uma equipa chinesa, que se baseia simplesmente na ingestão, pelo mosquito, de uma bactéria que ele manterá no seu sistema digestivo durante toda a sua vida, impedindo-o de ser infetado pelos vírus e, por conseguinte, de nos transmitir esses vírus.
Apesar do seu tamanho reduzido, todos os anos os mosquitos causam centenas de milhões de casos de doenças graves e até fatais, transmitindo aos seres humanos, quando os picam, parasitas (malária) e uma grande variedade de vírus: (sidenote:
Flavivirus
género de vírus que inclui mais de 70 membros, vários dos quais são considerados importantes agentes patogénicos para o ser humano. Transmitidos pela picada de mosquitos infetados, os Flavivírus causam um amplo espetro de doenças que se podem classificar em duas categorias:
- doenças sistémicas hemorrágicas (vírus do dengue e da febre amarela),
- e complicações neurológicas (vírus do Nilo ocidental, zika)
Aprofundar:https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34696709/) ( (sidenote:
Dengue
infeção viral transmitida pelos mosquitos aos seres humanos. A maioria dos doentes apresenta sintomas ligeiros ou inexistentes e recupera no prazo de 1 a 2 semanas. Em casos raros, a febre da dengue pode ser grave e levar à morte. Quando os sintomas aparecem, começam geralmente 4 a 10 dias após a infeção e duram 2 a 7 dias: febre alta (40°C), dor de cabeça intensa, dor atrás dos olhos, dores musculares e articulares, náuseas, vómitos, gânglios linfáticos inchados, erupções cutâneas. As pessoas infetadas pela segunda vez correm um risco acrescido de contrair dengue grave. Não existe tratamento específico para a febre da dengue.
Aprofundar:https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/dengue-and-severe-dengue), (sidenote:
Zika
infeção viral transmitida principalmente pelos mosquitos Aedes, que picam sobretudo durante o dia. A maioria das pessoas infetadas com o vírus Zika não manifesta quaisquer sintomas; as que o fazem desenvolvem geralmente erupções cutâneas, febre, conjuntivite, dores musculares e articulares, mal-estar e dores de cabeça que duram entre 2 a 7 dias. A infeção pelo vírus Zika durante a gravidez pode provocar microcefalia e outros defeitos congénitos nos bebés, bem como partos prematuros e abortos espontâneos. Não existe tratamento específico para a infeção ou para a doença causada pelo vírus Zika.
Aprofundar:https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/zika-virus), etc.), (sidenote:
Alphavirus
género composto por 27 vírus, incluindo o temido (e impronunciável) Chikungunya, que após um período de incubação de 2 a 10 dias, causa febre e lesões graves nas articulações. Os alfavírus são transmitidos através da picada de um mosquito infetado.
Aprofundar:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK7633/) (chikungunya), etc. E se a solução não for eliminar o mosquito (inseticidas) ou mantê-lo à distância (mosquiteiros, repelentes), mas simplesmente evitar que o mosquito apanhe os vírus e, portanto, no-los transmita?
Casos de dengue no mundo
A Organização Mundial de Saúde (OMS) apurou que entre 2000 e 2019 o número de casos de dengue registados em todo o mundo aumentou dez vezes, passando de 500.000 para 5,2 milhões. Após um ligeiro recuo durante a pandemia de COVID-19, observou-se um recrudescimento dos casos de dengue a nível mundial em 2023. 2
Proteger o mosquito...
Esta é a solução extremamente séria proposta por uma equipa chinesa na sequência do seu trabalho sobre a microbiota intestinal dos mosquitos. Entre as 55 bactérias presentes no trato digestivo dos insetos, uma, chamada RosenbergiellaYN46, chamou-lhes a atenção. Porquê? Porque impedia de forma definitiva que os mosquitos que a tinham ingerido apanhassem flavivírus.
Como é que isso é possível? Esta bactéria instala-se de forma permanente no tubo digestivo do mosquito, onde transforma a glicose (açúcar) num ácido. Como consequência direta, o conteúdo digestivo torna-se altamente ácido, causando a desnaturação dos Flavivírus. Incapazes de contaminar os mosquitos, esses vírus, portanto, já não contaminam os seres humanos.
390 milhões
Com cerca de 390 milhões de infeções por ano, o vírus da dengue é o flavivírus transmitido por mosquitos mais difundido no mundo. ¹
... para proteger o ser humano
Os investigadores não se limitaram ao seu trabalho de laboratório. Também foram para o terreno para confirmar a sua ideia. Esta foi uma oportunidade para observarem que, nas prefeituras da província chinesa de Yunnan em que a febre de dengue está a causar devastação, os mosquitos raramente albergam esta bactéria no seu sistema digestivo; pelo contrário, nas prefeituras em que apenas foram notificados alguns casos muito isolados de febre de dengue, a maioria, ou mesmo a grande maioria dos mosquitos (91,7% na prefeitura de Wenshan) é portadora desta bactéria.
E a boa notícia é que não só é fácil inocular os mosquitos com a bactéria (uma tigela de água açucarada com a bactéria e já está!), como esta é conservada pelo inseto durante toda a sua vida (desde a fase de larva aquática até à fase adulta alada) e transmitida à geração seguinte. Em suma, uma vez inoculada uma população de mosquitos com a bactéria protetora RosenbergiellaYN46, é para toda a vida, e para as gerações seguintes de mosquitinhos!
223.000
O vírus Zika foi responsável por mais de 223.000 casos confirmados nas Ilhas do Pacífico e nas Américas entre 2015 e 2017. ¹
Conclusion
Assim, ainda que não se possa exterminar os insetos incómodos que assolam as nossas noites, este potencial meio de (sidenote:
controlo biológico
é uma forma eficaz e amiga do ambiente de reduzir ou mitigar as pragas e os seus efeitos através da utilização de inimigos naturais.
Aprofundar:https://www.sciencedirect.com/journal/biological-control) pode contribuir para sossegar o número crescente de pessoas que temem além das picadas, a transmissão do dengue ou do zika.
Com o aumento das infeções por bactérias Gram-negativas, os antibióticos de largo espetro perturbam frequentemente a microbiota intestinal, provocando infeções secundárias. Um novo estudo apresenta a lolamicina, um antibiótico Gram-negativo seletivo que visa o sistema de transporte de lipoproteínas Lol, preservando eficazmente a microbiota intestinal e prevenindo infeções secundárias.
As infeções causadas por (sidenote:
Bactérias Gram-negativas
Grupo de bactérias caracterizado pela sua estrutura singular da parede celular, o que as torna resistentes a muitos antibióticos e, frequentemente, mais difíceis de tratar.
) estão a tornar-se mais habituais e são frequentemente tratadas com antibióticos de largo espetro, que podem perturbar a microbiota intestinal e causar infeções secundárias. Existe uma necessidade premente de antibióticos que sejam seletivos para as bactérias Gram-negativas patogénicas, poupando as bactérias comensais e a microbiota intestinal.
Este novo estudo 1 teve como objetivo conceber e descobrir um antibiótico selectivo contra bactérias Gram-negativas que visasse o sistema de transporte de lipoproteínas Lol, preservando assim a microbiota intestinal e prevenindo infeções secundárias.
O sistema de transporte de lipoproteínas Lol é um mecanismo vital nas bactérias Gram-negativas, essencial para o transporte de lipoproteínas para a membrana externa, onde desempenham papéis estruturais e funcionais cruciais. A sua especificidade para as bactérias Gram-negativas e a sua natureza crucial tornam-no um alvo atrativo para o desenvolvimento de antibióticos.
Criação de um antibiótico seletivo
O processo de desenvolvimento começou com uma série de análises de células inteiras na AstraZeneca, que identificaram compostos que inibem o complexo LolCDE, um componente fundamental do sistema Lol. Os investigadores deram prioridade aos compostos que se mostraram inicialmente promissores, mas enfrentaram dificuldades em termos de solubilidade e de resistência. Através de um processo repetitivo de modificação química, conceberam uma estrutura híbrida, acrescentando aminas primárias para aumentar a acumulação de compostos e a eficiência do direcionamento.
O culminar destes esforços consistiu na identificação da lolamicina, um composto que desregula eficazmente o sistema Lol, matando assim seletivamente as bactérias Gram-negativas patogénicas. Este direcionamento seletivo é possível graças à divergência significativa de homologia de sequência entre as bactérias patogénicas e as bactérias comensais do intestino, assegurando que as bactérias benéficas permaneçam incólumes.
Obtenção de resultados extraordinários em modelos de infeção
A eficácia da lolamicina foi posta à prova em estudos pré-clínicos rigorosos e os resultados foram absolutamente revolucionários. A lolamicina demonstrou uma atividade vigorosa contra um painel diversificado de mais de 130 isolados clínicos (sidenote:
Multirresistentes
Descreve as bactérias que desenvolveram resistência a várias classes de antibióticos, tornando as infeções causadas por essas mesmas bactérias particularmente difíceis de tratar.
) de bactérias Gram-negativas, incluindo agentes patogénicos notórios como E. coli, Klebsiellapneumoniae e Enterobactercloacae.
Em modelos de pneumonia aguda e septicemia em ratinhos, a lolamicina evidenciou o seu potencial terapêutico superior. Os ratinhos tratados com lolamicina apresentaram uma redução de 99% na carga bacteriana e taxas de sobrevivência notáveis, superando significativamente os antibióticos de comparação existentes.
Uma das características mais marcantes da lolamicina é a sua capacidade de preservação da microbiota. Contrariamente aos antibióticos de largo espetro que causam a devastação na microbiota intestinal, o tratamento com lolamicina resultou em alterações mínimas na composição microbiana do intestino. Isto foi comprovado através da sequenciação completa do 16S rRNA de amostras fecais de ratos tratados, que revelou que a lolamicina preservou a diversidade e a riqueza da microbiota intestinal. De forma notável, os ratinhos tratados com lolamicina mantiveram a sua capacidade de eliminar espontaneamente a colonização por Clostridioides difficile, uma complicação frequente e grave associada à utilização de antibióticos.
Conclusão
Embora ainda seja necessária a sua validação em ensaios clínicos em seres humanos, este avanço não só responde ao desafio imediato das infeções resistentes, como também inaugura uma nova era de tratamentos direcionados de precisão que salvaguardam a saúde em geral.
Face ao aumento das infeções por bactérias Gram-negativas, os antibióticos de largo espetro funcionam como um incêndio, destruindo tanto as bactérias nocivas como as benéficas. A lolamicina, um novo antibiótico, visa apenas as bactérias nocivas, poupando a microbiota intestinal e permitindo um tratamento preciso e mais seguro das infeções.
À medida que as infeções por bactérias (sidenote:
Bactérias Gram-negativas
Grupo de bactérias caracterizado pela sua estrutura singular da parede celular, o que as torna resistentes a muitos antibióticos e, frequentemente, mais difíceis de tratar.
)aumentam, a nossa microbiota intestinal – que alberga triliões de bactérias benéficas – está a ter de enfrentar o ataque dos antibióticos de largo espetro. Estes medicamentos, embora eficazes contra as infeções, eliminam muitas vezes as bactérias benéficas do nosso intestino, originando infeções secundárias. São como usar uma marreta para partir uma noz. Há uma necessidade urgente de antibióticos que visem os maus sem prejudicar os bons da fita.
E é aqui que entra a lolamicina. Investigadores têm estado a trabalhar no sentido de conceber um antibiótico que vise especificamente as bactérias Gram-negativas 1.
A arma secreta? O sistema de transporte de lipoproteínas Lol, um mecanismo vital exclusivo destas bactérias nocivas. Ao interferir com este sistema, a lolamicina pode eliminar os agentes patogénicos, deixando incólumes as nossas bactérias benéficas.
O que são as bactérias Gram-negativas?
As bactérias Gram-negativas têm uma estrutura de parede celular singular que as torna resistentes a muitos antibióticos.
Importância na microbiota:
47% da microbiota intestinal consiste em bactérias Gram-negativas.
Elas desempenham um papel fundamental na digestão e na imunidade.
Medicina de precisão: a arte de criar a lolamicina
Desenvolver a (sidenote:
Lolamicina
Antibiótico seletivo recentemente desenvolvido que visa o sistema de transporte de lipoproteínas Lol das bactérias Gram-negativas, matando eficazmente as bactérias patogénicas sem perturbar a microbiota intestinal.
) não foi tarefa fácil. Imagine-se tentar criar uma chave que encaixe perfeitamente numa fechadura sem interferir com a estrutura envolvente. Os investigadores começaram por fazer um rastreio de células inteiras, identificando compostos que pudessem inibir o sistema Lol num grupo de bactérias específicas. Através de uma série de correções e modificações, conceberam uma estrutura híbrida que levou à criação da lolamicina.
Compreender os antibióticos
Os antibióticos são medicamentos utilizados para tratar as infeções bacterianas.
Modos de ação:
Visar as paredes/membranas celulares: rompem a integridade das células bacterianas (por exemplo, penicilina)
Inibir a síntese proteica: impedem as bactérias de produzirem proteínas essenciais (por exemplo, tetraciclinas)
Bloquear a replicação do ADN: interrompem o crescimento bacteriano interferindo com os processos de ADN (por exemplo, quinolonas)
Este novo antibiótico foi submetido a testes rigorosos e obteve resultados impressionantes. A Lolamicina demonstrou uma atividade robusta contra mais de 130 estirpes diferentes de bactérias (sidenote:
Multirresistentes
Descreve as bactérias que desenvolveram resistência a várias classes de antibióticos, tornando as infeções causadas por essas mesmas bactérias particularmente difíceis de tratar.
), incluindo as mais conhecidas causadoras de problemas, como a E. coli e a Klebsiellapneumoniae. Em modelos de ratinhos com infeções graves, a lolamicina reduziu significativamente as cargas bacterianas e melhorou as taxas de sobrevivência, superando os antibióticos existentes.
Sensibilização para o consumo de antibióticos
WAAW! - Semana Mundial de Sensibilização para a Resistência aos Antimicrobianos Advertência:
“Os antibióticos não são automáticos” - Utilize os antibióticos de forma responsável para evitar a resistência.
O uso excessivo e indevido de antibióticos pode originar estirpes bacterianas resistentes, tornando as infeções mais difíceis de tratar.
Consulte sempre um profissional de saúde antes de tomar antibióticos.
Atacar os vilões, poupar os heróis
Mas o que realmente altera o cenário é a capacidade da lolamicina de preservar a microbiota intestinal. Contrariamente aos antibióticos de largo espetro que devastam a comunidade bacteriana do intestino, o tratamento com lolamicina resultou em alterações mínimas. Isto foi confirmado através de técnicas avançadas de sequenciação de ADN, que demonstraram que a diversidade e a riqueza da microbiota intestinal se mantinham. De forma notável, os ratos tratados com lolamicina conseguiram resistir a infeções secundárias por Clostridioidesdifficile, uma complicação frequente da utilização de antibióticos.
1 em cada 3
pessoas tinha sido informada pelos seus profissionais de saúde de que a toma de antibióticos é suscetível de ter consequências negativas para o equilíbrio da sua microbiota.
Embora seja necessária validação adicional em ensaios humanos, a lolamicina representa um passo em frente revolucionário. Não se trata apenas de combater as infeções - trata-se de o fazer com precisão, assegurando que as nossas bactérias benéficas permaneçam ilesas. Este avanço assinala uma nova era na medicina, em que os antibióticos serão ajustados para atacar com precisão os agentes patogénicos, salvaguardando a nossa saúde em geral.
A dispepsia funcional é uma perturbação digestiva tão vulgar como o seu nome é esquisito. A dor de estômago ou azia, a sensação de estômago cheio, o desconforto, as náuseas... todos estes sintomas são característicos. Embora o prognóstico não seja de risco de vida, a qualidade de vida é afetada por esta doença com a participação aparente da microbiota intestinal. Os sintomas podem ser aliviados através de uma dieta adaptada. Outra via: a modulação da flora intestinal, através de probióticos.
O seu nome não será muito conhecido pelo público em geral. No entanto, a dispepsia funcional (DF) é uma doença gastrointestinal muito generalizada e ainda mal compreendida e subdiagnosticada. A DF representa por si só 3 a 5% das consultas médicas na América do Norte 1 !
O termo dispepsia vem do grego “dis” (má), “pepsis” (digestão).
Os sintomas de dispepsia funcional, variados, estão sempre associados à impressão de se digerir mal 2:
saciedade precoce, quando se está longe de ter terminado a refeição
sensação de ter comido demasiado (sensação de peso e de distensão do estômago), apesar de uma refeição perfeitamente razoável
dor ou sensação de queimadura na parte superior do estômago
perda de apetite
arrotos ou soluços
náuseas ou mesmo vómitos
Atenção!
Os sintomas têm de ser duradouros para serem classificados como dispepsia funcional: devem ter sido sentidos pelo menos durante 6 meses e ter estado a ocorrer durante pelo menos 3 meses consecutivos.
síndrome do desconforto pós-prandial, caracterizada por uma sensação de estômago distendido (plenitude pós-prandial) após a refeição ou saciedade precoce mesmo antes do seu término
síndrome de dor epigástrica (envolvendo a região superior e média do abdómen), com sintomas não diretamente relacionados com a refeição (azia, etc.)
Você sabia?
Diz-se que a dispepsia é funcional porque não é acompanhada por quaisquer anomalias estruturais nos órgãos e tecidos digestivos. Os sintomas sentidos não podem ser explicados pela presença de lesões no estômago (não existe úlcera) nem por qualquer outra anomalia orgânica ou estrutural: os exames eventualmente efetuados (gastroenteroscopia, ecografia, TAC, etc.) revelam-se todos negativos.
Quantas pessoas são afetadas por esta doença? Quem são as pessoas mais expostas?
Os estudos estimam que a dispepsia funcional afete entre 10% e 30% dos adultos e entre 3% e 27% das crianças em todo o mundo 2. As mulheres, os fumadores e os utilizadores de anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, cetoprofeno) apresentam um risco mais elevado 3.
7%
dos adultos são afetados por dispepsia funcional ⁴
3% a 27%
das crianças em todo o mundo são afetadas por dispepsia funcional ⁴
As consequências para os pacientes estão longe de ser insignificantes: 2/3 das pessoas afetadas pela dispepsia funcional sofrem de sintomas persistentes e irregulares que podem afetar a sua qualidade de vida e o seu bem-estar 1.
Quais são os fatores associados à dispepsia funcional?
Estilo de vida, dieta...
Alimentação
O papel da alimentação no desencadear dos sintomas da dispepsia funcional é cada vez mais reconhecido. Culpados? Acima de tudo, os alimentos gordurosos. Mas não só. Outros alimentos, incluindo os que contêm hidratos de carbono, leite e produtos lácteos, citrinos, comidas apimentadas, café, e álcool, também foram referidos 5. Há, no entanto, uma ressalva: os resultados dos estudos não são particularmente consistentes.
Que alimentos estão associados a que sintomas?
Sensação de saciedade excessiva após uma refeição: carnes vermelhas, bananas, pão, trigo, bolos, massas, enchidos, fritos, feijão, maionese, leite, chocolate, ovos, doces, laranjas e outros citrinos.
Eructações (arrotos): refrigerantes, cebola, feijão, leite e banana
Sensações de queimadura na parte superior do estômago: café, queijo, cebola, pimento, leite, chocolate, ananás 5
A mente pode também desempenhar um papel nesta equação, com a recordação de uma má experiência a levar os doentes a antecipar os sintomas e a senti-los excessivamente quando são novamente expostos a ela. A experiência mostra, assim, que distrair um doente com uma tarefa cognitiva é suficiente para o fazer esquecer os seus sintomas; pelo contrário, mentir sobre o teor de gordura de um iogurte (que se indica ser mais elevado do que é na realidade) aumenta as náuseas sentidas pelo doente.
FODMAPs e dispepsia
Os FODMAPs (Fermentable Oligo, Di-, Mono-mers and Polyols) são hidratos de carbono que os seres humanos não conseguem digerir. Por conseguinte, são fermentados pelas bactérias intestinais (nomeadamente as bifidobactérias), o que provoca a produção de gases (e, consequentemente, o inchaço). Foram referidos outros efeitos potenciais, tais como um aumento do volume de água no conteúdo digestivo e uma produção excessiva de (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.) (propionato, butirato e acetato). De acordo com ensaios clínicos recentes, os FODMAPs poderão estar envolvidos na patogénese da dispepsia funcional 6.
Estresse e ansiedade
Os portadores de dispepsia funcional são muitas vezes stressados e ansiosos: um grande estudo demonstrou que aansiedade está claramente ligada à doença e, mais especificamente, à síndrome do desconforto pós-prandial; um outro estudo realizado com 18.000 japoneses demonstrou que os doentes com sintomas de dispepsia funcional se sentiam mais stressados no dia-a-dia, referiam mais frequentemente que não dormiam o suficiente e queixavam-se com mais frequência de dificuldade em adormecer 5.
Os doentes com dispepsia funcional apresentam geralmente níveis mais baixos de atividade física. E é pena: parece que a prática de desporto pode de facto diminuir os sintomas e melhorar o trânsito e a evacuação dos gases nas pessoas que sofrem de inchaços 5.
Um estudo realizado com 2.560 suecos revela que os fumadores estão mais expostos à síndrome do desconforto pós-prandial: fumar 10 a 19 cigarros por dia aumenta o risco em 42%, enquanto fumar mais de um maço por dia mais do que duplica esse risco 7.
Obesidade
A obesidade está associada a muitos sintomas gastrointestinais, gastrointestinais, incluindo a dispepsia funcional. Várias hipóteses têm sido avançadas: por exemplo, nas pessoas obesas, os recetores orais e intestinais responsáveis por alertar o organismo para a presença de gordura poderão estar alterados, o que amplificaria os efeitos gastrointestinais nestes doentes, tornando-os mais sensíveis à gordura alimentar 5.
Alguns especialistas sugerem também que existe uma relação recíproca entre a dispepsia funcional e a (sidenote:
Síndrome metabólica
A síndrome metabólica, também conhecida como síndrome X, caracteriza-se pela acumulação de várias perturbações metabólicas no mesmo indivíduo, incluindo um perímetro abdominal elevado (devido ao excesso de tecido adiposo abdominal), hipertensão, glicemia de jejum anormal ou resistência à insulina e dislipidemia.
), em que uma favorece a outra e vice-versa, criando um círculo vicioso 1.
Bactéria Helicobacter pylori
Desde os anos 80 se sabe que o estômago, embora altamente ácido, não é estéril. Acolhe mesmo uma comunidade de microrganismos, incluindo a bactéria H. pylori. E a infeção por H. pylori parece estar relacionada com o aparecimento e a progressão da dispepsia funcional: os doentes com antecedentes de infeção por H. pylori têm um risco mais elevado de desenvolver dispepsia funcional 2.
Qual o papel da microbiota?
Disbiose, o papel dos metabólitos...
Disbiose em todo o sistema digestivo
O tubo digestivo alberga cerca de 100 mil milhões de microrganismos, pertencentes a mais de 1.000 espécies diferentes: a microbiota gastrointestinal.
Proteobactérias, Firmicutes, Actinobacteria e Bacteroidetes dominam largamente esta comunidade: representam mais de 98% da microbiota intestinal, com predominância de Firmicutes, seguidas de Actinobacteria e Bacteroidetes2. Isto, pelo menos, nas pessoas saudáveis. Porque nas pessoas que sofrem de patologias, entre as quais a dispepsia funcional, este equilíbrio não é atingido: observa-se uma disbiose em todo o sistema digestivo, desde a boca até ao ânus2.
Assim, em pacientes com dispepsia funcional, os estudos observam, por exemplo:
maior abundância de Firmicutes, estreptococos (associados a sintomas na parte superior do estômago), Bifidobacterium e Clostridium
menor abundância de Prevotella (correspondente a mais sintomas de desconforto após a refeição).
A contribuição da microbiota para a dispepsia funcional está longe de se limitar às bactérias presentes. É que cada uma destas bactérias segrega uma multiplicidade de moléculas ativas, tanto benéficas como nocivas, que estão intimamente ligadas à saúde do seu hospedeiro e ao aparecimento e progressão de numerosas doenças 2,3. Por exemplo:
e outros são prejudiciais para o hospedeiro (esfingolípidos pró-inflamatórios produzidos por Bacteroidetes e Prevotellacae) 3
Quais os mecanismos envolvidos?
Imunidade, o eixo intestino-cérebro...
Embora ainda existam muitas áreas cinzentas, os investigadores acreditam que os mecanismos que conduzem à dispepsia funcional são provavelmente multifatoriais e variam de um doente para outro8. Portanto, há vários mecanismos que estão envolvidos na dispepsia funcional:
Perturbação da barreira intestinal
Normalmente, os alimentos que transitam pelo nosso sistema digestivo ficam isolados do nosso organismo por uma barreira: a mucosa intestinal. Esta barreira é semipermeável: permite a absorção dos nutrientes, mas bloqueia a passagem de várias substâncias nocivas e agentes patogénicos ingeridos ao mesmo tempo que a nossa refeição 2.
Nos doentes com dispepsia funcional, a integridade desta mucosa está comprometida, de tal forma que desempenha o seu papel de filtragem de forma menos eficaz.
Perturbação da imunidade intestinal
Nos doentes que sofrem de dispepsia funcional, a resposta imunitária parece estar sobreativada: 40% dos pacientes têm células inflamatórias que se infiltram no duodeno e observa-se frequentemente uma proliferação de bactérias (e, em particular, bactérias orais) 9 no intestino delgado, o que poderá ativar esta resposta imunitária. Além disso, alguns investigadores acham que temos de nos concentrar mais na microbiota do (sidenote:
Intestino delgado
Parte do sistema localizado entre o estômago e o intestino grosso (ou cólon), essencial para a digestão e absorção de nutrientes. Com 6,5 a 7 metros de comprimento, é a parte mais longa do tubo digestivo, compreendendo o duodeno, depois o jejuno e, por fim, o íleo.
) para se compreender melhor a patogénese da dispepsia funcional 9.
A culpa será da proliferação de bactérias no intestino delgado?
Uma proliferação de bactérias no intestino delgado (ou SIBO, sigla para small intestinal bacterial overgrowth) poderá ter um papel na patogénese da dispepsia funcional: esta proliferação parece ser mais frequente em doentes que sofrem de dispepsia funcional do que nos que não apresentam estes sintomas 10,11. Entre os pacientes que sofrem de dispepsia funcional, aqueles a quem foram prescritos IBP (inibidores da bomba de protões, medicamentos utilizados para reduzir a secreção de ácido gástrico) parecem estar em maior risco de SIBO 12. ao atenuarem a acidez do estômago, os IBP reduzem a barreira química destinada a destruir muitos microrganismos patogénicos através do ácido clorídrico segregado pelas paredes do estômago. sto poderá explicar a presença de um excesso de bactérias no intestino delgado, situado logo a seguir ao estômago.
No entanto, as provas de uma ligação entre a dispepsia funcional e a SIBO são ainda frágeis: como a flora duodenal não pode ser facilmente recolhida, os estudos baseiam-se geralmente na deteção de gases contidos no ar expirado pelos doentes. Embora se trate de um teste fácil de realizar e não invasivo, a sua desvantagem é uma inegável falta de fiabilidade 11.
Desregulação do eixo intestino-cérebro
Existem interações complexas entre a microbiota intestinal, o sistema digestivo e o sistema nervoso central. É este eixo microbiota-intestino-cérebro que explica por que razão o stress pode provocar dores de estômago, ou por que razão as alterações da flora intestinal podem alterar a motilidade intestinal e “informar” o cérebro, que por sua vez pode regular os intestinos. Sabe-se também que a dispepsia funcional está intimamente ligada a perturbações da motilidade gastrointestinal (que está sob controlo cerebral) e à hipersensibilidade gastrointestinal, que se encontram por sua vez associadas à microbiota gastrointestinal 2. Daí a considerar-se que tudo está interligado vai um pequeno passo...
A presença de nutrientes no lúmen do tubo digestivo gera sinais que ajustam a digestão: uma refeição rica em gordura, por exemplo, permanece mais tempo no estômago, uma vez que o esvaziamento gástrico é retardado. Nos doentes com dispepsia funcional, a ingestão de alimentos pode estar sujeita a sinais exagerados do trato gastrointestinal. E isso poderá gerar toda uma série de sintomas que não têm qualquer relação com a realidade: sensação de saciedade quando a refeição ainda mal começou, hipersensibilidade à distensão gástrica, etc. 5
Quais são as opções de tratamento?
Alimentos, probióticos...
Alimentação
Dado que se pensa que a alimentação é um fator importante na dispepsia funcional, a sua adaptação poderá logicamente melhorar os sintomas. No entanto, faltam estudos que evidenciem os efeitos de dietas específicas. Contudo, os especialistas defendem que uma grande parte dos doentes deve beneficiar de uma dieta pobre em gorduras e de uma alimentação fracionada (refeições mais pequenas e mais frequentes). De resto, na prática, já é isso que fazem: os doentes com dispepsia funcional têm um consumo ligeiramente mais reduzido de gorduras na dieta e tendem a fazer refeições mais pequenas e com maior frequência 5.
Outros doentes poderão beneficiar mais se evitarem alimentos picantes ou ácidos (tomate, citrinos, etc.), ou ricos em fibras ou FODMAPs suscetíveis de provocar inchaço. No entanto, estas restrições devem ser geridas cuidadosamente para não desequilibrar o regime alimentar 2.
Os inibidores da bomba de protões (IBP) são medicamentos utilizados para reduzir a secreção de ácido gástrico. São receitados pelos médicos para o tratamento do refluxo gastroesofágico e das úlceras pépticas.
A curto prazo, os inibidores da bomba de protões (IBPs) podem melhorar os sintomas de dispepsia funcional. Mas a sua utilização a longo prazo parece estar associada a um aumento de Streptococcus e, por conseguinte, a uma disbiose nefasta 13.
Antibióticos para erradicar H. pylori
De acordo com o American College of Gastroenterology e a Associação Canadiana de Gastroenterologia, os doentes com dispepsia funcional com menos de 60 anos devem começar por fazer o rastreio de H. pylori. Se o teste for positivo, devem ser administrados antibióticos para erradicar a bactéria.
Mas esta estratégia tem limites: apenas 1 em cada 10 doentes sentirá uma melhoria dos seus sintomas, enquanto os outros enfrentarão um agravamento dos mesmos. 14.
Tendo em conta que a disbiose da microbiota gastrointestinal está intimamente ligada ao aparecimento e progressão da dispepsia funcional, a modulação da microbiota gastrointestinal tem sido logicamente considerada como uma potencial abordagem terapêutica 2. O papel dos probióticos poderá ser multifatorial15 :
restabelecimento da flora comensal eliminada pelos agentes patogénicos
restauração da permeabilidade da barreira intestinal
redução da hipersensibilidade visceral
ação anti-inflamatória local e sistémica
regulação da motilidade intestinal
Tudo isto são efeitos benéficos que podem reduzir os sintomas da dispepsia funcional 15.
Um grande número de estudos clínicos parece confirmar “no terreno” que os probióticos podem melhorar os sintomas dos doentes 2,15 .
No entanto, os resultados publicados nos últimos 15 anos não são suficientes para se chegar a uma conclusão, uma vez que apresentam várias insuficiências: a definição da doença mudou, entretanto; os estudos confundem frequentemente a dispepsia funcional (de longa duração) com a infeção por H. pylori (de curta duração); os probióticos utilizados variam muito de um estudo para outro; os relatos dos sintomas sentidos pelos pacientes continuam a não ser fiáveis devido à falta de objetividade clínica, etc. 15. É ainda necessária bastante mais investigação.
Terapias alternativas
Há várias terapias alternativas que são reconhecidas como tratamentos seguros e eficazes para a dispepsia funcional:
terapia cognitivo-comportamental, frequentemente utilizada em casos de stress e ansiedade, ajuda o doente a identificar os pensamentos ou comportamentos que provocam ou exacerbam a expressão dos sintomas
hipnoterapia, durante a qual o paciente, num estado de hipnose, está mais recetivo às sugestões terapêuticas
O potencial da realidade virtual está igualmente a ser examinado 14.
Prebióticos, probióticos, pós-bióticos... Estes termos confusos escondem um universo fantástico relacionado com a nossa saúde. Estes "bióticos" são as pequenas mãos discretas que trabalham nos bastidores para proteger a nossa preciosa microbiota intestinal. Pronto para descobrir as suas funções únicas e diferenças fundamentais? Este artigo desvenda os fios desta teia microscópica para que consiga domar estes insuspeitos aliados do bem-estar. Juntos, vamos explorar este fascinante ecossistema que vive em cada um de nós!
Estamos prestes a mergulhar no fascinante mundo dos "bióticos". Poderá estar a pensar: "Mas o que são «bióticos»?" Bem, tudo remonta à antiga palavra grega "bíos", que significa simplesmente "vida". Esta palavra de raiz dá-nos termos como probióticos, prebióticos, pós-bióticos e simbióticos. Não são apenas nomes científicos extravagantes: são como as diversas partes que compõem um bairro animado, desempenhando cada uma delas um papel único para manter tudo a funcionar corretamente.
Imagine que é o novo morador desse bairro e que um vizinho simpático se oferece para lhe mostrar as redondezas, apresentando-lhe todas as pessoas e locais mais importantes, que fazem com que a comunidade funcione bem. É isso que queremos fazer: levá-lo numa visita guiada ao bairro dos "bióticos" no interior do seu corpo.
Probióticos: os ajudantes do seu corpo
Na nossa cidade da saúde, os probióticos são como os bons amigos que nos visitam: microrganismos vivos que se instalam dentro de nós e contribuem para o nosso bem-estar. Na definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Associação Científica Internacional de Probióticos e Prebióticos (ACIPP), os probióticos são "microrganismos vivos que, quando administrados nas quantidades adequadas, conferem um benefício para a saúde do hospedeiro."1
Em termos mais simples, são micróbios benéficos, como as bactérias e as leveduras, entre outros, que contribuem para o nosso bem-estar geral. Os probióticos contribuem para a nossa saúde de várias formas, nomeadamente:
Promovem um microbioma equilibrado 2
Inibem o crescimento de patógenos no interior do corpo humano 3
Melhoram as funções de proteção e metabolismo dos órgãos visados 4, 5, 6
Um equívoco comum é assumir que todos os alimentos fermentados, como o iogurte, o kefir ou a kombucha são inerentemente probióticos.9 Embora a fermentação possa introduzir bactérias benéficas, nem todos os produtos fermentados contêm estirpes probióticas vivas que cumprem os critérios estabelecidos pelas autoridades de saúde. 10 No entanto, alguns alimentos são fermentados com recurso a um micróbio que é comprovadamente probiótico, ou suplementados com probióticos em quantidades suficientes para que possam beneficiar a nossa saúde.
É fundamental que leia cuidadosamente os rótulos e que consulte fontes fidedignas para garantir que está a consumir produtos com culturas de probióticos com validação científica e clínica. Além disso, por vezes assume-se que os probióticos são uma solução única para todas as pessoas. Na verdade, as diferentes estirpes podem ter efeitos variáveis em função das pessoas e das condições de saúde.1, 11 Consultar profissionais de saúde e seguir diretrizes com base científica são passos essenciais para otimizar os benefícios dos probióticos de acordo com as suas necessidades e circunstâncias únicas.
Imagem
Se quiser saber mais sobre probióticos, pode ler a nossa secção dedicada aqui:
Prebióticos: alimento para os bons da fita... e não só!
A definição de prebiótico é "um substrato que é utilizado seletivamente pelos microrganismos do hospedeiro, conferindo um benefício para a saúde." 12, 13 Ao contrário dos probióticos, os prebióticos não são micróbios vivos. São antes o combustível para as bactérias benéficas que existem no nosso microbioma. Uma simplificação algo excessiva, mas recorrente, é descrever os prebióticos como "alimento para os probióticos."
Embora os prebióticos promovam o crescimento dos probióticos, os seus efeitos benéficos resultam da atividade da microbiota intestinal residente, que metaboliza estes compostos e confere indiretamente vantagens fisiológicas ao hospedeiro: nós! Além disso, nem todas as fibras alimentares são prebióticos, e nem todos os prebióticos são fibras.14 Esta distinção é muitas vezes ignorada, originando equívocos sobre as suas definições e funções.
Imagine que os prebióticos são os restaurantes favoritos das suas bactérias úteis. Alimentos como a banana, a cebola e o alho são ricos em substâncias como a inulina e os galacto-oligossacáridos (GOS), que assumem a função de prebióticos. Quando as bactérias benéficas consomem estes alimentos, podem aumentar a produção de moléculas, isto é, metabolitos como os ácidos gordos voláteis (AGV) , acetato, propionato e butirato que, por sua vez, podem melhorar a sua saúde. 15
Além de promoverem a saúde intestinal, os prebióticos foram associados ao reequilíbrio da microbiota para melhorar as defesas contra os patógenos, 16ao controlo do peso, 17 à melhor absorção de minerais, 18 etc. Os seus benefícios vão além do intestino. 19
Também elaborámos uma secção dedicada aos prebióticos e aos seus benefícios para a saúde aqui:
Quando concluem a visita à cidade, os probióticos deixam prendas conhecidas como pós-bióticos. É como se fossem os produtos e serviços que as empresas de uma cidade fornecem depois de receberem as matérias-primas. Os pós-bióticos incluem substâncias benéficas como as vitaminas e os (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.). São as recompensas que o seu corpo recebe pelo trabalho árduo feito pelos probióticos.
Esta definição foi revista várias vezes e a Comunidade Científica chegou agora a um consenso: "pós-biótico é uma preparação de microrganismos inanimados e/ou dos seus componentes que confere um benefício para a saúde do hospedeiro". . Isto significa que os pós-bióticos não são apenas os resíduos "reorientados" dos probióticos (ou os seus produtos finais): são também os próprios probióticos "mortos" e os seus componentes fragmentados!20
Tal como os probióticos, os pós-bióticos demonstraram que conseguem reforçar a função de proteção, reduzir a inflamação e manter uma atividade antimicrobiana contra os patógenos, promovendo assim a saúde geral. 21As suas propriedades benéficas vão também além do intestino: têm benefícios para a saúde da pele e da vaginae, potencialmente, podem ajudar no tratamento das doenças destes órgãos.22, 23
Talvez já tenha ouvido outros nomes, como Parabióticos, Paraprobióticos ou Proteobióticos. Com efeito, alguns investigadores tentaram definir melhor os diferentes elementos ou partes do corpo do componente pós-biótico, isto é, as células mortas, os componentes das células e os metabolitos produzidos por essas células microbianas.
Embora Parabióticos e Paraprobióticos sejam sinónimos, estes termos servem para descrever as células microbianas inativadas, tanto intactas como quebradas. Deve pensar nelas como os "fantasmas" dos micróbios úteis que ainda conseguem dar uma ajuda. 24
Por sua vez, os Proteobióticos são metabolitos naturais produzidos pelo probiótico durante a fermentação. 25, 26
No entanto, não há um consenso sobre estas possíveis definições, e todas elas se enquadram na definição de Pós-biótico da ACIPP. 20
Simbióticos em ação e o caso dos Psicobióticos
Os simbióticos são como os projetos comunitários que reúnem toda a gente em torno de um objetivo comum. 27Combinam probióticos e prebióticos num único produto, garantindo que as bactérias boas têm não só um lugar onde viver, com também muito do seu alimento favorito desde o início. Esta combinação pode ser encontrada nalguns iogurtes e suplementos alimentares, e foi concebida para um trabalho conjunto de modo a assegurar um benefício ainda maior para a saúde.
Por sua vez, os Psicobióticos são uma categoria inteiramente nova de probióticos e prebióticos que podem melhorar efetivamente a sua saúde mental se forem consumidos da forma certa 28Funcionam através do chamado eixo intestino-cérebro. Basicamente, o intestino e o cérebro estão fisicamente ligados e em constante comunicação. Os micróbios que vivem nos seus intestinos podem enviar sinais para o seu cérebro que afetam o seu humor, a sua cognição e até os seus comportamentos.
Os investigadores revelam um grande entusiasmo em relação ao potencial dos psicobióticos. Os estudos preliminares demonstram que os psicobióticos podem ajudar a prevenir ou melhorar doenças neurodegenerativas como a Doença de Alzheimer ou a Doença de Parkinson. Algumas provas sugerem mesmo que os psicobióticos podem desempenhar um papel terapêutico no tratamento de distúrbios psiquiátricos como a depressão ou a ansiedade. 29
Pode saber mais sobre a interação entre o intestino e o cérebro aqui.
Finalmente, é importante diferenciar os antibióticos dos restantes "bióticos". Embora os antibióticos sejam medicamentos fundamentais para salvar vidas no tratamento de infeções bacterianas, a sua utilização indiscriminada ou excessiva pode perturbar gravemente o delicado equilíbrio do microbioma, podendo originar consequências não intencionais e de grande impacto. 30, 31Estes medicamentos potentes não distinguem entre bactérias nocivas e benéficas, o que significa que podem dizimar as populações vitais de micróbios que promovem a saúde e a imunidade.
Resistência a antibióticos
Além disso, a utilização excessiva de antibióticos contribui para o aumento alarmante de superbactérias resistentes aos antibióticos, uma ameaça significativa para a saúde mundial (30). Por conseguinte, é imperativo utilizar os antibióticos de forma criteriosa, apenas quando absolutamente necessário e sempre sob orientação de profissionais de saúde.
Manter um microbioma saudável e diversificado com recurso a probióticos, prebióticos e outros "bióticos" pode ajudar a contrariar alguns dos danos colaterais causados pelos antibióticos e promover o bem-estar geral.
Pode consultar aqui uma secção dedicada aos efeitos dos antibióticos na microbiota e na sua saúde:
O que é a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM?
Todos os anos, desde 2015, a OMS organiza a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM (WAAW), que tem como objetivo aumentar a sensibilização para a resistência antimicrobiana mundial.
A resistência antimicrobiana ocorre quando as bactérias, vírus, parasitas e fungos alteram-se com o tempo e já não respondem aos medicamentos. Como resultado da resistência aos medicamentos, os antibióticos e outros medicamentos antimicrobianos tornam-se ineficazes e as infeções tornam-se cada vez mais difíceis ou impossíveis de tratar, aumentando o risco de propagação de doenças, doenças graves e morte.
Realizada entre 18 e 24 de novembro, esta campanha incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizar cuidadosamente antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasíticos, de forma a evitar o surgimento futuro de resistência antimicrobiana.
A diarreia mata cerca de 1,5 milhões de pessoas todos os anos.55 É a terceira causa de morte nas crianças com menos de 5 anos.1
A maioria dos casos de diarreia aguda deve-se a agentes patogénicos infeciosos, ou seja, vírus, bactérias e parasitas. O rotavírus e a Escherichia coli são os dois agentes etiológicos mais frequentes da diarreia moderada a grave nos países de baixo nível de vida.1
Complexa interação entre os agentes infeciosos e a microbiota
Qualquer que seja o agente etiológico da diarreia infeciosa, o resultado depende das interações complexas entre o organismo patogénico e a microbiota intestinal.
A composição da microbiota intestinal pode determinar o resultado de uma infeção por um agente patogénico diarreico e ser um fator de proteção ou de facilitação. Por sua vez, a diversidade e a composição da microbiota intestinal podem ser gravemente alteradas pela diarreia infeciosa e o regresso a uma "microbiota saudável" pode demorar várias semanas após a resolução da diarreia.14
Percentagem significativa de casos evitáveis
Uma parte considerável das doenças diarreicas pode ser evitada através de água potável segura e saneamento e higiene adequados.1
A vacinação contra o rotavírus é outra estratégia preventiva importante, que a OMS recomenda que seja incluída em todos os programas nacionais de imunização e seja considerada uma prioridade56
Monitorização e tratamento dos doentes
A maioria das diarreias infeciosas é autolimitada nos indivíduos imunocompetentes. No entanto, alguns doentes (com desidratação grave, doença de maior gravidade, febre persistente, fezes com sangue, imunossupressão, etc.) requerem uma investigação diagnóstica específica.11
A complicação mais importante da diarreia infeciosa é a desidratação, que pode exigir uma reidratação oral ou intravenosa, dependendo do grau de desidratação.1
Estratégias orientadas para a microbiota intestinal, essenciais na prevenção e tratamento da diarreia
Tanto a Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátricas (ESPGHAN) como a Organização Mundial de Gastroenterologia (WGO) consideram que algumas estirpes de probióticos podem ser recomendadas pelos profissionais de saúde:
para a prevenção da diarreia associada a antibióticos;
para o tratamento da diarreia aguda (viral) em crianças, uma vez que podem encurtar a duração da diarreia.
Vias de investigação promissoras que envolvem a microbiota
A investigação futura deverá expandir os conhecimentos sobre o microbioma no contexto das diarreias infeciosas, por forma a melhorar a sua prevenção e tratamento.
A otimização do perfil da microbiota para determinar os resultados infeciosos5 e melhorar a eficácia da vacina contra o rotavírus29 representa uma via de investigação promissora.
Nem todos os indivíduos reagem da mesma forma às infeções intestinais por parasitas: enquanto alguns não apresentam quaisquer sintomas, outros sofrem de diarreia mais ou menos grave, que pode provocar a morte. A microbiota intestinal é cada vez mais citada como um fator-chave para explicar essa variabilidade.
Os parasitas intestinais podem ser genericamente classificados em protozoários (organismos unicelulares) e helmintos (multicelulares, conhecidos por vermes). 39 A nível mundial, estimase que existam 895 milhões de pessoas infetadas com helmintos transmitidos pelo solo (STH). Os protozoários intestinais (PI) têm uma taxa de prevalência globalmente mais baixa, mas, ainda assim, acredita-se que mais de 350 milhões de pessoas estejam infetadas com 3 dos parasitas protozoários mais frequentes40. As infeções por protozoários são vulgares em países de baixos e médios rendimentos (LMICs). A globalização da cadeia alimentar, as viagens internacionais e as migrações estão a provocar um aumento das infeções por protozoários nos países de elevados rendimentos, onde são mais frequentes do que as infeções por helmintos intestinais.39
A giardíase – a diarreia parasitária mais vulgar em todo o mundo – afeta todos os anos 280 milhões de pessoas. 441
DIARREIAS CAUSADAS POR PROTOZOÁRIOS PARASITAS
Os protozoários parasitas intestinais mais correntes são a Giardia intestinalis (Giardia duodenalis ou Giardia lamblia), a Entamoeba histolytica, a Cyclospora cayetanensis e o Cryptosporidium spp. As doenças diarreicas causadas por estes agentes patogénicos são conhecidas, respetivamente, como giardíase, amebíase, ciclosporíase e criptosporidiose.41
Giardia intestinalis
A Giardia intestinalis infecta a parte superior do intestino delgado, alterando as suas barreira e permeabilidade. Entre 6 e 15 dias após a infeção, pode causar diarreia aguda e aquosa associada a cólicas abdominais, inchaço, náuseas e vómitos. A giardíase, a diarreia parasitária mais vulgar em todo o mundo, afeta todos os anos 280 milhões de pessoas. 41
Entamoeba histolytica
As infeções por Entamoeba histolytica são geralmente assintomáticas, mas podem produzir uma doença invasiva do intestino grosso (nomeadamente em doentes imunocomprometidos) que pode evoluir para disenteria amebiana. A fase aguda dura 3 semanas, com dor abdominal, diarreia sanguinolenta e muco nas fezes. Responsável por mais de 26.000 mortes por ano,2a amebíase é a terceira principal causa de morte por infeções parasitárias em todo o mundo; afeta particularmente as pessoas nos países de baixos e médios rendimentos.41
Cyclospora cayetanensis
A Cyclospora cayetanensis é a única espécie do género Cyclospora que pode infetar os seres humanos. Após um período de incubação que pode variar de 2 a 12 dias, manifesta-se habitualmente por volumosa diarreia aguda aquosa, cólicas abdominais, náuseas, febre baixa, fadiga e perda de peso.41
Cryptosporidium spp.
Os sintomas da infeção por Cryptosporidium spp. surgem após uma ou duas semanas de incubação: os sintomas clínicos mais habituais são diarreia aquosa aguda, cólicas abdominais, má absorção, náuseas, vómitos e febre, com uma duração aproximada de 5 a 10 dias.41 Estima-se que todos os anos sejam notificados 64 milhões de casos de criptosporidiose.40
Os helmintos parasitas e a microbiota já coexistem dentro dos seus hospedeiros há milhões de anos. 50
DIARREIA DO VIAJANTE: A INFEÇÃO PARASITÁRIA ESTÁ NORMALMENTE ASSOCIADA À SCI-PI
Embora a maioria dos casos de diarreia do viajante seja aguda e se resolva espontaneamente, um subgrupo de indivíduos pode apresentar sintomas gastrointestinais persistentes que se prolongam durante semanas, meses ou mesmo anos, depois de a causa inicial ter sido eficazmente tratada.52 Uma publicação recente sugere que cerca de 10% dos doentes que sofrem de diarreia do viajante desenvolvem sintomas persistentes consistentes com a síndrome do cólon irritável pós-infecioso (SCIPI). As infeções parasitárias, em particular a giardíase, estão frequentemente associadas à SCI-PI.53
DIARREIAS CAUSADAS POR HELMINTOS TRANSMITIDOS PELO SOLO
A nível mundial, os principais helmintos transmitidos pelo solo são a lombriga (Ascaris lumbricoides), o tricocéfalo (Trichuris trichiura) e os ancilóstomos (Necator americanus e Ancylostoma duodenale). Os sintomas que se manifestam após uma infeção por helmintos estão relacionados com o número de vermes albergados: as pessoas com infeções de intensidade ligeira (poucos vermes) não costumam sentir desconforto, ao passo que as infeções mais graves podem causar uma série de sintomas, incluindo alguns que se manifestam no intestino (diarreia e dores abdominais), malnutrição, mal estar geral e fraqueza, e dificuldades de crescimento e desenvolvimento físico. Os helmintos transmitidos pelo solo contribuem para o impacto da doença ao prejudicarem o estado nutricional das pessoas que infetam através de diversas formas: alimentam-se dos tecidos do hospedeiro, causam perda de sangue intestinal e dificultam a absorção de nutrientes.42
O Ascaris lumbricoides é o nemátodo intestinal mais comum que infecta os seres humanos, estimandose que 807 a 1.221 milhões de pessoas sejam infetadas todos os anos. 43 A infeção é habitualmente assintomática. A forma sintomática é caracterizada por uma fase pulmonar inicial seguida de uma fase intestinal posterior, que se manifesta por diarreia, dores abdominais ligeiras, anorexia, náuseas e vómitos.41
Calcula-se que 604 a 795 milhões de pessoas no mundo estejam infetadas com Trichuris trichiura. As pessoas com infeções graves podem ter evacuações dolorosas e frequentes contendo uma mistura de muco, água e sangue.44
Pensa-se que há 576 a 740 milhões de pessoas em todo o mundo infetadas com ancilóstomos, normalmente sem sintomas. Poucas delas, em especial as infetadas pela primeira vez, enfrentam sintomas gastrointestinais. Os efeitos mais frequentes e graves da ancilostomose são a perda de sangue intestinal que provoca anemia, para além da perda de proteínas.4.45
MICROBIOTA: UM PAPEL NA ACENTUADA VARIABILIDADE CLÍNICA DA DIARREIA PARASITÁRIA?
As infeções parasitárias por protozoários são caracterizadas por uma grande variabilidade na sua apresentação clínica: podem ser assintomáticas ou causar diarreia, dor abdominal, perda de peso, etc. Estudos recentes destacaram a potencial contribuição da microbiota intestinal para esta variabilidade clínica: por exemplo, uma abundância de Prevotella copri na microbiota intestinal previu diarreia no contexto de infeção por Entamoeba histolytica46; uma reduzida abundância de Megasphaera antes e na altura da deteção de Cryptosporidium foi associada a diarreia parasitária em bebés no Bangladesh, indicando que a microbiota intestinal pode desempenhar um papel na determinação da gravidade de uma infeção por Cryptosporidium47. Por sua vez, a infeção por protozoários parasitas altera a microbiota intestinal.48,49
Relativamente aos helmintos, as complexas interações entre os vermes e a microbiota ("dois velhos amigos dos humanos"50) estão atualmente a ser estudadas50 (Figura 7). Os autores concordam quanto à existência de uma interação complexa e dinâmica entre o(s) parasita(s), a microbiota do hospedeiro e a imunidade do mesmo, capaz de determinar os resultados clínicos das infeções parasitárias.46,48
Imagem
CASO CLÍNICO pelo Prof. Stephen Allen
Durante as suas férias na Ásia, uma executiva empresarial de 36 anos desenvolve diarreia não sanguinolenta, viscosa e malcheirosa, com cólicas abdominais e inchaço.
Na segunda semana da doença, a microscopia das fezes revelou giardíase e a doente faz um tratamento de 10 dias com metronidazol.
Ao longo do ano seguinte, no Reino Unido, tem episódios frequentes de sintomas semelhantes, cada um com a duração de alguns dias, obrigando-a a faltar ao trabalho.
Após terem sido excluídas outras doenças através de investigações adicionais e de uma avaliação clínica, é-lhe diagnosticada uma síndrome do cólon irritável pós-infeciosa com predominância de diarreia (SCI-D), uma doença que ocorre em 10% dos doentes após um episódio agudo de gastroenterite.54
Ela acha que as mudanças na dieta e os tratamentos para a SCI-D têm pouco efeito e quer saber se deve enviar uma amostra de fezes para o estrangeiro para análise da microbiota e se um transplante fecal a pode ajudar.
O papel da disbiose persistente na SCI pósinfeciosa devido à infeção parasitária e/ou aos medicamentos utilizados no tratamento é insuficientemente conhecido. É necessária mais investigação para que as perguntas desta mulher possam ser respondidas com alguma confiança.
OPINIÃO DE ESPECIALISTA
A infeção por parasitas intestinais é uma causa frequente de doença em todo o mundo, predominantemente diarreia com protozoários como a giardia, a Entamoeba histolytica e o Cryptosporidium, e anemia com helmintos. Do mesmo modo, os parasitas intestinais surgem como comensais e podem até trazer benefícios para a saúde, como a melhoria da resistência a outros enteropatógenos e a prevenção de doenças alérgicas e autoimunes. A dificuldade consiste em compreender melhor as complexas inter-relações entre os diferentes parasitas, a mucosa intestinal, as células imunitárias intestinais e a microbiota intestinal, a fim de poder explorar os benefícios e, ao mesmo tempo, atenuar os efeitos adversos da infeção parasitária intestinal.
PROF. STEPHEN ALLEN Professor de Pediatria, Liverpool School of Tropical Medicine (Reino Unido)
As diarreias virais apresentam-se normalmente como diarreia aquosa e são causadas por 5 tipos principais de vírus. Entre eles, o rotavírus continua a ser a principal causa de mortalidade relacionada com a diarreia nas crianças com menos de 5 anos de idade, apesar da existência de vacinas desde 2006. A composição da microbiota intestinal, implicada nos resultados da infeção viral e na eficácia da vacina contra o rotavírus, pode desempenhar um papel fundamental nas estratégias destinadas a reduzir o impacto da diarreia viral.
Rotavírus, norovírus, sapovírus, astrovírus e adenovírus: existem cinco tipos de vírus que são atualmente reconhecidos como as principais causas de diarreia viral.21
Dos mais de 2 mil milhões de episódios de doença diarreica que ocorrem anualmente em todo o mundo, segundo as estimativas do estudo Global Burden of Disease (GBD) de 2016,2 quase 900 milhões dos episódios moderados a graves foram atribuídos a apenas três destes vírus: rotavírus, norovírus e adenovírus.22.
ROTAVÍRUS, PRINCIPAL CAUSA DE MORTE POR DIARREIA NAS CRIANÇAS
Apesar do desenvolvimento e da disponibilização de vacinas contra o rotavírus desde 2006,22 este vírus, que causa sintomas mais graves do que a maioria dos outros agentes patogénicos entéricos,22 foi ainda responsável por mais de 228.000 mortes em todo o mundo em 2016, das quais mais de 128 000 ocorreram em crianças com idade inferior a 5 anos2 – fazendo do rotavírus a principal causa de mortalidade relacionada com a diarreia neste segmento da população (Figura 4).
DIARREIA AQUOSA
Qualquer que seja o vírus que desencadeia um episódio de diarreia, o processo de infeção é basicamente o mesmo: o vírus infecta as células epiteliais do intestino delgado e causa danos que dificultam a absorção de fluidos.21 A diarreia viral manifesta-se geralmente sob a forma de uma diarreia aquosa (sem sangue). Pode ser acompanhada de outros sintomas, nomeadamente náuseas, cólicas abdominais, vómitos e febre22, dando origem ao que se designa por gastroenterite viral.
REIDRATAÇÃO... E PROBIÓTICOS
Tal como para as outras etiologias da diarreia infeciosa (bacterianas ou parasitárias), o tratamento da diarreia viral baseia-se na terapia de reidratação oral ou intravenosa, dependendo do grau de desidratação.21 Além disso, de acordo com as conclusões mais recentes do comité ESPGHAN (2023),20 os profissionais de saúde podem recomendar algumas estirpes probióticas (L. rhamnosus, S. boulardii e L. reuteri) para o tratamento da gastroenterite aguda em crianças, uma vez que existe alguma evidência (certeza da evidência: baixa; grau de recomendação: fraco) de redução da duração da diarreia, do tempo de hospitalização ou do débito fecal.
De entre todos os agentes patogénicos diarreicos, e apesar da existência de vacinas, o rotavírus continua a ser o principal responsável pela morte de crianças com menos de cinco anos de idade. 2
MELHORAR A EFICÁCIA DA VACINA CONTRA O ROTAVÍRUS, UM DESAFIO AINDA POR SUPERAR
No que diz respeito à prevenção, são aplicáveis as medidas preventivas habituais (assegurar água potável, higiene adequada e lavagem frequente das mãos, limitar o contacto com pessoas infetadas, etc.). Dado o impacto considerável da doença diarreica por rotavírus, as vacinas contra o rotavírus são outra medida preventiva importante.22,23
SARS-COV-2: UM NOVO MEMBRO DO CLUBE DOS VÍRUS DIARREICOS
Juntamente com os vírus há muito reconhecidos como principais causas de diarreia viral, a infeção pelo SARS-CoV-2, responsável pela maior pandemia dos últimos tempos – a COVID-19 – também pode dar origem a diarreia. Nos estudos clínicos, a taxa de incidência de diarreia varia de 2% a 50% dos casos.27 Tal como acontece com o trato respiratório, os recetores da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) encontram-se fortemente expressos nas células intestinais, servindo como um importante local de entrada do vírus no intestino. Os possíveis mecanismos que levam ao desenvolvimento da diarreia envolvem principalmente desregulações da enzima conversora da angiotensina 2 após a entrada do vírus no enterócito, o que poderá desencadear uma resposta inflamatória, desequilíbrio iónico e aumento da permeabilidade. Além disso, a proteína spike do SARS-CoV-2 funciona como uma enterotoxina, com um mecanismo semelhante ao da enterotoxina NSP4 do rotavírus.28 Pensa-se também que a alteração da microbiota intestinal e os efeitos secundários dos medicamentos (antivíricos e antibióticos) possam estar envolvidos.29
Imagem
Microbiota: um papel fundamental na eficácia da vacinação contra o rotavírus
Desde a sua introdução em 2006, as vacinas orais contra o rotavírus (ORVV) provocaram, a nível mundial, uma descida significativa do número de hospitalizações e de mortes devidas à diarreia por rotavírus.30 No entanto, a eficácia das vacinas tem sido variável, com os países de baixo nível de rendimentos a registarem um desempenho inferior em comparação com a eficácia notavelmente elevada (>90%) observada nos países de rendimento mais elevado.31 Pensa-se que as razões para esta disparidade são multifatoriais (imunidade do hospedeiro, parâmetros perinatais, genética, estado nutricional, stress, consumo de tabaco e álcool, localização rural versus urbana, dimensão da família, etc.). Tal como acontece com outras vacinas, a composição e a função da microbiota intestinal são consideradas um fator fundamental que regula a resposta imunitária à vacinação30,32,33 (Figura 5).
Imagem
Estima-se que estas vacinas tenham evitado 139 000 mortes por rotavírus em menores de cinco anos durante o período de 2006 a 2019 e que tenham evitado 15% das mortes por rotavírus em menores de cinco anos em 2019.24 No entanto, a eficácia da vacina é específica de cada região e apresenta uma seroconversão fraca nos países de baixo e médio nível de vida. Dados de ensaios clínicos em seres humanos apontam para uma possível ligação entre a microbiota intestinal e a resposta do sistema imunitário entérico à vacina contra o rotavírus25 (Figura 5).
Estima-se que cada grama de conteúdo intestinal humano contenha, pelo menos, 108 a 109 partículas semelhantes a vírus, a grande maioria das quais são fagos.14
MICROBIOTA: ALIADO OU INIMIGO NO INÍCIO DA DIARREIA VIRAL?
Nos casos de diarreia viral, tal como nas diarreias infeciosas em geral, o resultado do confronto entre o agente patogénico e o hospedeiro depende de equilíbrios complexos que envolvem, em grande parte, a microbiota.
A microbiota intestinal apresenta interações bidirecionais com as infeções por rotavírus e norovírus:14 tanto pode proteger como predispor o hospedeiro à infeção; por sua vez, uma infeção pode alterar a microbiota intestinal. Algumas bactérias parecem ser capazes de inibir a infeção viral. Por exemplo, há um estudo que mostra que as bactérias filamentosas segmentadas previnem e curam a infeção por rotavírus em colónias de ratos35 (Figura 6). Por outro lado, estudos in vitro e in vivo indicam o envolvimento da microbiota intestinal na facilitação da infeção viral: certos micróbios intestinais (por exemplo, Enterobacter cloacae) estimulam a capacidade do norovírus humano para infetar linfócitos B humanos in vitro; a eliminação da microbiota através dos antibióticos atrasa a infeção, reduz a infecciosidade e/ou o título viral do norovírus e do rotavírus em ratos.8,36
Por conseguinte, quaisquer agentes patogénicos invasivos podem ter efeitos diferentes consoante o estado da microbiota intestinal.3 O perfil ideal da microbiota e as melhores estratégias orientadas para a microbiota que possam reduzir o risco de infeção e a diarreia viral que se segue continuam por caraterizar.37
Quanto ao efeito da infeção viral na composição da microbiota intestinal, numerosos estudos documentaram perfis específicos de disbiose em doentes que sofrem de diarreia viral em comparação com controlos saudáveis25,38. É frequentemente relatada uma redução da diversidade (alfa) da microbiota, mas os aumentos ou diminuições de taxa específicos variam muito entre os estudos.14 E permanece uma interrogação: a disbiose observada durante a diarreia viral reflete uma predisposição que pode ter facilitado a infeção, é um estado causado pelo vírus, ou é uma combinação de ambos?
Imagem
CASO CLÍNICO pelo Dr. Marco Poeta
Uma menina de 4 anos deu entrada no serviço de urgência pediátrica com febre, diarreia, vómitos e desidratação grave.
Como a criança precisava de reidratação intravenosa, ficou internada no hospital.
A zaragatoa nasofaríngea deu positivo para a infeção por SARS-CoV-2, apesar da ausência de sintomas respiratórios.
As fezes revelaram-se negativas para rotavírus, norovírus, adenovírus, bactérias e parasitas, mas positivas para SARS-CoV-2.
Após a administração de probióticos, a frequência e a consistência das fezes foram ambas recuperadas.
A hidratação intravenosa foi interrompida passados quatro dias e a criança recebeu alta.
A diarreia pode ser a única manifestação clínica da infeção por SARS-CoV-2. O SARSCoV-2 deve, portanto, ser acrescentado à lista de agentes patogénicos entéricos.
A eficácia dos probióticos contra a gastroenterite associada à Covid observada neste caso clínico está já demonstrada através de estudos in vitro.
OPINIÃO DE ESPECIALISTA
Os probióticos são recomendados como um meio ativo de tratamento da diarreia viral nas crianças, exercendo um efeito antidiarreico que restaura a composição da microbiota a partir do seu estado alterado. Em ensaios clínicos, algumas estirpes probióticas reduzem a diarreia secretora num período de tempo muito curto, mensurável poucas horas após o início da administração de probióticos. Considerando que são normalmente necessários vários dias para se estabelecerem alterações na composição da microbiota, a rápida eficácia dos probióticos pressupõe a existência de efeitos positivos adicionais. As moléculas segregadas pelas bactérias que atuam diretamente nas células intestinais poderão inibir a diarreia secretora através de um mecanismo antioxidante. Este fenómeno é designado o "efeito pósbiótico". Os metabolitos produzidos pelos probióticos têm uma ação semelhante à farmacológica e podem representar terapias inovadoras para o tratamento da diarreia viral.
DR. MARCO POETA Unidade de Doenças Infeciosas Pediátricas, Universidade de Nápoles Federico II (Itália)
Os antibióticos são um instrumento poderoso na luta contra as infeções bacterianas, mas também perturbam a microbiota intestinal protetora, o que pode ter consequências indesejadas, incluindo diarreia associada a antibióticos (DAA) em 35% dos doentes.17,18,19A incidência de DAA depende de vários fatores: 17,18,19 idade (nas crianças, esta percentagem pode atingir os 80%) 15, ambiente, tipo de antibiótico, etc. A maior parte das vezes, a DAA é causada por uma disbiose induzida por antibióticos, é de intensidade ligeira e é autolimitada, durando entre 1 e 5 dias.
Embora as etiologias para DAA sejam diversas, aproximadamente um terço dos casos de DAA são atribuídos a C. difficile. Em determinadas situações, o C. difficile desencadeia uma resposta inflamatória que conduz a uma série de quadros clínicos, desde diarreia ligeira a colite pseudomembranosa, megacólon tóxico ou mismo a morte.17
RECOMENDAÇÕES ESPGHAN 2023
Em 2023, o Grupo de Interesse Especial sobre Microbiota Intestinal e Modificações da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátricas (ESPGHAN) estabeleceu recomendações atualizadas para a utilização de probióticos no tratamento de determinadas perturbações gastrointestinais pediátricas:20
“Se a utilização de probióticos para prevenir a diarreia associada a antibióticos (DAA) for equacionada devido à existência de fatores de risco como a classe do(s) antibiótico(s), a duração do tratamento antibiótico, a idade, a necessidade de hospitalização, as comorbilidades ou episódios anteriores de DAA, os profissionais de saúde podem recomendar doses elevadas (≥5 mil milhões de UFC/dia) de S. boulardii ou L. rhamnosus GG iniciadas em simultâneo com o tratamento antibiótico para prevenir a DAA em doentes ambulatórios e crianças hospitalizadas (certeza da evidência: moderada; grau de recomendação: forte).”
CASO CLÍNICO pelo Prof. Aldo Maruy
Um doente de 10 anos veio à clínica com um historial de diarreia de sete dias. Desde o início, a criança evacuava todos os dias duas ou três vezes fezes líquidas com muco, mas sem sangue. A mãe referiu que não tinha tido febre nem vómitos. Ao exame clínico, a criança aparentou estar bem e pareceu estar adequadamente hidratada.
O médico solicitou uma coprocultura e testes de ovos e parasitas, que foram negativos.
Inicialmente, não tinha sido tido em conta um antecedente: seis semanas antes, a criança tinha tido uma infeção respiratória que foi tratada com antibióticos.
Suspeitou-se então de Diarreia Associada a Antibióticos (DAA) de início tardio. O paciente recebeu probióticos e melhorou no prazo de uma semana.
A DAA pode demorar entre 2 horas e 8 a 10 semanas a desenvolver-se após a utilização de antibióticos.
OPINIÃO DE ESPECIALISTA
A Diarreia Associada a Antibióticos (DAA) é um efeito secundário frequente dos antibióticos. A idade, o espetro de antibióticos utilizados, a patologia subjacente e a cirurgia recente foram identificados como fatores de risco. Evidências recentes mostram um novo: a composição da microbiota. Nos doentes tratados com β-lactâmicos, as abundâncias relativas mais elevadas de Bacteroides foram inversamente associadas à DAA, enquanto as abundâncias basais mais elevadas de espécies de Bifidobacterium e Lachnospiraceae e as vias de biossíntese de aminoácidos (AABP) foram associadas à DAA. As abundâncias relativas de taxa potencialmente protetores e os níveis de AABP permitem distinguir as crianças que sofreram e as que não sofreram DAA. Mais estudos são necessários para investigar se tendências semelhantes são observadas em diferentes tipos de antibióticos. Os taxa potencialmente protetores identificados podem contribuir para o desenvolvimento de abordagens preventivas da DAA.
PROF. ALDO MARUY Gastroenterologista Pediátrico, Hospital Cayetano Heredia, Lima (Peru)