A romã para restabelecer as microbiotas cutâneas alteradas

A romã contém substâncias que podem ajudar a reequilibrar as populações de microrganismos que vivem na superfície da nossa pele. Investigadores demonstraram que o extrato da casca da romãzeira enfraquece as bactérias patogénicas e fortalece as bactérias benéficas.

A microbiota da pele Psoríase e microbiota Acne e microbiota Eczema alérgico Doenças de pele

Um produto natural, não tóxico, ecorresponsável, que melhora o equilíbrio da microbiota cutânea e ajuda a combater as doenças da pele: parece um sonho! Uma equipa de investigadores italianos conseguiu esta proeza... utilizando cascas de romã destinadas a serem deitadas no lixo! 1

Esta parte não comestível representa 50 % da fruta. Durante o fabrico do sumo e dos extratos de romã, as cascas normalmente acabam no caixote do lixo. Portanto, contêm a maior parte dos preciosos polifenóis da romã, alguns dos quais têm propriedades antibacterianas benéficas. 

Os investigadores italianos quiseram descobrir se, ao extraírem os valiosos compostos da casca, seria possível desenvolver um produto capaz de restabelecer o equilíbrio do sistema imunitário da microbiota cutânea e melhorar a saúde da pele.

Bactérias boas vs. bactérias más: a batalha

dysbiose  da microbiota cutânea, caracterizada pela proliferação de bactérias patogénicas em detrimento das bactérias benéficas, foi considerada responsável por vários problemas de pele, como o acne, a psoríase e a dermatite atópica.

Doenças de pele

Saiba mais

Os investigadores recolheram primeiramente amostras da microbiota cutânea de 9 jovens voluntários, 3 dos quais sofriam de problemas de pele relacionados à dermatite atópica. Destas amostras, extraíram:

  • Staphylococcus aureus, as bactérias patogénicas responsáveis pela disbiose cutânea e
  • Staphylococcus epidermidis, conhecidas pelos seus efeitos benéficos e pela sua capacidade de restaurar a integridade da barreira cutânea

Paralelamente, os cientistas prepararam um extrato da casca da romã (Punica granatum L.) utilizando métodos de extração energeticamente eficazes e solventes recicláveis. 

Depois de terem verificado que não era tóxico, colocaram o produto em contacto com bactérias recolhidas na pele dos voluntários.

O duplo efeito da romã

Resultado: o extrato de romã apresenta uma ação antimicrobiana notável sobre os S. aureus patógenos e uma ação protetora sobre os S. epidermidis benéficos 

Segundo os investigadores, estes efeitos estão muito provavelmente ligados aos compostos fenólicos da romã: catequina, quercetina, ácido gálico etc. Estes compostos teriam uma ação direcionada, impedindo, por um lado, que as bactérias patogénicas adiram à pele e formem biofilmes protetores e, por outro lado, estimulando a capacidade das bactérias benéficas de sintetizarem estes biofilmes. 

Neutralizar o inimigo: uma forma de arte!

Todos possuímos os malvados Staphyloccus aureus na superfície da nossa pele. Porém, a maior parte do tempo, não se proliferam.

Porquê? Porque as bactérias "boas" da microbiota cutânea produzem um arsenal ultrassofisticado de pequenas moléculas formidáveis (bacteriocinas, antibióticos, ácidos gordos de cadeia curta, péptidos antimicrobianos...) capazes de bloquear a multiplicação das Staphylococcus aureus e obstruir a sua proliferação.

Além disso, ao regularem a resposta inflamatória, favorecerem a homeostasia das células da pele e manterem a integridade da camada epidérmica, as bactérias boas contribuem para o equilíbrio microbiano. Amigáveis, porém fortes!

Ensaios clínicos deverão ser realizados para confirmar a capacidade que este extrato possui de prevenir, reduzir ou curar as doenças da pele, nomeadamente aquelas ligadas às bactérias resistentes aos antimicrobianos

Se os resultados forem positivos, constituirão mais uma prova de que é possível integrar a saúde dos ecossistemas à saúde dos seres humanos, numa abordagem "One health": “Uma única saúde“. 2

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias

As microbiotas humanas, reservatórios de péptidos antimicrobianos

As microbiotas humanas são vistas como reservatórios de péptidos antimicrobianos que são tão eficazes como alguns dos antibióticos atualmente utilizados. Alguns deles não afectam as bactérias comensais. 1 

“Uma das ameaças mais graves para a saúde mundial, a segurança alimentar e o desenvolvimento.” Estas são as palavras utilizadas pela OMS 2 para descrever a resistência aos antibióticos. Os  (sidenote: Péptidos antimicrobianos (AMPs) Os péptidos antimicrobianos (AMPs) são sequências curtas de aminoácidos largamente presentes nos mais diversos organismos, incluindo bactérias, plantas, anfíbios, insetos, peixes e mamíferos. Têm a capacidade de comprometer o crescimento microbiano, normalmente ao interferirem com a integridade da parede celular. Aprofundar: https://www.sciencedirect.com/topics/agricultural-and-biological-sciences/antim… ) são vistos como uma resposta promissora para a enfrentar. No entanto, são ainda muito poucos.

  • bacitracina produzida por Bacillus licheniformis para tratar as infeções oculares e cutâneas
  • colistina produzida por Paenibacillus polymyxa var. collistinus para tratar a pneumonia em doentes com fibrose quística
  • polimixina B produzida por Paenibacillus polymyxa para tratar infeções tópicas

Daí os estudos de investigação para identificar novos candidatos, com base em 1.773 genomas da microbiota humana da pele, boca, sistema digestivo e vagina de 263 mulheres saudáveis do NIH Human Microbiome Project. 3

323 candidatos potenciais

A equipa identificou 323 candidatos potenciais a que chamou “SEP” (smORF-encoded peptides, péptidos codificados por  (sidenote: SmORF (Small open reading frames) Sequências curtas que codificam pequenos péptidos com menos de 100 aminoácidos que podem, no entanto, mediar funções fisiológicas essenciais em seres humanos e nos animais. Aprofundar: Couso JP, Patraquim P. Classification and function of small open reading frames… ) ).

Destes, foram selecionados 78 com base em 3 critérios (potencial antimicrobiano, diversidade de famílias representadas, facilidade de síntese), sendo sintetizados e depois testados contra:

  • 11 estirpes de agentes patogénicos clinicamente relevantes (Acinetobacter baumannii, E. coli, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus, Enterococcus faecalis, Enterococcus faecium)
  • e 13 das bactérias comensais mais representadas no trato digestivo (pertencentes a 4 filos: Verrucomicrobia, Bacteroidetes, Actinobacteria, et Firmicutes)

Efetivamente, ao contrário das AMP, os SEP podem também visar espécies comensais.

70,5% demonstram atividade antimicrobiana

No total, 55 dos 78 SEP sintetizados (70,5%) apresentaram atividade antimicrobiana in vitro contra pelo menos uma bactéria patogénica ou comensal:

  • 33 dos 78 SEP destruíram pelo menos um dos 11 agentes patogénicos testados; S. aureus foi o único agente patogénico que resistiu a qualquer dos SEP sintetizados;
  • 45 dos 78 SEP demonstraram uma atividade antibacteriana ligeira contra comensais.

Os 5 SEP mais promissores (elevada atividade antipatogénica, baixa atividade contra comensais) são codificados por (sidenote: Bactérias cutâneas e digestivas Faecalibacticina-3 (Faecalibacterium prausnitzii), fusobacticina-2 (Fusobacterium nucleatum), keratinobacina-1 (Keratinibaculum paraultunense), staphylococcina-2 (Staphylococcus capitis) e prevotellina-2 (Prevotella copri) ) . As ações dos diferentes SEP revelaram-se, muitas vezes, sinérgicas.

O melhor candidato in vivo (modelo murino), a prevotelina-2 (P. copri), revelou-se tão eficaz como o antibiótico de referência (polimixina B) no que diz respeito à redução da carga bacteriana, sem toxicidade significativa para os ratinhos infetados com A. baumannii.

6 coisas a saber sobre os antibióticos

Saiba mais

A membrana citoplasmática na linha de tiro

Com o objetivo de se determinar os seus mecanismos de ação, os SEP com propriedades antimicrobianas foram estudados sob todos os ângulos. A sua ação antimicrobiana parece visar a membrana citoplasmática das bactérias que eles despolarizam (enquanto os AMPs e os péptidos codificados convencionais atacam geralmente a membrana externa).

3 tipos de antagonismo

Por último, os distintos SEP atuam através de 3 tipos de antagonismo:

• Intraespécie (de modo a combater a concorrência de outras estirpes)
• Interespécies no mesmo local (por exemplo, a fecalibacticina-3 produzida pela bactéria intestinal Faecalibacterium prausnitzii do filo Firmicutes tem como alvo várias bactérias do filo Bacteroidetes)
• Interespécies visando bactérias de outro local (a estafilococina-2 produzida pela bactéria cutânea Staphylococcus capitis demonstrou ser altamente ativa contra vários filos de bactérias intestinais)

Para além de combaterem os agentes patogénicos, os SEP poderão assim remodelar a microbiota.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias Medicina geral Off

Dos intestinos aos ossos: como a microbiota afeta o risco de fratura por fragilidade óssea

Será em breve possível reduzir o risco de fraturas por fragilidade graças à microbiota intestinal? É o que sugerem os resultados de um estudo 1 que associa este risco à composição da flora digestiva

O aumento do número de fraturas ósseas ligado ao envelhecimento da população é atualmente uma questão de saúde pública: 1 em cada 2 mulheres e 1 em cada 4 homens sofrerão futuramente uma fratura osteoporótica. Estas fraturas por fragilidade resultam, na maioria das vezes, da perda de massa óssea que é difícil de prevenir. Estudos anteriores mostraram uma ligação entre a microbiota intestinal e a massa óssea em ratos e em seres humanos. Um novo estudo revela que ela também influencia o risco de fraturas por fragilidade.

178 milhões

Em 2019, registaram-se 178 milhões de fraturas em todo o mundo, um aumento de 33,4 % desde 1990, parcialmente devido ao aumento demográfico e ao envelhecimento da população. 2

A composição da microbiota, um indicador de risco de fratura

Os investigadores utilizaram os dados da coorte FINRISK, 2 composta por 7.043 finlandeses seguidos durante 18 anos. A sequenciação do metagenoma das bactérias intestinais dos participantes revela que uma maior (sidenote: Diversidade alfa Número de espécies coexistentes num determinado meio )  da microbiota intestinal está associada a um menor risco de fraturas.

De entre os dez filos mais abundantes na microbiota humana, dois parecem estar particularmente ligados à fragilidade óssea:

  • As Proteobactérias (incluindo, em particular, os agentes patogénicos Escherichia, Shigella e Klebsiella), já associadas a diversas doenças (síndrome do cólon irritável, etc.), que estarão associadas a um risco acrescido de fraturas; 
  • E os Tenericutes (nomeadamente os géneros Parabacteroides e Lachnoclostridium, e as 3 espécies, Oscillibacter sp. ER4, Parabacteroides distasonis e Dorea longicatena), aparentemente conotados com a redução desse risco.

A pista da inflamação

Relativamente aos mecanismos em causa, várias vias metabólicas poderão estar envolvidas. Considera-se que as Proteobactérias estão associadas a uma redução da síntese de aminoácidos ramificados benéficos para a saúde óssea e a um aumento da produção de lipopolissacarídeos microbianos pró-inflamatórios. Por sua vez, supõe-se que os Tenericutes estejam envolvidos na biossíntese de  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. ) , como o butirato. Portanto, as Proteobactérias e os Tenericutes poderão modular a inflamação e, com ela, a reabsorção óssea.

25,8 milhões À nível mundial, as fraturas foram responsáveis por 25,8 milhões de anos de invalidez em 2019, o que representa um aumento de 65,3% no número absoluto de anos de invalidez desde 1990. ³

+27% Nos 5 maiores países da União Europeia juntamente com a Suécia, prevê-se que as despesas anuais relacionadas com fraturas por fragilidade aumentem 27% até 2030. ³

Rumo a novas estratégias de prevenção de fraturas?

Embora estes resultados sejam promissores, são baseados em análises de correlação numa população certamente ampla, mas não muito diversificada (europeus do Norte) e apenas nos filos maioritários da microbiota intestinal (com o risco de não se notar o efeito de filos raros). Por conseguinte, é necessária mais investigação para se estabelecer uma relação de causa e efeito entre a microbiota e o risco de fratura, bem como para compreender os respetivos mecanismos subjacentes.

No entanto, se estes resultados se confirmarem, tratamentos destinados a combater os desequilíbrios da microbiota poderão, no futuro, prevenir a osteoporose e, assim, reduzir o risco de fraturas por fragilidade.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias Medicina geral Gastroenterologia Geriátrico

Fragilidade óssea: será que está tudo relacionado com a nossa microbiota intestinal?

E se a saúde dos nossos ossos dependesse da nossa microbiota intestinal? É possível, de acordo com os resultados de um estudo 1 que estabelece uma relação entre o risco de fraturas por fragilidade e as bactérias presentes no nosso sistema digestivo. 

A microbiota intestinal

O risco de (sidenote: Fratura por fragilidade As fraturas por fragilidade resultam de traumatismos por baixa energia (uma força mecânica que normalmente não causaria uma fratura), como as quedas de uma posição ereta ou de uma altura reduzida. Estas fraturas são a principal consequência clínica da osteoporose, embora possam ocorrer em mulheres na pós-menopausa, mesmo na ausência de osteoporose. ) (sem traumatismo grave), em grande parte ligadas à osteoporose, aumenta com a idade, e 1 em cada 2 mulheres e 1 em cada 4 homens sofrerão na vida uma fratura osteoporótica: fraturas do colo do fémur após pequenas quedas, fraturas do pulso na sequência de traumatismos ligeiros, compressão vertebral, etc.

De facto, os ossos, que estão em constante renovação, tendem a destruir-se mais rapidamente do que a reconstruir-se a partir dos 45 anos. Paralelamente aos métodos tradicionais de prevenção óssea, como uma dieta saudável e o exercício físico, surge uma nova pista: a microbiota intestinal, já associada à saúde óssea e ao risco de osteoporose. Há um novo estudo que demonstra agora que a nossa flora intestinal prediz o risco de acabarmos engessados.

178 milhões

Em 2019, registaram-se 178 milhões de fraturas em todo o mundo, um aumento de 33,4% desde 1990, parcialmente devido ao aumento demográfico e ao envelhecimento da população. 2

Bactérias intestinais, aliadas ou inimigas dos nossos ossos?

Uma microbiota intestinal saudável baseia-se numa grande variedade de bactérias intestinais. E essa diversidade também tem repercussões na resistência dos ossos, como revelaram os investigadores que analisaram a microbiota de mais de 7.000 finlandeses. Concluíram que quanto mais diversificada for a microbiota, menor é o risco de fratura.

É mais provável a ocorrência de fratura nos idosos, especialmente nas mulheres. 2

Como é que explica esta associação? De entre as inúmeras bactérias que colonizam os nossos intestinos, estima-se que algumas tenham um efeito benéfico, enquanto outras poderão fragilizar os nossos ossos. Com efeito, as Proteobactérias, que já surgem associadas a um certo número de doenças inflamatórias crónicas do intestino e à síndrome do cólon irritável, poderão igualmente propiciar uma inflamação mais generalizada no organismo, conduzindo à fragilidade óssea.

Por outro lado, os Tenericutes produzem pequenos ácidos gordos, incluindo butirato, que têm um efeito anti-inflamatório de proteção.

Uma microbiota equilibrada para se ter ossos fortes?

O futuro da prevenção das fraturas por fragilidade pode, portanto, passar também pelo reequilíbrio da flora intestinal. Para além da ingestão de cálcio e vitamina D em quantidades suficientes, será necessário também cuidarmos das bactérias “boas” para podermos manter os ossos saudáveis.

Como prevenir as fraturas por fragilidade? ²

• Melhorar a alimentação e a nutrição

Praticar atividade física regular

• Realizar a desabituação tabágica 

• Limitar o consumo de álcool

• Tratar a osteoporose

• Prevenir as quedas

Despite these promising results, considerable work is still required to confirm a causal relationship between bacteria and fractures, and to understand how gut bacteria act to protect or weaken bones. In the meantime, for strong bones into old age, make sure to mind your gut.

A microbiota intestinal

Saiba mais
Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias

Resistência aos antibióticos: descoberta de um milhão de péptidos antimicrobianos

O desenvolvimento da resistência aos antibióticos torna urgente a descoberta de novas moléculas antibióticas. O Machine Learning, por si só, identificou quase um milhão de potenciais péptidos antimicrobianos. ¹

Encontrar novos antibióticos para combater a resistência é um desafio urgente para a medicina e constitui um problema face ao qual o (sidenote: Machine Learning Tecnologia de inteligência artificial devida à qual os computadores “aprendam”, somente pelo processamento de um vasto leque de dados. ) pode dar um contributo importante. Como? Ao prever o repositório global de (sidenote: Péptidos antimicrobianos (AMPs) Os péptidos antimicrobianos (AMPs) são sequências curtas de aminoácidos largamente presentes nos mais diversos organismos, incluindo bactérias, plantas, anfíbios, insetos, peixes e mamíferos. Têm a capacidade de comprometer o crescimento microbiano, normalmente ao interferirem com a integridade da parede celular. Aprofundar: https://www.sciencedirect.com/topics/agricultural-and-biological-sciences/antim… ) disponíveis no planeta. Estes AMPs representam uma terapia promissora já utilizada clinicamente como antivirais (por exemplo, enfuvirtida) e são alvo de ensaios clínicos pelas suas propriedades imunomoduladoras no tratamento das infeções microbianas (leveduras e bactérias). As suas vantagens em relação aos antibióticos estão longe de ser negligenciáveis: por um lado, alguns têm um espetro de atividade reduzido, permitindo terapias mais direcionadas, e por outro lado, a resistência a muitos AMPs está a evoluir lentamente e não está ligada à resistência cruzada com outras classes de antibióticos amplamente utilizadas.

1,27 milhões As infeções resistentes aos antibióticos causam atualmente a morte de 1,27 milhões de pessoas por ano.¹

Quase 1 milhão de candidatos

Na prática, o Machine learning permitiu aos investigadores a previsão e catalogação dos AMPs candidatos (AMP-c) que são produzidos por todos os organismos terrestres, mediante a análise detalhada das bases de dados públicas mundiais (63.410 metagenomas e 87.920 genomas de bactérias ou de arqueobactérias). Os autores limitaram-se ao estudo de uma categoria particular de AMPs: os que são codificados pelos genes dos próprios organismos e que são compostos por menos de 100 aminoácidos. O resultado foi um catálogo (denominado AMPSphere) que contém 833.498 sequências de péptidos não redundantes.

A maioria destes AMP-c (91,5%) era previamente desconhecida. São provenientes de organismos que ocupam 72 habitats diferentes, divididos em 8 tipos principais (solo/plantas: 36,6%; água: 24,8%; intestino humano: 13%, etc.). Grande parte destes AMP-c são raros e específicos de determinado habitat. A maioria é proveniente do mundo microbiano, e 4 dos 5 géneros de bactérias que forneceram mais AMP-c à AMPSphere estão associados a um hospedeiro (3 dos quais – Prevotella, Faecalibacterium e CAG-110 – são habituais nos animais).

100 candidatos testados com êxito

Para confirmarem o poder antimicrobiano dos AMP-c, os investigadores sintetizaram 100 deles e testaram-nos contra bactérias patogénicas resistentes e bactérias comensais do sistema digestivo. In vitro, 79 demonstraram-se ativos contra agentes patogénicos ou comensais, incluindo 63 contra 11 agentes patogénicos que constituem problemas de saúde pública. Quatro péptidos revelaram-se eficazes (100% de células mortas após 24 h de incubação a 37°C) a concentrações muito baixas de cerca de 1 μmol/L, comparáveis à dos péptidos mais potentes descritos na literatura científica.

Resistência aos antibióticos: a microbiota em primeiro plano

Saiba mais

Quais os seus mecanismos de ação? O estudo dos péptidos ativos contra Acinetobacter baumannii ou Pseudomonas aeruginosa mostra que os mesmos causam uma permeabilização significativa da membrana externa dos referidos agentes patogénicos. 

A eficácia dos principais AMPs candidatos foi também confirmada in vivo em modelos murinos de abcesso (infeção por A. baumannii).

Estas experiências in vitro e in vivo demonstram a capacidade do Machine Learning para identificar AMPs funcionais a partir do microbioma global.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias Gastroenterologia Medicina geral Off

As suas bactérias intestinais podem ser a chave para controlar a fome

Descubra como as suas bactérias intestinais podem ser a arma secreta para controlar a fome e controlar o peso. Novos estudos revelam que as dietas ricas em probióticos, prebióticos e fibras podem remodelar o seu microbioma, aumentando as hormonas da saciedade e controlando os excessos alimentares. O futuro do controlo do peso pode estar no seu intestino!

A microbiota intestinal Obesidade Probióticos Prebióticos: o essencial para os compreender

A regulação do apetite é um processo complexo e multidimensional que desempenha um papel fundamental na manutenção da homeostase energética. A saciedade, distinta da fome e da saciação, é fundamental para esta regulação.

  • A fome representa a necessidade fisiológica de alimentos, tipicamente impulsionada por sinais do cérebro em resposta ao esgotamento de energia.
  • A saciação, por outro lado, marca a sensação de plenitude sentida durante uma refeição, assinalando o fim do ato de comer.
  • Em contrapartida, a saciedade refere-se à sensação prolongada de plenitude que suprime a ingestão de alimentos entre as refeições, influenciando assim o próximo momento em que se deseja ingerir alimentos.

Compreender os mecanismos subjacentes à saciedade é fundamental para os profissionais de saúde e para os indivíduos que se esforçam em combater a obesidade, a diabetes, e outros distúrbios metabólicos. Cada vez mais, investigações apontam para a microbiota intestinal como um regulador essencial da sinalização da saciedade, ligando o ambiente microbiano do intestino à função cerebral através do que é comummente designado como eixo intestino-cérebro. Evidências emergentes sugerem que as bactérias intestinais e os seus metabolitos, particularmente os ácidos gordos de cadeia curta ( (sidenote: AGCC Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (combustível) para as células do indivíduo. Interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Fontes:
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.
)
), são parte integrante da regulação da saciedade, influenciando a libertação de hormonas da saciedade e modulando o apetite. 1,2,3

Neste artigo, convidamo-lo a explorar o crescente conjunto de provas sobre o papel da microbiota intestinal na regulação da saciedade,centrando-nos nos metabolitos microbianos, na sua interação com o eixo intestino-cérebro e nas implicações para a prática clínica. Analisaremos a forma como as intervenções dietéticas destinadas a modificar a composição da microbiota intestinal, tais como a utilização de probióticos, prebióticos e dietas ricas em fibras, podem influenciar a saciedade e oferecer novas abordagens para o controlo da obesidade e das condições metabólicas relacionadas.

Qual é a diferença entre prebióticos, probióticos e pós-bióticos?

Saiba mais

Conversas entre o intestino e o cérebro: Como a microbiota molda os sinais de saciedade?

O eixo intestino-cérebro é uma rede intrincada que comunica sinais de saciedade entre o intestino e o cérebro. Esta interação é largamente influenciada pela microbiota intestinal, que regula o apetite através de hormonas como o peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), o peptídeo YY (PYY) e a colecistoquinina (CCK). Estas hormonas são produzidas por células especializadas no intestino chamadas células enteroendócrinas (EECs) em resposta à ingestão de alimentos.

O GLP-1, o PYY e a CCK desempenham um papel fundamental para informar o cérebro de que estamos saciados. Por exemplo:

  • O GLP-1 diminui a velocidade com a qual os alimentos passam pelo trato digestivo, dando ao organismo mais tempo para absorver os nutrientes, e ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue. 5
  • O PYY atua para reduzir o apetite após as refeições, sinalizando ao cérebro para parar de comer. 6
  • A CCK é libertado quando a gordura e a proteína são detetadas no intestino e ajuda a digerir os alimentos, ao mesmo tempo que nos dá o sentimento de saciedade. 7

Juntas, estas hormonas atuam no cérebro para reduzir a ingestão de alimentos e prolongar a sensação de saciedade, ajudando a manter um equilíbrio saudável no consumo de alimentos.

Uma das principais contribuições da microbiota é a produção de AGCC  - acetato, propionato e butirato - durante a fermentação da fibra. Os AGCC estimulam a libertação de GLP-1 e PYY, reforçando a sensação de saciedade e ajudando a controlar o apetite. 1 Além disso, os AGCC interagem com o nervo vago, que liga diretamente o intestino aos centros de fome do cérebro, aumentando os sinais de saciedade. 2

A saciedade, a fome, e a saciação

  • A saciedade refere-se à sensação prolongada de plenitude que suprime a vontade de comer entre as refeições
  • A fome é o impulso fisiológico para comer, desencadeado pela necessidade de energia do organismo e frequentemente assinalada por sinais hormonais e neurais
  • A saciação é a sensação de plenitude sentida durante uma refeição, que indica ao organismo que se deve parar de comer. 

O papel da microbiota vai além da sinalização: os AGCC também reduzem a inflamação no hipotálamo, preservando a integridade da regulação da saciedade e ajudando a prevenir distúrbios metabólicos relacionados com a obesidade. 2 Mas como os probióticos e as intervenções dietéticas específicas como os prebióticos, influenciam a microbiota intestinal para intensificar a saciedade? 

Eixo intestino-cérebro: Qual é o papel da microbiota?

Saiba mais

O papel dos probióticos na intensificação do aumento dos sinais de saciedade:

Estudos recentes demonstraram que certas bactérias podem produzir proteínas que enviam sinais ao nosso cérebro, dizendo-nos que estamos saciados. Um exemplo é uma proteína chamada ClpB, produzida por algumas bactérias como a Hafnia alvei. Esta proteína comporta-se de forma semelhante à alfa-MSH, uma hormona que ajuda a regular o apetite. Esta proteína estimula a libertação de PYY, uma hormona que promove a sensação de saciedade e reduz o apetite. 3

Estudos pré-clínicos demonstraram que a Hafnia alvei pode ajudar a reduzir a ingestão de alimentos e o aumento do peso corporal em modelos animais, amplificando esses sinais de saciedade. 3 Quando utilizada como suplemento probiótico, a Hafnia alvei pode aumentar a sensação de saciedade nos seres humanos, estimulando comportamentos alimentares saudáveis e contribuindo para o controlo do peso a longo prazo. 4 mbora mais investigações sejam necessárias, os primeiros resultados sugerem que os probióticos poderiam constituir um complemento às intervenções dietéticas destinadas a controlar o apetite e a reduzir o excesso de peso. 3

Incitar a saciedade: Como os prebióticos e as fibras alimentares modulam a microbiota

As intervenções dietéticas, particularmente as que envolvem prebióticos e fibras alimentares, oferecem uma forma direta de influenciar a microbiota intestinal e intensificar a saciedade. Os prebióticos são componentes alimentares não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento e a atividade de bactérias intestinais benéficas. Um excelente exemplo é a inulina, uma fibra que aumenta a produção de AGCC, nomeadamente o propionato e o butirato, que desempenham um papel fundamental na sinalização da saciedade. 2

Em estudos realizados no ser humano, o consumo de suplementos de éster de inulina-propionato (IPE) mostrou resultados promissores. Por exemplo, os indivíduos que consumiram IPE registaram uma diminuição do consumo de energia ad libitum, o que significa que reduziram naturalmente o seu consumo de alimentos sem esforço consciente. 2 Os AGCC produzidos pela fermentação das fibras, em particular o propionato, estimulam diretamente a libertação de GLP-1 e PYY, aumentando a sensação de saciedade. 1

Além disso, o amido resistente, outra fibra fermentável, demonstrou a sua capacidade de reduzir os níveis de glicose pós-prandial e influenciar as hormonas da saciedade. Um estudo mostrou que o consumo de suplementos de amido resistente durante seis semanas reduziu os níveis de leptina, uma hormona envolvida no equilíbrio energético a longo prazo, sinalizando uma melhor regulação do apetite. 1

Estes exemplos destacam como as dietas ricas em fibras podem modular a atividade microbiana intestinal para afetar positivamente a saciedade. Mas e os outros metabolitos microbianos além dos AGCC? Como influenciam a regulação central e periférica da fome?

Para além da fibra: o papel dos metabolitos neuroativos no controlo do apetite

Além dos AGCC, as bactérias intestinais produzem vários metabolitos neuroativos que desempenham um papel crucial na regulação do apetite e da saciedade através de vias centrais e periféricas . Entre estes, a serotonina, o ácido gama-aminobutírico (GABA) e a dopamina são neurotransmissores essenciais envolvidos na modulação da ingestão de alimentos e do equilíbrio energético. 2

90% da serotonina do organismo é produzida no intestino

Curiosamente, cerca de 90% da serotonina do organismo é produzida no intestino pelas células enterocromafins, influenciadas pelo ambiente microbiano. 3  Esta serotonina não apenas regula a motilidade intestinal como também interage com o nervo vago para sinalizar os centros de saciedade do cérebro, contribuindo para a supressão da fome após as refeições. 2

No caso do GABA, certas estirpes de Lactobacillus e Bifidobacterium podem produzir este neurotransmissor. O GABA afeta o hipotálamo, que é fundamental para a regulação da fome, modulando os circuitos neurais que controlam o comportamento alimentar. Estudos demonstraram que os ratos sem germes apresentam uma sinalização de GABA alterada, o que resulta num aumento do apetite, salientando o papel crítico do GABA derivado do intestino no controlo da fome. 3

Além disso, a dopamina, que está envolvida nos mecanismos de recompensa alimentar, é também influenciada pela microbiota intestinal. Desequilíbrios nas vias dopaminérgicas podem levar a comportamentos de ingestão excessiva de alimentos e até mesmo a comportamentos de compulsão alimentar, ressaltando o papel potencial da microbiota na gestão da fome, mas também da dependência alimentar.1

Disbiose: Quando o desequilíbrio intestinal sabota a saciedade

A disbiose, o desequilíbrio ou a má adaptação da microbiota intestinal, surgiu como um fator crítico na perturbação dos sinais normais de saciedade. Em indivíduos com obesidade e distúrbios metabólicos, observa-se frequentemente uma disbiose, caracterizada por uma redução da diversidade microbiana e um crescimento excessivo de certas bactérias patogénicas. 3 Este desequilíbrio pode prejudicar a produção de metabolitos microbianos essenciais, nomeadamente os AGCC, indispensáveis à regulação das hormonas responsáveis pela saciedade, como o GLP-1 e o PYY. 1

Além disso, a disbiose compromete a barreira intestinal, aumentando a translocação de endotoxinas bacterianas como o lipopolissacárido (LPS) para a circulação. Níveis elevados de LPS estão associados a uma inflamação crónica de baixo grau, que perturba a sinalização da saciedade ao induzir uma neuroinflamação no hipotálamo, uma região cerebral essencial envolvida na regulação da fome. 2  Este estado inflamatório altera a capacidade do cérebro de responder adequadamente às hormonas da saciedade, contribuindo para a ingestão excessiva de alimentos e para a disfunção metabólica.

A investigação mostra que os indivíduos com microbiomas disbióticos apresentam frequentemente níveis elevados da hormona que estimula o apetite, a grelina, o que leva a uma sensação persistente de fome e à dificuldade em manter um equilíbrio energético saudável. 3 Estas perturbações ressaltam a importância de manter uma microbiota saudável e diversificada, não apenas para a saúde digestiva, mas também para a regulação adequada do apetite e o controlo metabólico a longo prazo.

Já ouviu falar de “disbiose”?

Saiba mais

Reabilitação da saciedade: Utilização de probióticos, prebióticos e dietas ricas em fibras para ganhos terapêuticos

O potencial terapêutico dos probióticos, prebióticos e dietas ricas em fibras na modulação da microbiota intestinal oferece uma ferramenta poderosa para intensificar a saciedade e controlar os distúrbios metabólicos. 8 Investigações mostram de forma consistente que as fibras alimentares, como a inulina, os fruto-oligossacáridos (FOS) e o amido resistente, funcionam como agentes críticos na estimulação da produção de AGCC - especificamente o butirato, propionato e o acetato - que influenciam diretamente a regulação da saciedade através do eixo intestino-cérebro9

As provas apontam para um futuro em que uma nutrição de precisão - intervenções dietéticas adaptadas com base no perfil do microbioma de um indivíduo - poderá ser uma estratégia terapêutica fundamental. 10 Ao visar a microbiota com probióticos, prebióticos e fibras específicos, os médicos podem restaurar o equilíbrio intestinal, aumentar a saciedade e ajudar os doentes a controlarem o seu apetite e a sua saúde metabólica de forma mais eficaz. À medida que a compreensão do papel da microbiota na saciedade se aprofunda, oferece um novo horizonte de terapias personalizadas que vão para além das abordagens tradicionais no tratamento da obesidade e das doenças metabólicas. 11

Fontes

1. Deehan EC, Mocanu V, Madsen KL. Effects of dietary fibre on metabolic health and obesity. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2024;21(5):301-318.

2. Bastings JJAJ, Venema K, Blaak EE, et al. Influence of the gut microbiota on satiet signaling. Trends Endocrinol Metab. 2023;34(4):243-255.

3. Pizarroso NA, Fuciños P, Gonçalves C, et al. A Review on the Role of Food-Derived Bioactive Molecules and the Microbiota-Gut-Brain Axis in Satiety Regulation. Nutrients. 2021;13(2):632.

4. Déchelotte P, Breton J, Trotin-Picolo C, et al. The Probiotic Strain H. alvei HA4597® Improves Weight Loss in Overweight Subjects under Moderate Hypocaloric Diet: A Proof-of-Concept, Multicenter Randomized, Double-Blind Placebo-Controlled Study. Nutrients. 2021;13(6):1902.

5. Drucker DJ. Mechanisms of Action and Therapeutic Application of Glucagon-like Peptide-1. Cell Metab. 2018;27(4):740-756. 

6. Degen L, Oesch S, Casanova M, et al. Effect of peptide YY3-36 on food intake in humans. Gastroenterology. 2005;129(5):1430-1436.

7. Rehfeld JF. Cholecystokinin-From Local Gut Hormone to Ubiquitous Messenger. Front Endocrinol (Lausanne). 2017;8:47.

8. Mallappa RH, Rokana N, Duary RK, et al. Management of metabolic syndrome through probiotic and prebiotic interventions. Indian J Endocrinol Metab. 2012 Jan;16(1):20-7.

9. Chambers ES, Morrison DJ, Frost G. Control of appetite and energy intake by SCFA: what are the potential underlying mechanisms?. Proc Nutr Soc. 2015;74(3):328-336. 

10. Zmora, N., Suez, J. and Elinav, E. You are what you eat: diet, health and the gut microbiota. Nat Rev Gastroenterol Hepatol 16, 35–56 (2019).

11. Torres-Fuentes C, Schellekens H, Dinan TG, Cryan JF. A natural solution for obesity: bioactives for the prevention and treatment of weight gain. A review. Nutr Neurosci. 2015;18(2):49-65.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias

Infeções do trato urinário: rumo a estratégias dietéticas e probióticas alternativas?

No tratamento das infeções do trato urinário, as estratégias preventivas, baseadas numa dieta alimentar equilibrada ou mesmo na utilização de probióticos, podem representar alternativas ao tratamento curativo com antibióticos. Embora eficazes a curto prazo, os antibióticos podem também conduzir a disbiose, novas infeções e resistência.

Mais de 80% das infeções do trato urinário são causadas pela (sidenote: Escherichia coli uropatogénica A E. coli possui frequentemente genes adicionais (em comparação com a E. coli comensal) que aumentam a sua virulência (flagelos, toxinas, polissacáridos de superfície etc.).. ) . Estas bactérias intestinais podem migrar do ânus, colonizar a uretra e depois subir até à bexiga. Estudos anteriores mostraram que as mulheres que sofrem de infeções do trato urinário têm uma maior abundância de E. coli no seu sistema digestivo e semelhanças entre as espécies intestinais e as que colonizam o trato urinário. 

Para avaliar a disbiose e outros potenciais fatores de risco em mulheres com antecedentes de cistite, investigadores inscreveram 753 mulheres voluntárias com idades compreendidas entre os 18 e os 45 anos, diagnosticadas com infeção do trato urinário nos últimos cinco anos e que gozavam de boa saúde. 1

Com exceção de um pico nas mulheres jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 24 anos, a prevalência de infeções do trato urinário aumenta com a idade. A prevalência nas mulheres com mais de 65 anos é de cerca de 20%, em comparação com cerca de 11% na população em geral. 2

Entre 50% e 60% das mulheres adultas terão pelo menos uma infeção do trato urinário durante a sua vida e quase 10% das mulheres com menopausa reportam ter tido uma infeção do trato urinário no ano anterior. 2

Optar por uma alimentação mais saudável

Quase ¾ das mulheres estudadas (71%) apresentavam uma disbiose intestinal, que estava associada não apenas à (sidenote: Infeção recorrente do trato urinário Uma infeção recorrente do trato urinário é definida como à ocorrência de ⩾2 episódios sintomáticos em 6 meses ou ⩾3 episódios sintomáticos em 12 meses. ) das suas infeções urinárias, mas também à presença de resistências múltiplas aos antibióticos na sua flora.

Uma outra particularidade da população estudada é a sua alimentação, seja no que diz respeito a bebidas (menos de 1 litro de água por dia, consumo de sumos açucarados etc.), a alimentos (produtos salgados ultra-processados, dietas hipercalóricas ricas em açúcares adicionados e em gorduras saturadas etc.) ou a suplementos alimentares destinados a prevenir as infeções urinárias.

Mais de 80% das infeções do trato urinário são causadas pela Escherichia coli uropatogénica. ¹

150 milhões As infeções do trato urinário estão entre as doenças bacterianas mais comuns, afetando anualmente 150 milhões de pessoas em todo o mundo. ¹

Para os investigadores, estas observações confirmam a relação entre a alimentação e a composição da microbiota intestinal. A este respeito, referem-se a estudos anteriores que demonstraram que apenas 12% da variação estrutural da microbiota intestinal pode ser atribuída a alterações genéticas, enquanto 57% pode ser explicada por alterações na alimentação. 

A microbiota como uma nova estratégia terapêutica

Embora o tratamento padrão das infeções do trato urinário se baseie na utilização de antibióticos, estes perturbam a microbiota intestinal (disbiose) a longo prazo favorecendo os microrganismos multirresistentes. O que explica a importância, segundo os autores, das escolhas terapêuticas alternativas e complementares.

E os investigadores recordam os efeitos benéficos dos probióticos, em particular do Lactobacillus spp. que reduz a aderência, o crescimento e a colonização de bactérias uropatogénicas como a E. coli: a L. salivarius, com sua libertação entérica, atinge e protege a microbiota urinária e vaginal. Um probiótico composto por duas estirpes de Lactobacilos e extrato de arando reduz significativamente o número de infeções do trato urinário recorrentes em mulheres jovens na pré-menopausa, em comparação com um produto placebo. 

Com uma grande vantagem em relação aos antibióticos, pois a administração de lactobacilos não favorece o surgimento de resistências.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias Gastroenterologia

Xpeer: Microbiota na saúde íntima da mulher ao longo da vida

Ginecologistas, parteiras e farmacêuticos recebem formação gratuita sobre “Microbiota na saúde íntima da mulher ao longo da vida” da Professora Alessandra Graziottin neste curso.

Imagem

Sinopse do curso:

Esse curso credenciado tem como objetivo instruir ginecologistas, parteiras e farmacêuticos sobre a importância da microbiota, especialmente a microbiota vaginal, para a saúde íntima. Liderados por uma especialista renomada, a Dra. Graziottin, durante todo o curso os participantes obterão uma compreensão abrangente de como a microbiota afeta a saúde íntima ao longo da vida. Primeiro, abordaremos as percepções básicas sobre o microbioma intestinal antes de nos aprofundarmos na microbiota vaginal em diferentes estágios da vida, incluindo o potencial de uma placenta estéril, a microbiota neonatal e as mudanças durante a infância, a puberdade, os anos férteis e a menopausa. Não perca as recomendações práticas, os equívocos comuns e o resumo das principais conclusões que lhe proporcionarão o conhecimento e as habilidades necessárias em sua prática clínica.

Inscreva-se agora!

Esta atividade conta com o apoio financeiro irrestrito da Biocodex.

Quem é a Alessandra Graziottin?

Alessandra Graziottin, MD é uma ginecologista, oncologista, sexóloga e psicoterapeuta italiana. Ela é diretora do Centro de Ginecologia e Sexologia Médica do Hospital San Raffaele Resnati, em Milão.

  • Em 2008, fundou a Fundação Alessandra Graziottin para o tratamento da dor em mulheres Onlus, da qual é presidente.
  • Atualmente, é professora consultora do Mestrado Avançado em Andrologia e Medicina Sexual da Universidade de Firenze.
  • Também foi professora consultora no Mestrado Avançado em Sexologia Clínica da Universidade de Pisa e professora no Curso de Mestrado em Medicina Sexual para Estudantes de Psicologia da Universidade de Veneza e da Universidade Salesiana (UPS) de Roma.

Ela é uma ginecologista renomada, tendo publicado 22 livros científicos e 7 livros populares (como autora, coautora ou editora), mais de 90 capítulos de livros científicos, 8 manuais educacionais para mulheres e mais de 400 artigos científicos sobre vários aspectos da ginecologia e sexologia médica.

Declaração de Conflitos de Interesse: A autora declara ter recebido honorários da Astellas, Fagron, Mammowave, Mylan, Named, Techdow, Uriach; ter participado como palestrante em eventos patrocinados pela Astellas, Biofemme, Bromatech, Lolipharma, Named, Techdow, Uriach; e fazer parte de conselhos consultivos da Astellas, Mylan, Techdow, Uriach.

A respeito da Xpeer

Xpeer Medical Education é a primeira aplicação de formação clínica acreditada do mercado, com cativantes vídeos de microaprendizagem de apenas 5 minutos.

Com um poderoso algoritmo para personalização da experiência do utilizador e dos conteúdos, inspirado no das mais populares plataformas de vídeo em streaming, oferece uma experiência totalmente renovada para a formação contínua e o desenvolvimento profissional dos profissionais de saúde.

Credenciada pela União Europeia de Médicos Especialistas, oferece componentes de formação clínica de elevada qualidade científica. Na Xpeer poderá encontrar este programa sobre a Microbiota e 500 horas de formação clínica de 2021 na sua especialidade, tecnologias, e competências profissionais e pessoais.

Mais informações sobre as acreditações:

A aplicação Xpeer é credenciada pelo European Accreditation Council for Continuing Medical Education (EACCME®) e atribui créditos ECMEC oficialmente reconhecidos em 26 países.

Os participantes do módulo obtêm 1 crédito FMF Europeu (ECMEC) por cada hora de formação (60 minutos úteis de e-learning, excluindo as introduções...). Este crédito é atribuído após a conclusão do módulo e a avaliação correspondente validada pelos participantes.

Summary
Off
Sidebar
Off
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Artigo Ginecologia

As bactérias intestinais transformam as hormonas do stress em progestinas: uma função inesperada para o hidrogénio gasoso

Uma equipa de investigadores descobriu que as bactérias intestinais podem transformar as hormonas do stress em hormonas progestinas, tudo isto alimentado pelo hidrogénio gasoso! Esta descoberta inesperada pode revolucionar a forma como encaramos a saúde intestinal, a gravidez e até mesmo o bem-estar mental.

Através de uma descoberta inédita, os investigadores descobriram que certas bactérias intestinais podem converter as hormonas relacionadas com o stress em hormonas progestinas, tudo com a ajuda de hidrogénio gasoso. Esta investigação, liderada por Megan McCurry 1 e pela sua equipa, revela como os micróbios intestinais, especificamente Gordonibacter pamelaeae e Eggerthella lenta, metabolizam os glucocorticoides – hormonas produzidas pelo organismo em resposta ao stress – em progestinas, que desempenham um papel crucial na gravidez e na função cerebral. As conclusões, publicadas na revista Cell, abrem novas perspetivas para a compreensão do modo como a microbiota intestinal influencia a saúde das mulheres, especialmente durante a gravidez.

O papel inesperado do hidrogénio gasoso

Uma das descobertas mais surpreendentes deste estudo é o papel que o hidrogénio gasoso desempenha no metabolismo das bactérias intestinais. Tradicionalmente visto como um subproduto da digestão, o hidrogénio gasoso é agora considerado um dos principais fatores responsáveis pelo aumento da capacidade das bactérias para converter os glucocorticoides em progestinas. A investigação demonstrou que a produção de hidrogénio gasoso por bactérias intestinais como a E. coli cria um ambiente que promove esta transformação dos esteroides. Quando estas bactérias são cultivadas conjuntamente, produzem muito mais hidrogénio, o que facilita o processo de conversão.

Esta descoberta de que o hidrogénio pode impulsionar importantes modificações hormonais realça um aspeto inteiramente novo da função da microbiota intestinal. Até agora, o papel do hidrogénio no metabolismo intestinal era sobretudo associado à produção de gás e à fermentação, mas este estudo revela a sua influência crítica no metabolismo secundário, particularmente no processamento das hormonas esteroides.

Produção bacteriana de progestina: uma potencial relação com a gravidez e a saúde mental

A investigação revela também que a conversão das hormonas do stress em progestinas por parte das bactérias intestinais tem relevância fisiológica, especialmente durante a gravidez. O estudo constatou que os níveis de progestinas bacterianas eram significativamente mais elevados nas fezes das mulheres grávidas em comparação com as mulheres não grávidas. Uma dessas progestinas, a alopregnanolona, já se encontra aprovada pela FDA como tratamento para a depressão pós-parto, o que aponta para um potencial impacto deste processo bacteriano na saúde mental materna.

Verificou-se que a ordem de grandeza dos níveis de progestina nas fezes era duas vezes mais elevada nas grávidas do que nas não grávidas.

Esta ligação entre a produção de hormonas bacterianas e a gravidez é decisiva, uma vez que as progestinas não só regulam a gravidez como também atuam como neuroesteroides que condicionam a função cerebral. O estudo sugere que estas transformações bacterianas poderem influenciar não só os resultados da gravidez, mas também patologias pós-parto como a depressão e a ansiedade.

Micróbios intestinais: novos protagonistas do sistema endócrino?

Para além da gravidez, as implicações destes resultados estendem-se a domínios mais vastos da saúde. Se as bactérias intestinais podem transformar as hormonas do stress em compostos bioativos que afetam o cérebro e os sistemas reprodutivos, isso suscita possibilidades interessantes para a compreensão do impacto da saúde intestinal na regulação hormonal global. A descoberta aponta para o facto de a microbiota intestinal funcionar quase como um órgão endócrino adicional, capaz de influenciar o equilíbrio hormonal e a saúde mental.

O reconhecimento do papel desempenhado pela microbiota na regulação hormonal pode abrir caminho a tratamentos inovadores que visem as bactérias intestinais. Futuramente, as terapias microbianas poderão ajudar a tratar doenças relacionadas com desequilíbrios hormonais, como a síndrome dos ovários poliquísticos (SOP), as perturbações do humor ou mesmo problemas de fertilidade.

Conclusão

Em resumo, esta investigação revela que as bactérias intestinais, quando auxiliadas pelo hidrogénio gasoso, podem converter as hormonas relacionadas com o stress em hormonas da gravidez, com profundos efeitos potenciais na saúde feminina. Estes resultados não só alteram a nossa compreensão sobre a microbiota intestinal, como também abrem novas vias para intervenções clínicas em problemas de saúde relacionados com as hormonas.

Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias Gastroenterologia

Microbiota do bebé: pai, é a tua vez!

As mulheres estão sempre a repetir: os pais têm um papel importantíssimo a desempenhar em relação aos filhos. A ciência 1 acaba de demonstrar que isso também se aplica à microbiota dos bebés: as mães transmitem parte da sua flora durante o parto, enquanto os pais lhes dão a outra parte. Essa transferência é ainda mais importante quando a criança nasce por cesariana e a flora materna se encontra ausente.

A microbiota intestinal A microbiota ORL A microbiota vaginal Asma e microbiota Probióticos Obesidade

Esta é uma das desvantagens da cesariana: como o bebé não nasce por via vaginal, não tem tempo para provar (no sentido literal da palavra!) as bactérias vaginais e fecais da mãe. Embora esta “refeição” possa não parecer muito apetitosa à primeira vista, ela é, no entanto, essencial para o desenvolvimento da criança e da sua microbiota! Pensa-se mesmo que o aumento da incidência de doenças autoimunes, da asma e obesidade nas crianças nascidas por cesariana pode dever-se a este facto: privados deste manjar de reis, os recém-nascidos extraídos do ventre da mãe “a bisturi” não terão recebido todas as bactérias benéficas necessárias ao seu desenvolvimento imunitário e neurológico. Trata-se de um problema grave se pensarmos que uma em cada quatro crianças nasce por cesariana. 

A solução: os pais!

Consequentemente, a investigação procurou soluções, nomeadamente a transferência da flora vaginal da mãe para a criança: nos dois minutos subsequentes ao nascimento, a boca, o rosto e o corpo do recém-nascido eram esfregados com uma gaze previamente colocada na vagina materna. Mas os resultados não estiveram à altura das expectativas.

1/4 Atualmente, os partos por cesariana representam mais de um quarto dos nascimentos em todo o mundo. ¹

60% das mulheres desconhecem que o método do parto pode ter impacto na microbiota intestinal dos recém-nascidos. ²

Felizmente, um estudo publicado em meados de 2024 sugere uma solução muito mais simples: os pais! De facto, embora a mãe seja a principal responsável pela flora intestinal nos primeiros dias do bebé, o pai (e todos os que rodeiam o bebé!) também desempenha um papel importante. E isso cada vez mais, à medida que os meses passam.

Por alturas do primeiro aniversário da criança, o pai já contribui tanto como a mãe! Com uma grande vantagem: enquanto as dádivas bacterianas maternas dependem do tipo de parto, o pai constitui uma fonte estável. Outra vantagem é o facto de as bactérias paternas e maternas serem diferentes: duas fontes complementares que permitem a formação de uma microbiota robusta para o recém-nascido!

Transferência de microbiota fecal e probióticos

Mas o trabalho da equipa não se fica por aqui: eles propõem dois pequenos reforços adicionais para a flora intestinal dos recém-nascidos. Acabou-se o tempo da gaze impregnada com a microbiota vaginal das mães: um transplante da flora fecal materna parece ser muito mais eficaz para garantir que a criança nascida por cesariana construa rapidamente uma flora intestinal saudável, capaz de resistir ao ataque dos agentes patogénicos.

E como a natureza é generosa, trata-se sobretudo de uma transmissão de bactérias capazes de decompor os açúcares do leite materno. Todas estas estirpes poderão ser desenvolvidas em futuros probióticos para reforçar a flora destes bebés de tenra idade.

Microbiota intestinal: a aliada do nosso sistema imunitário

Saiba mais
Summary
Off
Sidebar
On
Migrated content
Désactivé
Updated content
Désactivé
Hide image
Off
Noticias