E se uma dieta com demasiadas gorduras e falta de fibras agravasse a endometriose? É o que aponta um estudo recente realizado em ratinhos, que indica igualmente a existência de um efeito de proteção da bactéria intestinal A. muciniphila.1
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao que reveste o útero - e que é eliminado durante a menstruação - começa a colonizar locais onde não deveria estar (como os ovários, o peritoneu, etc.). Resultado: dores, menstruações complicadas, problemas digestivos e, eventualmente, infertilidade. Cerca de 10% das mulheres em idade fértil são afetadas.
Já se sabe que a alimentação pode desempenhar um papel na inflamação: uma dieta equilibrada parece ajudar a reduzir a dor. Uma equipa de investigadores decidiu averiguar os resultados do seu oposto: uma dieta tipicamente ocidental, rica em gorduras e pobre em fibras. Para isso, utilizaram cobaias... ou melhor, ratinhos.
10%
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres e raparigas em idade fértil em todo o mundo, ou seja, 190 milhões de pessoas. ²
Dieta ocidental = lesões 2 vezes maiores
Durante 4 semanas, os ratinhos foram alimentados com uma dieta “normal” para roedores (17% de gorduras) ou com uma dieta do tipo “fast-food” (45% de gorduras, baixo teor em fibra). Seguidamente, foi induzida cirurgicamente endometriose e a evolução das lesões foi acompanhada durante 7 semanas. Veredicto? Os ratinhos que receberam a dieta ocidental desenvolveram lesões duas vezes maiores do que as dos outros. E não apenas maiores: também mais fibrosas e cheios de células em processo de proliferação máxima.
Metabolismo e imunidade: quando as situações ficam fora de controlo
Porquê tal efeito? A dieta de fast food parece perturbar o metabolismo e a imunidade:
reforça a atividade dos macrófagos (células imunitárias que, neste caso, parecem funcionar mais como pirómanos do que como bombeiros);
ativa a leptina, uma hormona que intervém no crescimento das lesões e no metabolismo da glicose;
acelera a oxidação da glicose, combustível das lesões.
E a microbiota no meio disto tudo?
O estudo revela igualmente que a endometriose altera a flora intestinal dos ratinhos, independentemente da sua alimentação. Mas nos ratinhos submetidos a dieta ocidental, uma bactéria em particular, a Akkermansia muciniphila, conhecida pelos seus efeitos anti-inflamatórios, desapareceu parcialmente quando foi induzida a endometriose. Isto parece indicar que a doença desequilibrará a microbiota intestinal ao eliminar as bactérias protetoras.
E agora?
Estes resultados são ainda preliminares, uma vez que foram obtidos em ratinhos e não em seres humanos. Mas eles confirmam várias coisas: A dieta tem um impacto determinante na endometriose, e uma alimentação mais saudável pode atenuar a dor e a progressão da doença. A microbiota intestinal desempenha igualmente um papel fundamental na fisiopatologia da endometriose, e certas bactérias, como a Akkermansia muciniphila, poderão ter um efeito protetor.
Esta descoberta abre caminho para novas abordagens terapêuticas baseadas na modulação da microbiota. Então, sem dizer definitivamente adeus às batatas fritas, que tal adicionar alguns legumes às suas refeições para fazer uns mimos às suas melhores bactérias?
Investigações mostram que a microbiota intestinal influencia o sono ao modular a produção de butirato, um metabolito que afeta a atividade neuronal no hipotálamo. Será que esta descoberta abrirá caminhos para os tratamentos baseados no equilíbrio bacteriano?
O ditado "quem dorme janta" não está errado ao insinuar uma ligação entre o sistema digestivo e o cérebro: de facto, parece haver uma relação bidirecional entre o sono e a microbiota, envolvendo o eixo intestino-cérebro. Por quais mecanismos a microbiota intestinal afeta o sono? Uma equipa de investigadores tentou responder a esta pergunta. 1
Primeira etapa: os investigadores estudaram o sono de ratinhos cuja microbiota intestinal não continha agentes patogénicos e de ratos que não tinham microbiota intestinal.
Resultado: a ausência de microbiota intestinal altera a arquitetura do ciclo sono-vigília durante as fases de luz e escuridão. Por outro lado, os autores já tinham demonstrado que a privação de sono estava associada a uma redução dos níveis de butirato (fecal e hipotalâmico) em ratos cuja microbiota não tinha agentes patogénicos, mas não nos ratos sem microbiota.
Próxima etapa: os investigadores demonstraram que o butirato produzido pelas bactérias intestinais pode modular a função neuronal e promover o sono dos roedores. Como? Ao inibir a atividade neuronal da (sidenote:
Orexina
Neurotransmissor que regula uma grande variedade de funções biológicas, incluindo o ciclo sono-vigília, o processamento da recompensa e do stress, o estado de alerta e o funcionamento cognitivo. As alterações dos níveis centrais e periféricos de orexina estão associadas a patologias como a narcolepsia, a anorexia nervosa, o declínio cognitivo relacionado com a idade e as doenças neurodegenerativas
Aprofundar:Toor B, Ray LB, Pozzobon A et al. Sleep, Orexin and Cognition. Front Neurol Neu…) na região hipotalâmica lateral em ratos.
40%
A insónia é frequentemente uma doença crónica, com uma taxa de persistência de 40% num período de 5 anos. ²
10-20%
Cerca de 10% da população adulta sofre de um distúrbio do sono e outros 20% apresentam sintomas ocasionais de insónia. ²
Insónia
As mulheres, os idosos e as pessoas em situações socioeconómicas precárias são mais vulneráveis à insónia. ²
Resultados confirmados em humanos
Uma vez que a ausência de microbiota intestinal pode influenciar o comportamento do sono através de uma via metabólica, faltava confirmar que os pacientes com insónia possuem uma disbiose intestinal e alterações no metabolismo microbiano do butirato. Isto foi obtido numa nova fase do estudo, através de amostras de fezes de pacientes com insónia e de pacientes saudáveis: observou-se uma (sidenote:
Diversidade alfa
Número de espécies coexistentes num determinado meio
) mais baixa e uma redução significativa de 39 bactérias produtoras de butirato nos insones. Isto explica os níveis mais baixos de butirato no soro nos indivíduos que dormem mal.
Transplante de flora... e de sono
Por fim, numa tentativa de demonstrar uma relação de causa e efeito, a flora digestiva de um paciente com insónia foi transplantada em ratinhos sem flora. Este transplante reduz o butirato sanguíneo, ativa os neurónios do hipotálamo lateral e, por sua vez, torna os roedores insones. A administração oral de butirato de sódio melhorou o sono destes roedores.
Este trabalho mostra um papel causal do eixo microbiota intestinal-cérebro na modulação do sono. O envolvimento das vias metabólicas microbianas na qualidade do sono sugere potenciais estratégias terapêuticas - através de probióticos ou butirato - para o tratamento de distúrbios como a insónia.
E se a chave para um sono reparador estivesse escondida nos nossos intestinos? Para ter uma boa noite de sono, já não basta contar carneirinhos, deve-se também vigiar as nossas bactérias intestinais para garantir que temos a microbiota certa para uma boa noite de sono.
O ditado "quem dorme janta" não é tão louco quanto parece. A sua barriga parece ter algo a dizer sobre o seu sono... Como? Através damicrobiota intestinal, este famoso conjunto de bactérias que reside nos nossos intestinos. E para o provar, os investigadores realizaram uma série de experiências surpreendentes. 1
3 a 5
Uma boa noite de sono consiste em pelo menos 3 a 5 ciclos de sono de 90 minutos. ²
10-20%
Cerca de 10% da população adulta sofre de um distúrbio do sono e outros 20% apresentam sintomas ocasionais de insónia. ³
40%
A insónia é frequentemente uma doença crónica, com uma taxa de persistência de 40% num período de 5 anos. ³
Sem microbiota, os ratos não dormem bem
Em primeiro lugar, estes cientistas analisaram ratinhos: alguns tinham uma microbiota intestinal "saudável" outros não tinham nenhuma microbiota intestinal (intestino estéril). O resultado? Os ratos sem microbiota tinham um padrão de sono completamente diferente. O ciclo dia-noite foi interrompido, como se se tivessem esquecido de ajustar o seu relógio biológico interno. Mas o que esta microbiota faz exatamente no nosso sono?
Bem, é aí que entra um metabolito, o butirato, produzido pelas nossas bactérias intestinais. Este pequeno "mensageiro" químico parece ter um impacto direto no nosso cérebro e, em particular, numa zona essencial para o sono: o hipotálamo lateral, que gere a nossa vigilância. O butirato favorece o sono modificando a atividade de certos neurónios.
Para ir mais longe, os investigadores quiseram verificar se os seres humanos que sofrem de insónias tinham uma flora intestinal diferente da dos que dormiam bem. O veredito: as pessoas com insónias têm um desequilíbrio da sua microbiota e, em particular, uma redução das bactérias que produzem butirato. Resultado: menos butirato, menos sono reparador. A observação em ratos foi, portanto, confirmada no ser humano.
Mas a história não termina aqui. Os investigadores chegaram até a transplantar a flora intestinal de uma pessoa com insónias nos ratinhos. E adivinha o que aconteceu? Estes ratos desenvolveram distúrbios do sono semelhantes aos dos humanos com insónias. Felizmente, a administração de butirato de sódio a estes ratinhos foi suficiente para fazer com que dormissem de novo.
Tudo isto abre caminho para novas vias terapêuticas para as pessoas que sofrem de insónia. Talvez um dia, para além de um bom chá de ervas, seja-nos receitado um curso de probióticos para nos ajudar a dormir. Em todo o caso, uma coisa é certa: parece que, se quiser dormir bem, terá de mimar também a sua microbiota!
Dentro de nós existe uma comunidade microbiana complexa, o microbioma intestinal, que exerce um grande impacto na nossa saúde. É um lugar onde ocorrem processos metabólicos essenciais influenciados pela alimentação, idade e ambiente. O foco não é apenas a variedade de micróbios, mas as funções essenciais que desempenham juntos. Considerando que um estado saudável é um equilíbrio dinâmico entre nós e estes micróbios, o que define um microbioma saudável?
Encontramo-nos numa era de exploração sem precedentes do mundo microscópico que existe dentro de nós: o microbioma intestinal. Uma recente e meticulosa análise científica 1 ançou luz sobre este complexo ecossistema, revelando as maravilhas e os mistérios das nossas comunidades microbianas internas.
Este artigo desafia a visão simplista da "disbiose", salientando que este termo, frequentemente utilizado para descrever um intestino desequilibrado, carece da precisão necessária para uma compreensão correta.
Coloca também uma questão fundamental: o que constitui verdadeiramente um microbioma "saudável"?
O que define um microbioma saudável?
A definição de um microbioma intestinal "saudável" é complexa, e vai além da simples ausência de doença.
Envolve a avaliação da estrutura, função e composição microbiana do intestino. Embora se pensasse que uma elevada diversidade de espécies microbianas fosse o principal marcador de um intestino saudável, agora entende-se que a (sidenote:
Diversidade funcional
Descreve a gama de atividades metabólicas realizadas pela microbiota intestinal. Trata-se de um indicador mais importante da saúde intestinal do que a simples diversidade taxonómica, pois diferentes composições microbianas podem desempenhar funções metabólicas semelhantes. A avaliação da diversidade funcional pode fornecer uma previsão mais exata dos estados fisiológicos do que apenas a diversidade composicional.
), ta gama de atividades metabólicas que o microbioma realiza, é mais importante. Isto significa que diferentes composições microbianas podem desempenhar funções metabólicas semelhantes.
A (sidenote:
Especificidade da estirpe
Este facto evidencia que diferentes estirpes da mesma espécie bacteriana podem ter efeitos muito diferentes no hospedeiro. Por exemplo, algumas estirpes de E. coli são patogénicas, enquanto outras, como a E. coli Nissle 1917, são benéficas. A compreensão dos efeitos específicos de cada estirpe é essencial para o desenvolvimento de terapias direcionadas e para a interpretação da investigação sobre o microbioma intestinal.
) também é vital: Diferentes estirpes da mesma espécie podem ter efeitos muito diferentes. Por exemplo, algumas estirpes de E. coli são patogénicas, enquanto outras, como a E. coli Nissle 1917, são benéficas.
Os BAs, produzidos no fígado e modificados pelas bactérias intestinais, são cruciais para a digestão e sinalização das gorduras e a ação antimicrobiana.
Outros indicadores incluem a produção de gás (hidrogénio, metano, sulfureto de hidrogénio), o pH intestinal e marcadores inflamatórios (calprotectina, lactoferrina).
Por fim, a (sidenote:
Resiliência
Trata-se da capacidade que a microbiota intestinal possui de manter uma composição estável ao longo do tempo e de resistir a distúrbios como os antibióticos ou as mudanças alimentares. Uma microbiota resiliente pode recuperar-se rapidamente de perturbações, reduzindo o risco de problemas de saúde a longo prazo.
), ou a capacidade que a microbiota intestinal possui de resistir a distúrbios, é um marcador crucial de um intestino saudável.
A camada de muco é também um componente essencial para um intestino saudável.
Esta camada, composta principalmente por água, eletrólitos, lípidos e mucinas, atua como uma barreira física, impedindo que as bactérias entrem em contacto direto com as células epiteliais intestinais.
Um intestino saudável é caracterizado por uma espessura de muco adequada que não é facilmente penetrável pelas bactérias. A renovação da (sidenote:
Camada de muco
Trata-se de uma barreira complexa e dinâmica que reveste o intestino, composta principalmente por água, eletrólitos, lípidos e mucinas. Separa fisicamente as bactérias do epitélio intestinal, impedindo o contacto direto e mantendo a integridade da barreira intestinal. A espessura e a renovação da camada de muco são cruciais para um intestino saudável.
), que envolve a síntese, a secreção e a degradação, é um processo finamente ajustado, crucial para manter uma função de barreira adequada.
Fatores como os prebióticos, tais como os fruto-oligossacáridos (FOS) e a 2′-fucosilactose (2′FL), podem influenciar a produção, a composição e a degradação do muco, melhorando a integridade da barreira intestinal e contribuindo para a proteção contra distúrbios metabólicos.
A perturbação da camada de muco, como acontece com alguns emulsionantes alimentares, pode levar a um aumento da permeabilidade intestinal e da inflamação.
90-95%
O muco é constituído predominantemente por vários componentes, incluindo 90-95% de água, eletrólitos, lípidos (1-2%), proteínas e outras substâncias. ¹
45%
aproximadamente 45% das espécies bacterianas são semelhantes entre dois indivíduos. A sua microbiota partilha 82% de vias metabólicas comuns. ¹
O eixo intestino-fígado: uma via de sentido duplo
O intestino e o fígado interagem estreitamente através do eixo bidirecional intestino-fígado. O fígado, como local primário de desintoxicação e regulação metabólica, processa e neutraliza uma variedade de toxinas ambientais, medicamentos e subprodutos metabólicos provenientes do intestino.
O fígado produz BAs que são essenciais para a digestão de gorduras e também influenciam a composição e a função do microbioma intestinal. As bactérias intestinais metabolizam os BAs primários em BAs secundários, que têm diferentes funções, e algumas estão, inclusive, associadas à longevidade.
Embora o fígado esteja exposto a antigénios bacterianos derivados do intestino, normalmente não produz citocinas pró-inflamatórias. No entanto, os fígados saudáveis produzem moléculas anti-inflamatórias, como o antagonista do recetor da IL-1 (IL-1Ra), para atenuar a inflamação, bem como macrófagos imunossupressores específicos, que dependem da microbiota intestinal para controlar inflamações excessivas.
Fatores que moldam o ecossistema microbiano
O microbioma intestinal é dinâmico, influenciado pela idade, pelo modo de parto, pela alimentação e pelo estilo de vida.
A idade e o modo de parto no momento do nascimento são críticos. Os bebés nascidos por via vaginal tendem a ter uma microbiota intestinal mais diversificada e equilibrada, tal como os bebés amamentados, que têm uma maior presença de bactérias benéficas como a Bifidobacterium spp.
A alimentação é fundamental. As fibras alimentares, os prebióticos, os polifenóis e os oligossacáridos do leite humano (HMO) promovem os micróbios benéficos. Em contrapartida, as gorduras saturadas, os adoçantes artificiais e os emulsionantes podem perturbar o equilíbrio microbiano e prejudicar a função de barreira intestinal.
Os emulsionantes comuns, como a carboximetilcelulose (CMC) e o polissorbato 80 (P80), perturbam a camada protetora de muco do intestino, levando a um aumento da permeabilidade intestinal e a inflamações.
Os lípidos bioativos exercem também um papel crucial e bidirecional. Os lípidos do hospedeiro influenciam a microbiota intestinal e os micróbios intestinais produzem lípidos (por exemplo, AGCCs, BAs secundários e outras moléculas de sinalização) que exercem um impacto na regulação imunitária e na saúde metabólica.
Um microbioma intestinal saudável: mais do que apenas bactérias
Os desafios na definição de um microbioma intestinal "saudável" universalmente aceite tornam-se cada vez mais claros. A imensa variabilidade individual do microbioma intestinal, influenciada pela genética, alimentação, ambiente e estilo de vida, bem como a sua natureza dinâmica, dificulta o estabelecimento de normas universais.
A interação entre a microbiota intestinal, o sistema imunitário e os processos metabólicos representa um desafio multifacetado. Os estudos longitudinais são essenciais para compreender plenamente as alterações dinâmicas do microbioma intestinal e os impactos que exercem a longo prazo na saúde. Esta área complexa de investigação exige uma abordagem multidisciplinar, integrando a microbiologia, a genómica, a bioinformática, a investigação clínica e a medicina personalizada.
A visão convencional de um intestino saudável há muito tempo é dominada pela ideia de que a diversidade é rei. Pensava-se que uma grande variedade de espécies microbianas era o principal indicador do bom funcionamento do intestino. No entanto, as nossas fontes sugerem que isto é demasiado simplista. Então, o que faz um "microbioma saudável"?
Na vasta paisagem do nosso corpo, existe um mundo invisível de uma complexidade surpreendente: o microbioma intestinal. É uma comunidade movimentada composta por micróbios, uma floresta tropical escondida dentro de cada um de nós, que influencia profundamente a nossa saúde. Durante anos, os cientistas acreditaram que uma mistura diversificada destes minúsculos organismos era a chave para um intestino saudável. Mas, como em qualquer ecossistema complexo, não se trata apenas do número de espécies, mas também do que elas fazem. O foco está agora a mudar para (sidenote:
Diversidade funcional
Descreve a gama de atividades metabólicas realizadas pela microbiota intestinal. Trata-se de um indicador mais importante da saúde intestinal do que a simples diversidade taxonómica, pois diferentes composições microbianas podem desempenhar funções metabólicas semelhantes. A avaliação da diversidade funcional pode fornecer uma previsão mais exata dos estados fisiológicos do que apenas a diversidade composicional.
) - a gama de trabalhos que estes micróbios desempenham. Não basta ter uma variedade de micróbios. Estes micróbios devem poder trabalhar em harmonia. 1
Tal como uma floresta tropical sustenta uma vida diversificada, o mesmo acontece com o nosso intestino. Estes habitantes microbianos não são passageiros ociosos, são trabalhadores essenciais. Produzem substâncias vitais chamadas (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.) (AGCCs),que são como um combustível para o nosso revestimento intestinal e mantêm o nosso sistema imunitário sob controlo. Um destes AGCCs, o chamado butirato, é como um super-herói, fornecendo energia às células do nosso cólon.
Depois, há os ácidos biliares, inicialmente produzidos pelo fígado e, em seguida, transformados pelas bactérias intestinais, que são cruciais para a digestão das gorduras, funcionando como um pequeno detergente do sistema digestivo. O fígado e o intestino estabelecem um diálogo constante – uma via de dois sentidos que se influenciam mutuamente. O intestino produz moléculas que atuam como mensageiros para o fígado, e o fígado envia de volta os ácidos biliares.
O nosso intestino não é apenas uma moradia para os micróbios: é uma barreira importante. (sidenote:
Camada de muco
Trata-se de uma barreira complexa e dinâmica que reveste o intestino, composta principalmente por água, eletrólitos, lípidos e mucinas. Separa fisicamente as bactérias do epitélio intestinal, impedindo o contacto direto e mantendo a integridade da barreira intestinal. A espessura e a renovação da camada de muco são cruciais para um intestino saudável.
), auma substância gelatinosa e brilhante, atua como um guarda-costas, impedindo que as bactérias toquem diretamente no delicado revestimento dos nossos intestinos. Esta camada é constantemente renovada - um processo meticulosamente gerido como o sistema de saneamento de uma cidade - mantendo a proteção. Também é surpreendentemente afetado pelo que comemos
Certas fibras e prebióticos podem ajudar a suportar a camada de muco, garantindo que permaneça robusta. Mas alguns alimentos processados com emulsificantes podem romper essa camada e fazer com que a barreira intestinal se torne mais permeável - como uma cidade cuja muralha foi rompida.
Tal como uma floresta tropical que resiste às tempestades, um microbioma saudável deve ser (sidenote:
Resiliência
Trata-se da capacidade que a microbiota intestinal possui de manter uma composição estável ao longo do tempo e de resistir a distúrbios como os antibióticos ou as mudanças alimentares. Uma microbiota resiliente pode recuperar-se rapidamente de perturbações, reduzindo o risco de problemas de saúde a longo prazo.
). Deve ser capaz de recuperar-se rapidamente após distúrbios, como doenças ou antibióticos, que vieram perturbar o seu delicado equilíbrio. Começamos a compreender que um intestino saudável não é uma entidade fixa. É dinâmico e único para cada pessoa. É influenciado pelo nascimento, pelo ambiente, pelo estilo de vida e pela alimentação. Este facto torna a definição de um intestino "saudável" complexa e requer uma exploração científica muito mais aprofundada.
Não se trata apenas de uma questão de bactérias boas ou más, mas da função global e da capacidade do microbioma de lidar com mudanças. Parece que a chave é o equilíbrio e a capacidade de desempenhar as suas funções essenciais, como uma orquestra, e não apenas um único instrumento. Esta nova forma de ver o microbioma vai mudar a maneira como abordamos os cuidados de saúde e irá nos ajudar a proteger estes aliados microscópicos que estão dentro de nós.
Será que existe um único alimento que possa causar uma mudança radical na composição da microbiota? Sim, o café! De acordo com um novo estudo, este estimulará fortemente a proliferação de uma bactéria intestinal até agora pouco conhecida. 1
Conhecem-se os benefícios do café para a saúde. Mas qual é exatamente o seu efeito na microbiota?
Para responderem a esta pergunta, uma equipa de investigadores das Universidades de Harvard (EUA) e de Trento (Itália) analisou a microbiota intestinal e o consumo de café de mais de 22.000 voluntários participantes num programa de investigação anglo-americano.
Os participantes foram classificados em três grupos:
“Não consumidores”, que ingeriam menos de 3 chávenas de café por mês;
“Consumidores moderados”, que ingeriam entre 3 chávenas por mês e 3 chávenas por dia.
“Grandes consumidores”, que ingeriam mais de 3 chávenas por dia;
Os abstémios e os dependentes não apresentam os mesmos efeitos
Resultado: a microbiota dos consumidores de café é claramente diferente da dos não consumidores. A análise mostra que há 115 espécies bacterianas que reagem positivamente à bebida.
Quantos cafés por dia? ²
1 chávena de café de filtro (200 ml)= 90 mg de cafeína
1 café expresso (60 ml) = 80 mg de cafeína
1 chávena de chá preto (220 ml) = 50 mg de cafeína
O consumo excessivo de cafeína (presente no café e no chá) encontra-se associado a problemas cardiovasculares, perturbações do sono e atrasos no desenvolvimento fetal. Quais são as doses seguras?
Até 200 mg de cafeína por dia, o café é seguro para qualquer adulto saudável (até 400 mg se consumido ao longo do dia, exceto para as mulheres grávidas).
A partir de 100 mg de cafeína por dia, pode haver impacto no sono.
Facto surpreendente: a Lawsonibacter asaccharolyticus, uma estirpe bacteriana da microbiota até agora pouco estudada, surge como o microrganismo mais fortemente associado ao consumo de café. De acordo com os cálculos dos cientistas, o seu nível é 4,5 a 8 vezes mais elevado na microbiota dos “grandes consumidores” do que de na dos “não consumidores” e 3,4 a 6,4 vezes maior nos “consumidores moderados” do que nos “não consumidores”.
Ao analisarem um outro conjunto de dados relativos a vários milhares de pessoas residentes em 25 países diferentes, os investigadores confirmaram que a presença de L. asaccharolyticus está efetivamente associada ao consumo de café e, por conseguinte, que esta ligação existe, independentemente do país ou do estilo de vida.
Serão as virtudes do café mediadas pela microbiota?
Se há um alimento cujos efeitos benéficos já foram demonstrados, esse alimento é o café. Os estudos indicam que o seu consumo regular está associado a um menor risco de:
diabetes,
cancro,
esteatose hepática,
doenças cardiovasculares,
mortalidade por todas as causas.
Qual o seu segredo? O seu teor de polifenóis, nomeadamente de ácido clorogénico, um antioxidante presente em grandes quantidades na bebida. Esta molécula pode ser degradada e transformada pelas bactérias intestinais em numerosos metabolitos potencialmente benéficos. A microbiota poderá assim funcionar como mediadora dos efeitos benéficos do café para a saúde.
Num estudo anterior realizado com 1.000 participantes, os mesmos cientistas já tinham demonstrado que, de entre 150 alimentos, o café era de longe o que tinha maior impacto na composição da microbiota intestinal.
A responsabilidade não é da cafeína
Para verificarem se o aumento excecional de L. asaccharolyticus está diretamente ligado ao café, os cientistas cultivaram as bactérias in vitro, em meios de cultura com ou sem inclusão de café. Os resultados obtidos confirmam que a bactéria se desenvolve mais rapidamente em presença do café... mesmo quando este é descafeinado, o que exclui a cafeína da equação.
Com efeito, é possível que o ácido clorogénico, um polifenol do café que se pensa contribuir para os seus efeitos benéficos, esteja associado à estimulação da L. asaccharolyticus. Este é metabolizado pelas bactérias da microbiota em diferentes moléculas, em particular em ácido quínico. De facto, os investigadores encontraram mais ácido quínico no sangue das pessoas com concentrações mais elevadas de L. asaccharolyticus.
A próxima etapa para os investigadores consistirá em determinar se outros alimentos, para além do café, estimulam especificamente as bactérias benéficas conhecidas. Através de testes para revelar a presença ou ausência de certas bactérias associadas a determinado alimento, poderá ser possível projetar dietas personalizadas. 3
A diferença entre vulva e vagina? (Não percebe?). Higiene íntima? (Continua a não perceber?)... Quando se pergunta às mulheres sobre estes assuntos, elas são muitas vezes evasivas. Aula prática de anatomia e de boas práticas.
Quando pensávamos que tinham sido libertadas pelas lutas feministas dos anos 2000, as gerações mais novas estão a mostrar-se ainda menos à vontade do que as mais velhas quando se trata de falar sobre os órgãos genitais femininos. E enquanto as quarentonas, influenciadas por anúncios publicitários sobre o frescor das virilhas, recorrem ao uso de desodorizantes íntimos, a geração seguinte, atenta à sua imagem, torna-se adepta de procedimentos cosméticos como a (sidenote:
Vulvoplastia
Cirurgia plástica da vulva, que consiste em aumentar ou reduzir o tamanho ou o volume dos grandes lábios.
)1. Cada geração tem, assim, a sua própria relação com a intimidade. O fato é que a higiene e a saúde desta zona frágil do corpo devem ser uma preocupação para pessoas de todas as idades... o que explica alguns lembretes (des?)inibidos, para levantar o véu sobre quaisquer tabus.
Um pouco de anatomia
O trato genital feminino é simultaneamente uma terra incógnita em termos de anatomia e um tabu em termos de conversa, incluindo entre as mulheres. De tal forma que os profissionais de saúde têm dificuldade em compreender as doenças das suas pacientes por falta de explicações claras e/ou porque confundem a vulva (a parte externa do trato genital) com a vagina (a parte interna)1. Em suma: a vulva é externa e a vagina é interna!
Em suma:
a vulva é externa e a vagina é interna!
A vulva
é constituída por um conjunto de tecidos visíveis ao exame externo1:
uma parte do monte do púbis (ou monte de Vénus), a zona carnuda e peluda que cobre o osso púbico;
o clítoris, ligado ao prazer sexual, a contrapartida feminina do prepúcio masculino;
os grandes lábios, dobras externas de proteção;
os pequenos lábios, situados no interior dos grandes lábios, que contêm numerosas glândulas sebáceas;
e o vestíbulo vulvar, a zona entre os pequenos lábios onde se situa a entrada da vagina e, imediatamente acima, o meato uretral (orifício do sistema urinário).
A pele do monte púbico e dos grandes lábios tem glândulas sebáceas1 que produzem uma película hidrolipídica protetora1,2. A vulva também tem glândulas (glândulas de Bartholin, glândulas de Skene) que lubrificam os pequenos lábios e o vestíbulo vulvar durante a relação sexual1.
A vagina
Com cerca de dez centímetros de comprimento, a vagina é uma cavidade que não é visível do exterior.
Na parte inferior, comunica com o exterior ao nível da vulva e, mais especificamente, do vestíbulo vulvar;
no seu ápice, conduz ao colo do útero1.
A vagina pode abrigar tampões e copos menstruais durante a menstruação, o pénis do parceiro durante a relação sexual ou o seu brinquedo sexual preferido... e o espéculo do ginecologista durante as consultas médicas!
Diríamos que seria como fazer uma visita em todos os orifícios. Da frente para trás, o sexo feminino compreende, por ordem, três aberturas:
o meato urinário, ligado à bexiga (que armazena a urina) por um canal chamado uretra (que permite que a urina seja evacuada para fora do corpo durante a micção)2;
depois, a entrada da vagina (reprodução)
e depois o ânus (fezes).
Falamos também de:
Zona perianal
para designar a área em torno do ânus;
Zona perineal
para designar a grande área formada pela vulva e a zona perianal (por outras palavras, toda a virilha)1.
As microbiotas da intimidade feminina
A nossa intimidade não é exceção: tal como outros órgãos, alberga uma microbiota, ou melhor, diversas microbiotas contendo:
Microbiota vulvar
Comecemos pela microbiota vulvar. Seria de se esperar que a conhecêssemos perfeitamente, pois se encontra na parte externa. No entanto, há que admitir que não existem muitos dados sobre este assunto 1,3. Os poucos estudos efetuados referem-se, sem convicção, à possível presença de uma variedade de bactérias (Lactobacillus, Corynebacterium, Staphylococcus e Prevotella) e de fungos leveduriformes 1,3.
De fato, talvez devêssemos pensar em falar não de uma microbiota vulvar, mas de microbiotas vulvares (no plural), consoante a zona da vulva: uma microbiota do monte púbico, uma microbiota dos grandes lábios, uma microbiota dos pequenos lábios, etc...3
Mas uma coisa parece incontestável: a diversidade é duplamente importante, seja:
na microbiota vulvar de cada mulher, onde coexiste uma multiplicidade de (sidenote:
Microrganismos
Organismos vivos que são pequenos demais para serem vistos a olho nu. Eles incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueas, os protozoários, etc... E são comumente chamados de “micróbios”
Fonte: What is microbiology? Microbiology Society.
),
ou entre duas mulheres (não foi identificada nenhuma espécie comum a todas as mulheres) 1.
Microbiota vaginal, ou flora vaginal, ou flora de Döderlein
A microbiota vaginal(ou flora vaginal), por sua vez, é exatamente o oposto. Na vagina, os lactobacilos (em particular os Lactobacillus crispatus, Lactobacillus iners, Lactobacillus gasseri e Lactobacillus jensenii) geralmente reinam supremos e mantêm a acidez local graças à sua produção de ácido lático1,4.
Representação dos principais grupos de bactérias do microbiota vaginal, incluindo os lactobacilos, fundamentais para o equilíbrio íntimo e a prevenção de infecções.
Microbiota Urinária
A microbiota urináriafoi durante muito tempo considerada estéril. Trata-se de um erro, pois a urina contida na bexiga também tem um ecossistema microbiano. Embora a microbiota urinária seja bastante distinta das suas vizinhas próximas (microbiota anal, vaginal e vulvar), todas partilham certos microrganismos5. It is also much less densely populated, and often dominated by a single bacterial type. Encontramos principalmente lactobacilos, mas também Gardnerella, Streptococcus e Corynebacterium6.
Microbiota Perianal
Por fim, a microbiota perianal é um reflexo da nossa microbiota intestinal, muito rica, nomeadamente no cólon: quando defecamos, as bactérias intestinais entram em contacto com esta zona e podem ali fixar residência1.
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Apenas 22% das mulheres afirmam saber exatamente o que é a "microbiota vaginal" (+2 pontos em relação a 2023).
A microbiota vulvar, vaginal e perianal alteram-se ao longo do tempo. Por exemplo, a microbiota vaginal é influenciada pela idade, pelas hormonas sexuais e por fatores externos como a poluição, o stress, antibióticos etc. [4]. Podem ocorrer desequilíbrios: após a menopausa, a queda do estrogénio leva a uma perda de lactobacilos e, por conseguinte, a um aumento do pH, resultando numa disbiose7 vaginal frequente. A microbiota anal, por seu lado, depende sobretudo da alimentação e do stress: uma ansiedade excessiva induz uma resposta inflamatória que favorece o desenvolvimento de bactérias patogénicas no tubo digestivo... que acabam por se instalar na zona perianal1.
Ao mesmo tempo, a proximidade dos orifícios urinário, vaginal e anal explica a possível "troca" de flora entre as 3 microbiotas nestas 3 zonas... e a possível invasão da microbiota vaginal por Escherichia coli digestivas, por exemplo, que podem ter-se aventurado para além da zona perianal1.
Excessive hygiene, over-waxing, too-tight clothing… a losing combo
Hiper higiene, excesso de depilação e roupas muito apertadas: a combinação perdedora
Por vezes, paradoxalmente, são as práticas de higiene íntima inadequadas que favorecem as trocas ou os desequilíbrios. Lavar a vulva de forma demasiadamente agressiva (utilizando produtos inadequados) ou com muita frequência (mais de uma vez por dia) pode danificar rapidamente a função de barreira da pele desta zona muito frágil e reativa. A água, por si só, pode ser suficiente para a ressecar e a expor a comichões e ao ardor8. Quanto aos sabonetes perfumados, sprays higiénicos, lubrificantes, desodorizantes etc. que algumas mulheres se auto-prescrevem para tentar tratar odores, coceiras, dores e ressecamento, são contraproducentes4.
A evitar também:
Os produtos não destinados à higiene íntima (desinfetantes para as mãos, toalhetes para bebés, óleos, creme de barbear e loções para o corpo). Há mais mulheres que utilizam tais produtos para a sua higiene íntima do que se possa pensar: segundo um estudo, 41,6% das mulheres admitiram utilizar toalhetes de bebé para a limpeza vulvar e 2,1% para a limpeza interna da vagina4!
E não nos esqueçamos:
a vagina não precisa de ser limpada.
Outro erro recorrente é a depilação ou a raspagem total da vulva1,9. É um fenómeno de moda que afeta 84% das mulheres americanas na pré-menopausa, e para 2/3 destas mulheres representa uma rotina diária ou semanal. Muitas vezes justificada por razões de higiene, porém revela-se, ao contrário, estar associada a lesões que facilitam a entrada de bactérias ou de vírus. De fato, foi observada uma alteração na microbiota vaginal em mulheres que decidem depilar completamente a vulva9.
Por último, o uso de vestuário muito apertado e sintético parece favorecer o desenvolvimento de agentes patogénicos (um ambiente mais húmido e quente), levando a mais coceiras e problemas urogenitais 1.
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Legend
Boas práticas para preservar o microbiota vaginal: higiene íntima suave, prebióticos e probióticos — ao contrário das duchas vaginais, dos sabonetes agressivos e das soluções antissépticas.
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52% das mulheres inquiridas afirmaram que nunca tinham recebido informações sobre práticas de higiene íntima adequadas e 25% só tinham sido informadas uma vez pelo seu profissional de saúde.
Porque existe um fosso tão grande entre as práticas e as recomendações? Existem, sem dúvida, muitas razões para isso:
muito poucas mulheres são informadas pelo seu médico sobre os gestos corretos a tomar: 52% das mulheres inquiridas afirmaram nunca ter recebido qualquer informação deste tipo e 25% foram informadas apenas uma vez pelo seu profissional de saúde17;
a confusão frequente entre vulva e vagina contribui para uma má compreensão das mensagens;
os mitos mais estúpidos são frequentemente os mais persistentes1.
Esta questão é ainda mais importante quando se sabe que a vulva é a primeira linha de defesa do sistema genital da mulher10.
Quais são os gestos certos a tomar para preservar a microbiota e a delicada película hidrolipídica protetora do sexo feminino? Uma rotina que respeita o equilíbrio da vulva com tratamentos adaptados à idade e às necessidades específicas de cada mulher.
Em todos os casos, existem 3 grandes princípios imutáveis10:
uma lavagem externa apenas (da vulva, sem duche vaginal), da frente para trás (vulva e ânus);
sem flanela ou qualquer tecido (que podem conter bactérias), mas com as mãos previamente lavadas;
uma vez por dia. Apenas as mulheres que sofrem de diarreia recorrente podem justificar uma lavagem externa mais frequente (devido a movimentos intestinais mais frequentes). O mesmo se aplica durante a menstruação, quando é possível efetuar uma segunda sessão de limpeza íntima durante o dia.
Que produto as mulheres devem utilizar para a sua higiene íntima?
Lavar apenas com água pode secar a pele e piorar as comichões10. É preferível utilizar um produto de limpezasuave e sem sabão, que respeite o microambiente vulvar e mantenha o equilíbrio da sua microbiota 1. É tudo o que há para fazer. Tenha sempre em mente que, no que diz respeito a esta zona delicada do corpo, o melhor é inimigo do bom.
Quais são as melhores práticas quotidianas para as mulheres?
Por fim, algumas outras recomendações irão ajudá-la a adotar os gestos certos ao longo do dia10:
à noite, evite utilizar lingerie;
ao sair do duche (preferível ao banho de banheira), seque-se bem com a sua própria toalha, sem esfregar, mas passando-a suavemente entre as pernas;
ao vestir-se, opte por roupa interior de algodão em vez de sintética, evite o uso regular de forro de cuecas ou pensos higiénicos, prefira roupas largas e, se possível, substitua os collants por meias;
ao usar a casa de banho, limpe-se da frente para trás (para evitar a transferência de bactérias anais para a vulva) usando papel não perfumado e, de preferência, não colorido;
Como lavar as partes íntimas depois de relações sexuais ou durante o período menstrual?
Mais uma vez, respeitamos os princípios fundamentais da higiene íntima: lavagem externa apenas; com as mãos; uma vez por dia...10.
após as relações sexuais (protegidas!, se não souber se o seu parceiro pode ser portador de uma IST), pense em urinar se tiver tendência a ter cistite;
durante o período menstrual, não utilize pensos higiénicos perfumados e mude regularmente os pensos higiénicos ou tampões. 10.
Probióticos e pré-bióticos
A boa saúde da microbiota vaginal depende de uma boa higiene íntima. Mas, por vezes, isso não é suficiente e pode ser necessária uma pequena ajuda para aumentar as bactérias boas da nossa microbiota, com:
Probióticos
Probióticos, microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, produzem efeitos benéficos para a saúde do hospedeiro [11,12]. Administrados por via oral ou vaginal, podem ajudar a restabelecer a flora vaginal, melhorar os sintomas e reduzir o risco de recorrência de várias infeções vaginais, desde a puberdade até à menopausa13.
Pré-bióticos
Pré-bióticos, fibras alimentares não digeríveis que têm efeitos positivos na saúde e que são utilizadas seletivamente por microrganismos benéficos na microbiota do hospedeiro 12, 14. Ou, de uma forma mais sucinta, os alimentos preferidos dos probióticos para favorecer o seu desenvolvimento. Os pré-bióticos femininos reforçam os lactobacilos vaginais e ajudam a normalizar a acidez vaginal15,16.
pela vagina (a cavidade que liga a vulva ao útero, na qual se pode introduzir um tampão quando se está menstruada).
É o lar de várias microbiotas: uma microbiota vulvar onde a diversidade é necessária, uma microbiota vaginal largamente dominada por lactobacilos, uma microbiota urinária pouco povoada (durante muito tempo pensou-se erradamente que a urina era estéril) e uma microbiota perianal muito rica (contacto com fezes).
A proximidade dos orifícios urinário, vaginal e anal explica a possível "troca" de flora entre a microbiota destas zonas, nomeadamente em caso de higiene íntima inadequada: lavagem muito agressiva, depilação ou raspagem total, uso de roupas demasiado apertadas etc.
Por falta de informação, muitas mulheres não adotaram as precauções adequadas para proteger as suas microbiotas. Mas não é tarde demais: fale com o seu médico sobre o assunto!
Se a sua microbiota vaginal estiver em baixa, os pré-bióticos e os probióticos podem ajudá-la a restabelecer uma flora vaginal equilibrada.
O consumo de citrinos poderia reduzir o risco de depressão em 22%, através do eixo intestino-cérebro. Os flavonoides dos citrinos parecem favorecer as bactérias benéficas, como a Faecalibacterium prausnitzii, produzindo um metabolito que melhora a disponibilidade da serotonina e da dopamina.
A depressão, que afeta mais de 280 milhões de pessoas em todo o mundo, continua a ser difícil de tratar: 70% dos pacientes não respondem aos antidepressivos e chegam até mesmo a desenvolver efeitos secundários. O que explica a necessidade urgente de identificar causas modificáveis e desenvolver novas terapias.
Como a dieta mediterrânica demonstrou efeitos benéficos na depressão, os investigadores voltaram a sua atenção para o eixo intestino-cérebro. E mais especificamente sobre a interação entre o consumo de citrinos, a microbiota intestinal e o risco de depressão em 32 427 mulheres da coorte inglesa de enfermagem Nurses' Health Study II (NHSII) 1.
Entre 2003 e 2017, foram observados 2173 casos de depressão em 32 427 mulheres da NHSII. Analisando a ingestão alimentar destas mulheres, os investigadores 2 mostraram que as maiores consumidoras de citrinos (versus o quintil das pequenas consumidoras) tinham um risco 22% menor de depressão, após ajustamento.
Esta relação parece ser específica dos citrinos: não foi encontrada qualquer associação significativa entre a depressão e o consumo total de frutas, legumes, maçãs ou bananas.
Que componentes dos citrinos explicam este efeito antidepressivo? A priori, acredita-se que apenas a naringenina e a formononetina, dois flavonoides presentes no sumo e na casca dos citrinos, estão envolvidas. A vitamina C, por outro lado, não estaria relacionada.
Mulheres
Os transtornos depressivos afetam mais as mulheres do que os homens. ²
70%
70% dos pacientes que sofrem de depressão não respondem ao tratamento inicial com antidepressivos e/ou desenvolvem efeitos secundários. ³
35%
As dietas de estilo mediterrânico foram associadas a uma redução de quase 35% do risco de depressão. ³
Os mecanismos envolvidos
A análise da microbiota de 207 mulheres do NHSII que participaram do subestudo Mind-Body Study 4 dedicado à saúde mental, permitiu aos investigadores demonstrar que o consumo de citrinos promove a presença de bactérias benéficas, incluindo a Faecalibacterium prausnitzii, uma bactéria sub-representada nas pessoas depressivas, e reduz a presença de algumas bactérias pró-inflamatórias 3.
Esta correlação foi confirmada por investigadores numa coorte de homens (Men's Lifestyle Validation Study). Faltava apenas compreender a ligação entre esta bactéria e o cérebro.
O trabalho da equipa sugere que F. prausnitzii produz um metabolito chamado S-Adenosil-L-metionina (ou SAM). Este metabolito parece reduzir a expressão da monoamina oxidase A (MAOA) no cólon, uma enzima que desempenha um papel crucial na degradação de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina.
Assim, é possível que a produção de SAM por F. prausnitzii conduza a uma maior disponibilidade de neurotransmissores (reduzindo a expressão da monoamina oxidase A que os degrada), que poderiam então modular a atividade do nervo vago.
O consumo de citrinos pode reduzir o risco de depressão em 22%. Os flavonoides presentes nestes frutos parecem favorecer certas bactérias intestinais boas, que aumentam a disponibilidade de substâncias essenciais ao bem-estar, como a serotonina e a dopamina.
Tristeza persistente, perda duradoura da capacidade de sentir interesse ou prazer em atividades que antes costumavam proporcionar tais sentimentos: transtornos depressivos, também reunidos sob o termo "depressão", são transtornos mentais comuns que afetariam mais de 280 milhões de pessoas em todo o mundo. Os tratamentos tradicionais, como os antidepressivos, não têm muitas vezes o efeito desejado. Alguns pacientes até experimentam piora dos sintomas ou efeitos colaterais indesejáveis.
E se a solução para a tristeza não estivesse num comprimido, mas... numa tigela de frutas? Um estudo recente 1 sugere que as laranjas, os limões, as clementinas, as toranjas e outros citrinos podem ter um efeito antidepressivo.
35%
As dietas de estilo mediterrânico foram associadas a uma redução de quase 35% do risco de depressão. ¹
70%
dos pacientes que sofrem de depressão não respondem ao tratamento inicial com antidepressivos e/ou desenvolvem efeitos secundários. ¹
22% menos depressão
Esta é a conclusão de uma equipa de investigadores que analisou o impacto do consumo de citrinos na depressão, utilizando dados de mais de 32 000 mulheres de uma coorte americana que foram acompanhadas durante 14 anos. O que descobriram? Que um maior consumo de citrinos estaria associado a uma redução de 22% do risco de depressão.
Mulheres
Os transtornos depressivos afetam mais as mulheres do que os homens. 2
As 20% de mulheres que comiam mais citrinos tinham muito menos probabilidades de sofrer de depressão clínica. Como este efeito pode ser explicado? Pela nossa microbiota intestinal, o conjunto de bactérias e outros microrganismos que colonizam os nossos intestinos, respondem os investigadores.
Parece, portanto, que este pequeno mundo que povoa o nosso trato digestivo (também!) desempenha um papel crucial no nosso bem-estar mental. E isso acontece através do que os cientistas chamam de eixo intestino-cérebro. Como? Acredita-se que os flavonoides, substâncias naturais presentes nos citrinos, são capazes de modular a nossa flora intestinal, particularmente favorecendo o crescimento de Faecalibacterium prausnitzii. Esta bactéria é capaz de produzir uma molécula denominada SAM (do inglês S-Adenosyl-L-methionine)
E é aí que tudo fica mais interessante: esta SAM parece ajudar a reduzir a atividade de uma enzima que decompõe as famosas "hormonas da felicidade", neste caso a serotonina e a dopamina. Mais citrinos e F. prausnitzii, menos enzimas que destroem, mais neurotransmissores disponíveis... e, portanto, um cérebro mais feliz!
A mensagem do estudo é, portanto, clara: comer mais citrinos poderia reduzir o risco de depressão. Da próxima vez que se deliciar com uma laranja, lembre-se que ela pode ajudar a ver a vida... a cor-de-rosa!