Um estudo1 que explora as interações entre a microbiota vaginal e os glicanos da hospedeira revela como essas ligações influenciam a colonização bacteriana e a concorrência entre espécies e, com elas, a saúde reprodutiva das mulheres.
Os glicanos, moléculas de açúcares localizadas na superfície das células e nas secreções humanas (inclusive no líquido cérvicovaginal), são especificamente reconhecidos pelos anticorpos, pelas (sidenote:
Lectinas
O termo lectina (do latim escolher) foi inventado por Boyd e Shapeleigh (1954) para designar uma classe heterogénea de (glico)proteínas, principalmente de origem vegetal. Apesar da sua vasta gama de propriedades físico-químicas e de atividades biológicas, as lectinas partilham uma característica comum que é responsável pelas suas diferentes atividades biológicas, bioquímicas e imunoquímicas: ligam-se com elevada afinidade e especificidade aos monosacáridos e oligosacáridos dos hidratos de carbono complexos (e, portanto, aos glicanos) em soluções, nas superfícies celulares, nos organelos subcelulares e nos cortes histológicos.
Fonte : Vierbuchen, M. (1991). Lectin Receptors. In: Seifert, G. (eds) Cell Receptors. Current Topics in Pathology, vol 83. Springer, Berlin, Heidelberg. https://doi.org/10.1007/978-3-642-75515-6_10
) e pelas proteínas de ligação dos hidratos de carbono. Ao nível da vagina, por exemplo, os glicanos da hospedeira determinam a colonização microbiana, servindo tanto como locais de fixação e adesão como de fontes de nutrientes.
13,4
13,4 milhões de bebés nasceram prematuramente (antes de atingirem as 37 semanas completas de gestação) em 2020.²
900,000
Responsáveis por cerca de 900.000 óbitos em 2019, as complicações da prematuridade são a principal causa de mortalidade nas crianças com menos de 5 anos.²
Para uma melhor compreensão das interações entre os referidos glicanos humanos e as principais bactérias vaginais patogénicas envolvidas na saúde reprodutiva, os investigadores construíram ”chips” de glicanos e testaram a adesão de bactérias in vitro, em condições ácidas (pH = 4) a neutras (pH = 7), no sentido de reproduzirem os gradientes de pH vaginal observados nas mulheres.
Um leque de proteínas de ligação a glicanos
Os resultados evidenciam que as diferentes bactérias testadas são capazes de se ligar, com maior ou menor intensidade, a vários tipos de glicanos. Por outro lado, segundo um trabalho anterior da equipa de investigadores, os agentes patogénicos parecem possuir um repertório mais vasto de proteínas de fixação a esses glicanos, em comparação com as espécies comensais.
Algumas dessas ligações são partilhadas por diferentes bactérias: com exceção de alguns glicanos, os perfis de ligação dos comensais Lactobacillus crispatus e L. iners e os de bactérias potencialmente patogénicas, como Gardnerella vaginalis e Streptococcus agalactiae, são sobrepostos... o que pode refletir concorrência.
Em contrapartida, outras ligações revelam-se muito específicas: O Fusobacterium nucleatum demonstra preferência por glicanos terminados em galactose, enquanto o S. agalactiae é uma das poucas bactérias que se liga a glicanos terminados em ácido hialurónico.
3/4
Três quartos desses óbitos poderiam ser evitados através de intervenções correntes e com boa relação custo-benefício.²
4 a 16%
Em 2020, a taxa de nascimentos prematuros variou entre 4% e 16%, dependendo dos países.²
Sob a influência do pH
Os autores também comprovam que a força das ligações varia de acordo com o pH: com pH ácido, a maioria das estirpes liga-se mais fortemente a vários glicanos, com exceção das condroitinas não sulfatadas (nenhuma ou poucas ligações com pH=4); com pH neutro, apenas o F. nucleatum e alguns lactobacilos conseguem ligar-se fortemente às condroitinas sulfatadas.
Esta combinação de ligações específicas e força variável em função do pH, num contexto de gravidez (o colo do útero segrega mais ácido hialurónico, a placenta enriquece-se em condroitinas pouco sulfatadas) poderá explicar por que razão S. agalactiae e F. nucleatum podem então colonizar o trato genital inferior e superior, onde o pH é mais elevado do que na vagina. Daí o risco de infeções, de parto prematuro e de septicemia neonatal.
Inversamente, o agente protetor L. crispatus, que compete com S. agalactiae pela fixação ao sulfato de condroitina, poderá proteger as mulheres grávidas.
Rumo a terapias baseadas em glicanos?
Estes resultados abrem a porta para o desenvolvimento de terapias baseadas em glicanos, com o objetivo de bloquear a adesão de agentes patogénicos ou de promover a colonização por probióticos. O objetivo passa por uma possível redução da incidência de vaginose bacteriana, dos partos prematuros e das complicações neonatais associadas.
Uma microbiota vaginal dominada por Lactobacilos, incluindo o L. crispatus e o L. gasseri, aumenta as chances de gravidez após a transferência de embriões. Bactérias que poderiam explicar as disparidades étnicas em termos de sucesso da PMA.
Na procriação medicamente assistida (PMA), os fracassos na implantação do embrião continuam difíceis de serem explicados, provavelmente porque envolvem vários fatores. Entre tais fatores, uma microbiota vaginal dominada por Lactobacillus parece promover o sucesso das transferências embrionárias. No entanto, os resultados são por vezes contraditórios e a origem étnica das mulheres raramente é considerada.
Além disso, um estudo prospetivo de observação em um único local1 (Phoenix, EUA) analisou a microbiota vaginal de 87 mulheres americanas durante a transferência de embriões congelados, incluindo 15 mulheres de origem hispânica. O seu objetivo: compreender melhor o impacto da flora vaginal nas taxas de gravidez após a transferência de embriões congelados, destacando o papel protetor dos Lactobacillus e considerando a diversidade étnica.
17,5%
A infertilidade é frequente no mundo inteiro, com uma prevalência estimada ao longo da vida de 17,5%.
Mais Lactobacillus, mais gravidezes
Das 55 pacientes que engravidaram, dois terços (67% ou 37 mulheres) tinham, no momento da inseminação, uma microbiota dominada por Lactobacillus. Essas mulheres tinham 52% de chance de engravidar em comparação com aquelas cuja flora não estava sob o controlo de Lactobacilos. As pacientes que não engravidaram apresentaram mais patógenos oportunistas, incluindo espécies de Enterobacteriaceae e de Streptococcus.
Em contraste, a riqueza ou diversidade da flora vaginal não estava relacionada ao resultado da PMA.
Assim, a microbiota vaginal parece interagir com a fertilidade feminina e o resultado da transferência de embriões congelados: os microbiomas vaginais dominados por Lactobacillus e, em particular, aqueles em que as espécies L. crispatus ou L. gasseri prevalecem, estão positivamente associados à gravidez.
Definição de infertilidade
Condição do sistema reprodutivo masculino ou feminino definida pela incapacidade de engravidar após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares desprotegidas.2
Você sabia?
Embora as taxas de sucesso da fertilização in vitro (FIV) tenham melhorado gradualmente, a taxa de nascimentos viáveis por amostragem de ovócitos permanece em torno de 41% em mulheres com menos de 35 anos de idade e diminui gradualmente com a idade materna.
A explicação para as disparidades étnicas?
O estudo também analisou as disparidades étnicas. As mulheres hispânicas, que representavam 18,3% das mulheres da coorte (e cerca de 19% da população dos EUA) tiveram menores taxas de gravidez clínica após a transferência de embriões, uma tendência também observada nacionalmente.
No entanto, uma proporção menor destas mulheres apresentava uma microbiota vaginal dominada por Lactobacilos (vs mulheres brancas não hispânicas), observação já relatada em estudos anteriores. Essa menor prevalência da dominância de Lactobacillus em mulheres hispânicas poderia explicar em parte o menor sucesso da transferência de embriões nessa população? De qualquer forma, essa é a hipótese dos investigadores.
A existência da bactéria Lactobacillusiners na microbiota vaginal no início da gravidez parece estar relacionada com um maior risco de recorrência de partos prematuros. Será que algumas bactérias do grupo dos lactobacilos têm “duas caras”?
Com 1,1 milhões de óbitos por ano, a prematuridade é a principal causa de morte entre as crianças com menos de 5 anos. Infelizmente, como o mal nunca vem só, o risco de a mulher dar à luz outro bebé prematuro é elevado, variando entre 15% e mais de 50%: quanto mais precoce tiver sido o último (sidenote:
Parto prematuro
Bebé nado vivo antes das 37 semanas de gravidez. Existem subcategorias de nascimentos prematuros, em função da idade gestacional:
- Prematuridade extrema (menos de 28 semanas);
- Grande prematuridade (entre a 28.ª e a 32.ª semana);
- Prematuridade média ou tardia (entre a 32.ª e a 37.ª semana).
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/preterm-birth), maior será o risco de recorrência.
4 a 16%
Em 2020, a taxa de nascimentos prematuros variava entre 4% e 16%, dependendo do país. ¹
N.º 1
A prematuridade é a principal causa de óbito nas crianças com menos de 5 anos. ²
A ciência médica esforça-se por encontrar soluções, mas o conhecimento insuficiente das causas, provavelmente multifatoriais, dessas recorrências limita a eficácia dos tratamentos propostos ( (sidenote:
Progesterona
Hormona sexual feminina que é segregada depois da ovulação e durante a gravidez.
), (sidenote:
Cerclagem
A cerclagem do colo do útero é um procedimento cirúrgico executado durante a gravidez que consiste em colocar um fio ao redor do colo do útero quando existe o risco de ele se abrir com excessiva facilidade.
),…). E se a solução estiver, em parte, na flora vaginal da mulher?
Foi esta a hipótese de um grupo de investigadores que acompanhou 152 mulheres grávidas chinesas com alto risco de aborto espontâneo... e a microbiota das respetivas vaginas, recolhida com um cotonete no início da gravidez (antes das 16 semanas) e depois entre as 16 e as 24 semanas.
A monitorização destas mulheres mostra que uma microbiota vaginal dominada por Lactobacillus iners antes das 16 semanas de gestação se encontra associada a um risco acrescido de parto prematuro. Como explicar tal ligação? Para os autores, uma flora vaginal dominada por L. iners será menos estável do que uma flora dominada pelo lactobacilo L. crispatus: ela tenderá a evoluir facilmente para uma situação na qual os lactobacilos benéficos deixam de ser predominantes. Por outras palavras, terá menos capacidade de manter afastadas as bactérias patogénicas, como já foi comprovado para o estreptococo B.
15 a 50%
O parto prematuro espontâneo tende a recidivar com uma taxa de recorrência de 15 a 50% e mostra uma correlação inversa com o número de semanas de gestação do parto prematuro anterior mais recente.
No entanto, essa ligação entre L. iners e a prematuridade deixa de ser observada entre as 16 e as 24 semanas de gestação, o que demonstra que tudo se decide no início da gravidez... incluindo, talvez um dia, uma intervenção na microbiota vaginal para tentar reduzir o risco de recorrência de partos prematuros. Neste caso, vale lembrar que esta operação já não é ficção científica: uma jovem mãe de 30 anos que, desde o seu primeiro filho, sofria abortos espontâneos repetidos, pôde beneficiar de um transplante de microbiota vaginal... e tornar-se mãe novamente!
Lactobacillus iners: a exceção que confirma a regra de os lactobacilos serem benéficos?
De um modo geral, considera-se saudável uma vagina cuja flora é essencialmente povoada por lactobacilos. Mas contrariamente a outros lactobacilos, o L. iners revela-se incapaz de produzir certas moléculas ( (sidenote:
Àcido D-láctico
Essencial à proteção da zona íntima, mantém um pH baixo que estimula o crescimento de lactobacilos e previne infeções.
), (sidenote:
Peróxido de hidrogénio e bacteriocinas
Impedem a aderência de agentes patogénicos através de biotensioativos: graças às suas propriedades anfifílicas ou “detergentes”, os biotensioativos agem sobre as tensões superficiais, criando assim uma barreira que limita a capacidade de aderência dos agentes patogénicos.
), (sidenote:
Peróxido de hidrogénio e bacteriocinas
Impedem a aderência de agentes patogénicos através de biotensioativos: graças às suas propriedades anfifílicas ou “detergentes”, os biotensioativos agem sobre as tensões superficiais, criando assim uma barreira que limita a capacidade de aderência dos agentes patogénicos.
), etc.) destinadas a repelir os agentes patogénicos.
Consequentemente, este lactobacilo tem uma eficácia muito menor na prevenção da proliferação de bactérias indesejáveis. Outro problema: esta bactéria tende a interagir com o nosso sistema imunitário e a fazer com que ele baixe a guarda, o que não é boa ideia se um organismo indesejável aparecer! Isto já para não falar da sua capacidade de remodelar o colo do útero, o que também propicia a invasão de agentes patogénicos. Cúmulo do azar, a bactéria L. iners também é muito persistente na vagina: cola-se fortemente à sua parede e é muito resistente, inclusive aos antibióticos. 2
Fundada em 2004 por iniciativa de Charlotte Bouvard, também ela mãe de um bebé prematuro, a SOS Préma, uma associação sem fins lucrativos reconhecida como de interesse geral e associação de utilizadores pelo Ministério da Saúde francês, tem por objetivo proporcionar a todas as crianças prematuras as melhores condições para crescerem saudáveis. Apoia os pais que enfrentam a prematuridade e/ou a hospitalização do seu bebé recém-nascido: informação, aconselhamento e orientação, apoio psicológico, acompanhamento social e jurídico, visitas voluntárias aos hospitais, formação dos profissionais de saúde, etc.
Por fim, SOS Préma representa as famílias e defende os seus direitos: a associação mobiliza a sociedade, a classe médica e as autoridades governamentais para uma melhor compreensão das questões relacionadas com a prematuridade e para um melhor acompanhamento das famílias.
Os lactobacilos, guardiões da saúde vaginal, também poderiam aumentar as chances de engravidar após uma transferência de embriões congelados? É o que sugere um estudo americano 1 que também vincula essa tendência às origens étnicas.
Quando falamos de (sidenote:
Infertilidade
Condição do sistema reprodutivo masculino ou feminino definida pela incapacidade de engravidar após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares desprotegidas.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/infertility ) e PMA (procriação medicamente assistida), muitas vezes pensamos num caminho cheio de esperanças, expetativas... e às vezes deceções. Entre as técnicas propostas, a transferência de embriões congelados consiste em substituir, no útero, um embrião previamente concebido em laboratório por (sidenote:
Fertilização in vitro (FIV)
Técnica de assistência médica à reprodução durante a qual a fertilização ocorre no laboratório, em um tubo de ensaio (‘in vitro’), e não no útero da mulher: os óvulos retirados da mulher após a estimulação hormonal são colocados em uma solução nutritiva com espermatozóides retirados do homem. Os embriões assim concebidos em laboratório serão então transferidos para o útero da futura mãe através da vagina. Se um embrião se implantar, a gravidez começa.
https://www.service-public.fr/particuliers/vosdroits/F31462 https://medclinics.com/fr/fiv/ https://www.fiv.fr/fecondation-fiv/), depois congelado e finalmente depositado no útero.
17,5 %
A infertilidade é frequente no mundo inteiro, com uma prevalência estimada ao longo da vida de 17,5%.
O objetivo? A implantação desse embrião e, consequentemente, o início da tão almejada gravidez. Só que, na verdade, este processo não é automático: apenas 41% das recuperações de óvulos resultam em gravidez em mulheres com menos de 35 anos de idade.
+52% das gravidez com Lactobacilos
Neste contexto, cada ajuda conta. E pode muito bem ser que uma delas venha da microbiota, já envolvida na infertilidade feminina e masculina e nos abortos espontâneos. Poderia também favorecer a implantação de embriões no caso da PMA? Um estudo realizado nos Estados Unidos analisou 87 mulheres que receberam uma transferência de embriões congelados. Analisou a microbiota vaginal no momento da transferência para verificar se isso influenciava os resultados.
Você sabia?
Embora as taxas de sucesso da fertilização in vitro (FIV) tenham melhorado gradualmente, a taxa de nascimentos viáveis por amostragem de ovócitos permanece em torno de 41% em mulheres com menos de 35 anos de idade e diminui gradualmente com a idade materna.
Conclusão: em mulheres cuja vagina era amplamente dominada por Lactobacilli, especialmente as espécies Lactobacillus crispatus ou L. gasseri, as chances de gravidez eram 52% maiores! Dois terços das mulheres que engravidaram após a transferência de embriões tinham mais de 80% de Lactobacilos na vagina.
Por outro lado, as mulheres cuja microbiota abrigava mais bactérias oportunistas, como a Enterobacteriaceae ou a Streptococcus, eram menos propensas a engravidar. Por outro lado, nem a riqueza nem a diversidade da flora estavam ligadas ao sucesso da PMA: é o tipo de bactéria que faz a diferença.
Outro ponto interessante abordado pelo estudo: as disparidades étnicas. Os autores tiveram o cuidado de incluir mulheres hispânicas, que compõem 19% da população dos EUA, mas muitas vezes estão ausentes dos estudos.
Os resultados mostram que tiveram taxas de gravidez mais baixas. Acontece que a microbiota vaginal destas mulheres é menos frequentemente dominada pelos Lactobacilos benéficos, em comparação com mulheres brancas não hispânicas. Uma ligação a explorar, o que poderia explicar em parte as menores taxas de sucesso da transferência de embriões congelados na comunidade hispânica.
Na anorexia nervosa, alguns processos cognitivos relacionados à aprendizagem seriam alterados. Uma equipa de investigadores acaba de descobrir que essa deficiência pode estar ligada a mudanças na microbiota intestinal e, em particular, a desequilíbrios em certas bactérias envolvidas na comunicação intestino-cérebro.
A anorexia nervosa é uma doença psiquiátrica que pertence aos transtornos de comportamentos alimentares (TCA). Pode ter consequências graves para a saúde e apresenta um risco significativo de progressão para uma forma crónica e, especialmente, de morte. A anorexia nervosa é caracterizada pela privação voluntária de alimentos que leva à perda severa de peso e é frequentemente acompanhada por bulimia, ansiedade e distúrbios comportamentais que favorecem outras doenças.
50%
Dos casos acompanhados na adolescência são curados.¹
Entre 1/4 e 1/2
Das pessoas afetadas abandonam o tratamento em curso.¹
A psicoterapia, combinada com uma renutrição, é o tratamento recomendado para recuperar uma dieta normal. No entanto, existem diferenças nas respostas entre os pacientes e alguns sintomas de TCA (bulimia, ansiedade) podem persistir.
Como a microbiota afeta a função cognitiva
Em 2023, psiquiatras da Universidade de Graz, na Áustria, destacaram a existência de uma alteração na aprendizagem implícita (aquisição inconsciente de conhecimento) que poderia explicar em parte a falta de resposta ao tratamento. Num novo estudo, esta mesma equipa sugere que esta alteração pode estar relacionada... com a microbiota!2
Sabe-se que a microbiota intestinal influencia as funções cognitivas através do (sidenote:
Eixo intestino-cérebro
Rede de comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro que permite a comunicação entre o intestino e o cérebro através de três vias diferentes:
1. a via neuronal (os neurónios), principalmente através do nervo vago e do sistema nervoso entérico;
2. a via endócrina, através da secreção de hormonas como o cortisol, a adrenalina e a serotonina;
3. a via do sistema imunitário, através da modulação das citocinas.
O eixo intestino-cérebro atua no nosso comportamento, nossa cognição (memória), nossas emoções, nosso humor, nossos desejos, nossa perceção... e nossa dor, entre outras coisas.
). Este modula o sistema neuroendócrino, incluindo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal que regula as respostas ao estresse e à produção de cortisol. O sistema nervoso entérico também está envolvido na comunicação bidirecional com o sistema nervoso autónomo e o nervo vago, assim como os neurotransmissores (GABA, dopamina, serotonina etc.) produzidos pela microbiota.
Com base nesta descoberta, cientistas austríacos compararam a memória e as habilidades de aprendizagem implícitas e a microbiota de 15 pacientes com anorexia nervosa com as de 13 mulheres saudáveis do grupo de controlo.
20%
Dos pacientes permanecem anoréxicos ao longo da vida.¹
5%
Dos casos morrem.¹
Uma pontuação de aprendizagem mais baixa ligada a uma microbiota menos diversificada
Os resultados mostram que no grupo com anorexia:
as pontuações de aprendizagem implícitas são mais baixas do que as do grupo de controlo em boa saúde, enquanto as pontuações de memorização são semelhantes;
a microbiota intestinal tem uma abundância aumentada de Akkermansia muciniphila, enquanto no grupo de controlo espécies bacterianas produtoras de ácidos graxos de cadeia curta ( (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.)), incluindo Faecalibacterium, são mais comuns.
Em geral, quanto mais altas as pontuações de aprendizagem implícita, mais diversos são os microrganismos e maior é o número de espécies diferentes:
uma pontuação alta foi associada a um aumento nas bactérias Actinobacteria, particularmente a Bifidobacteria, microrganismos essenciais para a comunicação intestino-cérebro que poderiam reduzir a ansiedade através das vias vagais e, assim, influenciar os processos de aprendizagem;
uma pontuação baixa foi, ao contrário, associada a um aumento em Lachnospiraceae que vários estudos associaram a transtornos depressivos que podem prejudicar a função cerebral e a aprendizagem implícita.
Rumo a novas abordagens terapêuticas
Apesar de suas limitações (amostra de pequena dimensão, a não consideração de fatores dietéticos e do nível de escolaridade, a ausência de homens), este estudo é promissor. Abre as portas para novas abordagens terapêuticas para gerir doenças como a anorexia nervosa.
O próximo passo para os investigadores: estabelecer estudos intervencionistas direcionados sobre a microbiota intestinal, especialmente através de probióticos como as bifidobactérias.
O cérebro das pessoas com anorexia nervosa pode estar sob a influência da microbiota intestinal, de acordo com um novo estudo. Uma descoberta que pode abrir caminho para novas vias de tratamento centradas no eixo intestino-cérebro e nos seus efeitos na saúde mental.
Restrições alimentares, medo doentio de ganhar peso, obsessão por calorias, negação da magreza, bulimia, ansiedade, depressão... A anorexia nervosa é um transtorno alimentar grave (TCA) que tem um impacto considerável na saúde do paciente, afetando o comportamento e o corpo. Também é particularmente difícil de tratar (ver quadro).
OS TCA em resumo:
São caracterizados por comportamentos alimentares diferentes daqueles usualmente adotados por pessoas que vivem no mesmo ambiente. 1
Esses transtornos são significativos e duradouros, e têm impactos psicológicos e físicos. 2
Os 3 principais TCA são: anorexia nervosa, bulimia (crises compulsivas de ingestão de grandes quantidades de alimentos seguidas de convulsões de comportamentos compensatórios inadequados, como vómitos, jejum ou a prática de exercícios de forma excessiva) e hiperfagia (crises de bulimia, porém sem comportamento compensatório associado). 3
Em indivíduos afetados, muitas vezes há um comprometimento das funções cognitivas, incluindo certas habilidades de aprendizagem essenciais para a adaptação comportamental, o que pode dificultar a cura.
Um novo estudo sugere que esse distúrbio pode estar relacionado a alterações que ocorrem na microbiota intestinal. 4
4% das mulheres e 0,3% dos homens
Serão afetados pela anorexia durante a sua vida. ⁵
Entre 14 e 17
É a idade em que a anorexia nervosa é desencadeada (com um pico aos 16 anos). ⁶
Uma microbiota menos diversificada
Os autores, investigadores da Universidade de Graz, na Áustria, estudaram 15 pacientes com anorexia nervosa e 13 mulheres saudáveis do grupo de controlo. Todos foram testados para avaliar as suas habilidades de "aprendizagem implícita" (ver quadro). Em paralelo, as suas fezes foram analisadas para determinar a composição da sua microbiota intestinal.
Os cálculos dos investigadores confirmam que os pacientes com anorexia nervosa têm pontuações de aprendizagem implícita mais baixas do que as dos voluntários saudáveis. Mas o mais interessante é que essas pontuações estão relacionadas à composição da microbiota: quanto mais altas, mais diversificados são os microrganismos.
Quando a microbiota intestinal faz o cérebro se descontrolar
Como explicar esse resultado? Sabe-se que a microbiota intestinal influencia a função cerebral através do eixo intestino-cérebro. Por exemplo, pode modificar as respostas ao estresse ou produzir mensageiros cerebrais (dopamina, serotonina etc.) que têm o poder de influenciar as habilidades de aprendizagem.
Visão geral da anorexia nervosa ³ :
É um TCA (Transtorno do Comportamento Alimentar), um transtorno psiquiátrico.
Não deve ser confundida com a anorexia no sentido médico, geral, do termo: uma perda de apetite por uma causa qualquer, que é um sintoma e não uma doença.
Causas: factores genéticos, psicológicos, ambientais, familiares e socioculturais.
Às vezes associada a um distúrbio bulímico (absorção compulsiva de grandes quantidades de alimentos durante um curto período de tempo, seguida de vómito induzido).
Risco significativo de osteoporose, infertilidade, depressão, insuficiência cardíaca e suicídio.
Neste estudo:
Uma alta pontuação de aprendizagem foi, por exemplo, associada a um aumento das Bifidobacterias, bactérias essenciais para a comunicação intestino-cérebro. Podem reduzir a ansiedade e, assim, influenciar os processos de aprendizagem.
1,5-3 anos
É a duração média de uma fase de anorexia nervosa. ⁶
20%
Dos casos permanecem anoréxicos ao longo da vida. ⁶
Uma pontuação baixa foi, ao contrário, relacionada a um aumento na bactéria Lachnospiraceae que vários estudos associaram a transtornos depressivos que podem prejudicar a função cerebral e a aprendizagem implícita. Esses efeitos sugerem uma forte ligação entre microbiota, comportamento e saúde mental em doenças como a anorexia.
O que é aprendizagem implícita?
A aprendizagem implícita ocorre de forma inconsciente e sem intenção de aprender 7. Não envolve esforços para memorizar ou concentrar-se em regras. Inclinar o corpo para o lado para o qual uma pessoa irá virar ao andar de bicicleta é o resultado de uma aprendizagem implícita. É diferente da aprendizagem explícita associada à aquisição de conhecimentos teóricos, regras ou princípios.
Rumo a um tratamento da anorexia à base de probióticos?
Esta descoberta é particularmente interessante porque poderia fornecer uma explicação para o facto de que a psicoterapia, que se baseia parcialmente na aprendizagem implícita, nem sempre é eficaz na gestão de pacientes anoréxicos.
Se for confirmado, um dia será possível utilizar probióticos contendo Bifidobactérias para gerir melhor a anorexia nervosa. Ao estabilizar o eixo intestino-cérebro, tal processo poderia ajudar as mulheres a retomarem uma dieta normal.
Já foi estabelecido que existe uma ligação entre a saúde intestinal e a doença de Alzheimer. Porém, um novo estudo veio mudar este paradigma. O que importa não é a diversidade geral, mas as identidades microbianas específicas. Algumas espécies, conhecidas como biomarcadores benéficos, protegem o cérebro, enquanto outras, inclusive do mesmo género, podem acelerar o declínio cognitivo.
Durante anos, a comunidade científica vem reunindo evidências de que o nosso intestino e o cérebro estão em constante comunicação, um conceito conhecido como eixo intestino-cérebro1, 2. Vimos que a composição da microbiota intestinal é diferente em pacientes com doença de Alzheimer3, e que esta disbiose pode contribuir para a neuroinflamação que alimenta a doença4, 5.
Mas os detalhes precisos não estão ainda muito claros. Temos olhado para a floresta, mas um novo estudo inovador6 veio fazer um zoom nas árvores individualmente. O que este estudo revela pode mudar fundamentalmente a forma como abordamos essa doença neurodegenerativa devastadora que é o Alzheimer.
Para além do cérebro: não se trata da diversidade geral, mas da identidade microbiana específica
E se os primeiros sussurros da doença de Alzheimer não fossem cognitivos, mas composicionais? Um estudo de referência publicado na Alzheimer's Research & Therapy fornece evidências convincentes de que a chave para compreender, e talvez um dia diagnosticar, o declínio cognitivo na vida de pacientes afetados pela doença de Alzheimer pode estar nas espécies específicas de bactérias que residem no nosso intestino.
Utilizando o (sidenote:
Sequenciamento metagenómico
Método de sequenciamento de alta resolução que analisa todo o material genético de cada micróbio numa amostra. Ao contrário de técnicas mais antigas que apenas identificam famílias bacterianas, este método permite uma identificação precisa do nível da espécie e revela os genes funcionais que essas bactérias possuem.
) de alta resolução em pacientes com (sidenote:
Défice Cognitivo Ligeiro (DCL)
O DCL é um estágio clínico entre o declínio cognitivo esperado do envelhecimento normal e o declínio mais grave da demência. Os indivíduos com DCL têm problemas percetíveis de memória ou pensamento, mas ainda podem realizar a maioria das atividades diárias, o que representa uma janela crítica para intervenção e estudo.
), um estágio intermediário crítico, os investigadores descobriram que não havia diferença significativa na diversidade geral da microbiota intestinal em comparação com controlos saudáveis. Em vez disso, constataram que a diferença crucial residia na identidade dos atores. O estudo identificou 59 espécies microbianas específicas cuja presença ou ausência estava diretamente correlacionada ao DCL, às placas amiloides e aos níveis de (sidenote:
Proteína Tau
A Tau é uma proteína que normalmente estabiliza o sistema de transporte interno, ou microtúbulos, no interior das células nervosas do cérebro. Na doença de Alzheimer, torna-se anormalmente fosforilada e agrega-se em emaranhados neurofibrilares dentro dos neurónios, levando à disfunção celular e à morte.
), as principais características patológicas da doença de Alzheimer. Isto revela que não se trata do tamanho do exército microbiano, mas de quais soldados específicos estão na linha de frente.
O papel surpreendente de dois bacteroides: porque os detalhes do nível das espécies são um divisor de águas
É aqui que as descobertas sobre os biomarcadores intestinais se tornam verdadeiramente uma mudança de paradigma. O estudo revelou que espécies diferentes dentro do mesmo género podem ter efeitos opostos na saúde do cérebro. Por exemplo, a presença da espécie Bacteroides eggerthii foi associada a um risco reduzido de DCL. No entanto, outra espécie, a Bacteroides thetaiotaomicron, estava associada a um risco maior.
Esta descoberta é essencial, pois porque demonstra que estudos anteriores que dependiam de sequenciamentos de baixa resolução e que só podiam identificar bactérias no nível do género, podem ter perdido a parte mais importante da história. É como descobrir que um animal é "mamífero" sem determinar se é um rato ou um leão. Essa atividade específica da espécie é uma descoberta fundamental que forçará os estudos de campo a adotarem métodos mais precisos.
Rumo a biomarcadores funcionais: o papel protetor da Akkermansia
O estudo vai além da mera correlação, identificando bactérias que não estão apenas presentes, mas são funcionalmente ligadas à saúde do cérebro. Uma das espécies benéficas identificadas, a Akkermansia muciniphila, foi negativamente correlacionada com a carga amiloide. Este dado é significativo, pois a Akkermansia é conhecida por produzir metabólitos que fortalecem a barreira intestinal e têm efeitos anti-inflamatórios7. Esta investigação sugere que o seu papel pode ser ainda mais direto, e que potencialmente influencia o metabolismo energético do cérebro e o protege contra o acúmulo de proteínas tóxicas, como a proteína Tau.
A identificação de espécies pró e anti-inflamatórias específicas ligadas diretamente aos níveis de amiloide e Tau abre caminhos para o desenvolvimento de biomarcadores metabólicos altamente sensíveis8, 9, 10. Possibilita o estabelecimento de um diagnóstico no estágio de DCL muito antes que ocorram danos irreversíveis ao sistema nervoso central.
Estas descobertas reforçam ainda mais o crescente reconhecimento do papel da microbiota intestinal no contexto da doença de Alzheimer. Para explorar este tópico com mais profundidade, leia nossos artigos dedicados ao assunto que explicam como a microbiota intestinal pode atuar como um ator essencial ou até mesmo como indicador precoce da doença.
Os primeiros sinais da doença de Alzheimer podem não estar no seu sistema nervoso central ou cérebro, mas no seu intestino. Um novo estudo descobriu que o que importa não é a saúde intestinal geral, mas bactérias específicas (novos biomarcadores). Surpreendentemente, algumas espécies protegem as pessoas, enquanto outras, inclusive da mesma família, podem prejudicá-las.
Durante anos, sabíamos que o nosso intestino e o nosso cérebro estabelecem um diálogo constante. Este "eixo intestino-cérebro" é o motivo pelo qual pode sentir aquele friozinho no estômago quando está nervoso. Agora, um novo estudo inovador 1 sugere que esta conexão é muito mais importante do que imaginávamos, revelando que os primeiros sinais da doença de Alzheimer podem não estar no cérebro, mas escondidas entre os biliões de bactérias que vivem no nosso intestino.
Não é o tamanho da multidão, mas quem a compõe
Os cientistas costumavam pensar que, na doença de Alzheimer, o problema era uma perda geral de diferentes tipos de bactérias intestinais, como um jardim que perde pouco a pouco a sua diversidade. Mas esta nova investigação encontrou algo completamente diferente. Em pessoas com perda de memória precoce, (aqueles diagnosticados com (sidenote:
Défice Cognitivo Ligeiro (DCL)
O DCL é um estágio clínico entre o declínio cognitivo esperado do envelhecimento normal e o declínio mais grave da demência. Os indivíduos com DCL têm problemas percetíveis de memória ou pensamento, mas ainda podem realizar a maioria das atividades diárias, o que representa uma janela crítica para intervenção e estudo.
) o número total de tipos bacterianos parecia satisfatório.
O verdadeiro problema era uma mudança na qual bactérias específicas estavam presentes. O estudo identificou 59 tipos precisos de bactérias, potenciais biomarcadores que eram mais ou menos comuns em pessoas que caminhavam para a doença de Alzheimer. Isto revela que não se trata de ter menos bactérias, mas que as bactérias erradas estavam no comando.
Os heróis e os vilões do intestino podem parecer iguais
É aqui que a história fica realmente fascinante. O estudo revelou que duas bactérias da mesma família podem ter efeitos completamente opostos. Pense nisso como uma família com um "gémeo bom" e um "gémeo mau". Uma bactéria, chamada Bacteroides eggerthii, estava ligada a um menor risco de problemas de memória, agindo como um herói para o cérebro. No entanto, o seu parente próximo, a Bacteroides thetaiotaomicron, estava ligada a um risco maior, agindo como um vilão. Esta descoberta é essencial, pois significa que estudos anteriores, que não conseguiam distinguir esses "parentes" bacterianos, estavam perdendo os detalhes mais importantes na compreensão da doença.
Nenhum sinal da doença é detetável; pequenos lapsos de memória são relacionados à idade e não estão ligados ao declínio cognitivo.
2. Sutis deslizes da memória
Sinais de esquecimento ocasional (dificuldade em encontrar palavras, mistura nomes, perde objetos etc.), mas sem qualquer impacto na vida social ou profissional.
3. A vida quotidiana começa a ser afetada
os problemas cognitivos tornam-se percetíveis e recorrentes: desorientação, objetos guardados no lugar errado, dificuldade de concentração, fala repetitiva... A pessoa está ciente disso, o que pode causar ansiedade ou negação.
4. Confirmação do diagnóstico
A doença de Alzheimer é oficialmente diagnosticada; a perda de memória e a dificuldade com tarefas complexas (cálculos mentais, lembrança de eventos recentes) aumentam, embora a autonomia básica permaneça intacta.
5. Início da dependência
O paciente não consegue mais gerir certas tarefas diárias sozinho (como cozinhar ou escolher roupas), mesmo que as necessidades básicas (comer, usar a casa de banho) ainda sejam atendidas; a assistência domiciliar torna-se necessária.
6. Sintomas comportamentais e perda de autonomia
A assistência é necessária para as atividades básicas; os distúrbios comportamentais (agitação, perambulação, alucinações, suspeita, agressão etc.) tornam a vida doméstica cada vez mais difícil.
7. Perda total de autonomia e fim das interações
O paciente torna-se incapaz de se mover ou de se comunicar (falar, sorrir), é totalmente dependente dos outros para todas as necessidades básicas e enfrenta, muitas vezes, complicações físicas nesta fase final. 2
Rumo a um novo futuro na deteção precoce
Então, o que tudo isso significa para si? Esta investigação está a pavimentar o caminho para uma nova abordagem revolucionária no diagnóstico da doença de Alzheimer. Ao identificarem uma bactéria "boa" chamada Akkermansia muciniphila, que estava ligada a uma menor presença da (sidenote:
Proteína amiloide tóxica
Os amiloides são agregados de proteínas que se dobram juntas. Em certas doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, as placas amiloides formam-se a partir de agregados de proteínas mal dobradas, compostas principalmente pela proteína beta-amiloide. Estas placas formam-se em torno dos neurónios e impedem que nosso organismo funcione corretamente.
https://emedicine.medscape.com/article/335414-overview https://www.fondation-alzheimer.org/dictionnaire/plaques-amyloides/) encontrada no cérebro de pacientes com Alzheimer, os cientistas estão a criar uma "impressão digital" de um intestino saudável.
Um dia, poderemos utilizar uma amostra simples de fezes para verificar esses heróis e vilões bacterianos específicos. Esta possibilidade facilitaria a identificação da probabilidade que uma pessoa possui em ser afetada pela doença de Alzheimer anos antes, muito mais cedo do que podemos obter hoje, abrindo uma janela crucial para proteger a saúde do cérebro através da dieta e do estilo de vida.
Que papel desempenha a L. iners na saúde vaginal das mulheres grávidas? Um estudo Chinês 1 destaca o papel complexo e globalmente benéfico da bactéria na manutenção de uma microbiota vaginal saudável.
Amicrobiota vaginalesse complexo ecossistema de bactérias que colonizam a vagina, desempenha um papel essencial na saúde das mulheres, inclusivamente das grávidas: por exemplo, uma maior presença de lactobacilos parece reduzir o risco de abortos espontâneos.
De entre os diversos lactobacilos da flora vaginal, o Lactobacillus iners revela-se particularmente intrigante: esta bactéria está presente tanto nas microbiotas saudáveis como nas doentes, o que suscita interrogações quanto ao seu papel exato. Um estudo realizado com 91 mulheres chinesas no terceiro trimestre de gravidez vem lançar uma nova luz sobre este assunto.
O estudo demonstra que uma em cada duas mulheres saudáveis possui uma flora vaginal dominada por L. iners, enquanto menos de uma em cada três mulheres doentes ( (sidenote:
Diabetes gestacional
Diabetes gestacional, por vezes designada “diabetes da gravidez”: A diabetes gestacional pode surgir durante a gravidez em mulheres que ainda não sejam diabéticas, geralmente por volta da 24.a semana. O rastreio é geralmente realizado entre a 24.ª e a 28.ª semana. Surge quando o corpo não é capaz de produzir insulina suficiente durante a gravidez — uma hormona que permite que o açúcar (glicose) do sangue penetre nas células para ser utilizado como fonte de energia. Consequentemente, os níveis de açúcar no sangue (glicemia) tornam-se mais elevados do que o normal. Todos os anos, entre 5% e 9% das gestações nos Estados Unidos são afetadas pela diabetes gestacional. O tratamento adequado da diabetes gestacional permite assegurar uma gravidez e um bebé saudáveis.
CDC), complicações, etc.) apresenta uma microbiota desse tipo.
Por outro lado, uma flora dominada por L. crispatus é mais habitual nas futuras mães doentes: esse tipo de flora atinge mesmo os 57% entre as mulheres com diabetes gestacional.
A maior frequência, bem como a maior abundância de L. iners nas mulheres grávidas saudáveis, poderá explicar a boa saúde de que gozam? Talvez, no entender dos investigadores. De facto, quanto maior for a quantidade de L. iners, maior será a produção de moléculas microbianas benéficas por esta bactéria. A começar pelo aumento da biossíntese de uma molécula com o nome complicado de “tetrahidrofolato”, que ajuda a manter um nível moderado de inflamação no final da gravidez.
Este tipo de funcionamento ilustra como certas estirpes de lactobacilos, embora não sejam tradicionalmente consideradas protetoras, podem contribuir para a regulação do ecossistema vaginal durante a gravidez.
50%
50% das mulheres saudáveis apresentavam a microbiota com predominância de L. iners.
Estirpes diferentes de L. iners
No entanto, nem todas as estirpes de L. iners são iguais. Das sete estirpes identificadas em mulheres grávidas, houve três delas associadas à (sidenote:
Vaginose bacteriana
A vaginose bacteriana (VB) é um tipo de inflamação vaginal causada por um desequilíbrio das espécies bacterianas que estão normalmente presentes na vagina.
) que se revelaram particularmente eficazes na formação dos temidos biofilmes, que são refúgios onde os agentes patogénicos se multiplicam; e quatro estirpes (algumas associadas à vaginose, outras não) terão a capacidade de inibir o crescimento do agente patogénico Gardnerella vaginalis. Em suma, cada estirpe de L. iners tem as suas especificidades e provavelmente vários truques na sua manga bacteriana. Mas algumas estirpes poderão ajudar a manter a estabilidade do ecossistema vaginal nas mulheres grávidas.
A vagina e as bactérias: um equilíbrio frágil
A vagina é naturalmente povoada por milhares de milhões de bactérias, cuja função é proteger o equilíbrio da flora local. Quando ocorre uma disbiose, esse equilíbrio pode alterar-se, permitindo o aparecimento de infeções como a vaginose bacteriana. Os probióticos são hoje considerados uma pista promissora para restaurar esse equilíbrio, especialmente no caso das mulheres grávidas, cuja microbiota vaginal pode apresentar-se mais instável.
Longe de ter um papel exclusivamente benéfico ou patogénico, a L. iners age como um verdadeiro agente duplo, cujo impacto na microbiota vaginal depende tanto do contexto como da estirpe em causa e do ecossistema envolvente. Um equilíbrio delicado que necessita de ser monitorizado de perto durante a gravidez.
A bactéria Lactobacillus iners, presente tanto nas microbiotas saudáveis como nas disfuncionais, desempenha um papel ambíguo que um estudo realizado em mulheres grávidas vem elucidar sob uma nova perspetiva.
A microbiota vaginal foi classificada em 5 “tipos”, designados CST (community state types): três CST benéficos (dominados, respetivamente, por Lactobacillus crispatus, Lactobacillus gasseri ou Lactobacillus jensenii), um desfavorável e um (CSTIII) dominado por L. iners, cujo papel na saúde vaginal é ainda alvo de discussão. De facto, esta bactéria apresenta um carácter ambivalente: embora pareça fazer parte integrante de uma microbiota vaginal saudável, é paradoxalmente também abundante em situações patológicas e disbióticas, tendo mesmo sido associada à colonização por estreptococos do grupo B durante a gravidez.
Maior quantidade de L. iners nas futuras mães saudáveis
Visando uma melhor compreensão das relações entre a flora microbiana e a saúde vaginal, uma equipa de investigadores chineses analisou o caso específico de mulheres grávidas (3.º trimestre), saudáveis (34 mulheres) ou não (61 mulheres com diabetes gestacional, complicações, infeções, etc.).
Os respetivos resultados evidenciaram a persistência da predominância dos Lactobacilos e a manutenção da diversidade alfa em todas as futuras mães.
50%
50% das mulheres grávidas saudáveis apresentam uma microbiota vaginal com predominância de L. iners.
57%
57% das mulheres grávidas com diabetes gestacional apresentam uma microbiota vaginal com predominância de L. crispatus.
Mas, acima de tudo, o tipo dominado por L. iners apresentou-se com menor frequência no grupo de mulheres doentes (31,15%) do que no grupo de mulheres saudáveis (50%). Por outro lado, a bactéria L. iners revelou-se relativamente mais abundante (em percentagem das espécies presentes) nas mulheres saudáveis.
Em contrapartida, o tipo dominado pela protetora L. crispatus surgiu, paradoxalmente, mais frequente nas mulheres com diabetes gestacional ou complicações maternas. Esta constatação contextualiza a compreensão da disbiose vaginal, frequentemente simplificada como um mero desequilíbrio entre bactérias “boas” e “más”.
Vias metabólicas modificadas
A presença exacerbada de L. iners nas mulheres grávidas saudáveis coincidiu com a sobrexpressão de vias metabólicas favoráveis a uma gravidez saudável: por exemplo, a biossíntese do (sidenote:
Tetrahidrofolato
coenzima derivada do ácido fólico e associada, em particular, à síntese das bases nucleicas, purinas e pirimidinas, as quais constituem os ácidos nucleicos (ADN e ARN) do material genético. O THF também participa na síntese de aminoácidos como a metionina, a histidina e a serina.
) poderá desempenhar diferentes papéis (síntese microbiana de folato, estado ligeiramente pró-inflamatório).
Mas a presença reforçada desta bactéria nas mulheres saudáveis também coincidiu com a existência de vias de síntese de (sidenote:
Glicosiltransferase
enzima da membrana que catalisa a ligação de um hidrato de carbono a uma proteína para formar uma glicoproteína. Nas bactérias patogénicas, as referidas glicoproteínas têm sido associadas a diferentes etapas do processo infecioso.
Análises mais aprofundadas mostraram que nem todas as estirpes de L. iners são iguais: de entre as 7 estirpes de L. iners identificadas pelos autores, 3 associadas à vaginose bacteriana (contra 4 associadas à boa saúde) apresentaram maior capacidade de formação de biofilmes, graças a genes que codificam as proteínas envolvidas. A equipa demonstrou também que 5 das 7 estirpes identificadas (associadas ou não à vaginose bacteriana) inibem o crescimento do agente patogénico G. vaginalis, associado à prematuridade.
Estes resultados sugerem que a L. iners poderá ter uma influência protetora, dependendo das condições ambientais e das estirpes envolvidas. Uma flora dominada por determinadas estirpes de L. iners poderá, assim, contribuir para a prevenção de complicações relacionadas com uma disbiose recorrente.
Na opinião dos autores, essa heterogeneidade, especialmente em relação à G. vaginalis, requer uma investigação mais aprofundada, especialmente porque a L. iners, provavelmente em virtude da sua flexibilidade metabólica, aparentou contribuir para a estabilidade do ecossistema vaginal na população estudada.
Explore os últimos desenvolvimentos sobre as condições que promovem uma microbiota vaginal equilibrada: