A microbiota intestinal

Microbiota intestinal: por que razão é tão importante para a nossa saúde?
Temos triliões1 de bactérias que povoam o nosso intestino, com poderes fascinantes para o corpo humano. Qual é a definição de microbiota intestinal? Vamos perceber como funciona a nossa microbiota intestinal e porque temos de cuidar dela!

The Gut microbiota

O que é, exatamente, a microbiota intestinal humana?

Já provavelmente ouviu falar em “flora intestinal”. Pois bem, ela designa-se cientificamente “microbiota intestinal”. Consiste em triliões1 de (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueias, os protozoários, etc., e são vulgarmente designados "micróbios". What is microbiology? Microbiology Society. ) que habitam o nosso intestino, nomeadamente bactérias, vírus, fungos (incluindo leveduras) e até parasitas.

A propósito, microbiota e microbioma são duas palavras usadas frequentemente como sinónimas, mas que têm significado diferente: enquanto microbiota se utiliza para falar sobre os microrganismos e responder à pergunta “Quem está lá?”, basicamente ao nível dos “indivíduos”, microbioma aplica-se ao respetivo genoma, “ao que está dentro deles”2 para responder à pergunta “o que é que eles fazem”, referindo-se à sua função.

Cada um de nós tem uma microbiota única, como uma impressão digital.1 Quando nascemos, os microrganismos fecais e vaginais transmitidos pela nossa mãe durante o parto vaginal, ou os microrganismos ambientais no caso do parto por cesariana,3 induzem o início de colonização da nossa microbiota intestinal.4 Demora cerca de três anos até que a microbiota intestinal se constitua, diversifique e estabilize.5 Durante a idade adulta,6 a composição da mesma é relativamente estável até à velhice, altura em que atravessa de novo mutações profundas, tornando-se ligeiramente mais empobrecida.7

100 milhões Há 100 milhões de milhões de bactérias "boas" que habitam o nosso intestino.

2.º a microbiota intestinal é frequentemente considerada como o segundo cérebro

Por que é que a microbiota intestinal é importante para a nossa saúde?

A microbiota intestinal pode ser considerada um órgão funcional do corpo humano. Porque é que devemos cuidar da nossa microbiotaTrabalha em estreita colaboração com os nossos intestinos e tem 4 papéis importantes:

Promove a digestão

ao ajudar à absorção pelas células intestinais dos nutrientes (açúcares, aminoácidos, vitaminas, etc.), ou à fermentação de uma pequena parte dos alimentos. Estes processos de fermentação produzem gases e vários metabolitos, incluindo ácidos gordos de cadeia curta, verdadeiro “combustível” para as células do nosso cólon.8

Desempenha um papel importante na maturação do aparelho digestivo,

ao ter intervenção ativa na produção do muco gastrointestinal, na irrigação das células intestinais e na atividade enzimática da mucosa.9

Funciona como barreira

contra os agentes patogénicos e as toxinas.10 Além disso, algumas bactérias libertam moléculas antimicrobianas que atacam as (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) , enquanto outras estimulam a produção de muco para proteger as células intestinais de ataques e evitar os efeitos nocivos para o nosso corpo.11

Desempenha uma função defensiva

no desenvolvimento do sistema imunitário humano. As bactérias da flora intestinal participam na maturação e ativação das células do sistema imunitário do intestino, que por sua vez nos protege contra os ataques de agentes patogénicos como bactérias e vírus. O intestino é o principal reservatório de células imunitárias do nosso corpo. Por seu turno, o sistema imunitário influencia a composição e a diversidade da microbiota.12 

O que é que afeta a nossa microbiota intestinal?

A composição da microbiota intestinal é caraterizada pela sua elevada diversidade (quantidade de espécies diferentes existentes num indivíduo) e pela sua abundância (número total de microrganismos presentes). Quando a composição é alterada, o equilíbrio é rompido e surge uma disbiose,13 que pode estar associada a várias doenças.

Numerosos fatores podem ter impacto na diversidade e composição da microbiota intestinal. De entre esses fatores, destacam-se os seguintes:

Fatores relacionados com o próprio indivíduo, como:

  • Idade 6
  • Genética 13 
  • Determinadas doenças e lesões 13 

Outros fatores associados ao contexto individual:

  • Uso de medicamentos: antibióticos, anti-inflamatórios, etc. 8 
  • Infeções (gastroenterite viral...) 13
  • Estilo de vida: dieta desequilibrada (alimentação rica em gorduras, por exemplo) ou alterações na mesma, stress, tabagismo, excesso de álcool, etc. 13

Quais são as doenças que podem estar ligadas à microbiota intestinal?

A disbiose, causa ou consequência destas doenças? A questão ainda não foi respondida com certeza por estudos científicos.

 

Vejamos algumas das doenças relacionadas com a disbiose intestinal:

  • A cólica infantil14  afeta 20 a 25% das crianças com idade entre 1 e 4 meses      

  • A diarreia associada a antibióticos15 surge em entre 5 e 35% dos pacientes que tomam antibióticos 

  • A diarreia do viajante é uma infeção causada pela ingestão de alimentos contaminados. Pode ocorrer síndrome do intestino irritável pós-infeciosa em 3% a 17% dos pacientes que tenham sofrido esta infeção16

  • A gastroenterite, geralmente benigna e com mais frequência viral, é responsável por mais de 200.000 mortes de crianças por ano em todo o mundo17  

  • A obesidade é uma doença crónica vulgar, dispendiosa e grave, e afetava 13% da população adulta do mundo (11% dos homens e 15% das mulheres) em 201618.

  • A SCI (síndrome do cólon irritável) é uma das afeções gastrointestinais mais funcionais, sendo caraterizada por dor abdominal e alterações nos hábitos intestinais do hospedeiro (obstipação, diarreia ou alternância entre ambas). A sua prevalência varia bastante de país para país19.

  • A doença de Crohn é uma doença inflamatória do intestino, na qual a inflamação pode atingir todo o sistema digestivo, desde a boca até ao ânus. Estudos recentes comprovam que a microbiota intestinal desempenha uma função importante na etiopatogenia dessa doença20.

  • O cancro do estômago21  e o cancro colorretal22  são dois cancros gastrointestinais associados com a disbiose da microbiota intestinal. 

Mas o papel da microbiota intestinal humana não se esgota no intestino: estudos recentes indicam que a microbiota intestinal pode ter um papel a desempenhar muito para além do trato gastrointestinal. De facto, a microbiota intestinal tem sido associada a várias doenças externas ao trato intestinal, por exemplo: acne,23 alergias24, obesidade,25, perturbações de ansiedade,26 perturbações do espectro autístico,26 etc., e ainda não é tudo. Parece que a microbiota intestinal poderá também estar associada a alterações neurodegenerativas, como as doenças de Alzheimer,27 ou de Parkinson.28 Efetivamente, existe comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro, o chamado “eixo intestino-cérebro”, e a microbiota intestinal poderá influenciar estas interações. É por isso que há por vezes quem chame ao intestino o nosso segundo cérebro.

Como cuidar da nossa microbiota?

Agora já conhece o papel fulcral da microbiota intestinal na saúde humana. Então, como poderá cuidar da sua microbiota intestinal? Como reforçar a nossa microbiota intestinal? Muitos estudos científicos suscitaram a questão de se saber como evitar qualquer perturbação na sua composição e mantê-la o mais equilibrada possível.29 A resposta é mais difícil do que introduzir simplesmente as bactérias ou leveduras boas para preencher ou enriquecer a microbiota existente, ou substituir as más. De facto, a ideia será influenciar a microbiota para ajudá-la a funcionar sem problemas, melhorando assim a saúde do hospedeiro.30

Há várias formas de se afetar positivamente o equilíbrio e a diversidade da microbiota intestinal :

Dieta: a diversidade e qualidade daquilo que comemos contribui para o equilíbrio da nossa microbiota intestinal.31,32 Por outro lado, uma dieta mal equilibrada pode afetar a composição do nosso intestino e provocar várias doenças.33 É importante sabermos quais os tipos de alimentos que têm efeitos benéficos ou prejudiciais para mantermos o nosso intestino em forma!34

Probióticos: os probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, oferecem benefícios para a saúde do hospedeiro.35,36 

Prebióticos: os prebióticos são fibras alimentares não digeríveis específicas que protegem a saúde e que são utilizadas seletivamente pelos microrganismos benéficos na microbiota do hospedeiro.37,38 Alguns alimentos são particularmente ricos em prebióticos, e é por isso que é importante prestarmos atenção à nossa dieta. Quando aos prebióticos são adicionados probióticos em alguns produtos específicos, designamo-los simbióticos.39

Transplante: como no caso dos órgãos, a microbiota intestinal pode ser transferida para outra pessoa numa tentativa de restaurar o equilíbrio no seio do respetivo ecossistema microbiano intestinal.32 Conhecida por transplante de micobiota fecal (FMT), esta abordagem terapêutica só está homologada para a cura da Clostridioides difficile recorrente associada a doença,32 encontrando-se ainda sob investigação ativa para se avaliar seu efeito em outras afeções de saúde específicas, como a doença de Crohn, a colite ulcerosa, a síndrome do cólon irritável ou as doenças metabólicas,32 etc.. 

Oh! E mais uma coisa...

Agora que já leu tudo o que necessita de saber sobre a microbiota intestinal, temos também de lhe dizer que há microrganismos em todo o nosso corpo: na nossa pele,40 no trato urinário,41 na vagina,42 na boca,43 nos ouvidos,44 nos pulmões,45 e que, como no caso do intestino, esses microrganismos lá residentes desempenham um papel vital na manutenção do respetivo funcionamento, contribuindo para que nos mantenhamos saudáveis. Para saber mais, visite esta página.

Todas as informações contidas neste artigo são provenientes de fontes científicas aprovadas. Informamos que não são exaustivas.  Eis os estudos de onde extraímos todas estas informações

Observatório Internacional de Microbiotas

Descubra os resultados de 2023
BMI-21.10
Fontes

1 Ley RE, Peterson DA, Gordon JI. Ecological and evolutionary forces shaping microbial diversity in the human intestine. Cell. 2006 Feb 24;124(4):837-48.

2 Ursell LK, Metcalf JL, Parfrey LW, et al. Defining the human microbiome. Nutr Rev. 2012;70 Suppl 1(Suppl 1):S38-S44.

3 Callaway E. C-section babies are missing key microbes [published online ahead of print, 2019 Sep 18]. Nature. 2019;10.1038/d41586-019-02807-x. 

4 Sandall J, Tribe RM, Avery L, et al. Short-term and long-term effects of caesarean section on the health of women and children. Lancet. 2018;392(10155):1349-1357.

5 Bäckhed F, Roswall J, Peng Y, et al. Dynamics and Stabilization of the Human Gut Microbiome during the First Year of Life. Cell Host Microbe. 2015;17(5):690-703.

6 Yatsunenko T, Rey FE, Manary MJ, et al. Human gut microbiome viewed across age and geography. Nature. 2012 May 9;486(7402):222-7.

7 Ragonnaud E, Biragyn A. Gut microbiota as the key controllers of "healthy" aging of elderly people. Immun Ageing. 2021 Jan 5;18(1):2. 

8 Jandhyala SM, Talukdar R, Subramanyam C, et al. Role of the normal gut microbiota. World J Gastroenterol. 2015 Aug 7;21(29):8787-803.

9 Tomas J, Wrzosek L, Bouznad N, B, et al. Primocolonization is associated with colonic epithelial maturation during conventionalization. FASEB J. 2013 Feb;27(2):645-55.

10 Caballero S, Pamer EG. Microbiota-mediated inflammation and antimicrobial defense in the intestine. Annu Rev Immunol. 2015;33:227-56.

11Sokol H. Microbiota and barrier effect. In: Marteau P, Dore J, eds. Gut Microbiota: A Full-Fledged Organ. Paris: John Libby Eurotext; 2017:65-71.

12 Brandtzaeg P. Role of the Intestinal Immune System in Health. In:  Baumgart, Daniel C, eds. Crohn's Disease and Ulcerative Colitis: From Epidemiology and Immunobiology to a Rational Diagnostic and Therapeutic Approach. Springer International Publishing; 2017

13 Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232.

14 Perceval C, Szajewska H, Indrio F, et al. Prophylactic use of probiotics for gastrointestinal disorders in children. Lancet Child Adolesc Health. 2019 Sep;3(9):655-662.

15 McFarland LV. Antibiotic-associated Diarrhea: Epidemiology, Trends and Treatment. Future Microbiol. 2008 Oct;3(5):563-78.

16 Steffen R, Hill DR, DuPont HL. Traveler's diarrhea: a clinical review. JAMA. 2015 Jan 6;313(1):71-80. 

17 Stuempfig ND, Seroy J. Viral Gastroenteritis. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls

18 WHO. Fact sheets on obesity and overweight June 2021

19 Oka P, Parr H, Barberio B, et al. Global prevalence of irritable bowel syndrome according to Rome III or IV criteria: a systematic review and meta-analysis. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2020 Oct;5(10):908-917. 

20 Aldars-García L, Marin AC, Chaparro M, et al. The Interplay between Immune System and Microbiota in Inflammatory Bowel Disease: A Narrative Review. Int J Mol Sci. 2021 Mar 17;22(6):3076.

21 Nasr R, Shamseddine A, Mukherji D, et al. The Crosstalk between Microbiome and Immune Response in Gastric Cancer. Int J Mol Sci. 2020 Sep 9;21(18):6586. 

22 Ranjbar M, Salehi R, Haghjooy Javanmard S, et al. The dysbiosis signature of Fusobacterium nucleatum in colorectal cancer-cause or consequences? A systematic review. Cancer Cell Int. 2021;21(1):194. 

23 Dreno B, Dagnelie MA, Khammari A, et al. The Skin Microbiome: A New Actor in Inflammatory Acne. Am J Clin Dermatol. 2020 Sep;21(Suppl 1):18-24.

24 Houghteling PD, Walker WA. From Birth to "Immunohealth," Allergies and Enterocolitis. J Clin Gastroenterol. 2015 Nov-Dec;49 Suppl 1(0 1):S7-S12

25 Ley RE, Turnbaugh PJ, Klein S, et al. Microbial ecology: human gut microbes associated with obesity. Nature. 2006 Dec 21;444(7122):1022-3. 

26 Maiuolo J, Gliozzi M, Musolino V, et al. The Contribution of Gut Microbiota-Brain Axis in the Development of Brain Disorders. Front Neurosci. 2021 Mar 23;15:616883. 

27 Qian XH, Song XX, Liu XL, et al. Inflammatory pathways in Alzheimer's disease mediated by gut microbiota. Ageing Res Rev. 2021 Mar 9;68:101317.

28 Lorente-Picón M, Laguna A. New Avenues for Parkinson's Disease Therapeutics: Disease-Modifying Strategies Based on the Gut Microbiota. Biomolecules. 2021 Mar 15;11(3):433. 

29 ILSI Europe, 2013 Probiotics, Prebiotics and the Gut Microbiota. ILSI Europe Concise Monograph. 2013:1-32.

30 Quigley EMM. Prebiotics and Probiotics in Digestive Health. Clin Gastroenterol Hepatol. 2019;17(2):333-344.

31 Tap J, Furet JP, Bensaada M, et al. Gut microbiota richness promotes its stability upon increased dietary fibre intake in healthy adults. Environ Microbiol. 2015 Dec;17(12):4954-64. 

32 Quigley EMM, Gajula P. Recent advances in modulating the microbiome. F1000Res. 2020;9:F1000 Faculty Rev-46. Published 2020 Jan 27.

33 Zmora N, Suez J, Elinav E. You are what you eat: diet, health and the gut microbiota. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2019 Jan;16(1):35-56

34 Wilson AS, Koller KR, Ramaboli MC, et al. Diet and the Human Gut Microbiome: An International Review. Dig Dis Sci. 2020;65(3):723-740. 

35 FAO/OMS, Joint Food and Agriculture Organization of the United Nations/ World Health Organization. Working Group. Report on drafting  guidelines for the evaluation of probiotics in food, 2002.

36 Hill C, Guarner F, Reid G, et al. Expert consensus document. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the scope and appropriate use of the term probiotic. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2014;11(8):506-514.

37 Gibson GR, Roberfroid MB. Dietary modulation of the human colonic microbiota: introducing the concept of prebiotics .J Nutr, 1995; 125:1401-12.

38 Gibson GR, Hutkins R, Sanders ME, et al. Expert consensus document: The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of prebiotics. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2017;14(8):491-502.

39 Markowiak P, Śliżewska K. Effects of Probiotics, Prebiotics, and Synbiotics on Human Health. Nutrients. 2017;9(9):1021.

40 Bay L, Barnes CJ, Fritz BG, et al. Universal Dermal Microbiome in Human Skin. mBio. 2020;11(1):e02945-19. 

41 Neugent ML, Hulyalkar NV, Nguyen VH, et al. Advances in Understanding the Human Urinary Microbiome and Its Potential Role in Urinary Tract Infection. mBio. 2020 Apr 28;11(2):e00218-20.

42 Greenbaum S, Greenbaum G, Moran-Gilad J, et al. Ecological dynamics of the vaginal microbiome in relation to health and disease. Am J Obstet Gynecol. 2019 Apr;220(4):324-335.

43 Radaic A, Kapila YL. The oralome and its dysbiosis: New insights into oral microbiome-host interactions. Comput Struct Biotechnol J. 2021 Feb 27;19:1335-1360.

44 Xu Q, Gill S, Xu L, et al. Comparative Analysis of Microbiome in Nasopharynx and Middle Ear in Young Children With Acute Otitis Media. Front Genet. 2019;10:1176.

45 Mathieu E, Escribano-Vazquez U, Descamps D, et al. Paradigms of Lung Microbiota Functions in Health and Disease, Particularly, in Asthma. Front Physiol. 2018 Aug 21;9:1168.

 

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Microbiota

Diarreia associada a antibióticos

Os antibióticos constituem uma ferramenta poderosa na luta contra as infeções bacterianas. Embora os tratamentos pareçam normalmente resultar sem que surjam efeitos secundários óbvios a curto prazo, o desequilíbrio da microbiota intestinal que eles causam  nos pacientes pode causar diarreia em até 35% destes1-3. Essa diarreia associada aos antibióticos pode, por vezes, ocultar uma infeção intestinal grave.3

A microbiota intestinal Probióticos
Antibiotic-associated diarrhea

Como é que os antibióticos desequilibram a flora intestinal?

Os antibióticos, embora eliminem os (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença. Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) responsáveis por determinada infeção, também podem destruir algumas bactérias benéficas da microbiota, causando sistematicamente um desequilíbrio mais ou menos importante dentro deste ecossistema. Este fenómeno, conhecido por (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) , será a causa da diarreia associada a antibióticos, uma vez que a microbiota intestinal fica com menos capacidade para cumprir as suas funções de proteção. A referida situação pode afetar até 35% dos pacientes,1-3 percentagem que nas crianças pode mesmo atingir os 80%.1

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Antibióticos PT

Além disso, a microbiota intestinal, apesar de possuir um certo nível de resiliência (ou seja, a sua composição regressar a uma composição próxima da que tinha antes do desequilíbrio induzido pelos antibióticos), pode, por vezes, não recuperar inteiramente.4,5 Um estudo recente demonstrou que os antibióticos podem alterar a diversidade e a abundância de bactérias, e que esse desequilíbrio pode ser prolongado (geralmente de 8 a 12 semanas após a cessação do tratamento).1,6

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Antibióticos são bem conhecidos por destruir patógenos, mas poucos sabem que eles também podem eliminar certas bactérias benéficas, chamadas comensais de nossa microbiota

Na maioria dos casos, trata-se de uma diarreia sem outros sintomas 

A principal consequência a curto prazo de um tratamento com antibióticos é uma alteração do trânsito intestinal em alguns pacientes, que na maioria das vezes resulta em diarreia. Esta define-se pela emissão, pelo menos três vezes, de fezes muito moles a líquidas, nas 24 horas seguintes ao início de um  tratamento com antibióticos, ou até 2 meses após a sua cessação.7-9 A incidência da diarreia associada aos antibióticos depende de vários fatores (idade, contexto, tipo de antibiótico, etc.). Na grande maioria dos casos, a diarreia é de origem funcional, ou seja, encontra-se associada a um desequilíbrio da microbiota intestinal, sendo geralmente de intensidade ligeira a moderada.1 Os antibióticos com atividade antimicrobiana de mais largo espectro (ou seja, que atuam sobre um maior número de bactérias) estão associados a taxas mais elevadas de ocorrência de diarreia.3 

Os antibióticos salvam vidas! Sabia que eles também têm impacto na sua microbiota? Sabia que a má utilização e o uso excessivo de antibióticos pode levar à resistência aos antibióticos? Já ouviu falar da Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM (WAAW)? Todas as respostas nesta página :

Antibióticos: que impacto na microbiota e na saúde?

Saiba mais

No entanto, em 10 a 20% dos casos, a diarreia resulta de uma infeção por Clostridioides difficile (C. difficile): uma bactéria que se pode tornar patogénica sob a influência de certos fatores, como a toma de antibióticos, por exemplo, mas também a idade acima dos 65 anos ou mesmo certas patologias associadas3... A colonização da microbiota intestinal por esta bactéria desencadeia uma reação inflamatória, com consequências clínicas que vão desde diarreia moderada até sintomas muito mais graves e mesmo à morte3.

A suspensão da toma de antibióticos é o tratamento mais eficaz?

O tratamento da diarreia associada a antibióticos depende dos sintomas e do agente patogénico (C. difficile, por exemplo).10 Em casos de diarreia leve a moderada, o tratamento baseia-se na interrupção da toma do antibiótico em questão (ou na sua substituição por outro antibiótico com menor probabilidade de causar diarreia), para permitir que a microbiota se restabeleça e que o paciente se reidrate.10

Múltiplos estudos demonstraram já o valor dos probióticos quanto a permitirem a reconstituição da microbiota intestinal: alguns probióticos demonstraram ser eficazes na prevenção e no tratamento da diarreia associada aos antibióticos.13-15 Comprovou-se que há outros probióticos cuja toma durante o tratamento com antibióticos reduz o risco de uma primeira infeção por C. difficile, bem como de infeções recorrentes.6,11,12 Para terminar, o transplante de microbiota fecal, que consiste em implantar por via natural uma microbiota sã na pessoa doente para restaurar o seu ecossistema microbiano, está por enquanto restrito aos casos mais graves de infeções: apenas está indicado para o tratamento de recidivas de infeções pela bactéria patogénica C. difficile16,17

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas, mas não substitui o aconselhamento médico. Em caso de sintomas, não hesite em consultar o seu médico generalista ou o pediatra dos seus filhos.

O que é a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM?

Todos os anos, desde 2015, a OMS organiza a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM (WAAW), que tem como objetivo aumentar a sensibilização para a resistência antimicrobiana mundial.

A resistência antimicrobiana ocorre quando as bactérias, vírus, parasitas e fungos alteram-se com o tempo e já não respondem aos medicamentos. Como resultado da resistência aos medicamentos, os antibióticos e outros medicamentos antimicrobianos tornam-se ineficazes e as infeções tornam-se cada vez mais difíceis ou impossíveis de tratar, aumentando o risco de propagação de doenças, doenças graves e morte.

Realizada entre 18 e 24 de novembro, esta campanha incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizar cuidadosamente antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasíticos, de forma a evitar o surgimento futuro de resistência antimicrobiana. 

Fontes

1 McFarland LV, Ozen M, Dinleyici EC et al. Comparison of pediatric and adult antibiotic-associated diarrhea and Clostridium difficile infections. World J Gastroenterol. 2016;22(11):3078-3104.

2  Bartlett JG. Clinical practice. Antibiotic-associated diarrhea. N Engl J Med 2002;346:334-9.

3  Theriot CM, Young VB. Interactions Between the Gastrointestinal Microbiome and Clostridium difficile. Annu Rev Microbiol. 2015;69:445-461.

4 Dethlefsen L, Relman DA. Incomplete recovery and individualized responses of the human distal gut microbiota to repeated antibiotic perturbation. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011;108 Suppl 1(Suppl 1):4554-4561.

5  Francino MP. Antibiotics and the Human Gut Microbiome: Dysbioses and Accumulation of Resistances. Front Microbiol. 2016;6:1543.

6 Kabbani TA, Pallav K, Dowd SE et al. Prospective randomized controlled study on the effects of Saccharomyces boulardii CNCM I-745 and amoxicillin-clavulanate or the combination on the gut microbiota of healthy volunteers. Gut Microbes. 2017;8(1):17-32.

7 Wiström J, Norrby SR, Myhre EB, et al. Frequency of antibiotic-associated diarrhoea in 2462 antibiotic-treated hospitalized patients: a prospective study. J Antimicrob Chemother. 2001 Jan;47(1):43-50. 

8 McFarland LV. Epidemiology, risk factors and treatments for antibiotic-associated diarrhea. Dig Dis. 1998 Sep-Oct;16(5):292-307. 

9 Bartlett JG, Chang TW, Gurwith M, et al. Antibiotic-associated pseudomembranous colitis due to toxin-producing clostridia. N Engl J Med. 1978 Mar 9;298(10):531-4. 

10 Barbut F, Meynard JL. Managing antibiotic associated diarrhoea. BMJ. 2002 Jun 8;324(7350):1345-6. 

11 Szajewska H, Kołodziej M. Systematic review with meta-analysis: Saccharomyces boulardii in the prevention of antibiotic-associated diarrhoea. Aliment Pharmacol Ther. 2015 Oct;42(7):793-801. 

12 Hempel S, Newberry SJ, Maher AR, et al. Probiotics for the prevention and treatment of antibiotic-associated diarrhea: a systematic review and meta-analysis. JAMA. 2012 May 9;307(18):1959-69. 

13 McFarland LV, Surawicz CM, Greenberg RN, et al. A randomized placebo-controlled trial of Saccharomyces boulardii in combination with standard antibiotics for Clostridium difficile disease. JAMA. 1994 Jun 22-29;271(24):1913-8. 

14 Kotowska M, Albrecht P, Szajewska H. Saccharomyces boulardii in the prevention of antibiotic-associated diarrhoea in children: a randomized double-blind placebo-controlled trial. Aliment Pharmacol Ther. 2005 Mar 1;21(5):583-90. 

15 McFarland LV. Probiotics for the Primary and Secondary Prevention of C. difficile Infections: A Meta-analysis and Systematic Review. Antibiotics (Basel). 2015 Apr 13;4(2):160-78. 

16 Surawicz CM, Brandt LJ, Binion DG, et al. Guidelines for diagnosis, treatment, and prevention of Clostridium difficile infections. Am J Gastroenterol. 2013 Apr;108(4):478-98; quiz 499.

17 Li YT, Cai HF, Wang ZH, et al. Systematic review with meta-analysis: long-term outcomes of faecal microbiota transplantation for Clostridium difficile infection. Aliment Pharmacol Ther. 2016 Feb;43(4):445-57.

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Gastroenterite infeciosa

Crianças, adolescentes, adultos... é difícil não se vir a ter gastroenterite pelo menos uma vez na vida. Ela representa a segunda causa de morte a nível mundial.1 Mas podemos ficar descansados, a gastroenterite infeciosa pode ser prevenida através de medidas de higiene. Está a ser, entretanto, cada vez melhor tratada.2 Além disso, mediante ação no sentido de restaurar a microbiota intestinal, a gravidade e a duração dos sintomas podem ser limitadas.3

A microbiota intestinal Diarreia do viajante
Gastroentérites-bandeau-article-1

O que é a gastroenterite infeciosa? Qual a sua relação com a microbiota intestinal?

A gastroenterite é uma doença diarreica, com sintomas geralmente impressionantes e que desaparecem rapidamente na maioria dos casos.4 Observa-se um desequilíbrio da microbiota intestinal nos pacientes afetados.5 Este pode persistir após a resolução da infeção, e estar associado a um risco agravado de desenvolvimento de patologias crónicas.6

Já sabia?

A palavra "gastroenterite" vem das palavras gregas gastron, que significa "estômago", e enteron, que significa "intestino delgado". Este termo indica que se trata de uma inflamação do estômago e do intestino delgado.7

Geralmente benigna nos países ocidentais, a gastroenterite infeciosa é uma das principais causas de óbito nos países em desenvolvimento, principalmente entre as crianças menores de 5 anos,4 constituindo um grave problema de saúde pública, uma vez representa 10% das causas de morte infantil.1 A mais elevada taxa de mortalidade situa-se nos países em vias de desenvolvimento,8 onde a hospitalização está frequentemente9 ligada aos casos graves de desidratação por ela ocasionados. Qual a sua causa? A ingestão de um microrganismo (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença. Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) : um vírus – este é o caso mais frequente – tratando-se então de uma gastroenterite viral.

O rotavírus é, aliás, um dos principais vírus responsáveis por gastroenterites virais em todo o mundo e por diarreias fatais nas crianças dos países em vias de desenvolvimento, apesar da existência de uma vacina disponível.10 Claro que há outros vírus que também podem ser responsáveis (norovírus, adenovírus, etc.).4 Mas a gastroenterite também pode ser causada por bactérias (gastroenterite bacteriana) ou por parasitas, especialmente quando se viaja.7 No entanto, verifica-se que o agente patogénico raramente é confirmado.11

O contágio ocorre através de alimentos ou água contaminados, ou diretamente mediante o contacto físico de uma pessoa com outra, agravado por medidas de higiene inadequadas.6 Os dados que confirmam a associação entre a microbiota intestinal e a gastroenterite ainda são muito limitados. Contudo, verifica-se um desequilíbrio intestinal ( (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) ) nos pacientes durante a infeção, independentemente da causa da mesma.5,12,13 Há estudos que asseveram que as crianças afetadas por gastroenterite viral grave e complicada, e em particular as infetadas por rotavírus, apresentam diversidade reduzida no seio da sua microbiota intestinal em comparação com as crianças saudáveis.14 Por outro lado, outros estudos sugerem que as alterações na microbiota intestinal podem persistir a longo prazo e ter consequências perniciosas para a saúde, nomeadamente mediante a promoção do desenvolvimento da síndrome do intestino irritável.15 Contudo, os dados atuais sobre a contribuição da microbiota intestinal para o aparecimento, as complicações e a evolução da doença necessitam de investigação mais aprofundada.

Sintomas que às vezes são impressionantes, mas que não duram muito

Além de diarreias (que se definem como a emissão, pelo menos 3 vezes, de fezes moles ou líquidas num dia)6, outros sintomas podem surgir, como  náuseas, vómitos, cólicas abdominais, febre ou ainda anorexia.16 Os sintomas de gastroenterite viral duram normalmente menos de uma semana, apresentando melhoras, regra geral, passados 1 a 3 dias.4 Deve ser prestada especial atenção às crianças, aos idosos e às pessoas imunodeprimidas, que apresentam maior risco de desidratação.4 Em alguns casos, o médico pode ter de prescrever exames complementares (análises às fezes, análises ao sangue, etc.) para excluir a possibilidade de outras patologias.4

Os antibióticos são muitas vezes inúteis ou mesmo contraproducentes 

Independentemente da causa da gastroenterite infeciosa, a terapêutica é sintomática.4 A reidratação constitui o principal tratamento para a diarreia.6 Longe de ser indispensável, o tratamento por antibióticos só se justifica se for confirmada a origem bacteriana da diarreia.11 Se a causa for essencialmente viral, os antibióticos podem até ser contraproducentes.11 Pelo contrário, a toma de probióticos com o objetivo de restaurar a microbiota intestinal pode limitar a extensão e a duração dos sintomas7,17.

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas, mas não substitui o aconselhamento médico. Em caso de sintomas, consulte o seu médico generalista ou o pediatra dos seus filhos.

BMI 21.19
Fontes

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13 Mathew S, Smatti MK, Al Ansari K, et al. Mixed Viral-Bacterial Infections and Their Effects on Gut Microbiota and Clinical Illnesses in Children. Sci Rep. 2019 Jan 29;9(1):865.

14 Chen SY, Tsai CN, Lee YS, et al. Intestinal microbiome in children with severe and complicated acute viral gastroenteritis. Sci Rep. 2017 Apr 11;7:46130. 

15 Beatty JK, Bhargava A, Buret AG. Post-infectious irritable bowel syndrome: mechanistic insights into chronic disturbances following enteric infection. World J Gastroenterol. 2014 Apr 14;20(14):3976-85. 

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17 Dinleyici EC, Eren M, Ozen M, et al. Effectiveness and safety of Saccharomyces boulardii for acute infectious diarrhea. Expert Opin Biol Ther. 2012 Apr;12(4):395-410.

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Doença

A microbiota ORL

O termo ORL inclui três parte do corpo: ouvidos, nariz e garganta (que também inclui a boca). A microbiota ORL (otorrinolaringológica) é composta por três tipos diferentes de flora bacteriana: a microbiota oral, a microbiota auricular e a microbiota nasofaríngea.

ENT microbiota

Várias doenças podem resultar do seu desequilíbrio. 

  • A microbiota oral junta mais de 700 espécies bacterianas, que contribuem para a saúde oral (dentes, gengivas, língua, etc.) e, de uma forma geral, para a saúde como um todo. Uma alteração neste equilíbrio (disbiose), resultado de uma má higiene oral, de um défice imunitário ou de origem genética pode levar a infeções locais (cáries, periodontites, etc.) que podem evoluir ou causar doenças mais graves, como doenças cardiovasculares. Higiene e cuidados dentários continuam a ser o método mais efetivo de prevenção.
  • No canal auditivo, a composição da microbiota auricular é muito aproximada à da pele. Trabalhos recentes mostraram a presença inofensiva de Alloiococcus otitis e Corynebacterium otitidis, duas espécies bacterianas que até hoje só tinham sido associadas a infeções do ouvido médio.  Esta descoberta sugere que o canal auditivo funciona como um reservatório de infeções para o ouvido médio.
  • Ainda que próxima da microbiota oral, a microbiota nasofaríngea, que cobre a vias áreas e a faringe, é composta por germes muito diferentes.

Analisar a microbiota ORL pode levar a diagnósticos precoces de várias doenças que surgem por causa da (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) e pode ainda contribuir para o desenvolvimento da medicina personalizada com base em probióticos

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Microbiota

A microbiota pulmonar

Porque é que a microbiota pulmonar é tão importante para a saúde?     

Durante muito tempo, os investigadores pensavam que um pulmão saudável era um pulmão estéril1. Falso! A riqueza da microbiota pulmonar tornou-se uma realidade médica há apenas uma dezena de anos2. E, desde então, tem sido difícil revelar os seus segredos…

A microbiota ORL
Pulmonary Tract Microbiota

Resumo

  1. O que é a microbiota pulmonar?
  2. Porque é que a microbiota pulmonar tem um papel importante para a saúde?
  3. Quais são as doenças associadas a um desequilíbrio da microbiota pulmonar?
  4. Como pode cuidar da sua microbiota pulmonar?

O que é a microbiota pulmonar?

Ao contrário da sua irmã microbiota intestinal, a microbiota pulmonar só foi estudada muito recentemente. Este atraso é explicado, em parte, pela dificuldade em obter amostras e em aceder ao órgão, duas operações que exigem, muitas vezes, um método invasivo3. Além disso, o risco de contaminação das vias respiratórias superiores pelas bactérias constitui um desafio real4. A primeira identificação de uma flora pulmonar remonta a 20105 e, desde então, foram feitos poucos estudos para decifrar o papel das comunidades de microrganismos aí existentes3.  

No entanto, podemos resumir os conhecimentos sobre a composição da microbiota pulmonar em três pontos:

  • Uma baixa densidade de bactérias5
  • Uma forte biodiversidade. Em indivíduos saudáveis, as bactérias dominantes ao nível dos pulmões pertencem aos géneros Prevotella, Veillonella, Streptococcus, Neisseria, Fusobacterium e Haemophilus5. O seu equilíbrio está assente no ritmo entre as inspirações e as expirações6.
  • Uma grande abundância de bactérias consideradas "anaeróbias", ou seja, que se desenvolvem na ausência de oxigénio7. Trata-se de espécies bacterianas que pertencem aos géneros Fusobacterium, Porphyromonas, PrevotellaVeillonella7.

Além disso, as bactérias não são os únicos (sidenote: Microrganismos Organismos vivos que são demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Incluem as bactérias, os vírus, os fungos, as arqueias, os protozoários, etc., e são vulgarmente designados "micróbios". What is microbiology? Microbiology Society. ) que se desenvolvem ao nível da microbiota pulmonar de indivíduos saudáveis! Aí também existem fungos (espécies pertencentes aos géneros Eremothecium, Systenostrema e Malassezia e à família Davidiellaceae), bem como vírus (espécies pertencentes à família Anelloviridae, além de um número elevado de (sidenote: Bacteriófago Vírus que infeta as bactérias Scitable by Nature education_2014. Bacteriophage definition ) )2. Descobertas mais recentes detetaram a presença de (sidenote: Arqueia Tipo de microrganismos (diferentes das bactérias), que se encontram em todos os ambientes e também em meios extremos Archaea. Microbiology Society ) ao nível pulmonar. Por último, embora estes microrganismos façam parte da microbiota pulmonar8, atualmente está disponível um conjunto limitado de dados.

Porque é que a microbiota pulmonar tem um papel importante para a saúde?

A microbiota pulmonar tem um papel crucial para a preservação do equilíbrio da função pulmonar. São-lhe atribuídas 4 grandes funções:

  • Funciona como uma barreira contra os agentes patogénicos e ajuda a resistir às infeções respiratórias9, exatamente como a microbiota intestinal
  • Tem um papel defensivo ao participar ativamente na estimulação da (sidenote: Imunidade inata e adaptativa O corpo humano garante a sua proteção graças a 2 tipos de mecanismos de defesa: a imunidade inata e a imunidade adaptativa. A imunidade inata é a primeira linha de defesa contra os agentes infeciosos, sendo uma reação imediata. Por sua vez, a imunidade adaptativa intervém mais tarde, mas visa uma proteção duradoura Janeway CA Jr, Travers P, Walport M, et al. Immunobiology: The Immune System in Health and Disease. 5th edition. New York: Garland Science; 2001. Principles of innate and adaptive immunity. ) em caso de infeções10,11
  • Intervém no amadurecimento do sistema imunitário pulmonar a fim de permitir, entre outros, uma tolerância aos alergénios12
  • Influencia a morfologia dos pulmões, concretamente o número de alvéolos pulmonares, de acordo com estudos realizados em ratinhos13

Quais são as doenças associadas a um desequilíbrio da microbiota pulmonar?

Quando a composição da microbiota pulmonar está desequilibrada, surge uma disbiose, que pode estar associada a diferentes doenças. Até agora, os estudos científicos nem sempre permitiram determinar se a disbiose é a causa ou a consequência destas doenças.

Analisemos melhor determinadas perturbações associadas a uma disbiose pulmonar:

  • as infeções respiratórias de inverno, como a constipação, a gripe (mais frequentemente de origem viral) em que se verifica um desequilíbrio da imunidade pulmonar, bem como uma disbiose pulmonar e intestinal15
  • a asma16: uma doença crónica do sistema respiratório que afeta mais de 260 milhões de pessoas em todo o mundo17. Um desequilíbrio da microbiota pulmonar16, mas também intestinal18 e nasal19 está associado a esta patologia
  • a mucoviscidose, uma doença hereditária rara que afeta principalmente as vias respiratórias e o sistema digestivo20
  • a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), caracterizada por um estreitamento progressivo e uma obstrução permanente das vias respiratórias e dos pulmões, provocando um desconforto respiratório16

"Eixo intestinos-pulmões"

Estas patologias realçam a comunicação bidirecional entre os intestinos e os pulmões, referida como "eixo intestinos-pulmões"15. A microbiota intestinal participa nas respostas imunológicas pulmonares, e as patologias pulmonares podem igualmente influenciar a composição da microbiota intestinal15. Com efeito, várias patologias respiratórias são, muitas vezes, acompanhadas de perturbações gastrointestinais21 e, por seu lado, a disbiose intestinal está, muitas vezes, associada a patologias pulmonares16. O envolvimento deste eixo nas patologias pulmonares constitui um domínio muito promissor22.

Como pode cuidar da sua microbiota pulmonar?

Agora já conhece o papel importante desempenhado pela microbiota pulmonar e o eixo intestinos-pulmões na sua saúde. Os investigadores compreenderam-no bem e atualmente trabalham no estudo de estratégias que visam evitar ou curar as infeções pulmonares23,24.

Em relação à prevenção das infeções respiratórias de inverno, a associação de probióticos com prebióticos apresentou resultados encorajadores25. No bebé, determinados probióticos permitem evitar as infeções de inverno desde os primeiros meses de vida26. Por último, alguns estudos realizados em estudantes revelaram o interesse dos probióticos em tratamento, para diminuir significativamente a duração dos sintomas27,28.
 

Todas as informações contidas neste artigo têm origem em fontes científicas autorizadas. Relembramos que estas informações não são exaustivas. Consulte a lista anexa dos estudos em que foram obtidas estas informações. 

Observatório Internacional de Microbiotas

Descubra os resultados de 2023
Fontes

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Koskinen K, Pausan MR, Perras AK, et al. First Insights into the Diverse Human Archaeome: Specific Detection of Archaea in the Gastrointestinal Tract, Lung, and Nose and on Skin. mBio. 2017 Nov 14;8(6):e00824-17.

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14 Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232.

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17 World Health Organization. 2021. Asthma. World Health Organization, Geneva, Switzerland. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/asthm

18 Abrahamsson TR, Jakobsson HE, Andersson AF, et al. Low gut microbiota diversity in early infancy precedes asthma at school age. Clin Exp Allergy. 2014 Jun;44(6):842-50.

19 Kang HM, Kang JH. Effects of nasopharyngeal microbiota in respiratory infections and allergies. Clin Exp Pediatr. 2021 Apr 15.

20 Hardouin P, Chiron R, Marchandin H, et al. Metaproteomics to Decipher CF Host-Microbiota Interactions: Overview, Challenges and Future Perspectives. Genes (Basel). 2021 Jun 9;12(6):892.

21 Sencio V, Machado MG, Trottein F. The lung-gut axis during viral respiratory infections: the impact of gut dysbiosis on secondary disease outcomes. Mucosal Immunol. 2021 Mar;14(2):296-304.

22 Budden KF, Gellatly SL, Wood DL, et al. Emerging pathogenic links between microbiota and the gut-lung axis. Nat Rev Microbiol. 2017 Jan;15(1):55-63.

23 Park MK, Ngo V, Kwon YM, et al. Lactobacillus plantarum DK119 as a probiotic confers protection against influenza virus by modulating innate immunity. PLoS One. 2013 Oct 4;8(10):e75368.

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26 Rautava S, Salminen S, Isolauri E. Specific probiotics in reducing the risk of acute infections in infancy--a randomised, double-blind, placebo-controlled study. Br J Nutr. 2009 Jun;101(11):1722-6.

27 Smith TJ, Rigassio-Radler D, Denmark R, et al. Effect of Lactobacillus rhamnosus LGG® and Bifidobacterium animalis ssp. lactis BB-12® on health-related quality of life in college students affected by upper respiratory infections. Br J Nutr. 2013 Jun;109(11):1999-2007.

28 Wang Y, Li X, Ge T, et al. Probiotics for prevention and treatment of respiratory tract infections in children: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Medicine (Baltimore). 2016 Aug;95(31):e4509.

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Microbiota

Diarreia do viajante

Aviso aos viajantes e globetrotters vítimas da temível "doença do turista"! Esta infeção, geralmente benigna, que afeta a microbiota intestinal1 chama-se, na realidade, diarreia do viajante. Muito frequentemente, poderá manifestar-se em 10 a 40% dos turistas2 que realizem passeios de 2 semanas, dependendo do país visitado e das características de cada viajante. Em viagens em regiões tropicais ou subtropicais, pode afetar até 60% dos viajantes!3 Diferente em múltiplos aspetos da gastroenterite, ambas causam diarreias.2

A microbiota intestinal Diarreia associada a antibióticos MICROREVELE #2: Zoom na microbiota intestinal
Travelers’ diarrhea

O que é a diarreia do viajante?

Ao contrário da crença popular, a diarreia do viajante não está relacionada com alimentos exóticos mal digeridos por estômagos que não estão habituados. Trata-se de uma verdadeira infeção, que pode ser causada por uma bactéria (Escherichia coli, Salmonella, Shigella, Campylobacter), caso que é o mais frequente.2 Por vezes pode dever-se a um parasita (Giardia, Cryptosporidium, etc.), ou a um vírus (norovírus, rotavírus).2 O agente patogénico responsável pela diarreia só é encontrado em 40 a 60% dos viajantes sintomáticos.4 Os principais vetores dos germes em causa são os alimentos contaminados (em especial vegetais crus, carne ou peixe mal cozinhado, frutas com casca, etc.), bem como água contaminada.5 Pode também ser transmitida a outras pessoas através do contacto, quando não se cumprem as regras mínimas de higiene.5

40 a 60% O agente patogénico responsável pela diarreia só é encontrado em 40 a 60% dos viajantes sintomáticos

E a microbiota no meio disto tudo? 

Um dos papeis da microbiota intestinal é prevenir e limitar as invasões de agentes patogénicos intestinais.6 Embora a "doença do turista" seja frequente, não deixa por isso de ter consequências. De facto, a diarreia (qualquer que seja o agente patogénico) perturba, pelo menos temporariamente, o equilíbrio da microbiota intestinal, causando a (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) .1 Este desequilíbrio pode ter consequências a longo prazo, aumentando nomeadamente o risco de se vir a sofrer de síndrome do cólon irritável pós-infeciosa,7 a qual poderá manifestar-se em 3% a 17% dos pacientes.2 Muito recentemente, uma equipa de investigação demonstrou que viajantes suecos eram mais propensos a contrair uma infeção bacteriana por Campylobacter durante as suas viagens sempre que a sua microbiota intestinal era menos rica em microrganismos em comparação com as pessoas que não se infetavam nessas mesmas viagens.8 Outra equipa comprovou que a ocorrência de diarreia durante a viagem estava associada com uma maior proporção de uma bactéria específica (Prevotella copri) nos seus intestinos, antes e depois do regresso da viagem.9 Será que a composição da microbiota intestinal dos viajantes permitirá avaliar o risco de surgir diarreia durante a viagem? Como há ainda poucos estudos, isso está ainda por confirmar!

Quais são os sintomas da diarreia do viajante?

Os sintomas e a duração variam de acordo com a causa4 (bactéria, vírus ou parasita) e permanecem, em média, entre 4 e 5 dias sem tratamento2. Às defecações abundantes, pouco consistentes ou líquidas, (pelo menos 3 por dia),5 soma-se pelo menos um dos seguintes sintomas: febre, náuseas, vómitos, cólicas abdominais e uma necessidade premente se ir à casa de banho.2 O principal risco é o de desidratação provocada pelas fezes líquidas frequentes. As pessoas de risco são as mais suscetíveis de necessitarem de hospitalização (crianças, idosos ou doentes crónicos com o sistema imunitário enfraquecido).2

Ilustração diarreia do viajante:10

Ligeira

Diarreia tolerável, que não cria dificuldades de maior nem interfere nas atividades previstas.

Moderada

Diarreia que limita ou que interfere nas atividades previstas.

Grave

Diarreia debilitante implicando incapacidade total de realizar as atividades previstas. A disenteria, ou seja, uma diarreia acompanhada de sangue e/ou muco é considerada uma diarreia grave.

Persistente

Diarreia com duração superior a 2 semanas.

Como prevenir e tratar a diarreia do viajante?

A prevenção da diarreia do viajante baseia-se sobretudo na higiene: lavagem frequente das mãos e precauções alimentares.5 Não hesite em aconselhar-se com o seu médico ou farmacêutico antes de viajar. A reidratação é fundamental no tratamento da diarreia do viajante:5 água limpa (água engarrafada ou potável), tisanas e chás de ervas, para beber frequentemente e em pequenas quantidades. Recomenda-se a ingestão de alimentos ligeiramente doces e/ou salgados (os alimentos sólidos não são contraindicados).4 Em alguns casos, podem ser receitados antidiarreicos.10 Estes permitem reduzir o risco de desidratação. Também podem ser necessários antibióticos em alguns casos. No entanto, estes podem causar uma redução da diversidade da microbiota intestinal, a qual perde assim a sua força de barreira contra as espécies (sidenote: Agente patogénico Um agente patogénico é um microrganismo que provoca ou pode provocar uma doença. Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. ) , e provoca a seleção de bactérias resistentes aos antibióticos.11 É por isso que eles só são recomendados nos casos de diarreia grave e em alguns casos de diarreia moderada,10 sob a supervisão de um médico. Os probióticos poderão ser úteis numa perspetiva preventiva,12 e para limitar  a extensão e a duração dos sintomas.13,14

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas, mas não substitui o aconselhamento médico. Em caso de sintomas, consulte o seu médico generalista.

Fontes

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8 Kampmann C, Dicksved J, Engstrand L, et al. Composition of human faecal microbiota in resistance to Campylobacter infection. Clin Microbiol Infect. 2016 Jan;22(1):61.e1-61.e8.

9 Leo S, Lazarevic V, Gaïa N, et al. The intestinal microbiota predisposes to traveler's diarrhea and to the carriage of multidrug-resistant Enterobacteriaceae after traveling to tropical regions. Gut Microbes. 2019;10(5):631-641.

10 Riddle MS, Connor BA, Beeching NJ, et al. Guidelines for the prevention and treatment of travelers' diarrhea: a graded expert panel report. J Travel Med. 2017 Apr 1;24(suppl_1):S57-S74.

11 McDonald LC. Effects of short- and long-course antibiotics on the lower intestinal microbiome as they relate to traveller's diarrhea. J Travel Med. 2017 Apr 1;24(suppl_1):S35-S38.

12 McFarland LV. Systematic review and meta-analysis of Saccharomyces boulardii in adult patients. World J Gastroenterol. 2010 May 14;16(18):2202-22. 

13 Dinleyici EC, Eren M, Ozen M, et al. Effectiveness and safety of Saccharomyces boulardii for acute infectious diarrhea. Expert Opin Biol Ther. 2012 Apr;12(4):395-410.

14 Allen SJ, Martinez EG, Gregorio GV, et al. Probiotics for treating acute infectious diarrhoea. Cochrane Database Syst Rev. 2010 Nov 10;2010(11):CD003048. 

15 Pirofski LA, Casadevall A. Q and A: What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biol. 2012 Jan 31;10:6. 

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Doença

Candidíase

70 a 75% das mulheres sofrem episódios de candidíase vaginal pelo menos uma vez na vida1. Prurido e corrimento vaginal anormal... Os sintomas podem ser particularmente incómodos no dia a dia. E se que essa infeção fosse promovida pelo desequilíbrio da sua microbiota vaginal?2

A microbiota vaginal
Vaginal microbiota

O que é a candidíase vaginal?

A candidíase vaginal é uma infeção da vulva e da vagina, provocada por um fungo do tipo levedura – Candida albicans na maioria dos casos3. Esta infeção é considerada a segunda mais vulgar entre as doenças infeciosas vaginais, a seguir à vaginose bacteriana1. É importante consultar um médico para confirmar o diagnóstico, porque os seus sintomas não são muito específicos; a maioria das manifestações clínicas mais vulgares desta infeção são os corrimentos vaginais anormais (leucorreia), o prurido genital e a sensação de queimadura acompanhada de dores ou irritações vaginais, que podem conduzir a (sidenote: Dispareunia Dor genital recorrente ou persistente que se manifesta durante as relações sexuais. ) ou a (sidenote: Disúria Termo utilizado para descrever uma micção (ação de urinar) dolorosa, muitas vezes descrita pelo doente como uma sensação de queimadura, formigueiro ou prurido ) 1.

42% Menos de 1 em cada 2 mulheres afirmam que o seu médico lhes explicou como manter uma microbiota vaginal equilibrada ou a importância de manter o melhor equilíbrio possível da sua microbiota vaginal

A microbiota vaginal está implicada?

A microbiota vaginal de cada mulher, que é única e diferente das outras microbiotas, apresenta reduzida diversidade quando bem equilibrada4: as espécies do género (sidenote: Lactobacilos Bactérias em forma de bastonete cuja característica principal é a de produzirem ácido láctico. É por essa razão que se fala em “bactérias do ácido láctico”. 
Estas bactérias estão presentes no ser humano ao nível das microbiotas oral, vaginal e intestinal, mas também nas plantas ou nos animais. Podem ser consumidas nos produtos fermentados: em produtos lácteos, como o iogurte e alguns queijos, e também em outros tipos de alimentos fermentados – picles, chucrute, etc..
Os lactobacilos são também consumidos em produtos que contêm probióticos, com algumas espécies a serem conhecidas pelas suas propriedades benéficas.   W. H. Holzapfel et B. J. Wood, The Genera of Lactic Acid Bacteria, 2, Springer-Verlag, 1st ed. 1995 (2012), 411 p. « The genus Lactobacillus par W. P. Hammes, R. F. Vogel Tannock GW. A special fondness for lactobacilli. Appl Environ Microbiol. 2004 Jun;70(6):3189-94. Smith TJ, Rigassio-Radler D, Denmark R, et al. Effect of Lactobacillus rhamnosus LGG® and Bifidobacterium animalis ssp. lactis BB-12® on health-related quality of life in college students affected by upper respiratory infections. Br J Nutr. 2013 Jun;109(11):1999-2007.
)
são predominantes, mas também há leveduras (Candida albicans) em quantidades mais reduzidas.5 

Ao longo dos vários episódios da vida de uma mulher, o ecossistema vaginal evolui6. Esse desenvolvimento é normal e é influenciado pelo ciclo menstrual, a puberdade e a menopausa, e pela atividade sexual, a contraceção, a higiene íntima e as gravidezes.7,8,9

Quando o ecossistema vaginal é desequilibrado (por um tratamento com antibióticos, irrigações vaginais, stress, tabagismo, etc. )2,6, acontece o que se designa por (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) : os Lactobacillus deixam de ser predominantes, e algumas (sidenote: Infeção oportunista Infeção causada por um microrganismo normalmente não patogénico, mas que o pode tornar-se quando o seu anfitrião se encontra em desequilíbrio (há múltiplos fatores que podem causar esse desequilíbrio: enfraquecimento do sistema imunitário, doença, idade, certas drogas, etc.). ) têm a possibilidade de proliferar. É o que sucede no caso da candidíase: as Candida – que são leveduras normalmente presentes na vagina e nos intestinos5 – aumentam de forma anormal e tornam-se agentes patogénicos em determinadas condições. Por exemplo, estima-se que após um tratamento com antibióticos, 10 a 30% das mulheres sofram de candidíase vulvovaginal10.

10 a 30% das mulheres sofram de candidíase vulvovaginal após um tratamento com antibióticos

Existem outros fatores de risco que podem aumentar o risco de se desencadear uma infeção1: a toma de  corticosteroides, a gravidez, as doenças que implicam diminuição da resposta imunitária, a diabetes mal controlada, mas também os contracetivos orais, a utilização de dispositivo intrauterino, etc.. Há muitos fatores que têm sido identificados, sem que os respetivos mecanismos estejam inteiramente compreendidos11

Antifúngicos e probióticos

O tratamento tradicional da candidíase vaginal é uma terapêutica antifúngica, mediante administração local ou por via oral11. No entanto, podem ocorrer recidivas, e há novas abordagens terapêuticas a serem avaliadas11. Trabalhos recentes sugerem que probióticos tomados por via oral ou de aplicação tópica (cápsulas ou óvulos) poderão reequilibrar a microflora vaginal e reduzir a frequência da recorrência das infeções por Candida.12,13

Para se reduzir o risco de infeção, é recomendado que se cumpram algumas práticas de higiene pessoal. São gestos a adotar diariamente para cuidar da sua microbiota vaginal.

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas. Em caso de sintomas, não hesite em consultar o seu médico generalista ou o seu ginecologista.

Fontes:

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2 Riepl M. Compounding to Prevent and Treat Dysbiosis of the Human Vaginal Microbiome. Int J Pharm Compd. 2018 Nov-Dec;22(6):456-465.

3 Ceccarani C, Foschi C, Parolin C, et al. Diversity of vaginal microbiome and metabolome during genital infections. Sci Rep. 2019 Oct 1;9(1):14095.

4 Gupta S, Kakkar V, Bhushan I. et al. Crosstalk between Vaginal Microbiome and Female Health: A review. Microb Pathog. 2019 Aug 23;136:103696.

5 d'Enfert C, Kaune AK, Alaban LR, et al. The impact of the Fungus-Host-Microbiota interplay upon Candida albicans infections: current knowledge and new perspectives. FEMS Microbiol Rev. 2020 Nov 24:fuaa060. 

6 Amabebe E, Anumba DOC. The Vaginal Microenvironment: The Physiologic Role of Lactobacilli. Front Med (Lausanne). 2018 Jun 13;5:181.

7 Gupta P, Singh MP, Goyal K. Diversity of Vaginal Microbiome in Pregnancy: Deciphering the Obscurity. Front Public Health. 2020 Jul 24;8:326.

8 Greenbaum S, Greenbaum G, Moran-Gilad J, Weintraub AY. Ecological dynamics of the vaginal microbiome in relation to health and disease. Am J Obstet Gynecol. 2019 Apr;220(4):324-335.

9 Lewis FM, Bernstein KT, Aral SO. Vaginal Microbiome and Its Relationship to Behavior, Sexual Health, and Sexually Transmitted Diseases. Obstet Gynecol. 2017;129(4):643-654.

10  Shukla A, Sobel JD. Vulvovaginitis Caused by Candida Species Following Antibiotic Exposure. Curr Infect Dis Rep. 2019 Nov 9;21(11):44.

11 de Cássia Orlandi Sardi, J, Silva, D.R, et al. Vulvovaginal Candidiasis: Epidemiology and Risk Factors, Pathogenesis, Resistance, and New Therapeutic Options. Curr Fungal Infect Rep 15, 32–40 (2021). 

12 Strus M, Chmielarczyk A, Kochan P, et al. Studies on the effects of probiotic Lactobacillus mixture given orally on vaginal and rectal colonization and on parameters of vaginal health in women with intermediate vaginal flora. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2012 Aug;163(2):210-5. 

13 Vujic G, Jajac Knez A, Despot Stefanovic V, et al. Efficacy of orally applied probiotic capsules for bacterial vaginosis and other vaginal infections: a double-blind, randomized, placebo-controlled study. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2013 May;168(1):75-9. 

14 Chen Y, Bruning E, Rubino J, et al. Role of female intimate hygiene in vulvovaginal health: Global hygiene practices and product usage. Womens Health (Lond). 2017 Dec;13(3):58-67.

15 Hill DA, Taylor CA. Dyspareunia in Women. Am Fam Physician. 2021 May 15;103(10):597-604.

 

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Doença

Vaginose bacteriana - um desequilíbrio na microbiota vaginal

Patologia ginecológica que é a mais frequente nas mulheres em idade fértil, a vaginose bacteriana afeta entre 23% e 29% da população feminina mundial1 . Com esta patologia, é tudo ou nada: tanto pode passar completamente despercebida... como alterar significativamente a vida das mulheres. Embora a causa permaneça até hoje desconhecida, a pista do desequilíbrio da microbiota vaginal parece confirmar-se2 .

  • 1Peebles K, Velloza J, Balkus JE, et al. High Global Burden and Costs of Bacterial Vaginosis: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sex Transm Dis. 2019 May;46(5):304-311.
  • 2Chen X, Lu Y, Chen T, et al. The Female Vaginal Microbiome in Health and Bacterial Vaginosis. Front Cell Infect Microbiol. 2021 Apr 7;11:631972.
A microbiota vaginal A prevenção da vaginose bacteriana pode depender do que come Vaginose bacteriana: pode ser provocada pelo homem? Vaginose bacteriana: poderá haver em breve um transplante de microbiota vaginal?
Is bacterial vaginosis a disease?

O que é a vaginose bacteriana?

A vaginose bacteriana é uma doença perniciosa e difícil de detetar. Já sabia? 50% das mulheres são  assintomáticas, outras sofrem de irritações locais ou de corrimento vaginal com odor fétido1 .

Na prática, os médicos usam a classificação de Amsel2 para diagnosticar a vaginose bacteriana. Este método baseia-se na presença de pelo menos três dos seguintes critérios:

  • Corrimento vaginal fino e homogéneo
  • pH vaginal superior a 4,5
  • Odor de amina (que, de facto, corresponde ao cheiro a peixe) após análise específica realizada em esfregaço vaginal
  • Corrimento vaginal identificado na sequência de exame microscópico: presença de células de tecido vaginal às quais aderem múltiplas bactérias

Há muitos fatores de risco associados a esta doença: a idade, o ciclo menstrual, a gravidez, o historial sexual, e também as irrigações vaginais e o tabagismo1 . A disbiose vaginal induzida por tratamentos com antibióticos pode também contribuir para o desenvolvimento posterior de vaginose bacteriana, no que constitui um verdadeiro círculo vicioso, uma vez que esses mesmos antibióticos podem ser utilizados para tratar infeção1 .

Por fim, as mulheres com vaginose bacteriana têm uma maior probabilidade de virem a contrair infeções sexualmente transmissíveis (ISTs): herpes, papilomas humanos (HPV) ou SIDA, e também infeções bacterianas3 4 .

  • a b c
    Coudray MS, Madhivanan P. Bacterial vaginosis-A brief synopsis of the literature. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2019 Dec 24;245:143-148
  • 2Onderdonk AB, Delaney ML, Fichorova RN. The Human Microbiome during Bacterial Vaginosis. Clin Microbiol Rev. 2016 Apr;29(2):223-38.
  • 3Lewis FM, Bernstein KT, Aral SO. Vaginal Microbiome and Its Relationship to Behavior, Sexual Health, and Sexually Transmitted Diseases. Obstet Gynecol. 2017;129(4):643-654.
  • 4Torcia MG. Interplay among Vaginal Microbiome, Immune Response and Sexually Transmitted Viral Infections. Int J Mol Sci. 2019;20(2):266.

50% das mulheres são  assintomáticas, outras sofrem de irritações locais ou de corrimento vaginal com odor fétido

Existe alguma relação com a microbiota vaginal?

A vaginose bacteriana é associada a um desequilíbrio da microbiota vaginal1 , que é o que designamos de (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) . Mas regressemos ao básico: a microbiota vaginal é dominada por várias espécies de bactérias, os (sidenote: Lactobacilos Bactérias em forma de bastonete cuja característica principal é a de produzirem ácido láctico. É por essa razão que se fala em “bactérias do ácido láctico”. 
Estas bactérias estão presentes no ser humano ao nível das microbiotas oral, vaginal e intestinal, mas também nas plantas ou nos animais. Podem ser consumidas nos produtos fermentados: em produtos lácteos, como o iogurte e alguns queijos, e também em outros tipos de alimentos fermentados – picles, chucrute, etc..
Os lactobacilos são também consumidos em produtos que contêm probióticos, com algumas espécies a serem conhecidas pelas suas propriedades benéficas.   W. H. Holzapfel et B. J. Wood, The Genera of Lactic Acid Bacteria, 2, Springer-Verlag, 1st ed. 1995 (2012), 411 p. « The genus Lactobacillus par W. P. Hammes, R. F. Vogel Tannock GW. A special fondness for lactobacilli. Appl Environ Microbiol. 2004 Jun;70(6):3189-94. Smith TJ, Rigassio-Radler D, Denmark R, et al. Effect of Lactobacillus rhamnosus LGG® and Bifidobacterium animalis ssp. lactis BB-12® on health-related quality of life in college students affected by upper respiratory infections. Br J Nutr. 2013 Jun;109(11):1999-2007.
)
. Essas bactérias permitem que se mantenha um pH ácido no seio da microbiota vaginal, o que previne a proliferação de bactérias patogénicas2 . Estão também presentes leveduras (Candida albicans), porém em menor quantidade3

Quando há vaginose bacteriana, esta flora microbiana é substituída por uma flora  polimicrobiana que integra múltiplas bactérias (Gardnerella, Atopobium, Prevotella, Mobiluncus, etc.)1 . Isto provoca o aumento do pH da microbiota vaginal (que normalmente é muito ácido),  atribuído principalmente à diminuição da flora predominante de Lactobacillus4 . Mas isso não é assim tão simples! A mera presença de certas espécies dessa flora polimicrobiana não parece causar infeções, ou seja, uma mulher não vai necessariamente apresentar sintomas se tiver na vagina espécies como Atopobium, ou Prevotella... De facto, a espécie Gardnerella vaginalis está presente em 90% das pacientes sintomáticas e em 45% das mulheres saudáveis5 . Esta bactéria foi por muito tempo considerada como o principal agente patogénico da vaginose bacteriana, antes de novas linhas de investigação terem revelado que a vagina pode ser colonizada por ela sem que surja infeção6 . A investigação continua, no sentido de identificar mais precisamente as causas desta infeção, que continuam ainda por determinar7 .

  • a b
    Chen X, Lu Y, Chen T, et al. The Female Vaginal Microbiome in Health and Bacterial Vaginosis. Front Cell Infect Microbiol. 2021 Apr 7;11:631972.
  • 2Greenbaum S, Greenbaum G, Moran-Gilad J, et al. Ecological dynamics of the vaginal microbiome in relation to health and disease. Am J Obstet Gynecol. 2019 Apr;220(4):324-335.
  • 3d'Enfert C, Kaune AK, Alaban LR, et al. The impact of the Fungus-Host-Microbiota interplay upon Candida albicans infections: current knowledge and new perspectives. FEMS Microbiol Rev. 2020 Nov 24:fuaa060.
  • 4Aldunate M, Srbinovski D, Hearps AC, et al. Antimicrobial and immune modulatory effects of lactic acid and short chain fatty acids produced by vaginal microbiota associated with eubiosis and bacterial vaginosis. Front Physiol. 2015 Jun 2;6:164.
  • 5Onderdonk AB, Delaney ML, Fichorova RN. The Human Microbiome during Bacterial Vaginosis. Clin Microbiol Rev. 2016 Apr;29(2):223-38.
  • 6Muzny CA, Taylor CM, Swords WE, et al. An Updated Conceptual Model on the Pathogenesis of Bacterial Vaginosis. J Infect Dis. 2019 Sep 26;220(9):1399-1405.
  • 7Coudray MS, Madhivanan P. Bacterial vaginosis-A brief synopsis of the literature. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2019 Dec 24;245:143-148

35% Apenas 1 em cada 3 mulheres sabe que a vaginose bacteriana está associada a um desequilíbrio da microbiota vaginal

69% Quase 7 em cada 10 mulheres sabem que os antibióticos podem alterar a microbiota vaginal.

Vaginose bacteriana: como evitá-la?

O tratamento é exclusivamente aconselhado às mulheres com sintomas. As mais recentes recomendações médicas estabelecem que sejam receitados antibióticos por via oral ou vaginal1 .  No entanto, embora estes possam ajudar a aliviar os sintomas, é infelizmente muito vulgar as pacientes terem recaídas2 .

Contudo, existem várias formas de reduzir as suas hipóteses de sofrer de vaginose! Evite determinados fatores de risco, como as irrigações vaginais, o tabagismo3 , etc.. E, para restaurar o equilíbrio da microbiota vaginal, a administração de probióticos por via vaginal ou oral4 5 , pode ser recomendada para o tratamento ou a prevenção de recaídas da doença.

  • 1Chen X, Lu Y, Chen T, et al. The Female Vaginal Microbiome in Health and Bacterial Vaginosis. Front Cell Infect Microbiol. 2021 Apr 7;11:631972.
  • 2Bradshaw CS, Brotman RM. Making inroads into improving treatment of bacterial vaginosis - striving for long-term cure. BMC Infect Dis. 2015 Jul 29;15:292.
  • 3Coudray MS, Madhivanan P. Bacterial vaginosis-A brief synopsis of the literature. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2019 Dec 24;245:143-148
  • 4López-Moreno A, Aguilera M. Vaginal Probiotics for Reproductive Health and Related Dysbiosis: Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med. 2021 Apr 2;10(7):1461.
  • 5Koirala R, Gargari G, Arioli S, et al. Effect of oral consumption of capsules containing Lactobacillus paracasei LPC-S01 on the vaginal microbiota of healthy adult women: a randomized, placebo-controlled, double-blind crossover study. FEMS Microbiol Ecol. 2020 Jun 1;96(6):fiaa084.

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas. Em caso de sintomas, não hesite em consultar o seu médico generalista ou o seu ginecologista.

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Doença

Cólica do lactente

"Os gritos do meu recém-nascido? São o som mais angustiante que já ouvi ",1 confessam muitos pais, impotentes ao tentarem acalmar o choro inexplicável do seu bebé, e que chegam desesperados ao consultório do seu pediatra.  Os sintomas são muitas vezes difíceis de identificar e podem representar uma dura prova para os pais... por isso é necessário saber reconhecê-los... e compreendê-los! E se a chave estiver na microbiota intestinal do seu bebé?

A microbiota intestinal
Infantile colic

O que é a cólica infantil?

A cólica infantil caracteriza-se por choro excessivo e de causa desconhecida em crianças geralmente saudáveis. As possíveis causas dessas cólicas poderão ser indagadas entre as perturbações gastrointestinais2 (imaturidade do trato gastrointestinal, alergia ou intolerância ao leite de vaca, refluxo dos bebés3), mas há outras causas não relacionadas com o sistema gastrointestinal3 que também são estudadas, como o stress parental4 ou o tabagismo materno.2

As cólicas são vulgares nos bebés, mas os seus sintomas, a começar pelo choro contínuo da criança, podem ser uma fonte de preocupação para os pais.

Já sabia?

A palavra "cólica" vem do grego "κoλικóς, kolikos", referente ao cólon. No entanto, apesar de anos de investigação, a causa permanece desconhecida e nada permite afirmar com certezas que os intestinos (e portanto o cólon) do lactente têm qualquer culpa.5

Quais são os sintomas da cólica infantil?

A criança chora muito, mantém-se inconsolável, faz caretas e pode apresentar o rosto avermelhado. Mantém os punhos cerrados e pode ter gases.5 Para diagnosticar a cólica infantil, os pediatras usaram durante muito tempo a "regra dos 3", introduzida em 1954.6 Esses critérios foram ajustados posteriormente, e uma associação internacional estabeleceu uma nova definição com os seguintes critérios: “períodos prolongados e recorrentes de agitação, irritabilidade ou choro infantil, comunicados pelos pais, que ocorrem sem causas óbvias e não podem ser evitados ou solucionados pelos profissionais de saúde, sem atrasos no crescimento do lactente, febre ou problemas de saúde".7

E a microbiota intestinal do lactente no meio disto tudo?

Foi recentemente confirmada uma relação entre a cólica infantil e a microbiota intestinal – que também é designada flora intestinal.8 Estudos científicos revelaram, efetivamente, que a microbiota intestinal das crianças em causa diferia da dos outros bebés:9

Este desequilíbrio da microbiota intestinal, a que se chama " (sidenote: Disbiose A "disbiose" não é um fenómeno homogéneo – varia em função do estado de saúde de cada indivíduo. É geralmente definida como uma alteração da composição e do funcionamento da microbiota, causada por um conjunto de fatores ambientais e relacionados com o indivíduo que perturbam o ecossistema microbiano. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, et al. Dysbiosis and the immune system. Nat Rev Immunol. 2017;17(4):219-232. ) ", parece estar fortemente associado com as cólicas: uma das hipóteses é que a alteração da composição da microbiota intestinal poderá modificar a motilidade intestinal (a forma como os alimentos se deslocam no aparelho digestivo), o que gerará um excesso de produção de gases. 

Inflamação intestinal: sigam a calprotectina!

Há uma proteína (a calprotectina), que permite identificar a inflamação intestinal. Pode ser encontrada em grandes quantidades nos bebés que sofrem de cólicas.  Essa proteína está associada a uma diversidade reduzida da microbiota intestinal.9

Aliviar os bebés... e os pais?

Consultar o seu médico continua a ser o principal meio de diagnosticar a cólica infantil e tranquilizar os pais. Não existe um tratamento propriamente dito10 contra as cólicas, apenas práticas quotidianas simples que podem ajudar a aliviar os sintomas.  Entre estas, destacam-se a amamentação, o colo ou o reequilíbrio da microbiota intestinal da criança, em particular através de probióticos.5 Esta pista também parece promissora, uma vez que a ingestão de bactérias "boas" pode reduzir a inflamação intestinal6 e ajudar a reduzir os períodos diários de choro após alguns meses de utilização.11 Os probióticos também podem ser usados como prevenção para manterem um bom equilíbrio intestinal.5

Este artigo recorre a fontes científicas homologadas, mas não substitui o aconselhamento médico. Em caso de sintomas, não hesite em consultar o seu médico generalista ou o pediatra dos seus filhos.

Fontes

1 Groopman J. The Colic Conundrum. The crying that doctors can’t stop. Annals of Medicine, Sept 17, 2007 Issue. https://www.newyorker.com/magazine/2007/09/17/the-colic-conundrum

2 konieczna-Żydecka K, Janda K, Kaczmarczyk M, et al. The Effect of Probiotics on Symptoms, Gut Microbiota and Inflammatory Markers in Infantile Colic: A Systematic Review, Meta-Analysis and Meta-Regression of Randomized Controlled Trials. J Clin Med. 2020 Apr 2;9(4):999.

3 Gupta SK. Is colic a gastrointestinal disorder? Curr Opin Pediatr. 2002 Oct;14(5):588-92. 

4 van den Berg MP, van der Ende J, Crijnen AA, et al. Paternal depressive symptoms during pregnancy are related to excessive infant crying. Pediatrics. 2009 Jul;124(1):e96-103. 

Indrio F, Dargenio VN, Giordano P, et al. Preventing and Treating Colic. Adv Exp Med Biol. 2019;1125:49–56.

WESSEL MA, COBB JC, JACKSON EB, et al. Paroxysmal fussing in infancy, sometimes called colic. Pediatrics. 1954 Nov;14(5):421-35. 

Zeevenhooven J, Koppen IJ, Benninga MA. The New Rome IV Criteria for Functional Gastrointestinal Disorders in Infants and Toddlers. Pediatr Gastroenterol Hepatol Nutr. 2017 Mar;20(1):1-13. 

8 Verduci E, Arrizza C, Riva E, et al. Microbiota and infantile colic: what’s new? Int J Probiotics Prebiotics. 2013; 8(1):25–28

Rhoads JM, Collins J, Fatheree NY, et al. Infant Colic Represents Gut Inflammation and Dysbiosis. J Pediatr. 2018 Dec;203:55-61.e3. 

10 Daelemans S, Peeters L, Hauser B, et al. Recent advances in understanding and managing infantile colic. F1000Res. 2018 Sep 7;7:F1000 Faculty Rev-1426. 

11 Sung V, D'Amico F, Cabana MD, et alLactobacillus reuteri to Treat Infant Colic: A Meta-analysis. Pediatrics. 2018 Jan;141(1):e20171811. 

12 O'Callaghan A, van Sinderen D. Bifidobacteria and Their Role as Members of the Human Gut Microbiota. Front Microbiol. 2016 Jun 15;7:925.

13 Ruiz L, Delgado S, Ruas-Madiedo P, et al. Bifidobacteria and Their Molecular Communication with the Immune System. Front Microbiol. 2017 Dec 4;8:2345.

14 W. H. Holzapfel et B. J. Wood, The Genera of Lactic Acid Bacteria2, Springer-Verlag, 1st ed. 1995 (2012), 411 p. « The genus Lactobacillus par W. P. Hammes, R. F. Vogel 

15 Tannock GW. A special fondness for lactobacilli. Appl Environ Microbiol. 2004 Jun;70(6):3189-94.

16 Smith TJ, Rigassio-Radler D, Denmark R, et al. Effect of Lactobacillus rhamnosus LGG® and Bifidobacterium animalis ssp. lactis BB-12® on health-related quality of life in college students affected by upper respiratory infections. Br J Nutr. 2013 Jun;109(11):1999-2007.

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O poder do nosso intestino

Como provavelmente já sabe, uma microbiota intestinal equilibrada é boa para a saúde. Além disso, o seu papel não se limita aos intestinos, descubra todos os impactos que a microbiota intestinal pode ter!

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A microbiota feminina

Da puberdade à menopausa, passando pela gravidez e pelo parto, a vida das mulheres é marcada por eventos importantes durante os quais a sua microbiota desempenha um papel importante. 

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As maravilhas da nossa microbiota

Microbiota da pele, microbiota ORL, microbiota pulmonar ou ainda urinária... Quais são os papéis dos microrganismos, verdadeiros parceiros para a nossa saúde ao longo da vida? 

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