A ansiedade crónica poderá ser influenciada pelas bactérias intestinais?

Afectariam mais de uma em cada cinco pessoas (com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos) pelo menos uma vez ao longo da vida.14 Os antecedentes familiares aumentam a vulnerabilidade, mas as pessoas sem predisposição também não estão a salvo. Pelo menos em parte, a ansiedade crónica está associada a processos inflamatórios possivelmente favorecidos pelas bactérias intestinais. Preocupação constante e excessiva, difícil de controlar, ataques de pânico imprevisíveis e recorrentes, perturbações obsessivo-compulsivas, síndrome de stress pós-traumático… As perturbações de ansiedade correspondem a diferentes doenças cujo denominador comum é o medo. Prisioneiros das suas angústias, os doentes adotam estratégias de evitação desproporcionadas.

A microbiota intestinal Perturbações de humor
Troubles anxieux bandeau

Entre outras causas: mais uma vez, essa mesma disbiose intestinal! Esta provocaria um aumento da permeabilidade da parede intestinal, seguido de uma perturbação da resposta ao stress, bem como um aumento da atividade inflamatória.

Todos os caminhos conduzem à microbiota15

Neste processo, existe consenso quanto à influência das bactérias intestinais. Mas, de acordo com os estudos, a microbiota exerceria ou um efeito ansiogénico ou, pelo contrário, ansiolítico16. Com efeito, a administração de antibióticos — que perturba e empobrece a flora digestiva — estaria associada ao aparecimento de perturbações de ansiedade ou, inversamente, a uma diminuição da ansiedade nos animais.

Uma flora testada «à cega»

Nos animais, os antibióticos parecem atenuar a ansiedade durante o período de tratamento. O reverso da medalha: uma perturbação precoce da microbiota intestinal causada pelos antibióticos pode levar a uma alteração do comportamento que persiste na idade adulta17,18. Além disso, certas estirpes probióticas teriam um efeito ansiolítico. Por fim, o transplante de microbiota fecal permitiria reduzir o nível de ansiedade19. Todos estes resultados ainda têm de ser confirmados em humanos.

Como comer para manter a calma?

Os alimentos fermentados, como o queijo, os iogurtes, o kefir, o kombuchá ou ainda o molho de soja, são excelentes fontes ricas em probióticos e prebióticos. Parecem atuar como anti-inflamatórios, reforçando a integridade da barreira intestinal, melhorando a composição e as funções das bactérias intestinais e estimulando as células imunitárias ao nível digestivo. Os probióticos diminuem a frequência e a gravidade dos sintomas de ansiedade em ratos; nos seres humanos, reduzem os níveis de cortisol na urina21. O leite fermentado provoca alterações na atividade cerebral nas regiões responsáveis pelas emoções e pela dor em pessoas saudáveis e sem perturbações psiquiátricas.

Cuidar – O corpo e a mente20

Um psicobiótico é um organismo vivo (uma bactéria, por exemplo) cuja ingestão produz um efeito benéfico para a saúde de doentes que sofrem de doenças psiquiátricas, psíquicas ou neurológicas.

Em suma, trata-se de um probiótico que teria propriedades psicotrópicas e que regularia o eixo intestino-cérebro ao:

Produzindo mensageiros químicos

responsáveis por transmitir informação ao cérebro

Ativando diretamente as vias neuronais

entre o cérebro e o intestino

Melhorando o equilíbrio

entre o consumo e o gasto energético

Limitando o crescimento

de bactérias patogénicas no estômago e no intestino

Reduzindo os processos inflamatórios

no trato digestivo

Protegendo

a barreira intestinal

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Depressão: haverá um eixo microbiota-metabolismo em questão?

E se a microbiota intestinal estiver relacionada com a depressão ao descontrolar o metabolismo energético? Um estudo multiómico realizado em seres humanos, complementado por um modelo murino, revela uma relação entre a microbiota, os metabolitos e o fenótipo depressivo.

 Dépression : un axe microbiote-métabolisme en cause ?

A perturbação depressiva grave (PDG), ou, simplesmente, depressão profunda, não se limita a apresentar sintomas afetivos e cognitivos: é acompanhada também por perturbações importantes do metabolismo energético, incluindo desequilíbrios glicémicos, disfunções mitocondriais e alterações em vias metabólicas fundamentais (glicólise, ciclo de Krebs, metabolismo dos aminoácidos). Pois bem, é frequente observar-se uma disbiose intestinal em doentes com PDG, principalmente com a participação de certas bactérias (Faecalibacterium prausnitzii e Escherichia coli) conhecidas por influenciarem indiretamente as vias metabólicas. Daí a hipótese proposta pelos investigadores:1 será que a microbiota intestinal pode influenciar a homeostasia energética do hospedeiro e contribuir para combater a sua depressão?

Perturbação depressiva grave (PDG)

A perturbação depressiva grave (PDG) é uma doença psiquiátrica altamente incapacitante e que constitui um fardo mundial considerável, com uma prevalência ao longo da vida que varia entre 10% e 20%.1

Um eixo microbiota-metabolitos-fenótipo depressivo

A análise das amostras séricas e fecais de 100 doentes sofrendo de depressão e de 68 indivíduos saudáveis de controlo veio confirmar a existência de perturbações significativas nas principais vias do metabolismo energético das pessoas com depressão: foram observadas alterações importantes em 14 metabolitos, mais especificamente níveis séricos mais reduzidos de glicose, ornitina, AMP e AMP cíclico, e níveis mais elevados de lactato, glutamato, arginina, citrulina e isocitrato. Vários destes metabolitos estão, aliás, associados aos índices de depressão, ansiedade e funções cognitivas, que indicam o agravamento dos sintomas.

Mas, acima de tudo, os autores demonstraram a existência de 92 espécies (50 em excesso, 42 em défice), nomeadamente Firmicutes, que apresentavam diferenças de relevo nos doentes com depressão. Identificaram 36 espécies bacterianas cuja abundância poderá estar associada à síntese mitocondrial dos ácidos gordos, à cetogénese, ao metabolismo dos aminoácidos, etc. Em particular, 28 delas terão um papel na relação entre a microbiota, os metabolitos energéticos e o humor, a cognição e a ansiedade. Existirá, assim, um eixo “microbiota intestinal – metabolitos – fenótipo depressivo”, no qual certos metabolitos bacterianos atuarão como mediadores.

332 milhões Em todo o mundo, cerca de 332 milhões de pessoas sofrem de depressão.²

Validação pré-clínica a favor de uma função causal da microbiota

Como acontece frequentemente no âmbito da microbiota, faltava saber-se se se tratava de uma simples correlação ou de uma verdadeira causalidade. Para esse efeito, os investigadores recolheram a microbiota de ratos e, em seguida, submeteram os animais a um estado de stress crónico durante 14 dias, o que gerou comportamentos depressivos (diminuição da preferência pela sacarose, aumento da imobilidade, etc.) e uma alteração da respetiva memória. Realizou-se um transplante fecal (TMF) autólogo após cada episódio de stress. Este permitiu reduzir os sintomas de depressão e melhorar a memória, além de normalizar a estrutura e o funcionamento da microbiota; entretanto, a barreira intestinal manteve-se alterada. Em particular, o TMF corrigiu as perturbações metabólicas (glicose, lactato, glutamato, ciclo da ornitina…) e restaurou a integridade estrutural das mitocôndrias do córtex pré-frontal e do hipocampo dos roedores.Segundo os autores, estes resultados colocam em evidência o papel da microbiota intestinal na regulação do metabolismo energético na perturbação depressiva. 
Embora, até agora, a experiência só tenha sido realizada em ratos, será que o TMF autólogo precoce poderá tornar-se, um dia, uma estratégia terapêutica para a depressão nos seres humanos? É uma pista que ainda é necessário explorar. 

Enquanto se aguarda, é recomendável a adoção de uma alimentação equilibrada que inclua alguns 
citrinos e a prática de uma atividade física, como a corrida.

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Reequilibrar a microbiota para sair da depressão?

Será que a microbiota intestinal pode influenciar a nossa saúde mental ao afetar a nossa energia? Existe um estudo realizado em seres humanos e ratos que explora esta relação entre as bactérias intestinais, o metabolismo e os sintomas depressivos.

A microbiota intestinal
Rééquilibrer son microbiote pour sortir de la dépression ?

E se o restabelecimento da microbiota intestinal facilitasse a luta contra a depressão, fornecendo um novo impulso energético ao nosso organismo?

A depressão não afeta apenas o humor e as funções cognitivas. É frequentemente acompanhada por alterações no metabolismo energético e na nossa microbiota intestinal, tal como foi confirmado por um estudo¹ realizado com 100 doentes que sofriam de perturbações depressivas graves e 68 indivíduos saudáveis que serviram de grupo de controlo. 

Perturbação depressiva grave

A perturbação depressiva grave (PDG) é uma doença psiquiátrica altamente incapacitante e que constitui um fardo mundial considerável, com uma prevalência ao longo da vida que varia entre 10% e 20%.¹

1,5 A depressão é cerca de 1,5 vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens.²

10% A nível mundial, mais de 10% das mulheres grávidas e das que deram à luz recentemente sofrem de depressão (depressão perinatal e pós-parto).²

Ligação entre a microbiota, o metabolismo e a depressão

Os resultados são indiscutíveis: em casos de depressão, várias vias de produção de energia ficam afetadas, com excesso de determinados metabolitos (lactato, glutamato, arginina, etc.) e défice em outros (glicose, ornitina, etc.). Estas perturbações metabólicas são, por sua vez, acompanhadas de sintomas mais graves: mais ansiedade, mais sintomas depressivos e mais problemas cognitivos.

Mas não só! Os autores demonstraram que a microbiota intestinal dos doentes com depressão também difere: existe disbiose, com cerca de uma centena de espécies bacterianas cuja abundância é superior ou inferior à observada nas fezes dos indivíduos de controlo saudáveis. 

E se estiver tudo ligado? Efetivamente, entre esses microrganismos em excesso ou em falta no nosso intestino, há vários que podem modificar o nosso metabolismo energético e afetar de forma negativa o nosso estado de espírito. E outros que, inversamente, contribuem para melhorar a nossa saúde mental, mediante uma pequena ajuda às bactérias benéficas presentes no nosso intestino. Mas, antes de se analisar essa contribuição, era ainda necessário demonstrar uma relação de causa e efeito. Essa tarefa já se encontra concluída.

4% Calcula-se que 4% da população sofra de depressão, incluindo 5,7% dos adultos (4,6% dos homens e 6,9% das mulheres) e 5,9% das pessoas com 70 anos ou mais.²

332 milhões Em todo o mundo, cerca de 332 milhões de pessoas sofrem de depressão.³

3.ª O suicídio é a terceira causa de morte entre os jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos.²

Uma experiência em ratinhos para testar a causalidade

Uma equipa de investigadores submeteu ratos a uma situação de stress crónico que induziu comportamentos semelhantes aos da depressão. Tal como acontece nos pacientes com depressão, a respetiva microbiota intestinal e o seu metabolismo energético sofreram alterações.

O estudo é centrado na microbiota, a comunidade bacteriana intestinal, e nas suas ligações com o metabolismo e com a saúde mental.
Estudos anteriores tinham já revelado alterações bacterianas em doentes com perturbação depressiva grave, mas as relações estabelecidas com o metabolismo eram ainda, em grande parte, de natureza não causal
.

Os investigadores transplantaram em seguida, para os tais ratos agora depressivos, as respetivas microbiotas fecais, colhidas antes de terem sido submetidos ao stress e ao desgaste emocional. O resultado deste transplante fecal , denominado autólogo (o que significa que cada rato recebe as suas próprias fezes), foi a correção de várias anomalias metabólicas e uma melhoria da saúde mental. O funcionamento das mitocôndrias –organelas celulares que fornecem energia – de certas regiões do cérebro relacionadas com o humor e com a memória, foi igualmente restabelecido.

“O transplante reintroduz no intestino, portanto, bactérias colhidas antes do stress".

“No que se refere à saúde mental, estes resultados reforçam sobretudo o interesse dedicado às interações entre o intestino e o cérebro, sem, no entanto, demonstrar, no ser humano, que a intervenção neste eixo tenha efeitos terapêuticos”.

E no caso do ser humano?

Esta relação causal, por enquanto, apenas foi demonstrada em animais. É necessário ainda determinar, através de outros estudos, se existe o mesmo mecanismo em doentes humanos que sofram de perturbações depressivas graves e, sobretudo, se agir sobre a respetiva microbiota virá algum dia a ter utilidade terapêutica. Enquanto se aguarda por eles, para levantarmos o ânimo, podemos sempre cuidar da nossa microbiota intestinal. Como? Através da alimentação, dando preferência, por exemplo, às frutas cítricas e evitando os refrigerantes.

Três exemplos para uma melhor compreensão

Reduzir o excesso de lactato (tóxico)

Nas pessoas com depressão, o stress crónico inibe as mitocôndrias (centrais energéticas das nossas células) e obriga as células cerebrais a recorrerem a um sistema alternativo (glicólise anaeróbica), o que provoca uma acumulação anormal e prejudicial de lactato no sangue e no cérebro. Excesso de lactato esse que piora os comportamentos depressivos e os déficits de memória. Ora, a bactéria intestinal Anaerostipes hadrus pode atenuar a ansiedade e a depressão, revertendo essa disfunção glicolítica anaeróbica, reduzindo o lactato no cérebro e permitindo que as mitocôndrias voltem a funcionar devidamente.

Reduzir o excesso de glutamato (tóxico)

Nas pessoas com depressão, o glutamato tem tendência a acumular-se em excesso no sangue e no cérebro. Os níveis anormalmente elevados de glutamato podem prejudicar o metabolismo energético do cérebro e agravar os sintomas. A bactéria intestinal Anaerostipes hadrus poderá desempenhar um papel potencialmente benéfico na moderação da depressão e da ansiedade: essa ação protetora exercer-se-á através da redução de determinados metabolitos-chave, entre os quais o glutamato, mas também o lactato e o ácido isocítrico (ou isocitrato).

Aumentar os níveis de ornitina (com efeito protetor) em carência

Nas pessoas com depressão, a ornitina pode estar presente em níveis muito baixos no sangue e no cérebro. Este défice pode levar à acumulação de metabolitos tóxicos (menor detoxificação do amoníaco, aumento da produção de glutamato) e privar o cérebro de substâncias neuroprotetoras (uma vez que a ornitina é um precursor indispensável para a sua síntese), o que aumenta a vulnerabilidade à depressão, à fadiga e ao declínio cognitivo. No entanto, várias bactérias intestinais, como a Dorea formicigenerans ou a Eubacterium ramulus, aparentam ser fontes importantes de ornitina para o hospedeiro.

Fontes

1. Lei P, Qi Z, Ma Q et al. Gut microbiota reshapes host energy metabolism to modulate depressive behaviors. Gut Microbes. 2026 Dec 31;18(1):2662556.
2. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. 
3. 2021 Global Burden of Disease. 

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A sua checklist para a secura vulvovaginal

Quantas mulheres acompanha que podem sentir secura vulvovaginal, desconforto, irritação, dor durante as relações sexuais ou sintomas urinários? Com que frequência este tema é abordado espontaneamente durante a consulta ou no balcão da farmácia?

A secura vulvovaginal é comum (afeta 1 em cada 5 mulheres)¹˒², mas é frequentemente subvalorizada e raramente abordada. Pode ocorrer em diferentes fases da vida, não apenas após a menopausa, e pode afetar o conforto, a intimidade e a qualidade de vida. Pode estar associada a níveis baixos de estrogénio, mas também ao período pós-parto e à amamentação, à contraceção hormonal, a alguns medicamentos, a tratamentos oncológicos, a condições dermatológicas, neurológicas ou autoimunes, entre outras situações.

≥1 em cada 5 mulheres A secura vulvovaginal pode ocorrer em diferentes fases da vida, não apenas após a menopausa.

No contexto dos sintomas relacionados com a menopausa, a lacuna na comunicação é significativa: no estudo europeu REVIVE, 65% das mulheres com sintomas esperavam que o profissional de saúde iniciasse a conversa, mas os profissionais de saúde iniciaram a discussão sobre os sintomas de atrofia vulvovaginal em apenas 10% dos casos em que o tema foi abordado.³

65% vs 10% uma lacuna na comunicação

É precisamente para colmatar esta lacuna que foi criada a Checklist da Secura Vulvovaginal:

para ajudar os profissionais de saúde a perguntar, reconhecer, explicar e orientar os cuidados com confiança.

Dr. Clarence de Belilovsky, Dra. Isabelle Dehaene, Dra. Brigitte Letombe, Prof.ª Rossella E. Nappi e o Biocodex Microbiota Institute criaram uma checklist prática dedicada à secura vulvovaginal.

Esta ferramenta ajuda os profissionais de saúde a:
  • identificar a secura vulvovaginal e os sintomas associados;
  • distinguir os sintomas vulvares dos sintomas vaginais;
  • abordar o conforto sexual e a intimidade utilizando uma linguagem sensível;
  • reconhecer sinais de alerta e diagnósticos diferenciais;
  • compreender o papel dos estrogénios, das alterações dos tecidos e da microbiota vaginal;
  • orientar a gestão geral e o acompanhamento;
  • ajudar os farmacêuticos a iniciar a conversa e a encaminhar quando necessário.

Descarregar a checklist sobre a secura vulvovaginal

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Será que a IA pode identificar estirpes probióticas vaginais promissoras?

É frequente pensar-se que o Lactobacillus crispatus é um indicador da saúde vaginal. Mas nem todas as estirpes possuem as mesmas capacidades. Há um novo estudo que mostra como a aprendizagem automática (machine learning) pode ajudar a identificar as estirpes com o potencial probiótico in vitro mais promissor.

Can AI identify promising vaginal probiotic strains?

Quando se pensa num probiótico vaginal, é possível que se leia o nome de determinada espécie no rótulo e se parta do princípio de que ela oferece um benefício específico. Um novo estudo1 questiona isso diretamente: será que o potencial funcional do Lactobacillus crispatus existe em toda a espécie ou apenas em estirpes individuais que temos agrupado de forma demasiado imprecisa?

Quarenta e sete variantes da mesma espécie

A equipa recolheu 1.126 isolados bacterianos a partir de esfregaços vaginais colhidos em 36 mulheres saudáveis com uma idade compreendida entre os 18 e os 30 anos. Destes, 639 foram identificados como Lactobacillus crispatus. A análise filogenómica agrupou os referidos 639 isolados em 47 clados diferentes, revelando uma enorme diversidade no seio da espécie. Entre os tais 639 isolados, o pangenoma compreendia um total de 4.482 famílias de genes, sendo que 1.579 pertenciam ao genoma central. Isto coloca em evidência uma diversidade genómica significativa no seio da espécie L. crispatus, apesar da estrutura genómica se manter globalmente conservada.

Esta diversidade não é meramente académica: as estirpes apresentavam diferenças na quantidade e no número de cópias dos genes que codificam a pululanase (PulA), enzima que participa na degradação do glicogénio, podendo ajudar o L. crispatus a aproveitar esta fonte de carbono no ambiente vaginal. As ferramentas de rastreio probiótico geral existentes têm dificuldade em identificar tais diferenças ao nível das estirpes. Quando os investigadores submeteram as estirpes a uma ferramenta já existente chamada iProbiotics, quase todas obtiveram bons resultados, com uma média de 97,58%, o que demonstra a dificuldade em distinguir o potencial funcional ao nível de estirpe recorrendo às metodologias gerais de previsão probiótica atualmente disponíveis.

Potencial funcional ao nível da estirpe: a capacidade mensurável de um determinado isolado — e não de uma espécie — para acidificar, produzir ácido láctico e H₂O₂, e inibir agentes patogénicos. A produção de ácido láctico, por si só, apresentou variações de até cinco vezes mais entre as 67 estirpes testadas.

Pululanase (PulA): enzima que participa na degradação do glicogénio. A sua presença pode permitir que o L. crispatus utilize o glicogénio vaginal e se adapte ao ambiente da vagina (promovendo a colonização e a acidificação sustentada).

Os fenótipos que distinguem as estirpes com melhor desempenho

Os investigadores testaram depois 67 estirpes representativas relativamente a cinco características in vitro potencialmente relevantes do ponto de vista clínico e consideradas importantes para o potencial probiótico vaginal: a sua capacidade de crescimento, o grau de acidificação do ambiente, a quantidade de ácido láctico e de peróxido de hidrogénio que produzem e a sua eficácia no bloqueio de agentes patogénicos vaginais. Os resultados variaram bastante. A produção de ácido lático variou entre 2,02 e 10,29 g/L, e os níveis de peróxido de hidrogénio foram de 9,39 até 18,3 µmol/L, embora todas as estirpes pertencessem à mesma espécie. O pH final oscilou entre 3,8 e 4,45, pelo que todas as estirpes tornaram o seu ambiente mais ácido, embora não no mesmo grau.

As estirpes também diferiram quanto à sua eficácia no bloqueio da
Gardnerella vaginalis, uma bactéria relacionada com a vaginose bacteriana: a área de inibição atingiu, em média, 15,35 mm, mas apresentou variações de vários milímetros de uma estirpe para outra. Os investigadores combinaram estes cinco parâmetros numa pontuação única, atribuindo a maior ponderação, de 30%, à capacidade de cada estirpe combater os agentes patogénicos associados à vaginose bacteriana. Depois, as estirpes foram divididas em dois grupos utilizando a mediana como referência: um com maior potencial funcional, denominado Lcris-SFS, e outro com menor potencial funcional. As três estirpes que apresentaram melhores resultados estão agora a ser testadas em animais e em estudos clínicos preliminares.

Lcris-SFS: etiquetagem para estirpes com pontuação acima ou abaixo da mediana na pontuação funcional combinada. Classifica o potencial funcional e não funciona como critério de segurança.

Disbiose vaginal: mudança de uma microbiota vaginal dominada por Lactobacillus no sentido de uma comunidade mais diversificada, rica em bactérias anaeróbicas. A vaginose bacteriana é um estado disbiótico bastante comum.

Um modelo que lê a função do genoma

Para evitarem vários meses de trabalho de cultura em laboratório, os investigadores criaram um modelo informático chamado VLCPredictor. Este é capaz de decifrar pequenos fragmentos de ADN do genoma de cada estirpe, selecionar desses 349.184 fragmentos os 534 que contêm mais informação e utilizar esse padrão para prever o potencial funcional de determinada estirpe, o que ajuda a estabelecer prioridades entre as candidatas para testes experimentais posteriores. Foram testados oito métodos de previsão, e o modelo com melhor desempenho, um algoritmo “random forest”, atingiu uma AUC média de 0,742 na distinção entre estirpes com maior e menor potencial funcional. Aplicado a 103 genomas publicados, o modelo classificou cerca de 76% das estirpes provenientes de mulheres saudáveis como apresentando um potencial funcional previsto mais elevado, em comparação com apenas 31% das estirpes provenientes de mulheres afetadas por vaginose bacteriana. O modelo ainda não é perfeito: foi treinado com genomas de apenas uma região e de um único grupo étnico, e apenas 16 genomas vieram de mulheres com vaginose bacteriana, pelo que ainda necessita de validação adicional. A importância da seleção com base na estirpe é também demonstrada por ensaios clínicos anteriores referidos pelos autores: um probiótico à base de L. crispatus conseguiu reduzir a recorrência da vaginose bacteriana após o tratamento com antibióticos, enquanto uma combinação de probióticos à base de Lactobacillus não melhorou os índices de cura num outro estudo. 

Os superpoderes anti-inflamatórios dos lactobacilos vaginais

Saiba mais

A mensagem clínica aqui em destaque não é que a previsão genómica já consegue escolher um probiótico para cada paciente em particular. Em vez disso, este estudo vem reforçar a importância da caracterização ao nível da estirpe: o facto de ela pertencer a uma espécie associada à saúde, como o L. crispatus, não constitui garantia de possuir propriedades funcionais idênticas. O VLCPredictor pode ajudar os investigadores a definirem prioridades entre candidatas promissoras, mas a validação in vivo e clínica continua a ser essencial antes de se poder aplicar na prática estas previsões.

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Evolução da microbiota oral durante as viagens: exposição ambiental, disbiose e resiliência

A microbiota ORL
Evolución de la microbiota bucal durante los viajes: exposición ambiental, disbiosis y resiliencia

 1. Quanto é que as pessoas viajam por ano?

De acordo com a Comissão Europeia, em 2024, os residentes da UE a partir dos 15 anos de idade realizaram cerca de 1.200 milhões de viagens turísticas com noites de alojamento, o que corresponde a aproximadamente três viagens por pessoa por ano.1 Esta frequência de viagens é biologicamente significativa, já que a mudança repetida entre diferentes ambientes cria múltiplas situações de exposição a micróbios e um impacto ecológico a curto prazo. Embora as alterações na microbiota intestinal associadas às viagens e a síndrome clínica da diarreia do viajante estejam bem documentadas, a microbiota oral – incluindo as comunidades associadas à saliva, à língua e à placa dentária – tem sido alvo de muito menos atenção, apesar de constituir um dos principais elementos de interação entre o hospedeiro e o ambiente externo. 

Viagens repetidas perturbam a microbiota devido à exposição a novos ambientes, alimentação diferente e água de outras origens; Apesar disso, a microbiota oral continua a ser muito menos estudada que a intestinal, embora constitua o primeiro ponto de contacto.

2. Por que é que as viagens remodelam a microbiota oral?

A cavidade oral encontra-se continuamente exposta ao ambiente externo, o que a torna particularmente sensível a mudanças rápidas no estilo de vida e no ambiente. Embora as comunidades microbianas orais sejam, em geral, estáveis em cada indivíduo, elas respondem às mudanças na alimentação, nas práticas de higiene oral, nos ritmos circadianos, no stress e no estado imunitário. A saúde oral é dependente do equilíbrio dessas comunidades (homeostase), e a disbiose – perturbação da estrutura ou função das mesmas (que constituem a microbiota) – está associada a doenças tanto orais como sistémicas.2
As viagens concentram múltiplas perturbações em simultâneo, nomeadamente a exposição a novos ambientes, novas origens de água, novos padrões alimentares e novos contactos sociais,3-4 tudo isto fatores que podem influenciar as comunidades microbianas residentes. Por ser o ponto de entrada para o sistema digestivo, a cavidade oral pode também influenciar a ecologia microbiana a jusante. Estudos de grande dimensão, realizados em vários países, têm demonstrado que os micróbios orais podem transferir-se para o intestino e colonizá-lo mais frequentemente do que se pensava anteriormente, mesmo em indivíduos saudáveis.5

As alterações na microbiota provocadas pelas viagens são frequentemente transitórias, mas nem sempre totalmente reversíveis, com persistência de alterações microbianas e relacionadas com a resistência mesmo após a resolução dos sintomas clínicos.

3. As viagens introduzem novos micróbios: disbiose, intoxicação alimentar e diarrei

Um dos riscos bem conhecidos das viagens são as infeções gastrointestinais agudas, geralmente causadas por agentes patogénicos transmitidos pelos alimentos ou pela água, que podem coincidir com perturbações na comunidade microbiana. Estudos longitudinais mostram que a composição da microbiota se altera durante as viagens e que os episódios diarreicos podem desestabilizar a sua estrutura e aumentar a abundância de genes de resistência antimicrobiana durante semanas .6-7 As viagens estão também associadas à colonização por organismos multirresistentes, particularmente no caso de indivíduos que sofram de diarreia do viajante.6 Clinicamente, a maioria dos casos não complicados de diarreia dos viajantes resolve-se em poucos dias. No entanto, há estudos sobre a microbiota que sugerem apenas uma resiliência parcial: a sua composição microbiana tende geralmente a voltar à situação inicial após o regresso, mas essa recuperação pode ser lenta ou incompleta. Em particular, os indicadores de resistência antimicrobiana associados às viagens podem persistir durante semanas após a exposição inicial em algumas coortes.6, 8-9

Viajar é benéfico para os jovens... Assim como para a microbiota e a resistência aos antibióticos

Saiba mais

4. Questões ainda por explorar: tempo de aclimatação, estabilidade e permanência

Apesar do crescente interesse em relação às dinâmicas da microbiota associadas às viagens, a recolha longitudinal direta de amostras da microbiota oral durante as mesmas permanece uma raridade. Os estudos de séries temporais sobre a microbiota intestinal em contextos não relacionados com viagens evidenciam uma variabilidade diária substancial, mesmo em condições estáveis, o que realça a necessidade de uma amostragem longitudinal densa que permita diferenciar a variação temporal normal dos efeitos reais decorrentes das viagens.4

Tirando partido do já referido programa internacional de ano sabático com a duração de um ano, a Dra. Wendy Lin está a acompanhar as alterações que ocorrem na microbiota oral de um grupo de estudantes enquanto estes viajam por sete regiões do mundo, nomeadamente os Estados Unidos, o Brasil, a França, a Turquia, o Quénia, a Índia e a China. Este estudo visa responder a questões fundamentais que ainda não foram devidamente aprofundadas sobre a microbiota oral:

  • Quanto tempo demora a microbiota oral a adaptar-se a um novo ambiente?

  • A microbiota oral associada a viagens é estável ou é altamente dinâmica?

  • Com que rapidez é que a microbiota oral volta aos valores iniciais depois do regresso a casa?

  • Os taxa recém-introduzidos ou as variantes ao nível das estirpes persistem a longo prazo?

O momento em que ocorrem, a estabilidade e a persistência a longo prazo das alterações na microbiota oral associadas às viagens continuam, em grande parte, por esclarecer.

Conclusão

As viagens alteram previsivelmente as exposições ambientais e os padrões alimentares, criando uma experiência natural ideal para se estudar a ecologia da microbiota humana. Os dados provenientes de estudos sobre a microbiota intestinal de viajantes comprovam mudanças rápidas na sua composição durante as viagens e alterações adicionais durante episódios de diarreia, frequentemente seguidas de uma recuperação tardia ou incompleta. A microbiota oral – apesar de ser o primeiro ponto de contacto com os micróbios presentes nos alimentos, na água e no ambiente – ainda é relativamente pouco estudada neste contexto. Os estudos longitudinais de coortes de pessoas que viajam, com amostragens orais frequentes, têm o potencial de responderem a questões fundamentais sobre a aclimatação, a estabilidade e a persistência a longo prazo dos micróbios, bem como de determinarem se as viagens deixam marcas microbianas duradouras após o regresso dos viajantes a casa.

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Quando uma bactéria oral transforma células imunitárias em assassinas

Temos culpado há muito tempo a Fusobacterium nucleatum por alimentar o cancro do cólon. Uma nova investigação revela que esta bactéria também consegue atrair células imunitárias para o tumor e transformá-las em assassinas. Tudo depende de um gene que o seu paciente pode ou não possuir.

When an oral bacterium turns immune cells into killers

Os neutrófilos nos tumores colorretais têm má reputação, tal como a Fusobacterium nucleatum. Um novo estudo1  associa ambos e descobre algo inesperado: a bactéria atrai neutrófilos para o tumor e ativa-os para o destruir. Um único recetor determina se isso pode acontecer no seu paciente.

Neutrófilos associados a tumores (TANs)

Neutrófilos recrutados no microambiente do tumor. Embora há muito se tenha assumido que fossem imunossupressoras, demonstra-se, aqui, que estas bactérias eliminam as células do cancro colorretal quando recebem o sinal bacteriano adequado.1

Nem toda bactéria intestinal recruta neutrófilos da mesma forma

Das duas bactérias mais comuns nos tumores colorretais, apenas a F. nucleatum levou as células tumorais a libertar sinais que atraem neutrófilos e, em testes laboratoriais, atraiu para si um número muito superior de neutrófilos do que a Bacteroides fragilis. Em ratos, a F. nucleatum aumentou os níveis de neutrófilos no interior do tumor, mas isso não ocorreu com a B. fragilis. O contacto direto também é importante: em cinco minutos, a F. nucleatum prendeu-se em até 25% dos neutrófilos circulantes e ativou um marcador de ativação que atingiu o seu pico ao fim de três horas.

Confirmadas ligações entre a microbiota e o cancro colorretal

Saiba mais

Um recetor aciona o mecanismo, e não é o TLR4

Os neutrófilos expostos à F. nucleatum libertaram um conjunto de compostos antimicrobianos capazes de destruir tumores. Os seus meios condicionados mataram células cancerosas do cólon em laboratório e retardaram o crescimento tumoral em ratos quando injetados diretamente no tumor; os meios condicionados pela B. fragilis não tiveram qualquer efeito. O bloqueio do TLR4 impediu o aparecimento do marcador de ativação, mas manteve a ação citotóxica intacta. Já o bloqueio do Siglec-5/14 teve o efeito oposto: a ação citotóxica cessou. O Siglec-14 é aquele que se prende firmemente na bactéria, enquanto o seu parceiro, o Siglec-5, quase não o faz. Ao contrário da maioria da sua família de recetores que acalma os neutrófilos, o Siglec-14 os ativa.

Siglec-14

Lectina semelhante à imunoglobulina que se liga ao ácido siálico presente nos neutrófilos. Esta lectina liga-se ao LPS da F. nucleatum e é necessária para a citotoxicidade. O seu bloqueio anula a ação letal sem impedir a ativação.1

Uma variante genética comum pode explicar os dados contraditórios dos resultados

Os pacientes portadores de duas cópias de uma variante genética comum do gene SIGLEC14 possuem neutrófilos que ainda respondem à F. nucleatum, mas não conseguem eliminá-la: quanto mais cópias da variante, mais fraca é a resposta. Essa variante está presente em menos de 10% dos europeus, mas em até 70% dos asiáticos orientais, o que pode explicar a divergência na literatura: as coortes europeias e norte-americanas associam a infiltração de neutrófilos a uma melhor sobrevivência, enquanto as coortes chinesas a associam a uma pior sobrevivência. Os ratos carecem totalmente de recetor ativador, o que provavelmente explica a razão pela qual os estudos em animais têm retratado a F. nucleatum como puramente nociva. Numa amostra de 444 pacientes, marcadores elevados de neutrófilos previram uma sobrevivência mais longa, mas apenas em tumores que também apresentavam a F. nucleatum. Numa grande base de dados pública de expressão génica (The Cancer Genome Atlas), os 31 pacientes cujos tumores não possuíam SIGLEC14 tiveram piores resultados do que os 351 que o possuíam.

Trata-se mais de uma questão de biomarcadores do que de prescrição. Da próxima vez que as evidências sobre a infiltração de neutrófilos no CCR parecerem inconciliáveis, as variáveis ausentes poderão ser que bactérias ocupam o tumor e que alelo de Siglec-14 o paciente herdou.

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Café e descafeinado: quais os efeitos na microbiota?

De acordo com um novo estudo exploratório, o café com cafeína não é o único a ter efeitos ao nível do cérebro. O descafeinado também tem! E isso acontece através da microbiota intestinal.

A microbiota intestinal

Atualmente, já está bem documentado: o café atua sobre as funções cognitivas, regulando a capacidade de atenção, o estado de alerta, a memória, o stress, etc. No entanto, os mecanismos subjacentes continuam a ser, em grande parte, desconhecidos.
Será que são mediados pela microbiota? E será que a cafeína é realmente a única substância ativa envolvida nesses efeitos no cérebro?

-27 % Esta é a redução do risco de doença de Alzheimer entre os consumidores de café.²

3.ª bebida mundial O café ocupa o terceiro lugar entre as bebidas mais consumidas no mundo, logo a seguir à água e ao chá.³

2 mil milhões Este é o número de chávenas de café bebidas todos os dias a nível mundial.³

Compreender melhor as ligações entre café, intestino e funções cognitivas

A questão merece ser colocada, já que alguns estudos na área da nutrição comprovaram que o café, devido aos seus compostos bioativos (ácidos clorogénicos, melanoidinas e outros polifenóis), influencia profundamente a composição da microbiota intestinal. É que existe uma comunicação entre a microbiota e o cérebro, através do eixo microbiota-intestino-cérebro, que pode muito bem ter influência, para além da cafeína, nos efeitos do café em relação à saúde.

Para verificarem esta hipótese, uma equipa de investigadores irlandeses recrutou 62 adultos saudáveis e que não tivessem tomado recentemente probióticos, prebióticos ou antibióticos. 50% eram consumidores regulares de café (3 a 5 chávenas por dia) e os restantes não consumiam café. Os primeiros pararam de beber café durante duas semanas para depois retomarem o hábito durante mais três semanas, quer bebendo café normal, quer descafeinado, sem alterarem a sua dieta alimentar habitual. O objetivo era distinguir os efeitos da cafeína dos gerados pelos outros componentes do café.

Os cientistas recolheram amostras de fezes, urina e sangue e aplicarem testes cognitivos e comportamentais a todos os participantes durante as diferentes fases do estudo, acompanhando simultaneamente a sua alimentação.

O efeito surpreendente do café na microbiota

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Efeitos positivos no humor e nas funções cognitivas

Os resultados, publicados na revista Nature Communications,1 mostram, em primeiro lugar, que os consumidores de café apresentaram diferenças importantes na microbiota intestinal, nomeadamente uma maior abundância de Firmicutes CAG:94, uma estirpe bacteriana associada às emoções positivas nas mulheres.

Após o período de abstinência e a sua reintrodução, o café, independentemente do seu teor de cafeína, influencia sete estirpes microbianas específicas da microbiota intestinal, sem afetar a diversidade global. 

Do ponto de vista cerebral, a reintrodução do café, com ou sem cafeína, trouxe efeitos benéficos, nomeadamente :

  • redução da sensação de stress, 
  • redução dos sintomas depressivos, 
  • redução da impulsividade (tendência para agir rapidamente sem pensar nas consequências). 

O consumo de café com cafeína surgiu associado a uma redução da ansiedade e a uma melhoria do desempenho cognitivo e da capacidade de adaptação ao stress.

Surpreendentemente, o consumo de café descafeinado (mas não o de café com cafeína) mostrou-se relacionado com uma melhoria da memória episódica, um aumento da atividade física e uma melhor qualidade do sono. 

A microbiota, provável intermediária entre o café e o cérebro

A análise das fezes dos participantes consumidores de café revelou que, antes do período de abstinência e em comparação com os não consumidores, se constatava uma menor presença de ácido indol-3-propiónico, um metabolito que influencia o sistema nervoso, e de GABA, neurotransmissor que tem um papel fundamental na ansiedade e nas funções cognitivas. 

Além disso, verificou-se que os níveis de cinco dos metabolitos do café (teofilina, ácido hipúrico, 1,7-dimetilxantina e outros) estão fortemente ligados não só aos resultados cognitivos e comportamentais, mas também a um grande número de espécies bacterianas intestinais.

Segundo os investigadores, estes perfis de metabolitos fecais refletem principalmente o metabolismo dos distintos polifenóis do café, seja ele descafeinado ou não. O descafeinado, portanto, está longe de ser um “café sem efeitos”! 

De qualquer modo, os resultados deste estudo ambicioso mostram que existe, efetivamente, uma associação entre o café, as bactérias intestinais, os metabolitos e os parâmetros cognitivos e comportamentais, o que vem reforçar a hipótese de que o eixo intestino-microbiota-cérebro tenha um determinado papel nos efeitos do café.
Embora este apresente múltiplos benefícios para a saúde, isso não significa, no entanto, carta branca para se abusar da cafeteira – é que, como se sabe, o consumo excessivo não é o melhor aliado da saúde!

Será necessário, porém, proceder a estudos aprofundados que permitam ultrapassar a mera correlação e estabelecer uma verdadeira relação de causa e efeito entre os diferentes intervenientes no referido eixo.

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Copo menstrual: o grande aliado da saúde íntima ?

Contrariamente a alguns temores, o copo menstrual não parece aumentar o risco de infeções genitais. Pelo contrário, parece estar associado a uma menor incidência de vaginoses e de ISTs, bem como a uma microbiota vaginal que é mais frequentemente próxima do ideal.

A microbiota vaginal
Coupe menstruelle : un atout pour la santé vaginale ?

Nos últimos anos, o copo menstrual tem vindo a ganhar espaço entre os produtos de higiene utilizados durante a menstruação. Reutilizável, económico e ecológico, encontra-se disponível em diferentes tamanhos, dependendo do modelo. E, ao contrário do DIU, não é necessário colocá-lo no útero: o copo permanece na vagina, onde recolhe simplesmente o sangue menstrual. Mas, uma vez que permanece no interior da vagina durante até 12 horas, o que é que se passa em relação à sua utilização, ao seu impacto na higiene durante o período menstrual, na microbiota vaginal e quanto ao risco de infeções?
Uma pesquisa bibliográfica abrangente,1 que compila os resultados de 11 estudos, reunindo mais de 10 mil participantes em África, na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos, fornece respostas bastante tranquilizadoras.

1,8 mil milhões Todos os meses, cerca de 1,8 mil milhões de pessoas têm o período em todo o mundo.¹

65 dias Em média, a duração anual acumulada da menstruação é de 65 dias.¹

Não haverá mais infeções… e talvez até haja menos

Primeira constatação: não foi observado qualquer aumento do risco de infeção entre as utilizadoras de copos menstruais. Melhor ainda, vários resultados sugerem um possível efeito protetor. Assim, em alguns dos estudos, as mulheres que utilizavam copo menstrual apresentaram uma incidência de vaginose bacteriana 21% inferior à das que usavam outros produtos de higiene menstrual, nomeadamente tampões ou pensos higiénicos.
O mesmo se verifica no que diz respeito às infeções sexualmente transmissíveis (ISTs): dois estudos realizados com jovens quenianas apontam para uma redução do risco de ISTs entre as utilizadoras de copos menstruais. O risco de infeção pelo vírus do herpes (HSV-2) também poderá diminuir, embora este resultado ainda tenha de ser confirmado.

18 % Nos Estados Unidos, 18% das mulheres declararam usar copo menstrual.¹

12 heures O copo menstrual pode permanecer em utilização por até 12 horas antes de ser esvaziado, cuidadosamente lavado e reinserido.¹

Um aliado da microbiota vaginal

Tais benefícios poderão explicar-se pela ação protetora do copo menstrual sobre a microbiota vaginal : as utilizadoras de copo menstrual apresentam, com maior frequência, uma flora dominada por Lactobacillus crispatus, uma bactéria que é considerada um marcador de boa saúde vaginal e que está associada à proteção contra a disbiose, a vaginose bacteriana e certas IST. Não foi observado qualquer caso de síndrome de choque tóxico entre as utilizadoras nos dois estudos que facultaram esta informação.
Porquê esse efeito? Os autores apresentam uma hipótese simples: contrariamente aos tampões ou aos pensos higiénicos, o copo menstrual recolhe o sangue menstrual na parte superior da vagina. A microbiota estará, assim, menos exposta ao sangue rico em ferro, ambiente propício ao desenvolvimento de bactérias como a Gardnerella vaginalis ou o Lactobacillus iners, as quais são frequentemente associadas a um desequilíbrio da flora vaginal.

Anatomia feminina, microbiotas e higiene íntima

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Resultados animadores... mas ainda a confirmar

No entanto, os autores permanecem cautelosos: os estudos ainda são escassos, abrangem um número, afinal, modesto de mulheres e a sua qualidade nem sempre é a ideal. No estado atual do conhecimento, esta revisão, no entanto, oferece uma mensagem tranquilizadora: a utilização do copo menstrual parece não constituir uma prática de risco para a microbiota vaginal, muito pelo contrário.

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Copo menstrual: resultados tranquilizadores quanto às infeções

No caso das mulheres que utilizam o copo menstrual, os dados disponíveis revelam que não existe qualquer aumento do risco de infeções genitais; pelo contrário, apontam mesmo para uma diminuição das vaginoses bacterianas e das IST, bem como para a manutenção de uma microbiota vaginal saudável.

Coupe menstruelle : résultats rassurants sur les infections

O copo menstrual é um dispositivo intravaginal disponível em diferentes tamanhos, dependendo do modelo. Ao contrário do DIU, não é instalado no útero: recolhe o sangue menstrual dentro da vagina. Reutilizável, foi-se gradualmente impondo a par de produtos de higiene feminina tradicionais, como os tampões, mas também de alternativas mais recentes, como as cuecas menstruais. Contudo, não obstante a sua crescente utilização na higiene menstrual, os efeitos do copo menstrual relativamente à microbiota vaginal, às infeções e à saúde reprodutiva continuam pouco estudados.
Daí a importância desta revisão sistemática, acrescida de meta-análise,1 que se debruçou sobre as associações entre a utilização do copo menstrual como meio de proteção durante o período menstrual, as infeções do aparelho reprodutivo (IAR), as infeções sexualmente transmissíveis (IST) e a microbiota vaginal.

1,8 mil milhões Todos os meses, cerca de 1,8 mil milhões de pessoas têm o período em todo o mundo.¹

65 dias Em média, a duração anual acumulada da menstruação é de 65 dias.¹

18 % Nos Estados Unidos, 18% das mulheres declararam usar copo menstrual.¹

Não haverá qualquer aumento do risco de infeção 

Ao todo, foram abrangidos 11 estudos, 8 dos quais publicados depois de 2019, que englobaram 10.268 adolescentes e mulheres dos continentes africano (Quénia, Tanzânia), americano (Brasil, Estados Unidos) e europeu (França, Bélgica e Dinamarca). Um único senão: apenas três dos estudos foram considerados como sendo de boa qualidade, o que limita tanto o âmbito desta revisão como a robustez dos resultados.
No entanto, as conclusões foram, de um modo geral, tranquilizadoras e até mesmo encorajadoras em relação à utilização deste tipo de dispositivo de proteção menstrual: não foi observado qualquer aumento do risco nas utilizadoras de copos menstruais relativamente às infeções em avaliação. 
Houve até mesmo uma tendência em sentido contrário: foi observada uma prevalência mais baixa (da ordem dos -20%) de vaginose bacteriana entre as utilizadoras de copos menstruais, tanto em estudos observacionais como em ensaios aleatórios realizados nos três continentes. 
A utilização do copo menstrual aparentemente também estará associada a uma menor prevalência de IST (- 26 %) em comparação com outros produtos e protetores menstruais, de acordo com dois ensaios clínicos aleatórios controlados realizados junto de jovens quenianas. Um dos ensaios apontou também para uma tendência de diminuição do risco de infeção pelo HSV-2 (vírus do herpes simplex tipo 2), embora os resultados não fossem totalmente significativos.

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Efeitos benéficos na flora vaginal?

Quanto à microbiota vaginal, as utilizadoras de copos menstruais apresentaram com maior frequência uma flora do tipo comunitário (CST-I) com predominância de Lactobacillus crispatus, tanto nas populações dos três países europeus como na de um dos países africanos (Quénia). Este efeito poderá ser parcialmente explicado pelo funcionamento do copo: uma vez que o sangue da menstruação é recolhido na parte superior da vagina, a microbiota poderá ter menos contacto com um sangue rico em ferro que estimula o crescimento de Gardnerella vaginalis e L. iners. Dessa forma, o copo menstrual poderá contribuir para a manutenção de uma flora vaginal saudável, dominada por L. crispatus, perfil associado a uma melhor proteção contra a disbiose vaginal e determinadas IST. Não foi observado qualquer caso de síndrome de choque tóxico entre as utilizadoras nos dois estudos que facultaram esta informação.
Portanto, segundo os autores, o copo menstrual pode ser uma solução económica, fácil de implementar e sustentável para ajudar a reduzir a incidência de doenças ginecológicas evitáveis, melhorando simultaneamente a higiene menstrual e íntima das mulheres.

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