Cancro colorretal: e se as bactérias do tumor permitirem prever a evolução da doença?
As bactérias diretamente presentes no tumor poderão permitir prever a evolução do cancro colorretal. É isso o que sugere um grande estudo internacional publicado no final de 2025, sobre um cancro que afeta quase 48.000 pessoas por ano em França.
Um tipo de cancro comum entre as pessoas com mais de 50 anos
O cancro colorretal atinge o cólon ou o reto. Constitui a 2.ª principal causa de óbito por cancro em todo o mundo, de acordo com a OMS 1.
47 582 Em França, foram diagnosticados 47.582 novos casos em 2023, 95% dos quais em pessoas com mais de 50 anos, sendo 55% homens e 45% mulheres ².
A doença resulta de uma transformação anormal de células colorretais, que se multiplicam de forma descontrolada.
Entre os fatores conhecidos encontram-se:
- a idade,
- os antecedentes familiares
- e determinadas doenças inflamatórias intestinais.
Mas há mais um que começa a chamar a atenção dos investigadores: as bactérias existentes diretamente nos tecidos tumorais.
Subtipos do cancro colorretal
O cancro colorretal não constitui um grupo homogéneo. Foi estabelecida pelos cientistas uma classificação em 4 subtipos moleculares (CMS1 a CMS4), os quais se diferenciam pelas:
- suas características biológicas,
- pelo seu comportamento
- e pela resposta aos tratamentos 4.
Esta classificação ajuda os médicos a adequarem melhor o tratamento a cada paciente.
- Tumores com elevado grau de mutação
- e reação imunitária intensa,
- geralmente localizados na parte direita do cólon.
No estudo, os tumores CMS1 apresentam uma elevada concentração de várias subespécies de Fusobacterium e de bactérias de origem oral, em comparação com os outros subtipos.
O subtipo mais frequente.
É nele que a existência do módulo genético pks e a abundância de Enterobacteriaceae têm impacto negativo no prognóstico.
Tumores com anomalias metabólicas específicas.
O subtipo com pior prognóstico geral e com maior risco de disseminação. No estudo, a presença de determinadas subespécies de Fusobacterium surgiu associada a um prognóstico mais desfavorável neste subtipo.
Bactérias no núcleo do tumor
Já há muito que se sabe que o nosso intestino alberga milhares de milhões de microrganismos – a microbiota intestinal – os quais desempenham um papel fundamental no nosso sistema imunitário e na nossa saúde geral.
Microbiota intestinal: a aliada do nosso sistema imunitário
Um estudo 3 publicado na revista Nature Communications em dezembro de 2025, realizado com 937 doentes suecos, mostra que também há bactérias diretamente nos tecidos tumorais, juntamente com as células cancerosas colorretais.
Recorrendo a uma técnica avançada de sequenciação, os investigadores identificaram 361 espécies bacterianas nos tumores e nos tecidos adjacentes, incluindo:
- vários géneros da família das Enterobacteriaceae (nomeadamente E. coli),
- vários géneros do filo dos Firmicutes,
- bem como os géneros Fusobacterium, Akkermansia e Treponema.
Alguns perfis microbianos parecem estar associados a um pior prognóstico da doença: por exemplo, foram detetadas estirpes de E. coli pks+ em 17,4% dos tumores analisados. Estas bactérias são portadoras de um módulo genético, o pks, que lhes permite produzir uma toxina, a colibactina, capaz de atacar diretamente o ADN das células do cólon.
Cólon: um órgão fundamental
O cólon constitui a parte terminal do intestino. Mede cerca de 1,5 metros e subdivide-se em vários segmentos:
- cólon direito,
- cólon esquerdo
- e reto.
É nas suas paredes que o cancro colorretal se desenvolve – e é também aí que se concentra a microbiota intestinal, milhares de milhões de bactérias que desempenham um papel essencial na nossa saúde.
Os investigadores observaram igualmente que algumas espécies de bactérias encontradas nos tumores parecem interagir com o sistema imunitário local, ativando vias do processo inflamatório – sendo este um mecanismo que se sabe estimular a progressão tumoral.
Estas correlações foram observadas de forma constante em várias coortes de doentes, o que reforça a fiabilidade dos resultados.
Resultados promissores
Com base nessas observações, os investigadores criaram um índice de risco tendo por base a composição bacteriana dos tumores.
Tal índice permite prever a evolução provável da doença, complementando as ferramentas de diagnóstico atuais – e isto independentemente:
- da idade,
- do estádio do cancro
- ou das características genéticas do tumor.
A longo prazo, o perfil bacteriano do tumor colorretal poderá vir a tornar-se num instrumento de apoio ao prognóstico e ao tratamento dos doentes, abrindo caminho para novas abordagens terapêuticas que visem especificamente o sistema imunitário e a microbiota.
Estes resultados, ainda de natureza associativa, requerem estudos mais aprofundados para se poder comprovar os respetivos mecanismos.
1. PAHO-Bilan mondial du cancer.
2. Ameli-Cancer colorectal.
3. Shi Z. et al. Tissue-resident microbiota impacts colorectal cancer progression and prognosis. Nature Communications, 2026, 17:346. https://doi.org/10.1038/s41467-025-67047-2.
4. Guinney J. et al. The consensus molecular subtypes of colorectal cancer. Nature Medicine, 2015, 21(11), 1350–1356. https://doi.org/10.1038/nm.3967.