Cancro colorretal: e se as bactérias do tumor permitirem prever a evolução da doença?

As bactérias diretamente presentes no tumor poderão permitir prever a evolução do cancro colorretal. É isso o que sugere um grande estudo internacional publicado no final de 2025, sobre um cancro que afeta quase 48.000 pessoas por ano em França.

A microbiota intestinal
Colorectal cancer: could bacteria within tumors predict  disease progression?

Um tipo de cancro comum entre as pessoas com mais de 50 anos

O cancro colorretal atinge o cólon ou o reto. Constitui a 2.ª principal causa de óbito por cancro em todo o mundo, de acordo com a OMS 1.

47 582 Em França, foram diagnosticados 47.582 novos casos em 2023, 95% dos quais em pessoas com mais de 50 anos, sendo 55% homens e 45% mulheres ².

A doença resulta de uma transformação anormal de células colorretais, que se multiplicam de forma descontrolada.
Entre os fatores conhecidos encontram-se:

  • a idade,
  • os antecedentes familiares
  • e determinadas doenças inflamatórias intestinais.

Mas há mais um que começa a chamar a atenção dos investigadores: as bactérias existentes diretamente nos tecidos tumorais.

Subtipos do cancro colorretal

O cancro colorretal não constitui um grupo homogéneo. Foi estabelecida pelos cientistas uma classificação em 4 subtipos moleculares (CMS1 a CMS4), os quais se diferenciam pelas:

  • suas características biológicas,
  • pelo seu comportamento
  • e pela resposta aos tratamentos 4.

Esta classificação ajuda os médicos a adequarem melhor o tratamento a cada paciente. 

CMS1
  • Tumores com elevado grau de mutação
  • e reação imunitária intensa,
  • geralmente localizados na parte direita do cólon.

No estudo, os tumores CMS1 apresentam uma elevada concentração de várias subespécies de Fusobacterium e de bactérias de origem oral, em comparação com os outros subtipos.

CMS2

O subtipo mais frequente.
É nele que a existência do módulo genético
pks e a abundância de Enterobacteriaceae têm impacto negativo no prognóstico.

CMS3

Tumores com anomalias metabólicas específicas.

CMS4

O subtipo com pior prognóstico geral e com maior risco de disseminação. No estudo, a presença de determinadas subespécies de Fusobacterium surgiu associada a um prognóstico mais desfavorável neste subtipo.

Bactérias no núcleo do tumor

Já há muito que se sabe que o nosso intestino alberga milhares de milhões de microrganismos – a microbiota intestinal – os quais desempenham um papel fundamental no nosso sistema imunitário e na nossa saúde geral.

Microbiota intestinal: a aliada do nosso sistema imunitário

Saiba mais

Um estudo 3 publicado na revista Nature Communications em dezembro de 2025, realizado com 937 doentes suecos, mostra que também há bactérias diretamente nos tecidos tumorais, juntamente com as células cancerosas colorretais.

Recorrendo a uma técnica avançada de sequenciação, os investigadores identificaram 361 espécies bacterianas nos tumores e nos tecidos adjacentes, incluindo:

  • vários géneros da família das Enterobacteriaceae (nomeadamente E. coli),
  • vários géneros do filo dos Firmicutes, 
  • bem como os géneros Fusobacterium, Akkermansia e Treponema.

Alguns perfis microbianos parecem estar associados a um pior prognóstico da doença: por exemplo, foram detetadas estirpes de E. coli pks+ em 17,4% dos tumores analisados. Estas bactérias são portadoras de um módulo genético, o pks, que lhes permite produzir uma toxina, a colibactina, capaz de atacar diretamente o ADN das células do cólon.

Cólon: um órgão fundamental

O cólon constitui a parte terminal do intestino. Mede cerca de 1,5 metros e subdivide-se em vários segmentos:

  • cólon direito,
  • cólon esquerdo
  • e reto. 

É nas suas paredes que o cancro colorretal se desenvolve – e é também aí que se concentra a microbiota intestinal, milhares de milhões de bactérias que desempenham um papel essencial na nossa saúde. 

Os investigadores observaram igualmente que algumas espécies de bactérias encontradas nos tumores parecem interagir com o sistema imunitário local, ativando vias do processo inflamatório – sendo este um mecanismo que se sabe estimular a progressão tumoral.
Estas correlações foram observadas de forma constante em várias coortes de doentes, o que reforça a fiabilidade dos resultados.

Resultados promissores

Com base nessas observações, os investigadores criaram um índice de risco tendo por base a composição bacteriana dos tumores.
Tal índice permite prever a evolução provável da doença, complementando as ferramentas de diagnóstico atuais – e isto independentemente
:

  • da idade,
  • do estádio do cancro
  • ou das características genéticas do tumor.

A longo prazo, o perfil bacteriano do tumor colorretal poderá vir a tornar-se num instrumento de apoio ao prognóstico e ao tratamento dos doentes, abrindo caminho para novas abordagens terapêuticas que visem especificamente o sistema imunitário e a microbiota.
Estes resultados, ainda de natureza associativa, requerem estudos mais aprofundados para se poder comprovar os respetivos mecanismos.

Fontes

1. PAHO-Bilan mondial du cancer.
2. Ameli-Cancer colorectal.
3. Shi Z. et al. Tissue-resident microbiota impacts colorectal cancer progression and prognosis. Nature Communications, 2026, 17:346. https://doi.org/10.1038/s41467-025-67047-2.
4. Guinney J. et al. The consensus molecular subtypes of colorectal cancer. Nature Medicine, 2015, 21(11), 1350–1356. https://doi.org/10.1038/nm.3967.

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Microbiota intratumoral do cancro colorretal: um indicador prognóstico independente?

Um estudo de coorte prospetivo que avaliou 937 pacientes revela que a microbiota residente nos tecidos tumorais do cancro colorretal está associada ao prognóstico, independentemente dos fatores clínico-moleculares já identificados. 

Intratumoral microbiota in colorectal cancer: an independent prognostic indicator?

O cancro colorretal é a 2.ª mais importante causa de óbito por cancro em todo o mundo.

9,3 % Em 2022, 9,3% do total de mortes por cancro ¹.

47 582 Em França, foram diagnosticados 47.582 novos casos em 2023 - 95% dos quais em pessoas com mais de 50 anos, sendo 55% homens e 45% mulheres ².

Metodologia de referência: sequenciamento de nova geração em 937 doentes 

Shi et al. 3  analisaram dados de sequenciação do genoma completo provenientes de 1.412 amostras de tecido:

  • 937 tumores e 475 tecidos normais adjacentes (NAT)
  • e 462 amostras de sangue de 937 doentes nunca tratados, recrutados na coorte prospetiva U-CAN (Uppsala-Umeå, Suécia).

A validação foi realizada através de uma coorte externa independente (AC-ICAM, n = 246). Foi criado um pipeline bioinformático rigoroso para identificar e quantificar as bactérias presentes nos tecidos tumorais, com prioridade concedida à especificidade em detrimento da sensibilidade, respondendo diretamente às recentes controvérsias metodológicas nesta área. 

Subtipos moleculares do CRC (CMS1 a 4)

O cancro colorretal não constitui um grupo homogéneo. A classificação internacional CMS (Consensus Molecular Subtypes) distingue 4 subtipos de acordo com o perfil molecular do tumor4. 
Esta classificação situa-se no cerne da interpretação dos resultados de Shi et al.

CMS1

Características:

  • tumores com alta taxa de mutações,
  • forte resposta imunitária,
  • cólon direito.

Associação microbiana no estudo de Shi et al., 2025: abundância relativa: aumento de subespécies de Fusobacterium (Fn. animalis C2, Fn. nucleatum, Fn. vincentii e Fn. polymorphum), e de bactérias orais (Parvimonas, Peptostreptococcus, Treponema) em comparação com os outros subtipos. Nenhuma associação prognóstica de pks+ específica neste subtipo.

CMS2

Características:

  • o mais frequente (37%),
  • ativação das vias WNT e MYC.

Associação microbiana no estudo de Shi et al., 2025: associação prognóstica específica pks+/Enterobacteriaceae → prognóstico desfavorável.

CMS3

Características:

  • anomalias metabólicas,
  • mutação frequente do gene KRAS.

Associação microbiana no estudo de Shi et al., 2025: nenhuma associação prognóstica de pks+ específica neste subtipo identificada neste estudo.

CMS4

Características:

  • transformação mesenquimatosa,
  • risco elevado de metástases.

Associação microbiana no estudo de Shi et al., 2025: associação prognóstica com um aumento dos níveis de Fn. animalis C2, Fn. nucleatum e Fn. polymorphum, com uma sobrevivência mais curta, através de vias imunometabólicas específicas.

A associação prognóstica pks+/Enterobacteriaceae é específica do CMS2, enquanto os CMS1 e CMS4 apresentam assinaturas microbianas distintas, sem essa especificidade prognóstica pks+.

361 espécies identificadas, um índice de risco microbiano validado

Os autores do estudo identificaram 249 géneros e 361 espécies bacterianas comuns aos tumores e aos NAT, entre os:

  • quais Fusobacterium nucleatum,
  • várias Enterobacteriaceae (E. coli),
  • Akkermansia muciniphila,
  • Firmicutes e espécies pertencentes ao género Treponema.

As assinaturas microbianas apresentaram variações em função da localização anatómica, do estádio tumoral e dos subtipos moleculares de consenso (CMS1 a 4).
17,4% dos tumores apresentaram resultados positivos para a ilhota genómica pks, presente em algumas estirpes de E. coli genotóxicas que afetam as células cancerosas colorretais através da colibactina. A ocorrência de pks+ e uma grande abundância de Enterobacteriaceae surgiram associadas especificamente a um prognóstico desfavorável no subtipo CMS2.

Foram calculados e validados dois índices de risco microbiano – MRS-T (tumor) e MRS-N (NAT) – nas três coortes, os quais permitem prever a sobrevivência global independentemente dos fatores clínico-patológicos clássicos (aumentando a capacidade de discriminação do modelo prognóstico em comparação com os fatores do hospedeiro isoladamente).
Os táxons desfavoráveis foram associados à ativação de vias pró-inflamatórias (hipoxia, MAPK1/3, IL-6) e a uma alteração do
sistema imunitário tumoral.

Implicações clínicas e limitações

A microbiota intratissular do CCR constitui uma fonte de informação prognóstica independente, potencialmente complementar aos marcadores moleculares atuais. 
A especificidade da associação entre pks/Enterobacteriaceae e o subtipo CMS2 suscita a necessidade de se integrar a subtipagem molecular na interpretação do papel da microbiota.
Ao interpretar estes dados, importa considerar as seguintes limitações: 

  • o estudo é de natureza observacional
  • e incluiu apenas doentes sem tratamento prévio,
  • adicionalmente, a secuenciação do genoma completo (WGS) não é aplicável de forma rotineira nesta fase.

Antes de qualquer aplicação clínica, será necessário realizar ensaios mecanísticos e prospetivos. 

Fontes

1. PAHO-Bilan mondial du cancer.
2. Ameli-Cancer colorectal.
3. Shi Z. et al. Tissue-resident microbiota impacts colorectal cancer progression and prognosis. Nature Communications, 2026, 17:346. https://doi.org/10.1038/s41467-025-67047-2.
4. Guinney J. et al. The consensus molecular subtypes of colorectal cancer. Nature Medicine, 2015, 21(11), 1350–1356. https://doi.org/10.1038/nm.3967.

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Alimentos fermentados: um vasto conjunto de benefícios para a saúde

Pão, iogurtes, queijo, legumes, enchidos, etc.: os alimentos fermentados ocupam um lugar importante nas nossas refeições, na nossa alimentação diária e até mesmo na gastronomia ! Embora a sua finalidade inicial fosse prolongar o prazo de conservação de alimentos sazonais, os seus benefícios para a saúde e o seus sabores justificam a popularidade de que gozam atualmente! 

A microbiota intestinal

E podem até estar agora na moda, mas não precisaram de estar à espera de “influencers” para entrarem nas ementas: os primeiros alimentos fermentados poderão remontar a 14.000 a.C. e terão surgido junto à costa do Mediterrâneo. 1
Foi então que a fermentação se impôs empiricamente como uma excelente forma de conservar os alimentos. Seria preciso esperar até 1857 para que Louis Pasteur descobrisse os mecanismos subjacentes e o papel dos organismos vivos (leveduras, bactérias e outros organismos microscópicos) neste processo.

Na ausência de oxigénio, os microrganismos, graças às suas enzimas, degradam os componentes (frequentemente os açúcares) dos alimentos; esta degradação produz, designadamente, ácidos (ácido láctico nos iogurtes, nos queijos, no kimchi ou na chucrute) ou álcool (fermentação alcoólica do vinho). 
Utilidade: o ácido reduz o pH e repele os agentes patogénicos o mesmo acontece com o álcool, que é um antimicrobiano. 2

"É difícil determinar com certeza o número de alimentos fermentados produzidos em todo o mundo; a maioria das estimativas indica que existirão mais de 5.000 tipos diferentes."  3

Visão geral das fermentações alimentares mais comuns

Fonte: Valentino, 2024 2

Fermentação láctica

Principais taxas envolvidas:

  • Lactobacillaceae
  • Leuconostocaceae
  • Streptococcaceae

Principais produtos: 

  • ácido láctico (homoláctico)
  • CO2
  • etanol (heteroláctico)

Principais alimentos fermentados produzidos: 

  • laticínios (iogurte, queijos, kefir)
  • chucrute
  • kimchi
  • picles
  • tempeh
  • carnes fermentadas
Fermentação alcoólica

Principais taxas envolvidas:

  • Saccharomyces spp.
  • Kloeckera spp.

Principais produtos: 

  • etanol
  • CO2

Principais alimentos fermentados produzidos: 

  • vinho
  • cerveja
  • kefir
Fermentação acética

Principais taxas envolvidas:

  • Acetobacter spp.
  • Gluconacetobacter
  • Gluconobacter

Principais produtos:

  • acetato
  • exopolissacarídeos

Principais alimentos fermentados produzidos:

  • chocolate
  • café
  • vinagre
  • cervejas especiais
  • kefir de água
Fermentação propiônica

Principais taxas envolvidas:

  • Propionibacterium spp.

Principais produtos:

  • propionato
  • acetato 
  • CO2
  • succinato (via de Wood-Werkman)

Principais alimentos fermentados produzidos:

  • queijos de tipo suíço

Ricos em microrganismos com efeito probiótico 

Alguns alimentos fermentados, como o pão, o vinho, o café ou o chocolate, já não contêm microrganismos vivos, uma vez que a cozedura ou o processo de transformação alimentar os elimina. 1
Mas há muitos outros produtos que continuam a ser muito ricos em bactérias e leveduras vivas na altura em que são consumidos.
É o caso :

  • dos iogurtes,
  • do kefir,
  • da maioria dos queijos,
  • do miso,
  • do natto,
  • do tempeh,
  • dos legumes fermentados não aquecidos, como os pepininhos em picles,
  • do salame e de outros enchidos não aquecidos. 1 

Esses microrganismos previnem o desenvolvimento de agentes patogénicos como as bem conhecidas Listeria e Salmonella, causadoras de intoxicações alimentares. 

Mas a história não termina à porta do armário onde esses alimentos são armazenados. Quando consumimos produtos fermentados que contêm bactérias e leveduras vivas, ingerimos esses microrganismos, os quais irão percorrer o nosso sistema digestivo.
Embora muitos sucumbam à acidez do nosso estômago, parte deles parece conseguir chegar aos nossos intestinos e alterar a nossa microbiota, tanto de forma transitória como a longo prazo, sempre que há um consumo regular desse alimento. 1,3,4,5

Trata-se do efeito  (sidenote: Probiotics Microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios para a saúde do hospedeiro. FAO/OMS, Joint Food and Agriculture Organization of the United Nations/ World Health Organization. Working Group. Report on drafting  guidelines for the evaluation of probiotics in food, 2002. Hill C, Guarner F, Reid G, et al. Expert consensus document. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the scope and appropriate use of the term probiotic. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2014;11(8):506-514. )  dos alimentos fermentados não cozidos ou não pasteurizados, como o kombucha, o kefir ou o kimchi, que enriquecem a nossa flora intestinal com microrganismos benéficos para o nosso sistema digestivo e para a nossa saúde em geral, pois repelem os agentes patogénicos, reforçam a nossa barreira intestinal, reduzem a inflamação. 2 

Legumes fermentados: boas razões para colocá-los no cardápio

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Ricos em fibras prebióticas 

Os alimentos fermentados não só são uma fonte de bactérias, como também servem de alimento para esses microrganismos. Por exemplo, os frutos, os legumes ou o pão (sobretudo o integral) contêm fibras alimentares, hidratos de carbono que o nosso organismo não consegue digerir. 6 Essas fibras acabam, assim, por alcançar o nosso intestino grosso, onde são consumidas pelas nossas bactérias.

As fibras alimentares fermentáveis presentes nos frutos, legumes e leguminosas, bem como as fibras não fermentáveis (como o amido resistente) dos cereais, constituem substratos alimentares da nossa microbiota intestinal 6 e desempenham uma função prebiótica.
Graças a elas, a nossa flora mantém-se em grande forma. 

Ricos em metabolitos pós-bióticos 

A fermentação por bactérias, independentemente de ocorrer na chucrute, no queijo ou no nosso trato digestivo, resulta na produção de numerosos metabolitos, entre os quais  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. )  (AGCC).
O mais notável de todos é, sem dúvida, o  (sidenote: Butirato Um ácido gordo de cadeia curta produzido pelas bactérias intestinais através da fermentação da fibra alimentar. ) , que reforça a função de barreira intestinal do nosso sistema digestivo ao estimular a produção de muco protetor e das proteínas que firmam as células da parede intestinal entre si. 
Os seus efeitos vão para além do sistema digestivo, uma vez que entra na circulação sanguínea e contribui, assim, para a regulação de certas funções do organismo: aumenta a sensação de saciedade, reduz a inflamação. 7
Portanto, os alimentos fermentados possuem também um efeito  (sidenote: Postbióticos Preparação de microrganismos inanimados e/ou componentes que conferem uma vantagem à saúde do hospedeiro. Salminen S, Collado MC, Endo A, et al. The International Scientific Association of Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of postbiotics. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2021 Sep;18(9):649-667. )  o que contribui igualmente para os seus benefícios ! 

E ainda há mais.
Os microrganismos produzem também muitos outros compostos úteis para a nossa saúde: 

  • vitaminas do complexo B nos laticínios fermentados;
  • vitaminas A, B e C, minerais e polifenóis no shalgam, bebida turca fermentada à base de cenouras pretas e nabos;
  • antioxidantes benéficos no kombucha, um chá fermentado adocicado;
  • polifenóis nos vegetais fermentados chineses ou no vinho tinto. 1,3

Regime psicobiótico: alimentos fermentados ou ricos em prebióticos para reduzir o stress?

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Mais fáceis de digerir, em todas as aceções do termo 

Os alimentos fermentados são também considerados mais digestos. De facto, alguns microrganismos, graças às respetivas enzimas, já fazem parte do trabalho de digestão: eles fragmentam as enormes moléculas de hidratos de carbono, proteínas ou lípidos em moléculas mais pequenas e mais fáceis de digerir.1,3
A fermentação pode igualmente melhorar a biodisponibilidade de certos nutrientes: assim, nos produtos que contêm leite como os iogurtes, o cálcio e o potássio tornam-se mais fáceis de assimilar. 2 

Também pode tornar certos alimentos fermentados "aceitáveis" para consumidores intolerantes.
O exemplo mais clássico é a lactase, uma enzima que digere a lactose durante a infância, mas que por vezes se perde posteriormente. Sem ela, ficamos intolerantes à lactose e inchados ao mínimo copo de leite.
Enquanto um iogurte ou um queijo continuam frequentemente a ser bem tolerados. Porquê? Porque as bactérias lácticas, devido à sua própria lactase, já consumiram grande parte da lactose, reduzindo significativamente a sua concentração e os riscos de intolerância.1,2,3
Da mesma forma, a fermentação poderá reduzir os FODMAPS e o glúten, aumentando um pouco a aceitabilidade por parte das pessoas sensíveis. 8 

Por fim, a fermentação pode também diminuir a concentração de fatores anti nutricionais nos alimentos. Na soja, reduz os inibidores de tripsina, que bloqueiam uma enzima pancreática necessária para a nossa digestão de proteínas. 1,3
O mesmo acontece com a fermentação dos cereais e leguminosas, que reduz os fitatos, os quais dificultam a absorção de minerais como o zinco, o ferro ou o cálcio. 2

Ricos em sabor, pobres em aditivos 

Finalmente, a fermentação liberta numerosos compostos que alteram radicalmente as qualidades organoléticas dos alimentos fermentados em termos de  3:

  • Sabor: a conversão dos açúcares em ácidos orgânicos (ácidos láctico, acético e propiónico) modifica o perfil aromático dos alimentos. Por exemplo, o ácido propiónico confere aos queijos suíços, como o Gruyère, o seu sabor característico; a fermentação do citrato por determinadas bactérias lácticas contribui com um toque a nozes e a manteiga em produtos como o queijo tipo cottage ou o Gouda. 
  • Aroma: a fermentação liberta compostos aromáticos únicos (ésteres, álcoois) que dão aos queijos, aos pães ou ao vinho os seus cheiros característicos. 
  • Textura e aparência: a fermentação pode alterar a estrutura física, fazendo com que, por exemplo, o iogurte fique cremoso, o pão com bolhas de ar e o Emmental com buracos, graças ao CO2 libertado. 

Para terminar, a fermentação é a arte de conservar… sem conservantes.
Não requer grande quantidade de equipamento pesado, permite que se dispense o uso de aditivos (já que os ácidos ou o álcool produzidos pelos microrganismos afastam os agentes patogénicos) e que os alimentos possam ser conservados à temperatura ambiente, evitando o consumo energético associado a vários meses de conservação em frigorífico.  

Portanto, não faltam razões para incluirmos alimentos fermentados nas nossas refeições! 

Descubra a nossa série de conteúdos sobre a microbiota e os alimentos fermentados:

Kefir: um aliado natural da nossa microbiota?

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Os iogurtes, os grandes aliados do teu microbioma intestinal

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Kombucha: promessas científicas ou de marketing?

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Kimchi, uma mistura de fibras e bactérias com efeitos benéficos

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Os efeitos benéficos e por vezes paradoxais do miso

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Volta ao mundo dos alimentos fermentados

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Será que uma bactéria intestinal poderá substituir a inscrição no ginásio?

Apesar de fazer exercícios e comer proteínas, os seus músculos vão se enfraquecendo com a idade. E se a carência não estiver no seu prato, mas no seu intestino? Uma nova bactéria pode desvendar o mistério.

A microbiota intestinal
Could One Gut Bacterium replace a Gym Membership?

Imagine: está a envelhecer e, por mais que se esforce:

  • a sua força de preensão diminui,
  • as suas pernas cansam-se mais depressa
  • e sente que o seu corpo já não é mais o mesmo.

Os médicos chamam tal fenómeno de sarcopenia. Afeta até um terço dos adultos com mais de 60 anos. 
A alimentação e o exercício físico ajudam, claro, mas uma equipa de cientistas 1 em Espanha e nos Países Baixos acabou de descobrir algo que ninguém esperava: um aliado microscópico que vive nos seus intestinos pode estar, discretamente, a moldar a sua força. 
Chamam esta via de «eixo intestino-músculo». 

Sarcopenia

Síndrome caracterizada por um declínio da força muscular, frequentemente associada à perda de massa muscular e/ou ao desempenho físico. Quando essa perda da força e da massa muscular torna-se clinicamente significante, os médicos chamam-na de sarcopenia. 1

Eixo intestino-músculo

Canal de comunicação recentemente descoberto entre as bactérias intestinais e os musculoesqueléticos. Pense nisso como um diálogo oculto, no qual os sinais provenientes do intestino podem influenciar o grau de força ou fraqueza dos músculos. 1

 

Um novo probiótico para o seu músculo?

Os investigadores estudaram 124 adultos, jovens e idosos, e descobriram que as pessoas que transportavam uma bactéria intestinal chamada Roseburia inulinivorans eram mensuravelmente mais fortes. Dentre os adultos mais velhos, aqueles com níveis detetáveis da bactéria tinham 29% mais força de preensão que os adultos em que tais bactérias não foram detetadas.

Microbiota e desporto: microrganismos de competição

Saiba mais

Para verificar se este efeito poderia ser reproduzido em laboratório, administraram esta bactéria a ratos por via oral, três vezes por semana. Em poucas semanas, a força muscular dos animais aumentou cerca de 30%, sem que tivessem passado um único minuto numa passadeira.
As suas fibras musculares ficaram inclusive maiores e migraram para a variedade do tipo II, as fibras potentes e de contração rápida que permitem agarrar, correr a toda a velocidade e levantar pesos. Outras bactérias intimamente relacionadas não mostraram o mesmo efeito sobre a força de preensão nos ratos. 
Tratava-se unicamente da R. inulinivorans.

Fibras musculares do tipo II

Fibras musculares rápidas e potentes que mobilizamos quando corremos, saltamos ou apertamos algo com força. Neste estudo, a R. inulinivorans alterou a composição muscular privilegiando essas fibras, o que ajuda a explicar os notáveis ganhos de força observados. 1

Roseburia inulinivorans

Espécie de bactéria intestinal normalmente encontrada em intestinos saudáveis. Dentre todos os membros da família Roseburia testados, foi a única capaz de aumentar a força muscular, um efeito notavelmente específico que a distingue como candidata a probiótico. 1

Uma bactéria feita para o desempenho

É aqui que a descoberta se revela surpreendente. A R. inulinivorans pertence à família de bactérias conhecida por produzir butirato, um famoso metabolito. Seria de esperar que fosse esse o mecanismo. Mas os níveis de butirato não se mexeram. Ao invés disso, o rato que recebeu a R. inulinivorans mostrou níveis mais baixos de diversos aminoácidos no intestino e no sangue.

Aminoácidos

Blocos de construção moleculares que o corpo utiliza para construir e reparar os músculos. Neste estudo, a R. inulinivorans consumiu aminoácidos no intestino, o que, paradoxalmente, pareceu redirecionar o estoque restante do corpo para o tecido muscular. 1

Era como se essa bactéria estivesse a consumir aminoácidos, os elementos fundamentais da proteína, bem ali no intestino. É como se os seus micróbios executassem a sua própria estratégia de nutrição tranquilamente.
Paradoxalmente, ao absorverem os aminoácidos para si próprios, pareciam levar o organismo a redirecionar as reservas restantes para os músculos. 
Ao chegarem lá, alimentavam as vias energéticas essenciais para a reparação, o crescimento e o desempenho 
muscular.

Se não o usar, perdê-lo-á!

Eis agora a parte inquietante. A presença de R. inulinivorans diminui conforme envelhecemos, precisamente quando os nossos músculos mais precisam dela. Uma tendência semelhante observada em dados públicos relativos a mais de 3 500 pessoas sugere que a perda muscular relacionada com a idade não se deve apenas a uma menor atividade física ou a alterações na alimentação. O ecossistema intestinal também está a mudar, e um parceiro silencioso da nossa força começa a desaparecer discretamente.

Desporto – com moderação – para uma microbiota intestinal saudável

Saiba mais

A boa notícia: os cientistas agora consideram a R. inulinivorans um promissor candidato a probiótico. Ainda são necessários ensaios clínicos em humanos, mas a visão parece tangível: futuramente, a manutenção da força muscular poderá começar não no ginásio, mas no que vive no seu intestino.

 

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Uma bactéria intestinal que aumenta a força muscular

A sarcopenia é frequentemente vista como uma falha dos exercícios físicos e da nutrição. Um novo estudo vem associar uma bactéria intestinal, a Roseburia inulinivorans, à força muscular nos humanos e mostra um efeito causal em ratos, através de alterações nos aminoácidos.

A microbiota intestinal regula o metabolismo do hospedeiro, a inflamação e a função dos tecidos, mas o seu papel na saúde muscular mantém-se ainda um ângulo morto. Embora o conceito de eixo intestino-músculo tenha ganhado visibilidade, nenhuma espécie bacteriana específica havia sido associada causalmente à força muscular.
Um novo estudo 1  publicado na revista Gut, escrito por Martinez-Tellez et al., do Centro Médico da Universidade de Leiden e da Universidade de Granada, vem colmatar essa lacuna. 

Eixo intestino-músculo

Via de comunicação bidirecional através da qual os micróbios intestinais, os seus metabolitos e os sinais imunitários influenciam a massa e a função muscular. Este estudo fornece uma evidência direta de que uma única espécie de bactéria nesse eixo pode modular casualmente a força muscular. 1

Sarcopenia

Perda progressiva de massa muscular esquelética, da força e da função, relacionada ao envelhecimento que contribui para a fragilidade e para resultados clínicos insatisfatórios. O declínio da R. inulinivorans observado com o envelhecimento sugere uma potencial via terapêutica baseada no microbioma para esta condição. 1

Da associação humana à prova causal em ratos

A equipa realizou análises metagenómicas em duas coortes humanas: 

  • de 90 jovens adultos (18–25 anos)
  • e de 33 idosos (65–75 anos), cujo fenótipo em termos de força muscular foi amplamente avaliado. 

Entre todos os táxons bacterianos, a abundância relativa de Roseburia inulinivorans, que não inclui outras espécies de Roseburia, apresentou uma associação positiva com a força de preensão manual em ambos os grupos etários. Os idosos que apresentaram a R. inulinivorans detetável tinham uma força de preensão manual 29% superior (p < 0,01). Nos jovens adultos, uma maior abundância também se correlacionou com o desempenho na pressão das pernas e no supino (r ≥ 0,26, p < 0,05).

Roseburia inulinivorans

Bactéria anaeróbica produtora de butirato da família Lachnospiraceae, identificada neste estudo como a única espécie do género Roseburia especifica e causalmente associada ao aumento da força muscular, tanto em coortes humanas como num modelo murino. 1

 

 Para testar a causalidade, 32 ratos tratados com antibióticos receberam, por via oral:  

  • R. inulinivorans,
  • R. faecis,
  • R. intestinalis, ou um veículo três vezes por semana durante oito semanas. 

Apenas a R. inulinivorans induziu um aumento notável de cerca de 30% na força de preensão dos membros anteriores (p < 0,001). A análise das fibras musculares confirmou um aumento da área transversal, uma maior frequência de fibras grossas (>5000 µm²) e uma transição das fibras do tipo I para as do tipo II, as fibras de contração rápida essenciais para a geração de força.

Fibras musculares do tipo II

Fibras musculoesqueléticas de contração rápida, caracterizadas por uma elevada capacidade glicolítica e uma rápida geração de força. A suplementação com R. inulinivorans alterou a composição das fibras para o tipo II, o que coincidiu com um aumento do tamanho das fibras musculares e da força de preensão nos ratos. 1

Um mecanismo inesperado: os aminoácidos e não o butirato

Considerando que as espécies da Roseburia são conhecidas produtoras de butirato, esperava-se que o fator determinante fosse os ácidos gordos de cadeia curta. No entanto, os níveis de AGCC no ceco permaneceram inalterados.
A principal assinatura metabólica da
R. inulinivorans residia noutro aspeto: uma diminuição acentuada dos aminoácidos no ceco, incluindo:

  • a metionina,
  • a leucina,
  • a isoleucina,
  • a valina,
  • a alanina
  • e a lisina.

Os dados genómicos indicam que a R. inulinivorans depende de uma via única de biossíntese da lisina dependente da succinilação e não consegue utilizar a ureia como fonte de azoto, o que provavelmente aumenta a sua absorção luminal de aminoácidos. A jusante, a metabolómica não direcionada no músculoesquelético revelou a ativação das vias das purinas e do pentose-fosfato, vias centrais para a biossíntese de nucleótidos, a produção de NADPH e o equilíbrio redox.  
O metabolismo das purinas pode ser estimulado pelo mTORC1, um regulador principal da sinalização anabólica e do crescimento muscular, sugerindo uma ligação mecânica entre o consumo microbiano de aminoácidos no intestino e a hipertrofia das fibras musculares.

29%

Entre os idosos, a presença detetável de R. inulinivorans está associada a um aumento de 29% na força de preensão. ¹

Um candidato probiótico para os músculos envelhecidos

A abundância de R. inulinivorans foi significativamente menor nos adultos mais velhos em comparação com os mais jovens, uma tendência confirmada em 3 512 metagenomas disponíveis publicamente (p = 0,016).
O género
Roseburia também se encontra reduzido:

  • na sarcopenia,
  • na paralisia cerebral,
  • na anorexia nervosa
  • e na caquexia relacionada com o cancro.

Sarcopenia: a microbiota intestinal participa na perda funcional e de massa dos músculos esqueléticos?

Saiba mais

Sobretudo, demonstrou-se que o treino da força aumenta seletivamente a abundância de Roseburia, sugerindo um diálogo bidirecional entre o intestino e os músculos.
Juntas, estas descobertas posicionam a R. inulinivorans como um modulador específico da espécie no eixo intestino-músculo e como um candidato probiótico promissor para estratégias nutracêuticas contra a atrofia muscular relacionada com a idade, embora ensaios de intervenção rigorosos em seres humanos sejam o próximo passo fundamental.

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Cálculo renal, uma mistura de minerais... e bactérias?

E se os cálculos renais, ou pedras nos rins, não forem apenas depósitos minerais? Um estudo revela a presença de bactérias no interior dos cálculos de oxalato de cálcio, o que sugere que estas poderão estar relacionadas com a sua formação nos rins. 

A microbiota urinária

Os cálculos renais, ou litíase renal, são “pedrinhas” que se formam nos rins a partir de minerais presentes na urina.
Na maioria dos casos, trata-se dos chamados cálculos cálcicos, uma vez que são compostos por cálcio, nomeadamente sob a forma de oxalato de cálcio.
Até agora, a formação destes cálculos era principalmente explicada como um fenómeno químico: quando a urina é demasiado rica em cálcio e oxalato, formam-se cristais, que crescem e, posteriormente, se aglomeram nas vias urinárias. 

70% Os cálculos com base em cálcio representam mais de 70% do total dos cálculos, o que os torna, de longe, o tipo mais frequente de litíase urinária em todo o mundo. ¹

1/11 A prevalência da litíase renal (doença das pedras, ou cálculos, nos rins) tem aumentado à escala mundial ao longo das últimas décadas, com um risco ao longo da vida estimado de 1 em cada 11 pessoas. ¹

80% Foi observada uma taxa de recidiva que pode atingir os 80% em determinados tipos de cálculos renais. ¹

Mas esta noção pode estar errada, tal como a crença segundo a qual a urina é estéril, quando na verdade alberga uma microbiota urinária, importante para a saúde.

3

Os principais tipos de cálculos renais são:

  • os cálculos de cálcio, que são os mais habituais. 
  • os cálculos de estruvita, geralmente causados por uma infeção, nomeadamente uma infeção urinária. 
  • os cálculos de ácido úrico, normalmente relacionados com uma elevada concentração de ácido na urina. 1

Bactérias nos cálculos cálcicos

Um estudo 1 publicado na revista PNAS em 2026 levanta a hipótese de também existir um agente biológico que desempenha um papel importante: as bactérias.
O que levou os investigadores a seguir esta pista foi uma observação surpreendente: foram descobertas, em cálculos renais de oxalato de cálcio, bactérias e estruturas do tipo “biofilme”, uma espécie de matriz protetora que abriga comunidades bacterianas. 

Quais são os sintomas da litíase renal?

É possível que não se note a presença de cálculos renais mais pequenos. Na maioria dos casos, eles são excretados na urina sem causar desconforto.

Os cálculos renais de maior dimensão podem causar vários sintomas, em particular:

  • dor na parte lateral do abdómen (barriga); 
  • uma dor intensa que vem e vai em crises; 
  • náuseas ou vómitos. 2

O papel das bactérias na formação do cálculo

Ao analisarem com mais detalhe, os investigadores chegaram à conclusão de que os cálculos não são homogéneos: apresentam uma organização em camadas, alternando zonas minerais e zonas orgânicas ricas em bactérias.

Em termos microbiológicos, foram detetadas bactérias em quase metade dos cálculos analisados, mesmo em doentes sem quaisquer sinais de infeção urinária. 
As espécies mais frequentemente encontradas foram  : 

  • a Escherichia coli
  • a Enterococcus faecalis
  • a e Proteus mirabilis. 

Mais de um terço das amostras continham várias espécies bacterianas, formando verdadeiras comunidades microbianas. 

Quais são as causas da litíase renal?

Os resíduos existentes no sangue podem, por vezes, formar cristais que se acumulam nos rins. Com o tempo, esses cristais podem agregar-se e formar uma massa dura semelhante a uma pedra: um cálculo renal.

O risco de formação de cálculos é maior quando:

  • não se bebe líquidos suficientes; 
  • se toma determinados medicamentos; 
  • se sofre de qualquer doença que aumente a concentração de certas substâncias na urina. 

Assim que se forma um cálculo renal, o organismo procura normalmente eliminá-lo de forma natural durante a micção (emissão de urina). 2

Para os investigadores, as bactérias poderão desempenhar um papel ativo na formação de cálculos. Elas produzirão biofilmes ricos em ADN extracelular, capazes de captar os iões de cálcio e de os concentrar a nível local.
E essas estruturas criarão, por sua vez, "pontos de partida" propícios para a formação de cristais de oxalato de cálcio.
Esses cristais desenvolver-se-iam em seguida em torno e através dos biofilmes, que se integrariam progressivamente em camadas sucessivas na estrutura do cálculo renal.

Cálculo renal, um biocompósito?

Portanto, os cálculos renais poderão não ser apenas depósitos minerais resultantes de um desequilíbrio químico, mas sim estruturas híbridas que combinam componentes minerais e biológicos — verdadeiros “biocompósitos”. 

Se este modelo se confirmar, poderá alterar a compreensão da doença e abrir novas pistas para a sua prevenção e o tratamento, visando não só os cristais, mas também os biofilmes bacterianos que participam na sua formação.

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Litíases cálcicas: uma componente bacteriana durante muito tempo desconhecida

Foram detetadas bactérias e biofilmes em cálculos de oxalato de cálcio, o que sugere um papel potencial dos microrganismos na saúde urinária através da fisiopatologia das litíases cálcicas.

Os cálculos renais são aglomerados policristalinos e são classificados de acordo com sua composição. 
Mais de 2 em cada 3 cálculos são compostos principalmente por cálcio: a formação destes cálculos de oxalato de cálcio (CaOx) tem sido tradicionalmente explicada pela nucleação, crescimento e agregação de cristais numa urina sobressaturada de cálcio e oxalato. 
No entanto, é possível que outro mecanismo aí esteja em ação, ligado às bactérias da microbiota urinária.

Uma organização por camadas

A análise 1 dos cálculos dos doentes revelou a presença de estruturas típicas de bactérias : 

  • em termos de morfologia: forma de cocos, diâmetro, etc;
  • e de composição: ADN, lípidos típicos das membranas
  • e de biofilmes nos cálculos de oxalato de cálcio. 

Em contrapartida, um cristal de oxalato de cálcio de origem não biológica (estritamente mineral, proveniente da coleção de minerais do Museu de História Natural de Los Angeles) não apresenta nenhuma estrutura bacteriana nem biofilme, o que confirma a especificidade das pedras humanas estudadas nesta investigação. 

70% Os cálculos com base em cálcio representam mais de 70% do total dos cálculos, o que os torna, de longe, o tipo mais frequente de litíase urinária em todo o mundo. ¹

2-6% Os cálculos de estruvita apresentam uma baixa incidência, calculada entre 2 e 6% dos casos de cálculos urinários. ¹

O estudo da estrutura interna dos cálculos revelou que há uma alternância entre camadas ricas em matéria orgânica (biofilmes bacterianos) e camadas predominantemente minerais, ou seja, uma arquitetura de biocompósito orgânico-inorgânico.

3

Os principais tipos de cálculos renais são:

  • os cálculos de cálcio, que são os mais habituais
  • os cálculos de estruvita, geralmente causados por uma infeção, nomeadamente uma infeção urinária
  • os cálculos de ácido úrico, normalmente relacionados com uma elevada concentração de ácido na urina. 1

Que bactérias?

Foram detetadas bactérias em quase metade dos cálculos renais analisados (24/54), inclusivamente em doentes sem infeção urinária aparente aquando das análises. 
Foram isolados microrganismos vivos em 17 dos 22 cálculos analisados, incluindo cálculos de oxalato de cálcio. 

As bactérias mais frequentes foram :

  • a Escherichia coli
  • a Proteus mirabilis
  • e a Enterococcus faecalis. 

Mais de 30% das pedras continham várias espécies bacterianas, o que levanta a hipótese da existência de microbiotas complexas no interior dos cálculos renais.

1/11

A prevalência da litíase renal (doença das pedras, ou cálculos, nos rins) tem aumentado à escala mundial ao longo das últimas décadas, com um risco ao longo da vida estimado de 1 em cada 11 pessoas. 1

Mecanismo aventado

A presença de bactérias na superfície, mas também no interior dos cálculos, leva a crer que os biofilmes bacterianos poderão servir de matriz e participar diretamente na formação dos cálculos e no seu crescimento: na urina, as bactérias formariam biofilmes ricos, nomeadamente em ADN extracelular, os quais iriam reter localmente os iões de cálcio e criar “pontos de fixação” promovendo a nucleação dos cristais de oxalato de cálcio. 

80%

Foi observada uma taxa de recidiva que pode atingir os 80% em determinados tipos de cálculos renais. 1

Os cristais desenvolver-se-iam à volta e através dos biofilmes, que se integrariam progressivamente na estrutura do cálculo.
A formação de cálculos não será, portanto, apenas um processo químico passivo relacionado com a sobressaturação urinária, mas também um processo biológico em que os biofilmes bacterianos desempenharão o papel de matrizes de nucleação e crescimento.

Insuficiência renal: impacto da microbiota intestinal

Saiba mais

Após a microbiota intestinal e depois da microbiota urinária, há agora uma microbiota da pedra nos rins que se revela. 
Se este modelo vier a ser confirmado, ele poderá ter aplicações clínicas no tratamento e na prevenção da litíase renal.

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O papel do Streptococcus anginosus no cancro gástrico

Menos conhecido do que o Helicobacter pylori, o Streptococcus anginosus poderá estar associado ao cancro gástrico, devido à sua produção de metionina.

No caso do cancro do estômago, há numerosos estudos de investigação que têm associado a bactéria Helicobacter pylori à doença. Contudo, nos últimos anos, têm sido também mencionadas outras bactérias da microbiota intestinal, por exemplo o Streptococcus anginosus, que parece contribuir para a carcinogénese gástrica em modelos murinos e poderá constituir um biomarcador para o rastreio.
Para obter mais informações, uma equipa 1 estudou, in vitro e in vivo, essa contribuição do S. anginosus através das suas interações metabólicas com o hospedeiro.

Top 5 A incidência e a mortalidade do cancro do estômago estão entre as cinco mais elevadas do mundo, no que se refere aos diferentes tipos de cancro. ¹

Top 3 Na China, o cancro gástrico surge entre as três principais causas de morte relacionadas com cancro entre 2005 e 2020. ¹

4.ª e 5.ª O cancro do estômago representa a 4.ª causa de mortalidade por cancro nos homens e a 5.ª nas mulheres. ²

O papel do Streptococcus anginosus no tumor gástrico

Uma análise metagenómica levada a cabo numa vasta coorte clínica (106 doentes com cancro gástrico e 106 controlos com gastrite crónica) revelou um aumento da presença de S. anginosus (e, em menor grau, de S. constellatus) e de metionina nas fezes e nas mucosas do sistema digestivo dos doentes com cancro do estômago.

Experiências complementares realizadas in vitro e in vivo revelam que o S. anginosus facilita o desenvolvimento do tumor gástrico através da metionina, um dos seus principais derivados metabólicos.

68%

A Ásia deverá suportar a parte mais significativa deste ónus, com mais de 10,6 milhões de casos (68% do total de novos casos), seguida das Américas (2,0 milhões; 13%), da África (1,7 milhões; 11%), da Europa (1,2 milhões; 8%) e da Oceânia (0,07 milhões; 0,4%). ³

Dessa forma, a bactéria parece desempenhar um papel nas perturbações do metabolismo da metionina envolvidas no desenvolvimento do cancro gástrico, fornecendo fontes não alimentares de aminoácidos essenciais necessários às células cancerosas.

968 784 Foram notificados 968.784 casos de cancro do estômago em 2022. ⁴

9,2 pour 100 000 A incidência mundial do cancro do estômago foi de 9,2 casos por cada 100.000 habitantes em 2022, mas atingiu 35,5 por cada 100.000 na Mongólia, 27,6 por cada 100.000 no Japão e 27,0 por cada 100.000 na Coreia do Sul. ⁴

660 175 660.175 pessoas morreram devido a cancro do estômago em 2022. ⁴

A ação fundamental do gene metE

Foram isoladas e cultivadas estirpes clínicas de S. anginosus a partir de tecidos tumorais, no intuito de se verificar a sua capacidade de contribuírem para o cancro do estômago através da produção de metionina, tendo-se estabelecido, simultaneamente, as bases para futuros trabalhos de subtipagem das subespécies daquela bactéria.
Os autores identificaram o gene
metE como fator chave na biossíntese da metionina no S. anginosus: este gene apresentou maior abundância em doentes com cancro gástrico e surgiu fortemente associado à presença da bactéria.

Ao criarem uma estirpe mutante ΔmetE, na qual o gene metE foi inativado, demonstraram em ratos que a inativação desse gene: 

  • reduzia a produção de metionina, 
  • diminuía a proliferação das células cancerígenas 
  • e limitava a formação de tumores. 

 Isto confirma o papel essencial do metE no efeito carcinogénico da S. anginosus.

6,1 A mortalidade global mundial por cancro do estômago foi de 6,1 por 100.000 habitantes em 2022, mas atingiu 15,4 por 100.000 no Irão, 10,9 por 100.000 no Vietname e 9,4 por 100.000 habitantes na China. ⁴

15,6 Partindo do princípio de que as taxas de incidência futuras se vão manter estáveis, calcula-se que, ao longo da vida, surjam cerca de 15,6 milhões de novos casos de cancro gástrico entre as pessoas nascidas entre 2008 e 2017 em todo o mundo. ³

50 As taxas de incidência do cancro do estômago em pessoas com menos de 50 anos estão a aumentar, tanto nas regiões de elevada incidência como nas de baixa incidência. ³

Um futuro alvo terapêutico?

Uma melhor compreensão dos mecanismos através dos quais o agente patogénico S. anginosus promove o cancro gástrico poderá contribuir para a identificação de novos alvos terapêuticos ou de prevenção: será que a inibição da colonização ou do crescimento do S. anginosus poderá reduzir a produção de metionina e, assim, travar o crescimento dos tumores gástricos?
Será que também poderá aumentar a eficácia da imunoterapia ou da quimioterapia nos doentes com cancro gástrico?
São várias as linhas de investigação abertas por estes trabalhos.

 

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Kefir: bom para a saúde intestinal?

Já o vimos em todas as prateleiras dos supermercados e no TikTok. O kefir, uma bebida fermentada com mais de 3.000 anos, tornou-se um ícone do bem-estar, sendo apresentado como um alimento saudável e uma moda no mundo da nutrição. Mas, enquanto o marketing avança a passos largos, a ciência vai-se esforçando discretamente por acompanhar o ritmo, e o que tem a dizer sobre o seu efeito na saúde pode surpreender-nos.

A microbiota intestinal

O mercado do kefir encaminha-se a passos largos para atingir os 2780 milhões de dólares até 2030. Os influenciadores fazem questão em recomendá-lo. Os supermercados dedicam-lhe prateleiras inteiras. 
No entanto, uma nova análise científica apresenta uma conclusão bem mais moderada: quando os investigadores se perguntaram qual é, de facto, o efeito do kefir na nossa microbiota, na saúde intestinal e no equilíbrio metabólico, a resposta sincera a que chegaram foi: ainda não sabemos ao certo.

Uma bebida com mais de 3.000 anos de história encara a ciência moderna

Muito antes de existirem as batas de laboratório, já os pastores das montanhas do Cáucaso fermentavam leite para obterem uma bebida efervescente e picante, utilizando uns “grãos” misteriosos — aglomerados de bactérias e leveduras num meio gelatinoso. 
Três milénios depois, os cientistas conseguiram finalmente espreitar o interior desses grãos e descobriram uma espécie de microcidade em permanente atividade: 

  • bactérias do ácido láctico, 
  • bactérias do ácido acético,
  • e leveduras a trabalharem em conjunto através da fermentação.

Entre os habitantes encontram-se nomes familiares como Lentilactobacillus kefiri e Saccharomyces cerevisiae, espécies microbianas já anteriormente associadas ao ecossistema do leite fermentado. A esperança é que o consumo desta comunidade viva possa enriquecer a nossa microbiota, o nosso intestino, a nossa boca, o nosso ecossistema interno e, eventualmente, influenciar as nossas respostas imunitárias, metabólicas e inflamatórias. 

Microbiome

A vasta comunidade invisível de micróbios que vivem no interior e na superfície do nosso corpo.
Cada órgão, o intestino, a boca, a pele, tem a sua própria comunidade específica, que age discretamente para moldar a nossa digestão, a nossa imunidade, a nossa saúde metabólica e até mesmo o nosso estado de espírito.
1

 

Bactérias do ácido láctico

As simpáticas fermentadoras que conferem ao kefir o seu sabor picante. 
Através da fermentação, transformam o açúcar do leite em ácido láctico e, em simultâneo, produzem compostos naturais capazes de expulsar da vizinhança os microrganismos indesejáveis.
1

A boca: onde o kefir se destaca claramente

De todas as microbiotas do corpo, é na boca que os efeitos do kefir parecem ser mais consistentes. Em quatro estudos 1, realizados em adultos, em crianças com aparelhos ortodônticos e em crianças em tratamento de cáries, os consumidores de kefir apresentaram níveis mais baixos de Streptococcus mutans, o principal responsável pela cárie dentária, o que sugere um possível efeito positivo na saúde oral.

Streptococcus mutans

A principal bactéria por trás da cárie dentária. Alimenta-se de açúcares na nossa boca e produz ácidos que desgastam o esmalte.
Reduzir os seus números consiste num dos principais objetivos da moderna saúde oral e é uma área onde o kefir parece realmente ajudar, embora o seu efeito clínico nas cáries ainda precise de ser melhor comprovado.
1

Pensemos nisto como uma competição: ao encher-nos a boca de micróbios benéficos provenientes de alimentos fermentados, o kefir deixa menos espaço para os microrganismos nocivos. Mas há aqui um senão: estes estudos mediram apenas as contagens de microrganismos na saliva e não o número de cáries propriamente ditas. Se isso se traduz em menos visitas ao dentista é uma questão que permanece em aberto para a investigação no domínio da saúde oral e da nutrição.

Fermentação

Um processo ancestral que combina a cozinha com a biologia, através do qual os micróbios transformam os alimentos, convertendo o leite em kefir, as couves em chucrute e as uvas em vinho. 
Os micróbios fazem a pré-digestão dos alimentos e libertam compostos que o organismo é capaz de utilizar; é por isso que a fermentação permanece fundamental para a nutrição, para uma alimentação saudável e para a moderna investigação sobre a microbiota.1

 

Regime psicobiótico: alimentos fermentados ou ricos em prebióticos para reduzir o stress?

Saiba mais

Quanto ao intestino, a história ainda está a ser escrita

Mais abaixo, o panorama torna-se mais confuso.
Alguns estudos indiciam pequenas vantagens: as mulheres com Síndrome Metabólica Poliendócrina do Ovário (anteriormente conhecida como Síndrome do Ovário Poliquístico) apresentaram alterações no perfil da sua microbiota; pessoas com doença inflamatória intestinal eferiram sentir-se melhor; e doentes em estado crítico mostraram sinais precoces de recuperação.
Mas há outros estudos que não encontram quase nada. Porquê tanta confusão? Porque não há dois kefires iguais
Os grãos, o leite ou a duração da fermentação: cada variável altera a bebida final e, em última análise, a composição em termos de espécies e os efeitos potenciais.

Portanto, se gostamos de kefir, devemos consumi-lo no âmbito de uma alimentação equilibrada. Não podemos é esperar que seja um alimento milagroso. 
A ciência ainda está a tentar perceber o que é que a microbiota pensa dele.

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Disbiose vaginal e HPV: restabelecer o equilíbrio para prevenir o cancro do colo do útero?

A microbiota vaginal, dominada pelos lactobacilos, parece exercer um papel de proteção crucial diante do HPV e do cancro do colo do útero. Estaríamos a caminhar rumo a novas abordagens terapêuticas através de probióticos na prevenção do cancro do colo do útero e à melhoria da saúde ginecológica? 

The microbiota vaginal está a chamar cada vez mais a atenção devido à sua implicação na saúde das mulheres.
Para melhor compreendê-la, uma equipa mexicana 1 publicou, em janeiro de 2026, uma revista dedicada à microbiota vaginal e ao papel que exerce nas diferentes patologias, em particular o cancro do colo do útero e o risco de lesões cervicais associadas ao HPV.

10¹⁰ La vagina contiene alrededor de 10¹⁰ a 10¹¹ microorganismos. ¹

9 % Del total de la microbiota humana, la región urogenital (que comprende la vagina) representa alrededor del 9% de la composición global. ¹

Protegida por los lactobacilos

La microbiota vaginal se distingue por su diversidad baja: en general, está dominada por Lactobacillus, sobre todo L. crispatus, L. jensenii, L. gasseri y L. iners. Estos lactobacilos participan en el mantenimiento de la salud vaginal, la protección contra los patógenos y la regulación de la inflamación a través de diferentes mecanismos: competición por los nutrientes, disminución del pH vaginal, producción de bacteriocinas, modulación del sistema inmunitario, etc. 

4

Uma microbiota vaginal saudável é geralmente dominada por uma das quatro espécies de lactobacilos:

  • L. crispatus
  • L. jensenii
  • L. gasseri
  • e L. iners.

Por outro lado, uma forte diversidade microbiana está associada a um maior risco de infeções sexualmente transmissíveis, de doenças pélvicas inflamatórias, de complicações relacionadas à gravidez (infertilidade, prematuridade, baixo peso ao nascimento) e infeções pelo papilomavírus humano (HPV), aumentando o risco de evolução para uma lesão cervical (ligada ao HPV).

4

O cancro do colo do útero é o quarto tipo de cancro mais comum entre as mulheres no mundo inteiro e estima-se que em 2022 tenham ocorrido cerca de 660 000 novos casos e 350 000 mortes relacionadas com esta doença. 
Este tipo de cancro do útero representa um grande desafio para as mulheres. 2

A microbiota vaginal e o HPV

No caso específico do HPV, a disbiose vaginal favorece a evolução do vírus ao criar um ambiente pró-inflamatório.
A redução dos lactobacilos e a proliferação de bactérias anaeróbias (Gardnerella, Sneathia, Atopobium) inibem a apoptose, aumentam as citocinas inflamatórias e desenvolvem o pH.Todas estas mudanças facilitam a instalação do HPV ao nível do colo do útero e do tecido uterino adjacente.

Por outro lado, uma microbiota rica em lactobacilos está associada a um microambiente menos inflamatório. De acordo com alguns estudos, teria a capacidade de modular a expressão das oncoproteínas virais E6/E7 nas células infetadas. Este contexto também está associado a uma depuração plasmática mais favorável ao HPV e poderia contribuir para limitar a evolução para lesões cervicais. 

Além disso, a excisão das lesões pré-cancerosas do colo do útero induz uma alteração na composição da microbiota vaginal apenas nas mulheres que eliminam o HPV, com uma transição das bactérias patogénicas (Prevotella, Sneathia) para lactobacilos protetores (L. iners depois L. crispatus). Por outro lado, no caso de um HPV persistente, não se constata nenhuma alteração. 

90-70-90

Os países do mundo inteiro estão a acelerar os esforços para eliminar o cancro do colo do útero, orientados pelos objetivos mundiais 90-70-90 : 

  • 90% das raparigas totalmente vacinadas contra o papilomavírus humano aos 15 anos de idade,
  • 70% das mulheres submeterem-se ao rastreio aos 35 anos e outra vez aos 45 anos de idade, 
  • e 90% das mulheres com lesões pré-cancerosas ou cancro invasivo receberem tratamento adequado. 

O que ilustra a importância do rastreio, da vacinação e do tratamento na prevenção, para a saúde das mulheres. 2

Enfim, os probióticos, ou seja, os lactobacilos (L. crispatus, L. reuteri, L. casei e/ou L. rhamnosus) administrados por via oral ou intravaginal, parecem melhorar a eliminação do HPV e reduzir as lesões cervicais.

Os resultados mantêm-se heterogéneos com efeitos variáveis consoante as estirpes, a duração e as populações. Porém, alguns probióticos poderiam complementar o tratamento e as estratégias de prevenção.

8

Em 2025, existem oito vacinas contra o papilomavírus humano homologadas, dentre as quais cinco receberam uma pré-qualificação da OMS e estão disponíveis no mundo inteiro.
Todas protegem contra os tipos 16 e 18 do HPV de alto risco, responsáveis por aproximadamente 76% dos cancros do colo do útero.
 Isso acentua o papel da vacinação na prevenção do cancro cervical e na redução do risco. 2

Diferenças de uma população para outra

A composição da microbiota vaginal varia de acordo com as populações, a origem geográfica, a gravidez, o ciclo menstrual e a idade.
As espécies dominantes de lactobacilos distinguem-se também entre canadenses, chinesas, indianas ou mexicanas.
No caso do HPV, a progressão para lesões cervicais e, posteriormente, para o cancro está associada a uma alteração da microbiota: nas mulheres mexicanas, enquanto os L. crispatus e os L. iners predominam nas mulheres ilesas, o Sneathia spp. Foi constatado nas lesões e o Fusobacterium no cancro cervical.

Para os autores, a investigação atual convida a realizar trabalhos complementares, como a exploração das respostas de culturas de cancro cervical a diferentes espécies de lactobacilos. 
O objetivo: melhorar as abordagens terapêuticas de tratamento e inverter a disbiose para favorecer a cura ou até mesmo prevenir esses cancros do colo do útero. 

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