Anafilaxia ao amendoim: a microbiota modula a gravidade

Um estudo mecanístico que combina modelos murinos e duas coortes clínicas (n=19 e n=120) demonstra que a microbiota oral e intestinal degrada os principais alérgenos do amendoim — uma alergia alimentar persistente em mais de 70% dos pacientes e que afeta a vida e a saúde, em particular das crianças, e modula a gravidade da anafilaxia mediada pela IgE.

Peanut anaphylaxis: microbiota modulates severity

O metabolismo microbiano dos alérgenos modula a anafilaxia nos ratos

Em modelos de ratos com microbiota controlada, mínima ou complexa, a composição da microbiota intestinal determina diretamente a capacidade de degradar a Ara h1 e a Ara h2, os principais alérgenos do amendoim.

Foram comparados três protocolos de sensibilização1 para estabelecer esta relação no desenvolvimento da resposta alérgica. O primeiro expõe o alérgeno por via oral, uma via que envolve a microbiota intestinal desde a fase de sensibilização. O segundo injeta o alérgeno diretamente no peritónio, contornando o tubo digestivo e, por conseguinte, a microbiota. O terceiro transfere passivamente o soro que já contém a IgE anti-amendoim, sem a etapa de sensibilização ativa.

Durante a sensibilização por via oral, o grupo de ratos com flora mínima, que degrada a Ara h1 e a Ara h2 com menos eficácia, desenvolve mais IgE específicas como também uma reação alérgica mais grave que os ratos com flora complexa. Com a sensibilização intraperitoneal que contorna a microbiota intestinal, os ratos com flora mínima e os ratos com flora complexa produzem níveis semelhantes de IgE. Contudo, durante o desafio oral seguinte, a reação alérgica dos ratos com flora complexa foi menos grave, o que mostra a implicação da microbiota intestinal diretamente na reação alérgica.

Para confirmar os resultados, injeta-se diretamente um soro rico em IgE anti-amendoim em ratos não sensibilizados, eliminando assim qualquer fase de sensibilização ativa. Mesmo neste caso, o grupo de ratos com flora mínima reagem mais fortemente ao desafio oral que os ratos com flora complexa, confirmando que o efeito da microbiota sobre a severidade ocorre também no momento da exposição ao alérgeno. A microbiota influencia, assim, a alergia ao amendoim, pela produção de IgE durante uma exposição oral e também, independentemente, pela quantidade de alérgenos Ara h1 e Ara h2 que realmente atingem a circulação sanguínea no momento do desafio.

Prevenir a alergia aos amendoins graças à microbiota?

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Rothia e Staphylococcus, uma degradação dependente da estirpe

Nos humanos, o género bacteriano Rothia representa até 43% da microbiota da saliva dos doadores saudáveis estudados. Todas as estirpes de Rothia testadas no estudo degradam a Ara h1 e a Ara h2 de forma constante, cortando as proteínas, em particular ao nível dos epítopos reconhecidos pela IgE dos pacientes que sofrem de alergia ao amendoim.
A sequenciação do genoma identifica proteases candidatas, nomeadamente uma família do tipo subtilisina em Rothia, já conhecida por degradar o glúten. Trata-se de uma pista sobre o mecanismo de ação, mas ainda não significa uma prova direta, pois o gene não foi suprimido para confirmar a sua função.

Reação alérgica grave (anafilaxia mediada pela IgE)

Reação aguda e generalizada, potencialmente fatal em alguns minutos, acionada pela ligação do alérgeno aos IgE fixados nos mastócitos, conduzindo a uma liberação rápida dos mediadores inflamatórios.

Alergia alimentar

Reação do sistema imunitário dirigida contra uma proteína alimentar normalmente tolerada. Aqui, os principais alérgenos do amendoim Ara h1 e Ara h2.

No Staphylococcus, o efeito depende da estirpe estudada. Com efeito, duas estirpes diferentes de S. aureus testadas apresentam comportamentos opostos: uma degrada parcialmente a Ara h1, enquanto a outra não tem qualquer efeito detetável sobre os dois alérgenos. Nos ratos colonizados por esta última estirpe, os níveis séricos de alérgeno são mais elevados, e um teste ex vivo em câmaras de Ussing confirma uma maior passagem do alérgeno através da mucosa intestinal.
Os autores propõem duas explicações possíveis: uma degradação parcial que facilitaria a passagem de fragmentos do alérgeno, ou distúrbios na permeabilidade da barreira intestinal causados por certas estirpes de Staphylococcus, independentemente da sua capacidade de degradar o alérgeno.

 

Uma associação clínica a ser confirmada prospetivamente

Em 19 pacientes prestes a iniciar um tratamento de imunoterapia oral, o limiar de tolerância alérgica ao amendoim, determinado por um teste de provocação controlada, está associado a uma maior abundância de Micrococcales — ordem que inclui, nomeadamente, a Rothia — independentemente dos níveis de IgE específicas. Esta associação é observada numa coorte externa de 120 crianças que foram submetidas a testes de provocação controlada duplo-cegos por placebo: a espécie Rothia aeria era mais abundante nos não alérgicos e os alérgicos apresentavam um limiar de tolerância elevado ao amendoim.

 

Tolerância alérgica (limiar reatogénico avaliado pela provocação controlada)

Quantidade de alérgeno que um paciente pode ingerir sem desenvolver reações clínicas, medida durante um exame alergológico por um teste de provocação oral duplo-cego contra placebo.

Estes dados mantêm-se observacionais e transversais. Os autores convidam a um acompanhamento longitudinal da microbiota oral durante o tratamento por imunoterapia. Do ponto de vista clínico, estes trabalhos abrem caminho para uma caracterização funcional da microbiota oral na avaliação das alergias alimentares, complementar à dosagem de IgE, sem substituir, nesta fase, as ferramentas de diagnóstico estabelecidas. 

Capacidade de degradação e associação clínica de acordo com o género/estirpe

Rothia (R1- R.aeria, R2- R.dentocariosa, R3- R.mucilaginosa): 

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : degradação eficaz dos dois alérgenos.
  • Associação clínica observada neste estudo : abundância associada a um limiar de tolerância mais elevado, coortes clínicas n=19 e n=120.

Micrococcus (género aparentado) :

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : degradação eficaz.
  • Associação clínica observada neste estudo : nenhuma associação clínica testada neste estudo.

Staphylococcus epidermidis S1:

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : degradação eficaz dos dois alérgenos.
  • Associação clínica observada neste estudo : nenhuma associação clínica testada neste estudo.

S. aureus estirpe S3: 

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : degradação parcial, unicamente na Ara h1.
  • Associação clínica observada neste estudo : nenhuma associação clínica testada neste estudo.

S. aureus estirpe S2:

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : nenhuma degradação detetável.
  • Associação clínica observada neste estudo : associado a uma maior passagem transmucosa do alérgeno, modelo murino.

Streptococcus, Gemella:

  • Capacidade de degradação (Ara h1 / Ara h2) : capacidade de degradação limitada ou ausente para a maioria das estirpes testadas.
  • Associação clínica observada neste estudo : nenhuma associação clínica testada neste estudo.

Metabolismo microbiano dos alérgenos

Certas bactérias da microbiota* têm a capacidade de transformar diretamente a estrutura molecular de um alérgeno alimentar, modificando assim o seu reconhecimento pelo sistema imunitário**, independentemente do nível de sensibilização da IgE.

*Bactérias da microbiota (degradação enzimática das proteínas alimentares): microrganismos da cavidade bucal e do intestino capazes de fragmentar proteínas alimentares resistentes à digestão humana através de enzimas proteolíticas, dentre as quais os alérgenos do amendoim. 

**Sistema imunitário: conjunto de células e moléculas que protegem o organismo contra infeções, células anormais e substâncias estranhas. No caso de uma alergia, as IgE e os mastócitos estão envolvidos no reconhecimento do alérgeno e no acionamento da reação.

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Volta ao mundo dos alimentos fermentados

A fermentação é uma forma simples e natural de conservar os alimentos através da ação de microrganismos, nomeadamente leveduras ou bactérias. Foi por isso que este método se difundiu por todo o mundo, tanto para conservar arenques na Suécia como para armazenar manteiga no deserto, entre os tuaregues. Mas as vantagens da fermentação não ficam por aí: em muitos casos, ela torna os produtos mais fáceis de digerir. 

A microbiota intestinal
A world tour of fermented foods

Estados Unidos, Índia...
Picles: a arte ancestral dos legumes fermentados

Para muitos, o termo “picles” remete para os pepinos em vinagre, com um sabor acre, típicos dos hambúrgueres americanos. A origem exata dos picles é desconhecida, mas já em 2030 AC haveria pepinos no subcontinente indiano a serem preservados através de fermentação.1 Ainda hoje, os picles de várias frutas e legumes, como a manga, o limão, o pimentão, etc. – conhecidos na Índia como achar – ocupam um lugar de destaque na cozinha indiana.1 Porém, atenção, nem todos os picles são iguais: os picles tradicionais são fermentados durante vários meses em salmoura extremamente salgada, um ambiente pouco oxigenado e propício à fermentação graças às bactérias lácticas, enquanto outras receitas, mais rápidas, combinam uma fermentação com a adição de vinagre; por sua vez, os picles “refrigerados” só fermentam durante alguns dias e têm de ser conservados no frigorífico.2
As versões fermentadas durante um longo período apresentam vantagem em termos de nutriçãos : contêm mais microrganismos vivos, alguns dos quais poderão contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal, para a digestão e até mesmo para o sistema imunitário, embora estes benefícios para a saúde ainda não tenham sido confirmados.3–5

Suécia
Surströmming: um arenque fermentado em conserva

Esta especialidade sueca, com base em arenques frescos salgados e posteriormente imersos numa salmoura ligeira, continua o seu processo de fermentação na lata de conserva,6 a qual incha naturalmente com o passar do tempo. As propriedades benéficas para a saúde desta surpreendente receita, de sabor bastante ácido e ligeiramente efervescente,6 estarão sobretudo relacionadas com o peixe que a integra: este é rico em proteínas e em ácidos gordos do tipo ómega-3.7 Há quem atribua aos peixes fermentados, em geral, efeitos antioxidantes e anti-hipertensivos, e até mesmo uma ação protetora contra determinados tipos de cancro e efeitos benéficos na microbiota intestinal (aumento de Bacteroidetes e diminuição de Firmicutes).8
Estes benefícios têm de ser relativizados, uma vez que estão longe de ser consensuais: num ensaio realizado em seres humanos, o consumo de surströmming durante uma semana não provocou alterações significativas na microbiota intestinal dos voluntários.9 

Imagem
Tour du monde Aliments Fermentés_2_PT.png

Marrocos, Argélia
Smen: uma manteiga de conservação prolongada

O smen é uma manteiga fermentada e clareada(1), tradicionalmente feita no norte da África a partir de leite de camela: após a fermentação espontânea do leite, a manteiga é separada ao ser batida e depois é fermentada, salgada e armazenada em frascos de barro hermeticamente fechados, onde pode envelhecer durante vários anos.12 Com o passar do tempo, desenvolve aromas fortes e um sabor muito intenso. Tal como acontece com todos os produtos lácteos fermentados, presume-se que a fermentação possa libertar pequenas moléculas ativas benéficas para a saúde. No entanto, os efeitos benéficos para a saúde que se atribuem ao smen – desde o tratamento das hemorroidas até ao das doenças reumáticas, passando pelas constipações e pelas queimaduras – resultam, na maioria das vezes, de transmissão cultural,13 e não de qualquer realidade cientificamente comprovada. Contudo, foram demonstradas in vitro propriedades antibacterianas contra o Staphylococcus aureus e a Escherichia coli, e comprovou-se uma aceleração da cicatrização de feridas em animais (mas não – ainda? – em seres humanos).14

(1) A clarificação consiste em remover a água e as proteínas do leite (especialmente a caseína), de modo que praticamente apenas a gordura permaneça, o que melhora a sua conservação.12

Bulgária
Iogurtes: para uma boa digestão do leite

O iogurte é um produto lácteo fermentado que é obtido graças a duas bactérias específicas: Streptococcus thermophilus e Lactobacillus delbrueckii subsp. bulgaricus.10 Estas transformam o açúcar do leite (lactose) em ácido láctico, o que dá ao iogurte sua textura e sabor característicos e facilita a sua digestão. Existem outras bactérias que podem também realizar este processo, mas, nesse caso, estamos a falar de leite fermentado e já não de “iogurte”. Consequência direta deste processo de fermentação láctica: uma melhor digestão nas pessoas com baixa tolerância à lactose.10 O consumo de iogurtes e outros produtos lácteos fermentados poderá também estar associado a uma redução do risco de cancro da mama e de cancro colorretal, de diabetes tipo 2, e a uma manutenção mais eficaz do peso, bem como a uma melhoria da saúde cardiovascular, óssea e digestiva.10,11 
Mas, uma vez mais neste caso, é necessário manter a cautela, pois a ciência ainda está longe de poder provar relações de causa e efeito.

Etiópia
Injera: um pão chato sem glúten 

A injera é um pão achatado e fermentado, tradicional da Etiópia, preparado com farinha de teff,15 um cereal ancestral sem glúten. Sendo o alimento base da dieta etíope, é particularmente rico em hidratos de carbono, mas também em proteínas, fibras e minerais. A fermentação ocorre com base em leveduras – nomeadamente na famosa levedura de cerveja Saccharomyces cerevisiae – e em bactérias lácticas.16–19 A sua ação melhora aparentemente a digestibilidade das proteínas, a atividade de compostos benéficos, como os fenóis, e a atividade antioxidante,15,20 mas além disso reduz os compostos (denominados fatores antinutricionais) existentes naturalmente nos cereais, os quais dificultam a absorção de certos nutrientes.21

Nigéria
Gari: um alimento acessível à base de mandioca

O gari é uma farinha granular e cremosa obtida pela torrefação de uma pasta de mandioca fermentada.22 Este alimento básico, graças à sua disponibilidade e acessibilidade, contribui para a alimentação diária de milhões de nigerianos. O processo tradicional de fabrico consiste em ralar a mandioca, adicionar geralmente óleo de palma (dendém), fermentar, escorrer (desidratar), peneirar, torrar numa placa aquecida para gelificar o amido e, por fim, arrefecer:22 todas estas etapas contribuem para reduzir certos compostos indesejáveis, como o cianeto, embora também destruam as vitaminas. O gari é rico em hidratos de carbono e fibras, mas pobre em proteínas. Pode conter fenóis com propriedades antioxidantes, dependendo, no entanto, da forma como o gari é confecionado e do tipo de mandioca utilizado.23

Quais são os alimentos para uma microbiota equilibrada?

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Indonésia
Tempeh: a qualidade nutricional da soja, ainda melhor

Originário da ilha de Java, o tempeh é um alimento básico indonésio atualmente famoso entre vegetarianos de todo o mundo. Este produto fermentado a partir da soja, de gosto muito menos neutro do que o seu parente tofu, transmite sabores a avelã e a cogumelos a muitos dos pratos indonésios. O respetivo fabrico baseia-se na fermentação das sementes de soja pelo fungo Rhizopus oligosporus, técnica que se acredita ter sido inspirada nos métodos tradicionais chineses de elaboração do molho de soja.24 A referida fermentação melhora a absorção das proteínas, minerais, vitaminas e isoflavonas da soja, reduzindo simultaneamente os fatores antinutricionais. O resultado final é um produto de boa qualidade nutricional, que poderá contribuir para prevenir a malnutrição.24,25 Alguns autores atribuem-lhe alguns benefícios (redução do colesterol LDL e mesmo da tensão arterial,26 efeitos antioxidantes, digestivos e cognitivos,24 e até melhores desempenhos desportivos) 27 mas essas conclusões são ainda muito preliminares.

Filipinas
Bagoong: um condimento rico em proteínas..., mas também em sal e histaminas

O bagoong é um condimento típico das Filipinas, preparado a partir de peixe ou de pequenos camarões (krill) esmagados e fermentados com sal. Rica em proteínas, a composição nutricional desta pasta varia, no entanto, consoante a receita.28,29 Por exemplo, o Bagoong de krill (também conhecido pelo nome genérico de terasi na Ásia, de belacan na Malásia, de kapi na Tailândia, etc.) parece ser um pouco mais rico em gorduras e menos rico em minerais. Os efeitos na saúde (antioxidante? redutor do colesterol?)30 foram muito pouco estudados e, quase sempre, em ensaios laboratoriais e não em seres humanos, o que torna os resultados muito pouco fiáveis. Atenção: o bagoong pode apresentar um elevado teor de histaminas (com risco de intoxicação, por vezes designada síndrome de pseudoalergia alimentar) e de sal (cujo consumo é necessário que todos reduzamos).28,29,31

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas.

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Os efeitos benéficos e por vezes paradoxais do miso

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Fontes

1. Chakraborty R, Roy S. Exploration of the diversity and associated health benefits of traditional pickles from the Himalayan and adjacent hilly regions of Indian subcontinent. J Food Sci Technol. 2018;55(5):1599-1613. 

2. Stankus T. Pickled Vegetable Condiments: A Global Industry and Its Literature. J Agric Food Inf. 2014;15(1):3-18. 

3. Tan X, Cui F, Wang D, Lv X, Li X, Li J. Fermented Vegetables: Health Benefits, Defects, and Current Technological Solutions. Foods. 2024;13(1):38. 

4. Ahmada Kh A, A.A Abdo A, Khan S, Aleryani H, Mi S, Wang X. Advancing Pickling Techniques to Enhance Bioactive Compounds and Probiotic Content in Pickled Vegetables. Food Rev Int. 2026;42(1):31-57.

5. Hafeez SH, Khalid A, Ahmed S, et al. Fermented pickles improve gut microbiota and immune profile in women in a community trial in rural Pakistan. Sci Rep. 2025;15(1):34522. 

6. Chan SXY, Fitri N, Mio Asni NS, et al. A Comprehensive Review with Future Insights on the Processing and Safety of Fermented Fish and the Associated Changes. Foods. 2023;12(3):558. 

7. Cha YJ, Yu D. Health benefits and functions of salt-fermented fish. J Ethn Foods. 2024;11(1):34. 

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9. Kallner A, Debelius J, Schuppe-Koistinen I, Pereira M, Engstrand L. Effects of Consuming Fermented Fish (Surströmming) on the Fecal Microflora in Healthy Individuals. J Med Food. 2023;26(3):185-192. 

10. Savaiano DA, Hutkins RW. Yogurt, cultured fermented milk, and health: a systematic review. Nutr Rev. 2020;79(5):599-614.

11. Tremblay A, Drouin-Chartier JP, Marette A, Drapeau V. Yogurt and health: a focus on its matrix. Crit Rev Food Sci Nutr. 2026;66(2):342-351. 

12. Mosbah S, Annou G, Bouricha M, Mekkaoui S, Boudjenah-Haroun S. Physicochemical and microbiological study of fresh cream and fermented butter (Smen) made from camel milk. Int J Biosci IJB. Published online March 1, 2022:52-59. 

13. El Lamti F, Mennane Z, Elmtili N, Mrani Alaoui M. Ethnomedicinal Knowledge and Traditional Methodology for the Preparation of Fermented Butter “ Smen ” Among the Rural People of Northern Morocco: A Field Study. J Med Food. 2024;27(11):1133-1139. 

14. El Lamti F, Zarouki MA, Mennane Z, et al. Old fermented butter, Smen, as a potential product for wound healing in a mouse incisional wound model: Antibacterial and histological studies. Biocatal Agric Biotechnol. 2026;73:103959.

15. Legesse Bedada T, Martínez-Villaluenga C, Amare E, et al. Unveiling the nutritional composition and bioactivity of Ethiopian native fermented foods: Kocho and Injera. Food Chem. 2025;474:143158.

16. Neela S, Fanta SW. Injera (An Ethnic, Traditional Staple Food of Ethiopia): A review on Traditional Practice to Scientific Developments. J Ethn Foods. 2020;7(1):32.

17. Muche N, Geremew T, Jiru TM. Isolation and characterization of potential probiotic yeasts from Ethiopian injera sourdough. 3 Biotech. 2023;13(9):300.

18. Worku H, Tadesse BT, Jiru TM, et al. Metagenomic analysis of dominant lactic acid bacteria and yeast and starter culture formulation for injera sourdough fermentation. Appl Food Res. 2026;6(1):101781.

19. Desiye A, Abegaz K. Isolation, characterization and identification of lactic acid bacteria and yeast involved in fermentation of Teff (EragrostisTef) Batter. In: 2013. Accessed July 6, 2026. https://www.semanticscholar.org/paper/Isolation%2C-characterization-and-identification-of-Desiye-Abegaz/3373ba786cbed5f07d2c6330a5362ea56198adc2

20. Shumoy H, Gabaza M, Vandevelde J, Raes K. Soluble and bound phenolic contents and antioxidant capacity of tef injera as affected by traditional fermentation. J Food Compos Anal. 2017;58:52-59. 

21. Mengesha Y, Tebeje A, Tilahun B. A Review on Factors Influencing the Fermentation Process of Teff (Eragrostis teff) and Other Cereal-Based Ethiopian Injera. Int J Food Sci. 2022;2022(1):4419955.

22. Akpoghelie PO, Owheruo JO, Edo GI, et al. The benefits and processing technologies of gari, a famous indigenous food of Nigeria. Discov Food. 2025;5(1):91. 

23. Laya A. Physicochemical Composition and Antioxidant Activity of Five Gari Processed from Cassava Roots (Manihot esculenta Crantz) Harvested at Two Different Maturity Stages and Two Seasons. BioMed Res Int. 2023;2023(1):4779424.

24. Ratnaningsih R, Kusumawaty N, Herawati ACI Ervika RN, et al. History, manufacture, nutritional content, bioactive compounds, and health benefits of tempeh and tofu as alternative protein in Indonesia: a review. Aust J Crop Sci. 2025;19(07):839-852. 

25. Nafisah N, Anjani G, Afifah DN. A REVIEW OF NON-SOY TEMPEH AND POTENTIAL BENEFITS IN METABOLIC SYNDROME. J Aisyah J Ilmu Kesehat. 2024;9(2). 

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27. Subali D, Christos RE, Givianty VT, et al. Soy-Based Tempeh Rich in Paraprobiotics Properties as Functional Sports Food: More Than a Protein Source. Nutrients. 2023;15(11):2599. 

28. Julmohammad N, Atun M, Roslan J, et al. Compositional analysis and nutritional profiling of southeast Asian fermented fish products: insights into macronutrients, micronutrients, and bioactive compounds. Discov Food. 2025;5(1):75.

29. Damsud T, Chumsri A, Chinnanon M, Ongmanee C. Changes in the chemical composition, antioxidant and α-glucosidase inhibitory activities of shrimp paste (Ka-pi) following in vitro simulated gastrointestinal digestion. J Agric Food Res. 2025;22:102066. 

30. Herlina VT, Setiarto RHB. Terasi, exploring the Indonesian ethnic fermented shrimp paste. J Ethn Foods. 2024;11(1):7. 

31. Khudair AJD, Mohd Zaini NS, Jaafar AH, Meor Hussin AS, Wan-Mohtar WAAQI, Abd Rahim MH. Production, Organoleptic, and Biological Activities of Belacan (Shrimp Paste) and Pekasam (Fermented Freshwater Fish), the Ethnic Food from the Malay Archipelago. Sains Malays. 2023;52(4):1217-1230.

 

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Alergia ao amendoim: a microbiota redistribui as cartas

A gravidade de uma alergia alimentar ao amendoim não depende unicamente do nível de anticorpos IgE específicos. Um estudo mostra que bactérias da boca e do intestino, como a Rothia, degradam o alérgeno e modulam a gravidade da anafilaxia. A microbiota poderia, assim, contribuir para explicar porque uma mesma alergia provoca reações com intensidade muito diferentes conforme os pacientes.

A microbiota intestinal
 Peanut allergy: microbiota makes a difference

Bactérias capazes de desarmar o alérgeno

Investigadores1 observaram no rato que a presença de bactérias intestinais muda a forma como o organismo reage ao amendoim. O grupo de ratos portadores de uma microbiota intestinal rica e variada degradava muito melhor as duas proteínas responsáveis pela maioria das reações alérgicas, a Ara h1 e a Ara h2, do que o grupo de ratos criados com pouca ou nenhuma microbiota intestinal. Resultado: menos alérgenos intactos passam para a circulação sanguínea e a reação alérgica desencadeada após a exposição é significativamente menos intensa. Em contrapartida, um segundo grupo com diversidade microbiana limitada apresenta mais marcadores de reação grave.

Ara h1 / Ara h2

As duas proteínas que provocam a alergia ao amendoim mais frequentemente reconhecidas pelo sistema imunitário das pessoas alérgicas.

Sistema imunitário

Conjunto de células e moléculas que protegem o organismo contra infeções, células anormais e substâncias estranhas. No caso de uma alergia, as IgE e os mastócitos estão envolvidos no reconhecimento do alérgeno e no acionamento da reação.

Reação alérgica grave (anafilaxia mediada pela IgE)

Reação aguda e generalizada, potencialmente fatal em alguns minutos, acionada pela ligação do alérgeno aos IgE fixados nos mastócitos, conduzindo a uma liberação rápida dos mediadores inflamatórios. 

O género bacteriano Rothia destaca-se particularmente neste estudo, pois está naturalmente presente na boca e no intestino delgado humanos. Em laboratório, recorta os dois principais alérgenos do amendoim em lugares precisos, impedindo os anticorpos IgE de os reconhecer. Menos de reconhecimento significa menos ativação dos mastócitos, células imunitárias responsável pelos sintomas da alergia.

 

IgE (imunoglobulina E)

Anticorpos responsáveis pelas reações alérgicas imediatas produzidos pelo sistema imunitário ao contacto com um alérgeno.

Mastócitos

Células imunitárias que liberam substâncias inflamatórias durante uma reação alérgica.

Bactérias da microbiota (degradação enzimática das proteínas alimentares)

Microrganismos da cavidade bucal e do intestino capazes de fragmentar proteínas alimentares resistentes à digestão humana através de enzimas proteolíticas, dentre as quais os alérgenos do amendoim. 

Algumas estirpes de Staphylococcus produzem um efeito comparável, embora nem todas. O estudo mostra que as duas estirpes da mesma espécie podem apresentar comportamentos opostos: enquanto uma degrada o alérgeno eficazmente, a outra não o degrada nem um pouco. 

Prevenir a alergia aos amendoins através da microbiota?

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Uma pista confirmada nos pacientes alérgicos

Os investigadores examinaram, em seguida, a saliva de 19 pacientes alérgicos ao amendoim. Eram crianças com idades entre 1 e 14 anos que foram estudadas antes do início do seu tratamento por imunoterapia oral. O grupo de pacientes que tolerava as doses mais elevadas de alérgeno durante os testes controlados apresentava uma maior quantidade de bactérias capazes de degradar o amendoim, nomeadamente as do género Rothia, independentemente dos seus níveis de IgE específicas de Ara h2 no sangue: apresentavam, assim, uma melhor tolerância alérgica.
Esta observação foi posteriormente confirmada em 120 crianças que participaram de um estudo independente, o que reforça a sua credibilidade.

Estes resultados poderiam, futuramente, ajudar a melhor estimar o limiar de reatividade e a personalizar o tratamento, mas não permitem, contudo, de prever a reação alérgica de uma criança.

Mais de 70% das alergias ao amendoim persistem no decorrer do tempo. Esta constatação torna particularmente útil a investigação de novas alavancas para limitar a gravidade das reações alérgicas acidentais. Para as crianças alérgicas e as suas famílias, o objetivo seria principalmente diminuir o risco associado às exposições involuntárias. Estes resultados ainda devem ser confirmados por estudos de maior envergadura antes de qualquer aplicação clínica, mas abrem uma pista séria: a de uma microbiota que protege ou, pelo contrário, expõe, consoante os microrganismos que alberga. Uma descoberta promissora para eventuais tratamentos futuros.

 

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Os efeitos benéficos e por vezes paradoxais do miso

Talvez o melhor embaixador da culinária do Japão seja a sopa de miso, que apresentou ao Ocidente um quinto sabor, o umami. Atualmente apreciado em todo o mundo, este ícone gastronómico parece ser excelente para a nossa microbiota, graças à pasta de soja fermentada que contém. Explicações sobre a origem dos seus benefícios, que por vezes são paradoxais. 

A microbiota intestinal
The beneficial—and sometimes paradoxical—effects of miso

O miso é um condimento tradicional japonês e é um dos expoentes do sabor umami,1 que é considerado o quinto sabor fundamental, juntamente com o doce, o salgado, o ácido e o amargo. Em terras do sol nascente, é usado principalmente como base para a famosa sopa com o mesmo nome.1 A partir da década de 1970, foi introduzido no Ocidente, onde é utilizado como um condimento versátil.2

A produção do miso

A produção de miso sofreu uma quebra, de 700 mil toneladas em 1980 para 426 mil toneladas em 2013, o que representa uma redução de cerca de 40%. Contudo, essa tendência parece ter começado a inverter-se, tendo a produção anual atingido 482 mil toneladas em 2019.
Fonte: Allwood, 2021.2

O que é o miso?

O miso é uma pasta de soja fermentada, produzida em duas etapas1,2 :

  • preparação do koji: um substrato inicial (geralmente arroz, cevada ou soja) é inoculado com um fungo filamentoso microscópico, quase sempre o Aspergillus oryzae, para produzir o que se denomina o “koji”.
  • fermentação final: o koji é, em seguida, misturado com um puré de soja cozida e com sal. A mistura fermenta uma segunda vez, graças a leveduras e bactérias (designadamente bactérias lácticas). Esta etapa pode durar desde algumas semanas até três anos.

Há quatro categorias principais de miso, dependendo dos ingredientes: o miso de arroz (80% da produção japonesa), o miso de cevada, o miso de soja e o miso misto.1,2 O seu sabor (mais ou menos doce ou salgado) e a sua cor (branca, vermelha ou preta) dependem dos ingredientes usados, da dose de koji e do período de fermentação.1,2

Efeitos na saúde associados à soja

O miso, que tem a soja como ingrediente principal, apresenta os mesmos efeitos nutritivos que ela. A soja é um alimento rico em proteínas (duas vezes mais do que a maioria das outras leguminosas) de boa qualidade, dado que contém os nove aminoácidos essenciais.3,4 É também rica em fibras, as quais alimentam as nossas bactérias intestinais, e em minerais. O miso contém ainda isoflavonas, moléculas vegetais que se podem ligar aos recetores de estrogénio humanos. Por vezes, são também designadas fitoestrogénios.

Daí terem surgido alguns receios:5 poderiam estes compostos influenciar certos tipos de cancro hormonodependentes, a fertilidade ou o desenvolvimento hormonal? Embora tais dúvidas fossem legítimas, os estudos atuais não deixam margem para dúvidas: não revelam qualquer aumento do risco e apontam mesmo para um potencial efeito protetor contra o cancro,6 nomeadamente nas mulheres.7,8

Último ponto a ter em conta: o miso, tal como qualquer produto derivado da soja, contém diversas proteínas alergénicas.​​​​​​​9 Embora a fermentação reduza consideravelmente o potencial alergénico através da decomposição das proteínas complexas, o risco subsiste para pessoas altamente sensíveis.9

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas.

 

Uma fermentação que maximiza os benefícios

A fermentação dupla do miso transforma a soja num alimento mais fácil de digerir e rico em compostos bioativos.3,9,10 Por exemplo, o processo de fermentação melhora a digestibilidade das proteínas da soja: faz com que estas se decomponham em moléculas mais pequenas e mais fáceis de assimilar.3 Aumenta igualmente a bioatividade das célebres isoflavonas, que transforma num tipo de fitoestrogénios mais biodisponível e ativo para o organismo, com potenciais efeitos benéficos para a saúde: 

  • proteção contra certos tipos de cancro,
  • melhoria do perfil lipídico,
  • e efeitos na saúde cardiovascular,embora estes resultados continuem a ser ainda pouco conclusivos.3,10–12

É importante referir, no entanto, que, tendo estes compostos atividade estrogénica, existem riscos potenciais de efeitos tóxicos para o sistema reprodutor quando consumidos em quantidades excessivas, em particular no caso de mulheres grávidas ou em idade fértil e de crianças antes da puberdade (ANSES, Agência Nacional de Segurança Sanitária de França).13
O miso é naturalmente rico em microrganismos diversificados e variados, entre os quais o trio Aspergillus oryzae (com origem no koji), a levedura Zygosaccharomyces rouxii e a bactéria Tetragenococcus halophilus.1,2,14 Esta comunidade vai enriquecer a microbiota intestinal15, promovendo a sua diversidade e a sua estabilidade, estimulando determinadas bactérias benéficas e, simultaneamente, reduzindo outras bactérias menos favoráveis. O reequilíbrio da microbiota daí resultante é tal que, segundo alguns investigadores, poderá ter um papel potencial na luta contra a diabetes10,15 : no entanto, esta hipótese ainda tem de ser comprovada. 

Para concluir, uma flora intestinal melhorada implica a produção de compostos por parte dessas bactérias, em particular um aumento da produção de  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. )  (AGCC).15
E estas pequenas moléculas são benéficas para a nossa saúde: nutrem as células do nosso cólon, reforçam a nossa barreira intestinal, contribuem para o bom funcionamento do nosso sistema imunitário e poderão limitar a inflamação.4,9,15  

O paradoxo do sal

A OMS e as campanhas de saúde pública lembram-nos regularmente de que se deve reduzir o consumo de sal. Pois bem, o miso constitui uma das principais fontes de sal na alimentação quotidiana da população japonesa. No entanto, paradoxalmente, esta iguaria japonesa parece não apresentar os mesmos efeitos nocivos que o sal puro: o seu consumo é aparentemente neutro em relação à tensão arterial.2,16,17 E poderá até reduzir a frequência cardíaca16 e aumentar a excreção de sal através da urina!18 
Como se poderá explicar tal resultado tão surpreendente? Talvez pela riqueza em potássio da soja e da sopa de miso (legumes, peixe, etc.), o qual poderá neutralizar os efeitos hipertensivos do sal.1
É que, para alguns especialistas, o que importa não é tanto o teor de sódio, mas sim a proporção de sódio (do sal) em relação ao potássio.1,2,19

1 a 2 g de sal

Uma porção tradicional (clássica) de sopa de miso contém geralmente 1 a 2 g de sal. 
Fonte: Kondo, 2019.16 

Portanto, graças à sua fermentação dupla, o miso é um alimento fácil de digerir e rico em compostos interessantes do ponto de vista nutritivo. Quando consumido com moderação – um consumo diário elevado, de 1 a 5 tigelas por dia, parece estar associado a riscos acrescidos de cancro do estômago nos indivíduos do sexo masculino –7 , pode contribuir positivamente para a saúde, apesar do seu teor de sal.

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Fontes

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2. Allwood JG, Wakeling LT, Bean DC. Fermentation and the microbial community of Japanese koji and miso: A review. J Food Sci. 2021;86(6):2194-2207. 

3. do Prado FG, Pagnoncelli MGB, de Melo Pereira GV, Karp SG, Soccol CR. Fermented Soy Products and Their Potential Health Benefits: A Review. Microorganisms. 2022;10(8):1606. 

4. Belobrajdic DP, James-Martin G, Jones D, Tran CD. Soy and Gastrointestinal Health: A Review. Nutrients. 2023;15(8):1959. 

5. Messina M, Barnes S, Setchell KD. Perspective: Isoflavones—Intriguing Molecules but Much Remains to Be Learned about These Soybean Constituents. Adv Nutr. 2025;16(5):100418. 

6. Wang C, Ding K, Xie X, et al. Soy Product Consumption and the Risk of Cancer: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies. Nutrients. 2024;16(7):986. 

7. Li N, Wu X, Zhuang W, et al. Soy and Isoflavone Consumption and Multiple Health Outcomes: Umbrella Review of Systematic Reviews and Meta-Analyses of Observational Studies and Randomized Trials in Humans. Mol Nutr Food Res. 2020;64(4):1900751.

8. Yamamoto S, Sobue T, Kobayashi M, Sasaki S, Tsugane S, For the Japan Public Health Center-Based Prospective Study on Cancer Cardiovascular Diseases (JPHC Study) Group. Soy, Isoflavones, and Breast Cancer Risk in Japan. JNCI J Natl Cancer Inst. 2003;95(12):906-913.

9. Harahap IA, Suliburska J, Karaca AC, Capanoglu E, Esatbeyoglu T. Fermented soy products: A review of bioactives for health from fermentation to functionality. Compr Rev Food Sci Food Saf. 2025;24(1):e70080.

10. Jayachandran M, Xu B. An insight into the health benefits of fermented soy products. Food Chem. 2019;271:362-371. 

11. Papagianni O, Delli E, Vasila ME, et al. The Acute Effect of a Novel Miso-Type Sauce, Enhanced with a Carotenoid-Rich Extract from Fruit By-Products, on Postprandial Biomarkers of Oxidative Stress and Inflammation. Nutrients. 2022;14(6):1316. 

12. Papagianni OI, Dimou C, Koutelidakis AE. Biofunctional Miso-Type Sauce Enhanced with Biocarotenoids: How Does Its Habitual Consumption Affect Lipidemic, Glycemic, and Oxidative Stress Markers? A Pilot Cross-Over Clinical Study. Appl Sci. 2025;15(11):5962. 

13. AVIS de l’Agence nationale de sécurité sanitaire de l’alimentation, de l’environnement et du travail relatif à l’élaboration de VTR long terme par voie orale pour les isoflavones, ANSES, 2025. 

14. Dimidi E, Cox SR, Rossi M, Whelan K. Fermented Foods: Definitions and Characteristics, Impact on the Gut Microbiota and Effects on Gastrointestinal Health and Disease. Nutrients. 2019;11(8):1806. 

15. Hashimoto Y, Hamaguchi M, Fukui M. Fermented soybean foods and diabetes. J Diabetes Investig. 2023;14(12):1329-1340. 

16. Ito K, Miyata K, Mohri M, Origuchi H, Yamamoto H. The Effects of the Habitual Consumption of Miso Soup on the Blood Pressure and Heart Rate of Japanese Adults: A Cross-sectional Study of a Health Examination. Intern Med. 2017;56(1):23-29. 

17. Kondo H, Sakuyama Tomari H, Yamakawa S, et al. Long-term intake of miso soup decreases nighttime blood pressure in subjects with high-normal blood pressure or stage I hypertension. Hypertens Res. 2019;42(11):1757-1767.

18. Takahashi F, Hashimoto Y, Kaji A, et al. Association of Estimated Salt and Miso Intake with the Prevalence of Obesity in People with Type 2 Diabetes: A Cross-Sectional Study. Nutrients. 2021;13(9):3014.  

19. Watanabe H. Beneficial Biological Effects of Miso with Reference to Radiation Injury, Cancer and Hypertension. J Toxicol Pathol. 2013;26(2):91-103. 

 

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Kimchi, uma mistura de fibras e bactérias com efeitos benéficos

O kimchi é como o K-Pop: é impossível escapar-lhe quando vamos à Coreia. Esta especialidade culinária à base de couve fermentada pode ser apreciada em quase todas as refeições, em todo o país. E é alvo de inúmeras investigações devido aos seus potenciais efeitos positivos na microbiota e na saúde. 

A microbiota intestinal
Kimchi: a blend of fiber and beneficial bacteria

O kimchi é um acompanhamento tradicional coreano, geralmente preparado à base de couve ou por vezes de rabanete, dependendo das receitas.1–3
Historicamente, era produzido no inverno através da fermentação láctica dos vegetais, o que permitia a sua conservação durante períodos prolongados 4 : a couve é submersa em salmoura (uma mistura de água e sal) durante várias semanas, durante as quais as bactérias lácticas se multiplicam; ao produzirem ácido láctico, conferem ao kimchi o seu sabor ácido, assegurando simultaneamente a sua conservação.5
É uma receita com um sabor intenso que lembra o da chucrute na Europa, uma couve fermentada e salgada, embora a variedade de couve e as especiarias difiram.6 Faz de tal maneira parte integrante da cultura coreana que a tradição nacional do Kimjang, que consiste na produção coletiva de grandes quantidades de kimchi para o inverno, foi inscrita em 2013 na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. 

Tudo o que há para saber sobre o kimchi

A palavra “kimchi” vem do antigo termo “chimchae”, de origem chinesa, que literalmente significa “legumes salgados”. 
Fonte: Park, 2014.2

42% 
Em 2019, 42% das famílias coreanas ainda preparavam o seu próprio kimchi. 
Fonte: Cha, 2024.4

1,78 MT 
Os coreanos consumiram um total de 1,78 milhões de toneladas de kimchi em 2020. 
Fonte: Cha, 2024.4

22 
É oficialmente o "Dia do Kimchi". Esta data, instituída em 2020, tem por objetivo apoiar o desenvolvimento do sector do kimchi, preservar e promover a cultura do kimchi e ainda sensibilizar o público para o seu valor nutritivo e a sua importância. 
Fonte: Kim, 2023.7 

1500 
Segundo o Samguk sagi, a Crónica dos Três Reinos da Coreia, o kimchi já era consumido há cerca de 1.500 anos. 
Fonte: Cha, 2024.4

N.º 1 
Em 2020, o kimchi de couve foi o alimento mais consumido pelos coreanos, representando 55% do consumo alimentar e superando, inclusive, o arroz, apesar de este ser o alimento básico da cozinha coreana. 
Fonte: Cha, 2024.4

Couve + fermentação = um prato cheio de benefícios

Por ser preparado a partir da couve, o kimchi é pobre em calorias (18 kcal/100 g) e rico em fibras benéficas. Contém ainda vários compostos típicos das brassicáceas (a vasta família que engloba as couves, os nabos, os rabanetes e até a mostarda), cujos benefícios para a saúde podem ser tão grandes quanto a estranheza dos nomes1(1) desses compostos.2,4 
O kimchi também é rico em várias vitaminas – nomeadamente as vitaminas A, C, B1 e B2 – e em minerais – cálcio, potássio, ferro e fósforo.2,4
Os benefícios deste prato coreano também se explicariam pela fermentação da couve 6 : em comparação com a couve fresca, o kimchi (couve fermentada) parece reduzir a tensão arterial, a massa gorda, a glicemia em jejum e o colesterol total… embora estes resultados tenham de ser interpretados com cautela, uma vez que o estudo foi realizado com apenas 22 pessoas.8 
A fermentação também enriquece o kimchi com bactérias vivas do ácido láctico – nomeadamente dos géneros Lactobacillus, Leuconostoc et Weissella - e com os valiosos metabolitos que estas produzem.2,4,5,7
Por exemplo, o consumo de kimchi parece estar associado, no nosso intestino, a um aumento da quantidade de bactérias produtoras de pequenos  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. ) , moléculas conhecidas pelos seus efeitos benéficos para a saúde intestinal e para o nosso metabolismo… e a uma redução das bactérias muito menos agradáveis, como Clostridium e Escherichia coli .9 
Mais bactérias benéficas e menos bactérias potencialmente nocivas: o kimchi aparece como um aliado da microbiota intestinal ! 

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Mas cuidado com os efeitos... e com as doses!

Devido a uma composição nutritiva tão promissora, alguns investigadores tentaram avaliar as relações entre o consumo de kimchi e doenças tão variadas como a obesidade, o cancro, a dermatite atópica ou a síndrome do cólon irritável, e até mesmo com aspetos como a saúde cardiovascular e  a beleza da pele…3,6,7,10–14
Existem, por isso, alguns estudos, mas continuam a ser escassos, limitando-se quase sempre à população asiática. Em suma, é recomendável prudência na interpretação dos resultados, que ainda são pouco conclusivos e, em qualquer caso, modestos em termos de efeitos observados!

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas.

Por exemplo, relativamente à obesidade, existem alguns estudos que parecem indicar um potencial efeito benéfico. Um deles, que acompanhou 115.726 coreanos, sustenta que um consumo moderado de kimchi, de 1 a 3 porções por dia (algo bastante habitual na Coreia, mas muito menos no Ocidente!), estará associado a uma menor prevalência de obesidade, sobretudo em indivíduos do sexo masculino. Mas atenção, isto não significa que exista necessariamente uma relação de causa e efeito: os apreciadores de kimchi poderão também ser coreanos que, em geral, tenham um estilo de vida mais saudável.1 
No entanto, outro estudo, desta vez com 3 g diários de kimchi em pó (em comparação com um placebo), parece confirmar este efeito benéfico para a silhueta.15 Relativizemos também tal “descoberta”: um maior consumo de legumes é, há muito tempo, associado a uma melhor gestão do peso… 
Como sempre na área da nutrição, é claro que é essencial ter cuidado com os excessos: acima de determinado nível de consumo, os benefícios parecem diminuir, uma vez que o kimchi, devido à sua composição, contém muito sal, prejudicial para a tensão arterial e um fator de risco para o cancro do estômago.1,2,16

Nos adultos acima dos 19 anos, o consumo de kimchi tem uma contribuição média de 500,1 mg de sódio por dia, o que significa cerca de 15,1% da ingestão diária total recomendada de sódio. 
Fonte:  Jung, 2024.1

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Fontes

1. Jung H, Yun YR, Hong SW, Shin S. Association between kimchi consumption and obesity based on BMI and abdominal obesity in Korean adults: a cross-sectional analysis of the Health Examinees study. BMJ Open. 2024;14(2):e076650. 

2. Park KY, Jeong JK, Lee YE, DailyIII JW. Health Benefits of Kimchi (Korean Fermented Vegetables) as a Probiotic Food. Journal of Medicinal Food. 2014;17(1):6-20. 

3. Song E, Ang L, Lee HW, et al. Effects of kimchi on human health: a scoping review of randomized controlled trials. J Ethn Food. 2023;10(1):7. 

4. Cha J, Kim YB, Park SE, et al. Does kimchi deserve the status of a probiotic food? Critical Reviews in Food Science and Nutrition. 2024;64(19):6512-6525.

5. Bemis DH, Camphausen CE, Liu E, et al. Nutrient Availability and Pathogen Clearance Impact Microbiome Composition in a Gnotobiotic Kimchi Model. Foods. 2025;14(11):1948.

6. Fijan S, Fijan P, Wei L, Marco ML. Health Benefits of Kimchi, Sauerkraut, and Other Fermented Foods of the Genus Brassica. Applied Microbiology. 2024;4(3):1165-1176.

7. Kim HJ, Kwon MS, Hwang H, et al. A Review of the Health Benefits of Kimchi Functional Compounds and Metabolites. Microbiol Biotechnol Lett. 2023;51(4):353-373. 

8. Kim EK, An SY, Lee MS, et al. Fermented kimchi reduces body weight and improves metabolic parameters in overweight and obese patients. Nutrition Research. 2011;31(6):436-443.

9. Kim HY, Park KY. Clinical trials of kimchi intakes on the regulation of metabolic parameters and colon health in healthy Korean young adults. Journal of Functional Foods. 2018;47:325-333.

10. Ahn S, Darooghegi Mofrad M, Nosal BM, Chun OK, Joung H. Effects of Fermented Kimchi Consumption on Anthropometric and Blood Cardiometabolic Indicators: A Systematic Review and Meta-Analysis of Intervention Studies and Prospective Cohort Studies. Nutr Rev. 2025;83(7):e1441-e1457. 

11. Kim HY, Park ES, Choi YS, et al. Kimchi improves irritable bowel syndrome: results of a randomized, double-blind placebo-controlled study. Food & Nutrition Research. Published online May 23, 2022.

12. Cha J, Ko SH, Shin D. Causal effect of kimchi intake on HDL-cholesterol levels in middle aged Korean men: a two-sample Mendelian randomization analysis. Genes Nutr. 2025;20:23.

13. Choi IH, Noh JS, Han JS, Kim HJ, Han ES, Song YO. Kimchi, a Fermented Vegetable, Improves Serum Lipid Profiles in Healthy Young Adults: Randomized Clinical Trial. Journal of Medicinal Food. 2013;16(3):223-229. 

14. Erdoğan F, Toprak K. Kimchi: a traditional fermented food with emerging health implications: Kimchi: ortaya çikan sağlik etkileriyle geleneksel bir fermente gida. Journal of Advanced Studies in Health Science and Obesity. 2026;2(2):1-18. 

15. Lee W, Kwon MS, Yun YR, et al. Effects of kimchi consumption on body fat and intestinal microbiota in overweight participants: A randomized, double-blind, placebo-controlled, single-center clinical trial. Journal of Functional Foods. 2024;121:106401.

16. Yang JY, Kim KE, Cho SJ, Hur C. Kimchi friend or foe: preserving cultural foods developed pre-refrigeration. Preventive Medicine Reports. 2026;61:103357. 

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Kombucha: promessas científicas ou de marketing?

Madonna, Kourtney Kardashian, Halle Berry... Hollywood só jura por isto. O kombucha é a bebida do momento e está a conquistar adeptos em todos os continentes. Destaque para um chá fermentado, ao qual se atribuem muitos (talvez demasiados) benefícios. 

A microbiota intestinal
Kombucha: marketing hype or scientific claims?

O kombucha é uma bebida fermentada à base de chá, não alcoólica ou com baixo teor de álcool, que terá surgido na China cerca de 220 a.C.1. É preparado com uma combinação de bactérias e leveduras, as quais formam uma “mãe” (como na produção de vinagre), que é depois adicionada a uma solução açucarada à base de chá. Celebridades, influencers e gurus do marketing “descobriram” recentemente o produto, tornando-o popular no mundo ocidental, onde lhe são atribuídas inúmeras virtudes 1,2.
Mas o que é que a ciência diz, de facto? Quais são os efeitos realmente comprovados para a saúde? Será que as afirmações dos influencers e as promessas de algumas marcas relacionadas com a saúde se justificam? 

5 mil milhões de dólares

O mercado mundial de kombucha foi avaliado em cerca de 5 mil milhões de dólares em 2025 e continua em crescimento.  
Fonte: Andrade et al.1

O que é que suscita tanto entusiasmo? 

A ciência tem demonstrado que o que comemos influencia fortemente a composição e o desempenho da nossa microbiota intestinal, com potencial impacto no funcionamento do nosso organismo e na nossa saúde 2. Como consequência direta, todos os alimentos fermentados têm despertado um interesse crescente devido aos seus compostos bioativos e aos potenciais benefícios que oferecem. 
O kombucha não é exceção a esta regra. Oferecendo, além disso, diversos sabores com notas ácidas particularmente marcantes e surpreendentes, conta com uma tradição popular que o define como um “chá da imortalidade” 1. Problema: os influencers e os profissionais de marketing talvez se tenham precipitado um pouco. É que os resultados dos estudos estão longe de serem conclusivos. 

Receita de kombucha: uma cooperação entre leveduras e bactérias

O fabrico do kombucha começa pela preparação de um chá açucarado: a uma infusão de chá preto, verde ou Oolong adiciona-se sacarose (açúcar de mesa). Depois desta infusão arrefecer, adiciona-se-lhe uma mistura de bactérias e leveduras, denominada SCOBY* ou “mãe” de kombucha. 
Trata-se de disco gelatinoso e espesso que flutua na superfície do chá e é uma verdadeira "biofábrica" na qual as leveduras e as bactérias trabalham em equipa:  

  • as leveduras decompõem a sacarose do preparado em açúcares simples (frutose e glicose), parte dos quais são transformados em álcool e dióxido de carbono (daí as bolhinhas da bebida);  
  • as bactérias transformam, em seguida, a glicose e o etanol, produzidos pelas leveduras, em diversos ácidos orgânicos (ácidos láctico, glucónico e acético), o que reduz o pH e confere à bebida o seu sabor acidulado.

Para variar o sabor, é possível adicionar frutas, ervas aromáticas ou especiarias. 
Fonte : Andrade et al.1
*acrónimo inglês de Symbiotic Culture of Bacteria and Yeast (cultura simbiótica de bactérias e leveduras). 

Resultados ainda pouco conclusivos no que respeita ao ser humano 

É verdade que alguns estudos realizados em modelos animais apontam para que o consumo deste chá fermentado possa apresentar benefícios para a saúde 2 : são mencionados, nomeadamente, efeitos anti-hiperglicemiantes (redução dos picos de glicemia prejudiciais), antioxidantes (proteção das células contra a oxidação) e anti-inflamatórios, bem como mudanças na microbiota intestinal (aumento dos lactobacilos) relacionadas com melhorias na saúde metabólica. Mas são resultados obtidos em animais, e não em seres humanos. 

E no caso do ser humano? Os estudos de intervenção com kombucha são raros, de reduzida dimensão e, por isso, pouco relevantes. Alguns deles sugerem: 

  • efeito positivo na glicemia: menor aumento dos níveis de glicose no sangue após as refeições em pessoas saudáveis 3, e redução da glicemia no caso dos diabéticos 4. No entanto, há um outro estudo que não detetou qualquer alteração nesses parâmetros, nem mesmo, aliás, quaisquer marcadores inflamatórios 2;
  • efeito benéfico na microbiota intestinal nas pessoas com peso normal 2,5 e nas pessoas obesas 5, com vantagens mais acentuadas neste último grupo 5;
  • melhoria dos sintomas intestinais em indivíduos com excesso de peso (kombucha de chá verde associado com uma dieta saudável e hipocalórica) 6 e da obstipação em pessoas com síndrome do cólon irritável (bebida enriquecida com fibras e vitaminas) 7. 

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Afinal de contas, o que é que podemos concluir? Em 2025, houve uma equipa que tentou, precisamente, fazer um levantamento de todos os resultados publicados até à altura, ou seja, 8 ensaios clínicos 8. Conclusão? O kombucha poderá ter alguns efeitos positivos modestos na saúde digestiva e na microbiota de determinadas pessoas, bem como em alguns marcadores biológicos. No entanto, os resultados são extremamente heterogéneos e as amostras são pouco expressivas, o que não permite tirar conclusões sólidas sobre vantagens clínicas comprovadas. Aconselha-se prudência, portanto... 

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas. 

Quais poderão ser os mecanismos? 

Se os benefícios para a saúde vierem a ser confirmados, através de que mecanismos é que poderá atuar? Por um lado, a infusão de chá apresenta moléculas potencialmente favoráveis, dependendo do produto utilizado: o chá verde, por exemplo, é rico em catequinas 8, moléculas que reduzem o stress oxidativo. Simultaneamente, em virtude do seu método de preparação, o kombucha é uma fonte de bactérias (nomeadamente bactérias acéticas e lácticas) e de leveduras 2,8. Pois bem, estes microrganismos têm a capacidade de produzirem uma grande diversidade de metabolitos com potenciais efeitos positivos para a saúde 2,8 :

  • compostos fenólicos,
  • ácidos orgânicos,
  • vitaminas, etc.  

E ainda há mais. O consumo deste chá fermentado poderá contribuir para o enriquecimento da nossa flora intestinal com bactérias produtoras de  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. )  (AGCC) , como o butirato, o acetato e o propionato 2,8. Estes pequenos ácidos gordos, aptos a penetrar na circulação sanguínea, são vistos como particularmente benéficos para a nossa barreira intestinal, o nosso metabolismo e o nosso sistema imunitário​​​​​​​ 8. 
Entre as espécies produtoras de AGCC, há uma que parece estar especificamente associada ao kombucha: a​​​​​​​ Weizmannia coagulans (anteriormente denominada Bacillus coagulans), que parece colonizar, pelo menos temporariamente, o intestino dos consumidores​​​​​​​ 2. E há outras bactérias, desta vez ligadas ao metabolismo dos polifenóis, como a​​​​​​​ Ellagibacter isourolithinifaciens, que poderão igualmente surgir com uma maior presença​​​​​​​ 2. 
Mas, novamente, estamos aqui apenas perante resultados preliminares, baseados em estudos ainda muito limitados.  

Para terminar, algumas advertências 

O kombucha é geralmente considerado uma bebida livre de riscos. No entanto, a variabilidade na composição microbiana dos preparados caseiros, as condições de higiene implementadas durante a elaboração e os riscos de contaminação que lhes estão associados constituem aspetos que requer especial atenção. Alguns estudos isolados referiram casos raros de efeitos adversos após o consumo diário prolongado: náuseas, vómitos ou dores de cabeça 9. Além disso, a produção de etanol durante a fermentação está longe de ser insignificante. Por isso, em caso de dúvida, é aconselhável prudência para mulheres grávidas, crianças pequenas e pessoas imunodeprimidas ou com insuficiência renal 9.

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Fontes

1. Andrade DKA, Wang B, Lima EMF, et al. Kombucha: An Old Tradition into a New Concept of a Beneficial, Health-Promoting Beverage. Foods. 2025;14(9):1547. 

2. Ecklu-Mensah G, Miller R, Maseng MG, et al. Modulating the human gut microbiome and health markers through kombucha consumption: a controlled clinical study. Sci Rep. 2024;14(1):31647. 

3. Atkinson FS, Cohen M, Lau K, Brand-Miller JC. Glycemic index and insulin index after a standard carbohydrate meal consumed with live kombucha: A randomised, placebo-controlled, crossover trial. Front Nutr. 2023;10. 

4. Mendelson C, Sparkes S, Merenstein DJ, et al. Kombucha tea as an anti-hyperglycemic agent in humans with diabetes – a randomized controlled pilot investigation. Front Nutr. 2023;10. 

5. Costa MA de C, da Silva Duarte V, Fraiz GM, et al. Regular Consumption of Black Tea Kombucha Modulates the Gut Microbiota in Individuals with and without Obesity. J Nutr. 2025;155(5):1331-1349. 

6. Fraiz GM, Bonifácio DB, Lacerda UV, et al. The Impact of Green Tea Kombucha on the Intestinal Health, Gut Microbiota, and Serum Metabolome of Individuals with Excess Body Weight in a Weight Loss Intervention: A Randomized Controlled Trial. Foods. 2024;13(22):3635. 

7. Federal Research Centre of Nutrition, Biotechnology and Food Safety, Moscow, Pilipenko VI, Isakov VA, et al. Efficacy of newly developed kombucha-based specialized food product for treatment of constipation-predominant irritable bowel syndrome. Probl Nutr. 2022;91(5):95-104. 

8. Fraiz GM, Bonifácio DB, de Paulo RS, et al. Benefits of Kombucha Consumption: A Systematic Review of Clinical Trials Focused on Microbiota and Metabolic Health. Fermentation. 2025;11(6):353. 

9. Anantachoke N, Duangrat R, Sutthiphatkul T, Ochaikul D, Mangmool S. Kombucha Beverages Produced from Fruits, Vegetables, and Plants: A Review on Their Pharmacological Activities and Health Benefits. Foods. 2023;12(9):1818. 

 

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Kefir: um aliado natural da sua microbiota?

Ligeiramente efervescente, com um toque ácido e naturalmente rico em microrganismos vivos, o kefir vem conquistando cada vez mais apreciadores de alimentos fermentados. O seu sabor único é o que define esta bebida tradicional consumida há séculos, a qual é atualmente objeto de estudo devido aos seus potenciais efeitos na microbiota intestinal. Digestão, imunidade, desempenho desportivo, saúde oral… o que é que a ciência realmente nos diz?

A microbiota intestinal
Kefir: a natural ally for our gut microbiota?

Uma bebida fermentada originária das regiões do Cáucaso, da Europa Oriental e dos Balcãs e consumida há já muitos séculos, o kefir volta hoje a estar em destaque. É feito à base de água ou de leite e é preparado a partir de “grãos” de kefir, pequenos aglomerados brancos ou translúcidos nos quais coexistem bactérias lácticas, bactérias acéticas e leveduras, numa matriz de polissacarídeos e proteínas.
Esse minúsculo mundo microscópico transforma o leite ou a água com açúcar numa bebida com sabor ácido, ligeiramente efervescente, rica em compostos resultantes da fermentação, os quais contribuem para o seu valor nutricional.

Há duas grandes famílias: 

  • o kefir de leite, que é o mais estudado,
  • e o kefir de água, geralmente preparado com água com açúcar e, por vezes, com frutos secos ou limão. 

A composição varia bastante em função dos grãos utilizados, do tipo de leite ou de açúcar, da temperatura, do tempo de fermentação e das condições de conservação. E é precisamente essa riqueza microbiana o que torna o kefir tão interessante: parece poder intervir na nossa microbiota e, através dela, em várias funções essenciais do organismo, desde a digestão até à imunidade, da mesma forma de outros alimentos fermentados, como o kombucha 1,2,3,4.

Kefir: bom para a saúde intestinal?

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Será que o kefir “alimenta” realmente a nossa microbiota intestinal?

O kefir é frequentemente apresentado como um “alimento funcional” – ou seja, um alimento capaz de proporcionar efeitos que ultrapassam o seu valor nutritivo de base. Os estudos já realizados em seres humanos sobre esta bebida apontam para efeitos bastante promissores na microbiota intestinal, na digestão, em determinados marcadores de inflamação, no metabolismo e na imunidade. O seu principal local de atuação parece ser a microbiota intestinal. Ao introduzir microrganismos vivos (com efeito probiótico) e compostos produzidos durante a fermentação, o kefir poderá promover o desenvolvimento de uma microbiota mais diversificada e mais ativa. Existem estudos que apontam em particular para um aumento das bactérias envolvidas na produção de  (sidenote: Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC) Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro. Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25. ) , os quais constituem moléculas essenciais para a barreira intestinal e para a interação entre a microbiota, o sistema imunitário e o metabolismo 1,2,5. 

Mas atenção, cuidado: nem todos os kefires são iguais, e os estudos usaram doses, durações e receitas muito diferentes. Portanto, o kefir é promissor, mas não lhe podemos atribuir ainda poderes universais, nem presumir benefícios semelhantes em todos os produtos.

Já sabia? Os grãos de kefir não são cereais!

Apesar do nome, os “grãos” de kefir são pequenos aglomerados de microrganismos vivos, mantidos juntos por uma matriz natural designada “kefiran” 6. Cada grão, que é um verdadeiro ecossistema em miniatura, pode conter várias dezenas de espécies de bactérias e leveduras, as quais atuam em conjunto durante a fermentação 7. É por causa dessa riqueza que dois kefires com preparações diferentes nunca podem ter exatamente a mesma composição.

 

O kefir é bom para a nossa microbiota oral? 

A nossa boca também possui a sua própria microbiota. Se ela estiver desequilibrada, determinadas bactérias podem contribuir para o aparecimento de cáries, a erosão do esmalte e doenças nas gengivas. Os estudos preliminares apontam para que o kefir possa contribuir para um ambiente oral mais equilibrado, nomeadamente ao inibir certas bactérias envolvidas na formação de cáries, como Streptococcus mutans. Mas é óbvio que o kefir não pode, de forma alguma, substituir a escovagem, o flúor ou o acompanhamento pelo dentista. O seu potencial interesse é, antes, o de ser um alimento fermentado que poderá contribuir para uma boa higiene oral. Isto, claro, desde que se opte por um kefir com baixo teor de açúcar, nomeadamente se o produto for preparado com água com açúcar e fruta 8,9.

O kefir tem algum efeito sobre o eixo intestino-cérebro? 

Tal como outros alimentos fermentados, o kefir suscita o interesse dos investigadores devido aos seus possíveis efeitos no eixo intestino-cérebro, que é um canal de comunicação permanente entre a nossa microbiota, o nosso sistema imunitário e o nosso cérebro. Ao modificar o equilíbrio entre determinadas bactérias intestinais e ao promover a produção de metabolitos como os ácidos gordos de cadeia curta, ele poderá contribuir para um ambiente menos inflamatório, potencialmente favorável a um bom funcionamento cognitivo.

Há estudos que estão a investigar, em particular, o seu potencial no tratamento da doença de Alzheimer, com resultados animadores no que diz respeito à inflamação, ao stress oxidativo ou a determinados mecanismos relacionados com a acumulação tóxica de proteínas no cérebro. No entanto, tais estudos ainda se encontram numa fase muito preliminar e são geralmente realizados em modelos animais ou experimentais, pelo que, para já, não permitem concluir que existam benefícios diretos para o ser humano.

O kefir de leite também é rico em nutrientes importantes para o funcionamento normal do sistema nervoso, entre os quais determinadas vitaminas do grupo B, como a colina e o ácido fólico. Só que estes estudos permanecem igualmente em fase preliminar e, embora esta bebida fermentada continue a despertar interesse no âmbito de uma alimentação variada, será necessário realizar mais investigações antes de se poder considerar o kefir como tratamento complementar para as doenças de Alzheimer e de Parkinson 10,11,12,13 . 

O kefir, verdadeiro “treinador” dos desportistas? 

No que se refere ao desporto, o kefir de leite possui também alguns argumentos a seu favor. Independentemente de ele ser de vaca, de búfala, de burra ou de ovelha, a fermentação pode alterar o teor de proteínas do leite, enriquecê-lo com peptídeos bioativos e reforçar determinadas propriedades antioxidantes. Entre os atletas, os primeiros dados são animadores.
Um estudo realizado com jogadoras profissionais de futebol mostra que o consumo diário de kefir (200 mililitros por dia) pode alterar a microbiota intestinal – designadamente com um aumento das bactérias
Akkermansia muciniphila e Faecalibacterium prausnitzii, frequentemente associadas à produção de ácidos gordos de cadeia curta e a efeitos anti-inflamatórios – e estar associado a melhores indicadores de desempenho desportivo. Estudos realizados em ratos também demonstraram um efeito potencial no combate à fadiga pós-esforço.
Embora os dados disponíveis ainda sejam limitados, o kefir poderá ser um bom aliado numa alimentação equilibrada que inclua outros alimentos fermentados, frutas e legumes, bem como bebidas sem açúcar 14,15,16.

Será que uma bactéria intestinal poderá substituir a inscrição no ginásio?

Saiba mais

O facto é que ele preenche muitos requisitos: uma longa história na alimentação, uma grande riqueza microbiana, compostas resultantes da fermentação e um possível efeito na microbiota intestinal e oral. Traz a promessa de efeitos positivos em vários marcadores metabólicos, imunitários, cognitivos e desportivos, embora muitos desses resultados ainda necessitam de ser confirmados nos seres humanos. E qual a melhor opção? Consumi-lo como um alimento fermentado interessante, com pouco açúcar e em quantidade razoável – por exemplo, 100 a 200 ml por dia, para começar.

Falando claramente, o kefir não é nenhum elixir milagroso. Mas, quando integrado numa alimentação variada, juntamente com o sono, a atividade física e um estilo de vida saudáveis, pode tornar-se num aliado simples e natural da nossa microbiota!

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas. 

Confira a nossa série de artigos sobre a microbiota e os alimentos fermentados:

Alimentos fermentados: um vasto conjunto de benefícios para a saúde

Saiba mais

Os iogurtes, os grandes aliados do teu microbioma intestinal

Saiba mais

Kombucha: promessas científicas ou de marketing?

Saiba mais

Kimchi, uma mistura de fibras e bactérias com efeitos benéficos

Saiba mais

Os efeitos benéficos e por vezes paradoxais do miso

Saiba mais

Volta ao mundo dos alimentos fermentados

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Fontes

1. Sabina Fijan, Petra Povalej Bržan, Maja Šikić Pogačar, Petra Klanjšek. Kefir Consumption and Health Effects Based on Human Clinical Trials: An Overview of Literature. Healthcare (Basel). 2026 Mar 4;14(5):652.

2. Yejin Choi, Gi Beom Keum, Juyoun Kang, Hyunok Doo, Jinok Kwak, Haram Kim, Yeongjae Chae, Suyoung Lee, Hyunjin Yang, Sheena Kim, Xingmin Sun, Hyeun Bum Kim, Soo Jin Yoo. Evaluation of kefir consumption on gut microbial diversity in a healthy young population using full-length 16S rRNA sequencing. Front Microbiol. 2025 May 21;16:1587831. 

3. Marta Calatayud, Rosa Aragao Börner, Jonas Ghyselinck, Lynn Verstrepen, Jelle De Medts, Pieter Van den Abbeele, Claire L Boulangé, Sarah Priour, Massimo Marzorati, Sami Damak. Water Kefir and Derived Pasteurized Beverages Modulate Gut Microbiota, Intestinal Permeability and Cytokine Production In Vitro. Nutrients. 2021 Oct 29;13(11):3897. 

4. Nor Farahin Azizi, Muganti Rajah Kumar, Swee Keong Yeap, Janna Ong Abdullah, Melati Khalid, Abdul Rahman Omar, Mohd Azuraidi Osman, Sharifah Alawieyah Syed Mortadza, Noorjahan Banu Alitheen. Kefir and Its Biological Activities. Foods. 2021 May 27;10(6):1210. 

5. Mel R, Al Khafaji AH, Muthusamy S, et al. Changes in gut microbiota composition following water kefir consumption in healthy adults. Sci Rep 2026;16:16006. 

6. Azizi, N. F., Kumar, M. R., Yeap, S. K., Abdullah, J. O., Khalid, M., Omar, A. R., Osman, M. A., Mortadza, S. A. S., & Alitheen, N. B. Kefir and Its Biological Activities. Foods, (2021) 10(6), 1210. 

7. Bourrie BCT, Willing BP and Cotter PD. The Microbiota and Health Promoting Characteristics of the Fermented Beverage Kefir. Front. Microbiol. (2016) 7:647. doi: 10.3389/fmicb.2016.00647

8. Anna González-Rascón, Elda Georgina Chávez-Cortéz, Angélica Hurtado-Camarena, Nicolás Serafín-Higuera, Sandra Castillo-Uribe, Víctor Manuel Martínez-Aguilar, Bertha Arelly Carrillo-Ávila, Viviana Pitones-Rubio. Evaluating the Impact of Kefir Consumption on Dental Caries and Periodontal Disease: A Narrative Review. Dent J (Basel). 2025 Feb 18;13(2):86. 

9. Eleni Grace Black, Andrea Bugarcic, Romy Lauche, Emad El-Omar, Fatima El-Assaad. The Effects of Kefir on the Human Oral and Gut Microbiome. Nutrients. 2025 Dec 11;17(24):3861. 

10. Yuri Castelo Branco Tanure, Ana Clara Morais Mafra, Bruna Luiza Motta Guimarães, Rafael Coelho Magalhãe, Catherine Fagundez, Israel Júnior Borges do Nascimento, Julio Cesar Moreira Brito. Potential benefits of kefir and its compounds on Alzheimer's disease: A systematic review. Brain Behav Immun Integr . 2025 Apr:10:100115.

11. Matheus H Silva, Letícia L Batista, Serena M Malta, Ana C C Santos, Ana P Mendes-Silva, Ana M Bonetti, Carlos Ueira-Vieira, Anderson R dos Santos. Unveiling the Brazilian kefir microbiome: discovery of a novel Lactobacillus kefiranofaciens (LkefirU) genome and in silico prospection of bioactive peptides with potential anti-Alzheimer properties. BMC Genomics. 2024 Sep 20;25:884. 

12. Ellen J Gates, Anna K Bernath, Andis Klegeris. Modifying the diet and gut microbiota to prevent and manage neurodegenerative diseases. Rev Neurosci. 2022 Mar 21;33(7):767-787. Print 2022 Oct 26.

13. Letícia Leandro Batista, Serena Mares Malta, Heitor Cappato Guerra Silva, Luiza Diniz Ferreira Borges, Lays Oliveira Rocha, Jéssica Regina da Silva, Tamiris Sabrina Rodrigues, Gabriela Venturini, Kallyandra Padilha, Alexandre da Costa Pereira, Foued Salmen Espindola, Carlos Ueira-Vieira. Kefir metabolites in a fly model for Alzheimer’s disease. Sci Rep. 2021 May 27;11:11262. 

14. Ece Öneş, Mutlucan Zavotçu, Nida Nisan, Murat Baş, Duygu Sağlam. Effects of Kefir Consumption on Gut Microbiota and Athletic Performance in Professional Female Soccer Players: A Randomized Controlled Trial. Nutrients. 2025 Jan 30;17(3):512. 

15. Chiara La Torre, Paolino Caputo, Erika Cione, Alessia Fazio. Comparing Nutritional Values and Bioactivity of Kefir from Different Types of Animal Milk. Molecules. 2024 Jun 6;29(11):2710. 

16. Yi-Ju Hsu, Wen-Ching Huang, Jin-Seng Lin, Yi-Ming Chen, Shang-Tse Ho, Chi-Chang Huang, Yu-Tang Tung. Kefir Supplementation Modifies Gut Microbiota Composition, Reduces Physical Fatigue, and Improves Exercise Performance in Mice ; Nutrients . 2018 Jul 4;10(7):862. 

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Os iogurtes, os grandes aliados do teu microbioma intestinal

Prefere iogurte, queijo fresco ou skyr? Estes produtos lácteos têm um ponto em comum: são excelentes para a nossa microbiota. Fabricados em grande escala há quase um século, fazem parte integrante da nossa alimentação diária e contribuem para nos manter saudáveis através da nossa microbiota e da nossa digestão.

A microbiota intestinal

Apesar de os leites fermentados serem conhecidos há milénios – como o comprovam os vestígios de fermentação láctica encontrados em cerâmicas datadas de entre 8000 e 7000 a.C. –, foi só no início do século XX que Stamen Grigorov e Elie Metchnikoff identificaram uma bactéria essencial à produção de iogurte 1.

Atualmente, em grande parte do mundo, o termo “iogurte” designa um leite fermentado obtido através da ação conjunta de duas bactérias:

  • Streptococcus thermophilus
  • Lactobacillus bulgaricus

São fermentos lácticos que agem em simbiose e são indispensáveis para a produção do iogurte através da fermentação do leite. De leite de vaca ou de ovelha, naturais ou aromatizados, batidos ou enriquecidos com natas… Embora as receitas, a grafia, as texturas e a pronúncia sejam diferentes, todas têm origem na raiz turca “yoğurt”, que se encontra no verbo “yoğurmak” que significa “espessar”, “engrossar”. Só o skyr é que é diferente: originário da Noruega e da Islândia, é um iogurte escorrido, elaborado a partir de leite desnatado, com uma textura mais densa. Com um teor de gordura muito baixo e particularmente rico em proteínas – cerca do dobro de um iogurte clássico –, apresenta um perfil nutricional particularmente interessante 2.

Não obstante as suas diferenças, todos estes iogurtes partilham qualidades nutricionais que merecem ser exploradas mais detalhadamente, para compreendermos melhor os seus efeitos benéficos para a saúde, a digestão e a microbiota.

Quais os alimentos para uma microbiota equilibrada?

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Eles tornam os nossos intestinos mais inclusivos

A principal vantagem do iogurte é sua capacidade de reequilibrar a população de microrganismos existente nos nossos intestinos. Isto acontece porque a Streptococcus thermophilus e a Lactobacillus bulgaricus são probióticos que ajudam a manter o equilíbrio e a diversidade da flora intestinal 3,4. É que essa diversidade está intimamente ligada a uma microbiota saudável e eficiente, essencial para uma boa digestão e um sistema imunitário mais forte.

Alimentos fermentados..., mas nem sempre "probióticos"!

Para serem considerados probióticos, os alimentos fermentados têm de conter microrganismos vivos, identificados com precisão (até à estirpe exata) e que estejam presentes em quantidade suficiente. Acima de tudo, o efeito benéfico destes microrganismos para a saúde tem de estar comprovado cientificamente por estudos clínicos… Mas há também produtos que podem ostentar a menção “contém probióticos” – como é o caso do iogurte e das suas duas bactérias principais.

 inocuidade e a segurança das cepas são garantidas nesse tipo de alimento industrializado, assim como a viabilidade das cepas ao longo de toda a vida útil do iogurte.

Eles protegem-nos de pequenas constipações

Graças aos probióticos que contêm, os iogurtes poderiam ajudar a fortalecer as defesas imunológicas do intestino. As suas bactérias contribuem para manter o equilíbrio da microbiota, restringem a proliferação de certos micróbios indesejáveis e fortalecem a mucosa intestinal. Alguns estudos apontam também para uma melhor regulação da resposta imunitária e para uma menor incidência de determinadas infeções digestivas, embora estes efeitos variem consoante o produto consumido, as estirpes que este contém e, ainda, as próprias pessoas 5,6.
Portanto, um consumo regular poderá contribuir para reduzir o risco de infeções gastrointestinais… e até mesmo de pequenas constipações em pessoas idosas! A propósito, há um estudo que demonstrou efetivamente que o consumo diário de 90 g de iogurte estimula as defesas imunitárias e protege a pessoa contra as infeções 7!

Eles lideram a revolução contra a diabetes

Há já vários anos que os cientistas comprovam que o consumo regular de produtos lácteos, em particular de iogurtes naturais (principalmente à base de leite de vaca, em doses de 80 a 125 g por dia), está associado a um risco mais baixo de diabetes tipo 2. Trata-se de uma doença que afeta atualmente 11% da população mundial, segundo a Federação Internacional da Diabetes. Tal efeito protetor poderá estar relacionado com a microbiota, independentemente de os iogurtes serem ricos ou pobres em gordura 8,9.


Eles combatem os quilos a mais

Da mesma forma, o consumo regular de iogurte é associado a um menor aumento de peso a longo prazo, em comparação com as pessoas que não o consomem 10. Este efeito poderá explicar-se, em certa medida, pelo seu elevado teor de proteínas, as quais promovem a saciedade e ajudam a regular melhor o apetite 11.
O iogurte também fornece cálcio, proveniente do leite, o qual poderá desempenhar um papel metabólico: alguns dados sugerem que contribui para regular a microbiota intestinal e para reforçar a barreira intestinal, limitando assim os fenómenos inflamatórios associados à obesidade 12.
Por fim, os resultados do estudo PREDIMED indicam que o seu consumo diário está também associado a uma redução da obesidade abdominal, reforçando a ideia de um efeito benéfico na estrutura corporal 13.

Eles lutam contra a lactose, sua adversária

O iogurte é também o companheiro obrigatório das vítimas de intolerância à lactose contida no leite de vaca. Durante a fermentação do leite, a bactéria Lactobacillus bulgaricus transforma, de facto, a lactose em ácido láctico, uma substância muito mais fácil de digerir. Este consegue reequilibrar o pH do intestino e aliviar os sintomas de perturbações digestivas como a obstipação, o inchaço e a diarreia, causadores de dores abdominais 14,15. Coma-os à vontade, o seu sistema digestivo vai agradecer-lhe!


Eles mantêm o nosso coração saudável

O iogurte possui ainda outro trunfo na manga: protege o nosso sistema cardiovascular a longo prazo. Assim, alguns cientistas descobriram que o risco de se sofrer de hipertensão arterial poderá ser reduzido em 10 a 20% nas pessoas que consumam um a dois por dia 16. Essa mesma hipótese é avançada no que diz respeito ao enfarte do miocárdio e ao risco de morte por acidente vascular cerebral, mas com o consumo de iogurtes de leite gordo 17,18.

Uma dieta mediterrânica boa para o corpo e boa para o coração

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Eles rejuvenescem os nossos velhos ossos

O consumo diário de iogurte está diretamente associado a ossos mais fortes, graças a uma maior densidade óssea (+3 a 4%) e a um risco substancialmente mais reduzido de osteoporose (até -39% nas mulheres e -52% nos homens) 19. Estes efeitos benéficos parecem estar relacionados com o seu elevado teor em cálcio e em proteínas e, talvez, também com o seu impacto na microbiota intestinal 20,21.


Eles aproximam-nos da imortalidade?

E se o iogurte aumentasse nossa esperança de vida? Um estudo sobre uma mulher que viveu até aos 117 anos revelou uma microbiota intestinal surpreendentemente “jovem”, associada a um bom estado geral de saúde. O seu consumo regular de iogurte pode ter contribuído para a presença de bactérias benéficas como  Bifidobacterium 22.

De um modo mais geral, os estudos demonstram que a microbiota desempenha um importante papel no envelhecimento, com influência na imunidade, na inflamação e na saúde geral 23. Só que estes resultados ainda são preliminares e não permitem estabelecer uma relação direta entre o iogurte e a longevidade… Mas são um bom pretexto para comermos mais um, para o caso de a ciência ainda nos reservar algumas surpresas!

Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas. 

Descubra a nossa série de conteúdos sobre a microbiota e os alimentos fermentados:

Alimentos fermentados: un tesoro de beneficios para nuestra salud

Saiba mais

Kefir: um aliado natural da sua microbiota?

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Fontes

1. Hiol, Anne, and Patrick Veiga. “From the Laboratory to the Plate: How Gut Microbiome Science Is Reshaping Our Diet.” The Journal of Nutrition, vol. 155, no. 11, Nov. 2025, pp. 3595–3605. 

2. Ajmera, Rachael. “Why Skyr Is Nutritious and Super Healthy.” Healthline, 11 Mar. 2017.

3. Le Roy, Caroline Ivanne, et al. “Correction to: Yoghurt Consumption Is Associated with Changes in the Composition of the Human Gut Microbiome and Metabolome.” BMC Microbiology, vol. 22, no. 1, 2022, p. 66.

4. Ma, Guangyu, et al. “Effect of Probiotic Administration during Pregnancy on the Functional Diversity of the Gut Microbiota in Healthy Pregnant Women.” Microbiology Spectrum, vol. 12, no. 6, 2024, e00413-24. 

5. Leeuwendaal, Noortje K., et al. “Fermented Foods, Health and the Gut Microbiome.” Nutrients, vol. 14, no. 7, 2022, p. 1527.

6. Marco, Maria L., et al. “Health Benefits of Fermented Foods: Microbiota and Beyond.” Current Opinion in Biotechnology, vol. 44, 2017, pp. 94–102.

7. Makino, Seiya, et al. “Reducing the Risk of Infection in the Elderly by Dietary Intake of Yoghurt Fermented with Lactobacillus delbrueckii ssp. bulgaricus OLL1073R-1.” British Journal of Nutrition, vol. 104, no. 7, 2010, pp. 998–1006.

8. Chen, Mu, et al. “Dairy Consumption and Risk of Type 2 Diabetes: 3 Cohorts of US Adults and an Updated Meta-Analysis.” BMC Medicine, vol. 12, no. 1, 2014, p. 215. 

9. Aune, Dagfinn, et al. “Dairy Products and the Risk of Type 2 Diabetes: A Systematic Review and Dose-Response Meta-Analysis of Cohort Studies.” The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 98, no. 4, 2013, pp. 1066–1083. 

10. Sayon-Orea, Carmen, et al. “Associations between Yogurt Consumption and Weight Gain and Risk of Obesity and Metabolic Syndrome: A Systematic Review.” *Advances in Nutrition*, vol. 8, no. 1, 2017, pp. 146S–154S.

11. Tremblay, Angelo, and Shirin Panahi. “Yogurt Consumption as a Signature of a Healthy Diet and Lifestyle.” The Journal of Nutrition, vol. 147, no. 7, 2017, pp. 1476S–1480S. 

12. Gomes, J. M. G., et al. “Could the Beneficial Effects of Dietary Calcium on Obesity and Diabetes Control Be Mediated by Changes in Intestinal Microbiota and Integrity?” British Journal of Nutrition, vol. 114, no. 11, 2015, pp. 1756–1765. 

13. Santiago, S., et al. “Yogurt Consumption and Abdominal Obesity Reversion in the PREDIMED Study.” Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases, vol. 26, no. 6, 2016, pp. 468–475. 

14. Ibrahim, Salam A., et al. “Fermented Foods and Probiotics: An Approach to Lactose Intolerance.” Journal of Dairy Research, vol. 88, no. 3, 2021, pp. 357–365.

15. Savaiano, Dennis A. “Lactose Digestion from Yogurt: Mechanism and Relevance.” The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 99, no. 5, 2014, pp. 1251S–1255S.

16. Buendia, Justin R., et al. “Long-Term Yogurt Consumption and Risk of Incident Hypertension in Adults.” Journal of Hypertension, vol. 36, no. 8, 2018, pp. 1671–1679. 

17. Warensjö, Eva, et al. “Biomarkers of Milk Fat and the Risk of Myocardial Infarction in Men and Women: A Prospective, Matched Case-Control Study.” The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 92, no. 1, 2010, pp. 194–202. 

18. Goldbohm, R. Alexandra, et al. “Dairy Consumption and 10-Year Total and Cardiovascular Mortality: A Prospective Cohort Study in the Netherlands.” The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 93, no. 3, 2011, pp. 615–627. 

19. Laird, E., et al. “Greater Yogurt Consumption Is Associated with Increased Bone Mineral Density and Physical Function in Older Adults.” Osteoporosis International, vol. 28, no. 8, 2017, pp. 2409–2419. 

20. Orwoll, Eric S., et al. “Analysis of the Associations between the Human Fecal Microbiome and Bone Density, Structure and Strength: The MrOS Cohort.” Journal of Bone and Mineral Research, vol. 37, no. 4, 2022, pp. 597–607.

21. Wang, Jihan, et al. “Diversity Analysis of Gut Microbiota in Osteoporosis and Osteopenia Patients.” PeerJ, vol. 5, 2017, e3450. 

22. Santos-Pujol, E., et al. “The Multiomics Blueprint of the Individual with the Most Extreme Lifespan.” Cell Reports Medicine, vol. 6, no. 10, 2025, 102368. 

23. Kadyan, S., et al. “Microbiome-Based Therapeutics towards Healthier Aging and Longevity.” Genome Medicine, vol. 17, no. 1, 2025, p. 75.

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Microbiotas e fertilidade: uma pista a explorar

As bactérias presentes na vagina, no útero, nos intestinos e no sêmen desempenham um papel fundamental na fertilidade. Será que se está perante uma oportunidade para se avaliarem novas soluções, como os probióticos, visando aumentar as hipóteses de sucesso da procriação medicamente assistida (PMA)?

A microbiota vaginal A microbiota intestinal
The Hidden Connection: How Your Microbiome Impacts Fertility

A infertilidade afeta cerca de 1 em cada 10 casais. Mas há uma descoberta 1 que lhes pode vir a renovar a esperança: as minúsculas bactérias que vivem nos nossos corpos poderão desempenhar um papel fundamental na nossa capacidade de conceber. Tais colónias de bactérias interagem com o nosso sistema imunitário, as nossas hormonas e o nosso metabolismo.

12 Infertilidade é geralmente definida como a incapacidade de um casal em idade fértil de alcançar uma gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem proteção ¹.

8-12% A infertilidade afeta cerca de 8 a 12% dos casais em todo o mundo, tornando-se um grave problema de saúde reprodutiva ¹.

Uma questão de equilíbrio, tanto nas mulheres como nos homens

Nas mulheres, uma microbiota vaginal saudável é predominantemente composta por bactérias benéficas denominadas Lactobacillus, nomeadamente da espécie L. crispatus. Estas aliadas da saúde íntima feminina mantêm um ambiente ácido, reduzem a inflamação e promovem a recetividade do útero à gravidez. Quando o equilíbrio se rompe (disbiose vaginal), determinadas outras bactérias associadas ao desequilíbrio tornam-se mais abundantes: o pH vaginal aumenta, surge a inflamação, e a mobilidade dos espermatozoides pode ser afetada, tal como a implantação do embrião e a tolerância imunitária entre a mãe e o feto.

A presença de bactérias benéficas no endométrio poderá melhorar as probabilidades de gravidez, enquanto a de certos agentes patogénicos as deverá reduzir. No entanto, estes dados são ainda controversos, uma vez que as amostras são difíceis de analisar e encontram-se expostas ao risco de contaminação.

No homem, o sêmen também possui a sua própria microbiota. Quando as bactérias benéficas predominam, elas produzem menos compostos inflamatórios e protegem o ADN espermático. Pelo contrário, algumas bactérias patogénicas parecem aumentar a inflamação e diminuir a mobilidade dos espermatozoides. No entanto, os estudos sobre esta relação continuam a ser escassos e há necessidade de mais investigação.

O intestino, um regente de orquestra oculto?

A microbiota intestinal também poderá influenciar a fertilidade através do sistema imunitário, das hormonas e do metabolismo.Nas mulheres que sofrem de síndrome metabólica ovariana poliendócrina (anteriormente denominada síndrome dos ovários policísticos), um desequilíbrio da microbiota intestinal parece contribuir para a inflamação, a resistência à insulina e as perturbações hormonais. Um outro exemplo é a endometriose, doença que se apresenta acompanhada de disbiose intestinal, a qual poderá afetar também o metabolismo dos estrogénios, estimular a inflamação e contribuir para o crescimento das lesões, com potencial impacto na capacidade do embrião de se implantar no útero.

Síndrome metabólica ovariana poliendócrina (anteriormente denominada síndrome dos ovários policísticos)

A síndrome dos ovários policísticos passou a ser designada por síndrome metabólica ovariana poliendócrina (SMOP) em maio de 2026. Trata-se de uma doença associada a um desequilíbrio hormonal e metabólico que afeta 1 em cada 8 mulheres.
A maioria dos sintomas da SMOP manifesta-se precocemente, logo desde a puberdade:

  • produção excessiva de testosterona, que se traduz, nomeadamente, em hiperpilosidade em 70% das mulheres afetadas ; 
  • acne e queda de cabelo ;
  • distúrbios da ovulação ;
  • ovários poliquísticos.

O desequilíbrio hormonal persistente provoca a formação de múltiplos pequenos folículos, bem como ciclos menstruais irregulares, o que pode, em última análise, causar infertilidade nas mulheres 2.

Como restabelecer o equilíbrio?

Como medida preventiva, é necessário reduzir todas as práticas de risco para a microbiota vaginal ou seminal e para a microbiota intestinal. No caso de uma infeção bacteriana confirmada (vaginose, por exemplo), o médico assistente pode, se necessário, prescrever o tratamento adequado.
Estão também a ser estudadas abordagens, como os probióticos, que consistem em modular a microbiota para se restabelecer o equilíbrio, mas os respetivos resultados em termos de probabilidades de gravidez ainda são incertos. Quanto aos transplantes de microbiota, estes continuam a estar reservados à investigação clínica. 
Futuramente, a análise da microbiota poderá vir a contribuir para uma maior personalização do tratamento dos casais que recorram à PMA. Esta abordagem encontra-se ainda em fase de avaliação e necessita de maior comprovação científica antes de poder ser proposta para a prática corrente.

Práticas de risco para a microbiota vaginal

Saiba mais
Fontes

1.Du B, Yang Y, He L, Tang Y. Microbiota and infertility: a translational review of mechanisms and clinical applications in assisted reproduction. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2026 Feb 20;318:114941. doi: 10.1016/j.ejogrb.2026.114941.

2.Teede HJ, Khomami MB, Morman R et al. Global Name Change Consortium. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026 Jun 6;407(10545):2329-2339. doi: 10.1016/S0140-6736(26)00717-8. 

 

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O impacto das microbiotas na saúde reprodutiva

A composição das microbiotas vaginal, intestinal e seminal poderá desempenhar um papel fundamental no êxito dos tratamentos de procriação medicamente assistida (PMA). A tal ponto que estes ecossistemas microbianos representam uma estratégia emergente para se aumentar as hipóteses de sucesso.

Impact of microbiota on reproductive health

A infertilidade, tanto masculina como feminina, constitui um importante problema de saúde a nível mundial, afetando entre 8% e 12% da população. No entanto, a investigação 1 sobre as microbiotas oferece uma nova perspetiva para a compreensão da saúde reprodutiva, revelando comunidades microbianas que interagem com o hospedeiro nos planos metabólico, imunitário e endócrino.

8-12% A infertilidade afeta cerca de 8 a 12% dos casais em todo o mundo, tornando-se um grave problema de saúde reprodutiva ¹.

12 Infertilidade é geralmente definida como a incapacidade de um casal em idade fértil de alcançar uma gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem proteção ¹.

O papel fundamental das microbiotas dos sistemas reprodutivos

Nas mulheres, uma vagina com predominância de Lactobacillus (em especial L. crispatus) significa um pH ácido, menor inflamação e um endométrio com condições favoráveis à instalação do embrião. A disbiose vaginal está associada a um pH mais elevado, à formação de metabolitos pró-inflamatórios e à alteração da motilidade espermática, da implantação e da tolerância imunitária materno-fetal. O endométrio parece também albergar uma microbiota de biomassa reduzida: a presença de Lactobacillus tem sido associada a melhores resultados (conceção, implantação, gravidez clínica ou nascimentos viáveis), enquanto que Atopobium ou Gardnerella são predominantemente relacionadas com insucessos.

No homem, a microbiota seminal influencia a qualidade do sêmen: os Lactobacillus são identificados como ligados a uma menor produção de compostos oxidativos e a uma melhor integridade do ADN espermático, enquanto as bactérias dos géneros Prevotella ou Streptococcus surgem associadas a inflamação e a uma motilidade comprometida. No entanto, as correlações entre a microbiota seminal e a infertilidade masculina continuam a ser frágeis (coortes limitadas, variabilidade interindividual, etc.).

A microbiota intestinal também poderá desempenhar um papel

A microbiota intestinal poderá igualmente ter influência na fertilidade através de processos imunitários, endócrinos e metabólicos. Por exemplo, na síndrome metabólica ovariana poliendócrina (anteriormente denominada síndrome dos ovários policísticos), a disbiose intestinal (perda de diversidade, aumento de Escherichia, diminuição de Lactobacillus) parece contribuir para a inflamação, a resistência à insulina e os desequilíbrios hormonais mediante a translocação de lipopolissacarídeos (LPS) através da parede intestinal e a perturbação das enzimas intestinais. 

Síndrome metabólica ovariana poliendócrina (anteriormente denominada síndrome dos ovários policísticos)

A síndrome do ovário poliquístico (SOP), que afeta uma em cada oito mulheres, passou a ser designada síndrome metabólica ovariana poliendócrina (SMOP) em maio de 2026. Esta alteração do nome tem como objetivo refletir melhor a natureza endócrina, metabólica e ovárica desta doença multissistémica, eliminando uma referência enganosa a “ovário poliquístico”, responsável por atrasos no diagnóstico e estigmatização 2.

Quais os mecanismos e que intervenções?

As microbiotas vaginal, uterina, intestinal e seminal podem regular a fertilidade através de mecanismos imuno-inflamatórios, endócrino-metabólicos e de um efeito de barreira.
São investigadas diversas estratégias com o objetivo de se otimizar a microbiota antes de um tratamento de procriação assistida: 

  • antibióticos que tratam eficazmente as infeções confirmadas (endometrite crónica, vaginose) - há estudos que relatam uma melhoria nas taxas de gravidez clínica após a terapia antibiótica, duplicando por vezes as taxas de gravidez na FIV, mas reduzindo as  bactérias benéficas do género Lactobacillus ;
  • probióticos (orais ou intravaginais) que restabelecem parcialmente o equilíbrio microbiano, com resultados variáveis no que diz respeito à gravidez ;
  • e terapias emergentes (transplante fecal ou vaginal) que são promissoras, apesar de ainda se encontrarem numa fase experimental, pelo que requerem ensaios clínicos rigorosos.

Assim, a análise do perfil da microbiota nos protocolos de PMA poderá refinar a estratificação das doentes e orientar terapias adjuvantes de precisão, mas, antes da sua implementação, exigem provas de causalidade mais sólidas, biomarcadores validados e quadros metodológicos harmonizados.

Fontes

1.Du B, Yang Y, He L, Tang Y. Microbiota and infertility: a translational review of mechanisms and clinical applications in assisted reproduction. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2026 Feb 20;318:114941. doi: 10.1016/j.ejogrb.2026.114941.

2.Teede HJ, Khomami MB, Morman R et al. Global Name Change Consortium. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026 Jun 6;407(10545):2329-2339. doi: 10.1016/S0140-6736(26)00717-8.

 

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