De acordo com um novo estudo publicado na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology, a elevada exposição a antibióticos em adultos pode estar associada a um maior risco de doença inflamatória intestinal crónica (DII), independentemente da predisposição genética e dos fatores de exposição na infância.
Nos últimos anos, a incidência da doença inflamatória intestinal crónica (DII) tem aumentado de forma alarmante em todo o mundo. Entre os fatores de risco, pensa-se que uma predisposição genética, fatores ambientais (higiene, antibióticos, etc.) e a microbiota intestinal desempenham um papel na etiologia da DII. Embora a utilização de antibióticos nos primeiros anos de vida tenha sido associada a um risco de DII nas crianças, os dados relativos aos adultos são mais raros e mais controversos. Uma equipa examinou a ligação entre a terapêutica antibiótica e o risco de DII num vasto estudo prospetivo de casos-controlo.
Análise da população sueca
Para selecionar os seus pacientes, os autores utilizaram informações geradas pelo estudo (sidenote:
ESPRESSO
Epidemiologia Fortalecida por Relatórios de Histopatologia na Suécia
), que reúne todos os relatórios de patologias gastrointestinais de 1965 a 2016 na Suécia, e cruzaram-nas com registos administrativos e de dados de prescrição de pacientes suecos. Em seguida, os cientistas identificaram até 5 controlos por paciente da população em geral, emparelhados por idade, sexo, local de residência e ano civil. Por fim, os irmãos não afetados foram também incluídos no estudo como grupo de controlo secundário, partilhando fatores de risco genéticos ou ambientais com os pacientes. No total, foram incluídos 23 982 pacientes com DII com idades compreendidas entre os 16 e os 65 anos, 117 827 controlos e 28 732 irmãos.
Aclamados como um dos maiores avanços médicos do século XX, os antibióticos salvaram milhões de vidas. Mas também têm um impacto na nossa microbiota, provocando disbiose. Vejamos mais de perto este papel ambivalente.
De acordo com o estudo, o uso de antibióticos foi associado a um risco 1,88 vezes maior de desenvolver DII em comparação com a ausência de uso, 1,74 para a colite ulcerosa (CU) e 2,27 para a doença de Crohn. O risco também aumentou com o número de prescrições de antibióticos e se os antibióticos utilizados tinham atividade de largo espetro. Para os autores, este resultado apoia a hipótese de que a disbiose da microbiota intestinal causada pelo tratamento com antibióticos leva à disfunção da barreira intestinal e a uma resposta inflamatória local, resultando num aumento do risco de desenvolver DII.
O que é a Semana Mundial de Consciencialização do Uso de Antimicrobianos?
Esta campanha, que decorre entre 18 e 24 de novembro, incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizarem corretamente os agentes antimicrobianos, a fim de evitar o aparecimento de resistências.
Exposição a antibióticos: um risco independente?
Embora atenuada, foi também observada uma associação entre o tratamento com antibióticos e o risco de DII em indivíduos que partilham predisposições genéticas e fatores de exposição na infância, quando os pacientes foram comparados com os seus irmãos como população de controlo. Serão necessárias mais investigações para averiguar os mecanismos pelos quais os antibióticos modificam a microbiota intestinal, levando ao desenvolvimento de DII. No entanto, para os autores, este é mais um argumento a favor da utilização racional e direcionada dos antibióticos.
Por enquanto, este sonho só foi validado em tubos de ensaio e em ratos, e ainda não em seres humanos. Mas a bactéria A. indistinctus poderá melhorar a resistência à insulina nas pessoas pré-diabéticas.
A (sidenote:
Diabetes
Doença crónica que ocorre quando o pâncreas não produz insulina suficiente ou quando o organismo é incapaz de utilizar eficazmente a insulina que produz. Com o tempo, a diabetes pode causar danos vasculares no coração, olhos, rins e nervos.
) tem tudo a ver com o açúcar e, mais especificamente, com os (sidenote:
Glicemia
Nível de açúcar no sangue.
). Objetivo: evitar picos (ou hiperglicemia) após cada refeição. Nas pessoas saudáveis, a (sidenote:
Insulina
Hormona produzida pelo pâncreas, responsável pela redução dos níveis de açúcar no sangue para cerca de 1 g/l.
) regula estes níveis em cerca de 1g/l. Na diabetes, o organismo é incapaz de o fazer, quer porque o pâncreas não produz insulina suficiente (diabetes tipo I), quer porque o organismo resiste às ordens dessa insulina (diabetes tipo II). A microbiota intestinal parece estar envolvida na resistência à insulina observada nos diabéticos de tipo II, mas os mecanismos envolvidos permanecem pouco claros. Ou melhor, “permaneciam”, porque há um estudo publicado na prestigiosa revista Nature que lança luz sobre o assunto
Os investigadores descobriram que quanto mais as nossas fezes são ricas em certas moléculas, maior é o nosso grau de resistência à insulina. Assim, as fezes dos voluntários resistentes à insulina continham significativamente mais (sidenote:
Hidratos de carbono
Família de macronutrientes que inclui os açúcares (ou "hidratos de carbono simples"), que têm frequentemente um sabor doce (glicose, frutose, galactose, maltose, lactose, sacarose) e os amidos (ou "hidratos de carbono complexos").
) fecais, nomeadamente moléculas de (sidenote:
Açúcares
Frutose, galactose, manose e xilose.
) produzidos por bactérias. Mas estes mini-açúcares estão longe de ser inofensivos: promovem a acumulação de gorduras, estimulam o nosso sistema imunitário ao ponto de criar uma inflamação (embora ligeira, mas prolongada e nefasta) e, por fim, levam à resistência à insulina.
2 milhões
de óbitos resultantes da diabetes (1,5 milhões) e de doenças renais relacionadas com a diabetes (0,5 milhões) em 2019.
422 milhões
108 milhões de diabéticos em 1980, contra 422 milhões em 2014.
+3%
Entre 2000 e 2019, a taxa de mortalidade por diabetes, por idade, aumentou 3%.
bactérias da família Lachnospiraceae, que estão associadas a uma maior produção destes mini-açúcares e à resistência à insulina;
e bactérias do tipo Bacteroidales (Bacteroides, Alistipes e Flavonifractor) que reduzem estes açúcares e a resistência à insulina.
Pode ser mesmo medido um efeito direto das “amáveis” Bacteroidales: num tubo de ensaio, elas devoram os mini-açúcares. Qual a mais glutona? A espécie Alistipes indistinctus, que exibe a maior variedade de mini-açúcares na sua ementa. E isso funciona também nos ratos obesos: uma pitada de A. indistinctus diminui a quantidade de mini-açúcares nas fezes, reduz os níveis glicémicos no sangue dos animais e torna-os mais sensíveis à insulina.
As implicações deste estudo são duplas, embora os ensaios em seres humanos sejam obviamente essenciais antes de poderem ser emitidas quaisquer recomendações:
• as Lachnospiraceae poderão ser um biomarcador de pré-diabetes
• e o probióticoA. indistinctus poderá melhorar a sensibilidade à insulina nas pessoas pré-diabéticas.
Os antibióticos salvam vidas, mas também podem ter consequências inesperadas. Uma nova investigação mostra como os antibióticos podem promover o crescimento de bactérias nocivas no intestino e indica o caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos.
A resistência aos antibióticos é um problema de saúde pública mundial premente que causou 1,27 milhões de mortes em todo o mundo em 2019 1. Uma das abordagens para prevenir estas infeções, em particular as Enterobacteriaceae resistentes aos carbapenemos (CRE), é perceber o que impulsiona a colonização do intestino por estas bactérias.
Os nossos intestinos albergam uma comunidade diversificada de bactérias benéficas que ajudam a evitar que agentes patogénicos nocivos como as CRE se instalem. As bactérias intestinais saudáveis têm mecanismos para impedir a colonização de agentes patogénicos, como a produção de moléculas benéficas, também chamadas metabolitos, como os (sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.). Os antibióticos de largo espetro perturbam estes mecanismos e promovem o crescimento de bactérias resistentes aos antibióticos.
40% a 50%
As infeções por CRE estão associadas a taxas de mortalidade que podem atingir os 40% a 50%
Os antibióticos de largo espetro são responsáveis pelo aumento do risco de infeção por CRE? Sim, de acordo com o estudo publicado em 2023 na revista Nature Communication por um investigador do Imperial College de Londres 2.
Foram testados oito antibióticos de largo espetro em amostras fecais de dadores humanos saudáveis:
meropenem
imipenem/cilastatina
ertapenem
piperacillina/tazobactam
ciprofloxacina
ceftriaxona
ceftazidima
e cefotaxima
Estes antibióticos são conhecidos por promoverem a suscetibilidade à colonização intestinal por CRE. Os investigadores utilizaram um meio de crescimento específico para medir: 1) o impacto dos antibióticos na abundância de taxa comensais intestinais da microbiota fecal, e 2) a concentração de nutrientes e metabolitos microbianos nas culturas fecais.
O estudo demonstrou que os antibióticos de largo espetro, frequentemente utilizados para tratar infeções, podem perturbar o equilíbrio da microbiota intestinal. Eles reduzem a população de bactérias benéficas (incluindo Bifidobacteriaceae e Bacteroidales), facilitando o desenvolvimento de CRE.
O que foi ainda mais interessante é que quando se testou piperacilina/tazobactam num modelo de rato, estes antibióticos não só afetaram as bactérias como também alteraram o ambiente intestinal. Houve um aumento da disponibilidade de determinados nutrientes, como os aminoácidos, que promovem o crescimento de CRE. Este ambiente rico em nutrientes torna-se um terreno fértil para as bactérias resistentes.
Por outro lado, estes antibióticos diminuíram a concentração de metabolitos microbianos, como o butirato ou o propionato, alguns dos quais inibem o crescimento de CRE. Quando estes metabolitos estão esgotados, as CRE enfrentam menos obstáculos no seu caminho.
A resistência aos antibióticos
A resistência aos antibióticos é uma grande ameaça global e o aparecimento de CRE, agentes formidavelmente patogénicos, representa um sério desafio para a saúde pública. É fundamental compreender o papel da microbiota intestinal na resistência aos antibióticos.
Os ácidos gordos de cadeia curta (SCFAs) são metabolitos essenciais produzidos por bactérias intestinais benéficas que funcionam como guardiãs da saúde intestinal. No entanto, a utilização indiscriminada de antibióticos de largo espetro pode perturbar a microbiota intestinal, conduzindo a uma diminuição da produção de SCFAs e a um aumento do crescimento de bactérias resistentes aos antibióticos.
Enquanto profissionais de saúde, temos de estar atentos às intrincadas interações existentes na microbiota intestinal. Ao ponderarmos cuidadosamente o impacto dos antibióticos no delicado equilíbrio da microbiota, podemos dar um passo em frente no combate eficaz à resistência aos antibióticos e na defesa da saúde dos nossos doentes.
O que é a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM?
Todos os anos, desde 2015, a OMS organiza a Semana Mundial de Conscientização sobre a RAM (WAAW), que tem como objetivo aumentar a sensibilização para a resistência aos antimicrobianos a nível global.
Realizada entre 18 e 24 de novembro, esta campanha incentiva o público em geral, os profissionais de saúde e os decisores a utilizarem cuidadosamente os antimicrobianos, a fim de evitar o surgimento de uma maior resistência aos antimicrobianos.
Formação acreditada, infografias, vídeo de especialista, notícias, pasta temática... Vamos analisar a fundo os materiais do Instituto Biocodex Microbiota dedicados aos probióticos. Ferramentas e conteúdos adaptados à sua prática clínica para que possa melhorar os seus conhecimentos e explicá-los aos seus pacientes!
Perante a grande oferta de produtos existente, nem sempre é fácil para um profissional de saúde aconselhar um doente sobre um produto de qualidade que contenha uma ou mais estirpes probióticas adequadas às suas necessidades 1,2 . As recomendações dos especialistas podem ajudá-lo nessa tarefa.
Aconselhar um doente a "tomar probióticos" não é necessariamente suficiente para um paciente que pretenda um probiótico para uma afeção específica 3. Aconselhar um doente a "tomar probióticos" não é necessariamente suficiente para um paciente que pretenda um probiótico para uma afeção específica4. Embora seja atualmente aceite que os probióticos em geral contribuem para uma microbiota intestinal saudável, os especialistas concordam que a grande maioria dos efeitos dos probióticos depende da estirpe5,6.
Por conseguinte, é importante assegurar que a estirpe corresponde à necessidade de saúde ou à doença visada7. Para tal, é necessário verificar se as características e as informações sobre o produto (estirpe, dosagem, fórmula) correspondem em todos os aspetos àsutilizadas nos ensaios clínicos que provaram o benefício a que o produto está associado 3. Portanto, é necessário prestar especial atenção às seguintes informações :
descrição clara do género, espécie e estirpe do probiótico contido no produto e das indicações associadas 8,9 ;
dosagem do produto 3,8 ;
provas clínicas da eficácia da estirpe probiótica na área terapêutica a que está associada. numa dosagem semelhante e não inferior à utilizada nos ensaios clínicos 8.
Outros fatores devem também ser tidos em consideração ao escolher um probiótico :
o tipo de fórmula 3,8 ;
o período de viabilidade até ao termo do prazo de validade e não da data de fabrico 8;
a qualidade do produto relacionada com as exigências do fabricante: controlos de qualidade e, de preferência, certificação por um organismo independente 8,9 .
Para comunicar com o seu doente
Segue-se uma infografia intitulada "O que são os probióticos? " destinada aos seus pacientes para os informar sobre os probióticos e facilitar as vossas conversas durante as consultas.
O Biocodex Microbiote Institute recomenda-lhe o site da internet do ISAPP, que também disponibiliza aos profissionais de saúde e aos consumidores recursos sobre probióticos (em inglês): https://isappscience.org/for-clinicians/resources/
Vale a pena chamar a atenção dos doentes para o facto de a toma de probióticos por via oral poder ser acompanhada de efeitos secundários temporários, como gases e inchaço10.
É importante ter em conta e informar o paciente que a eficácia de uma estirpe probiótica pode variar de um doente para outro3.
Os riscos associados às estirpes probióticas são reconhecidamente baixos, mas é prudente evitar a utilização de probióticos em recém-nascidos prematuros, em pessoas com intolerância a qualquer dos excipientes utilizados na formulação dos probióticos, em pessoas imunocomprometidas, em pessoas com síndrome do intestino curto ou em pessoas em estado crítico 3,11,12.
Veja as outras páginas da nossa série dedicada aos probióticos
Segundo investigadores clínicos noruegueses, a melhor combinação para o transplante fecal no tratamento da síndrome do cólon irritável (SCI) consiste em transplantar uma dose de 60 a 90 g para o intestino delgado (e não para o cólon) e, idealmente, repetir el TMF.
44%
Apenas 2 em cada 5 pessoas dizem ter sido informadas pelo seu médico sobre os comportamentos corretos a adotar para manter uma microbiota equilibrada
Entre 2015 e 2020, foram identificados 7 ensaios clínicos aleatorizados (ECRs) de transplante de microbiota fecal (TMF) para o tratamento da síndrome do cólon irritável. Os resultados variaram, provavelmente devido a diferenças nos protocolos utilizados. Uma equipa norueguesa estudou também os efeitos da dose, da repetição do TMF e da sua área de administração, utilizando o mesmo protocolo do seu ECR anterior que tinha tido resultados muito bons (efeitos persistentes até 3 anos após o TMF, com apenas alguns efeitos adversos ligeiros). O enxerto veio do mesmo (sidenote:
Super-dador
Um dador com elevada diversidade microbiana, em que a qualidade da microbiota condiciona os resultados do TMF. Neste caso, estamos a falar de um homem de 40 anos, caucasiano, nascido por via vaginal, amamentado, tendo tomado poucos antibióticos ao longo da vida, de boa saúde, não fumador, não tomando medicamentos regularmente, com um IMC normal, praticante de exercício físico regularmente e tomando suplementos alimentares específicos para desporto (o que torna a sua alimentação mais rica do que a média em proteínas, fibras, minerais e vitaminas).
).
Este novo estudo incluiu 186 doentes que sofriam de síndrome do cólon irritável, divididos aleatoriamente em 3 grupos que receberam um transplante fecal de 90 g (em comparação com 30 ou 60 g no ECR anterior) no cólon, no duodeno, ou 2 vezes no duodeno com um intervalo de uma semana.
Durante o ano seguinte ao TMF, os investigadores observaram uma prevalência muito menor de (sidenote:
Avaliados através de IBS-SSS, do Questionário de Sintomas da SII de Birmingham (Birmingham IBS Symptom Questionnaire - BSQ) e da Escala de Avaliação da Fadiga (FAS)
), independentemente do grupo e do tempo decorrido desde o TMF: presentes em ¾ dos doentes no dia do transplante, afetavam 17% a 32% (dependendo do grupo) 3 meses depois e 24% a 41% um ano depois. De igual modo, a (sidenote:
Avaliada com recurso aos questionários IBS Quality of Life Instrument (IBS-QoL) e Short-Form Nepean Dyspepsia Index (SF-NDI).
) melhorou nos 3 grupos, independentemente do tempo decorrido desde o TMF. E a repetição do transplante melhorou o efeito benéfico nos sintomas e na qualidade de vida.
A análise das amostras fecais (16S rRNA) colhidas na linha de base e 3, 6 e 12 meses após o TMF mostrou uma redução significativa da disbiose em todos os grupos tratados. Os perfis bacterianos alteraram-se consideravelmente após o TMF para os 3 grupos e em todas as datas de observação, com diferenças entre os grupos. Estas alterações dizem respeito, em particular, a 6 bactérias ligadas aos sintomas e à fadiga, como a Alistipes spp. implicada em várias doenças, incluindo a depressão, a ansiedade e a síndrome da fadiga crónica, e a Holdemanella biformis com os seus efeitos anti-inflamatórios.
O transplante no intestino delgado permite que as bactérias benéficas colonizem o organismo a longo prazo, ao contrário do transplante no cólon, cujo efeito parece ser mais transitório. Por outro lado, embora o efeito benéfico tenha aumentado com a dose no ECR anterior (maior efeito com 60g do que com 30g), a dose de 90g não proporcionou qualquer benefício adicional em comparação com os 60g já testados: a dose ótima situar-se-á, portanto, entre os 60 e os 90g.
Explique o transplante fecal aos seus doentes com este conteúdo específico:
Desde a sua criação, o Biocodex Microbiota Institute estabeleceu parcerias sólidas com associações de pacientes, sociedades científicas e organizações de saúde pública. Juntos, perseguimos um objetivo comum: informar, educar e sensibilizar as populações sobre a importância do microbiota para a nossa saúde.
Embora os doentes não apresentem ainda sinais clínicos da sua (futura) doença de Alzheimer, os desequilíbrios da sua microbiota intestinal revelarão o aparecimento da doença. Será possível detetá-la mais cedo?
A doença de Alzheimer é progressiva e silenciosa. Durante a chamada fase pré-clínica, o estado cognitivo parece normal. No entanto, exames pormenorizados mostram já a acumulação progressiva de duas proteínas no cérebro: as proteínas β-amiloide (Aβ) e tau, que provocam lesões cerebrais e uma lenta degeneração dos neurónios, que começa no centro de memória e se estende ao resto do cérebro.
Pelo menos 10 anos separam as primeiras deposições de placas β-amilóides no cérebro e o aparecimento dos primeiros sintomas clínicos da doença de Alzheimer.
Após esta fase silenciosa, surgem os primeiros sintomas de (sidenote:
Demência
Perturbações cerebrais que afetam a memória, o pensamento, o comportamento e as emoções. As alterações do humor e do comportamento surgem por vezes antes dos problemas de memória. Os sintomas pioram com o tempo. A maioria dos doentes acaba por precisar de ajuda para as suas atividades diárias.
Fontes: OMS e Alzheimer’s Disease International). Esta é a fase clínica da doença de Alzheimer, caracterizada por mudanças de humor ou mesmo de personalidade, lapsos de memória, esquecimento de certas palavras ao ponto de dificultar a compreensão, desorientação espacial e temporal, arrumação de coisas em locais incongruentes (chaves no frigorífico), etc.
Mais de 55 milhões
de pessoas sofrem de demência em todo o mundo.
60-70% dos casos
de demência se devem à doença de Alzheimer.
Disbiose intestinal na doença de Alzheimer pré-clínica
E a microbiota intestinal no meio disto tudo? Já se sabia que, na fase clínica da doença, os doentes têm uma microbiota intestinal desequilibrada. De acordo com um estudo americano publicado em 2023, tal desequilíbrio existe também na fase pré-clínica e é tanto mais acentuado quanto maior for a acumulação das proteínas β-amilóides. Este desequilíbrio do ecossistema microbiano do intestino (ou disbiose) não estará ligado à alimentação: os futuros doentes de Alzheimer que ainda não apresentam sinais de demência têm uma alimentação comparável à dos doentes saudáveis em que a doença não se está insidiosamente a instalar.
75%
dos inquiridos não sabiam que certas doenças, como a doença de Parkinson, a doença de Alzheimer ou o autismo, podem estar ligadas às microbiotas.
Será possível prever que a forma clínica está para vir?
A equipa identificou bactérias intestinais que estão geralmente sobre ou sub-representadas na fase pré-clínica. Estas bactérias permitiram-lhes utilizar (sidenote:
Machine Learning
Tecnologia de inteligência artificial devida à qual os computadores “aprendam”, somente pelo processamento de um vasto leque de dados.
) para melhorarem os seus modelos de previsão da doença de Alzheimer. É certo que o ganho é pequeno quando o modelo inicial inclui as proteínas β-amilóides, que representam A assinatura pré-clínica da doença de Alzheimer. Mas não se realizam punções lombares e neuroimagens cerebrais de 4 em 4 manhãs. Quando os modelos se baseiam apenas em dados facilmente disponíveis (idade, sexo, hipertensão, historial familiar, etc.), a adição dos dados sobre as bactérias de uma amostra de fezes permite melhorar a (sidenote:
Sensibilidade
A sensibilidade de um teste médico mede a sua capacidade de detetar corretamente as pessoas que estão doentes (identificação do maior número possível de pacientes). Uma sensibilidade próxima de 100% significa que o teste tem poucas probabilidades de não detetar casos da doença e, por conseguinte, poucos falsos negativos (poucos casos verídicos de doença não detetados).
Bertrand D, Fluss J, Billard C. Efficacité, sensibilité, spécificité : comparaison de différents tests de lecture. L’Année psychologique, 2010 ; 110, 299-320.) do modelo em 6,8 % e a (sidenote:
Especificidade
A especificidade é a probabilidade de o teste ser negativo, sabendo-se que o indivíduo é saudável. Por conseguinte, mede a capacidade de um teste para detetar indivíduos saudáveis. Quanto mais a especificidade se aproximar da unidade, menor será o número de falsos positivos.
Bertrand D, Fluss J, Billard C. Efficacité, sensibilité, spécificité : comparaison de différents tests de lecture. L’Année psychologique, 2010 ; 110, 299-320.) em 27,1%! Deste modo, será mais fácil identificar previamente os doentes de risco a quem poderão ser propostos exames aprofundados.
Estes resultados sugerem também a possibilidade (se as bactérias forem de facto a causa destas alterações, o que ainda está por confirmar) de se modificar a microbiota intestinal para limitar a progressão da doença de Alzheimer.
Antes do mínimo sinal clínico da doença de Alzheimer, a microbiota intestinal dos futuros doentes alterar-se-á. Esta alteração poderá ajudar a identificar os doentes na fase pré-clínica.
Estudos anteriores destacaram a existência de disbiose na microbiota intestinal dos pacientes com sintomas da doença de Alzheimer. Mas e antes do aparecimento dos primeiros sintomas? Esta questão foi investigada por uma equipa americana da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, que analisou a microbiota de 164 pessoas com idades compreendidas entre os 68 e os 94 anos, sem problemas cognitivos, mas das quais 49 apresentavam (sidenote:
Biomarcadores
Proteínas β-amiloide (Aβ) e tau patogénicas por tomografia por emissão de positrões (PET) ou por medição no líquido cefalorraquidiano (LCR), marcadores de neurodegeneração (hipometabolismo temporoparietal, atrofia do hipocampo, etc.) identificados através do LCR e por ressonância magnética (RM)
) Os resultados são incontestáveis: os perfis taxonómicos microbianos intestinais dos 49 pacientes "pré-doentes" diferem dos 115 controlos.
55 milhões
Mais de 55 milhões de pessoas sofrem de demência em todo o mundo.
60-70%
Pensa-se que 60-70% dos casos de demência se devem à doença de Alzheimer.
Uma microbiota intestinal típica da fase pré-clínica
Esta disbiose está correlacionada com marcadores da fase pré-clínica da doença, nomeadamente a deposição de placas β-amilóides no cérebro. No entanto, não está associada a biomarcadores de neurodegeneração (hipometabolismo temporoparietal, atrofia do hipocampo, etc.). Isto sugere que a microbiota intestinal sofrerá alterações desde uma fase muito precoce e assintomática da doença.
Mais especificamente, a abundância de certas bactérias será modificada, quer em alta quer em baixa: Dorea formicigenerans com propriedades pró-inflamatórias, Oscillibacter sp. 57_2 que pode estar associada a uma integridade epitelial reduzida, Faecalibacterium prausnitzii anti-inflamatória e, em menor grau, Coprococcus catus, Anaerostipes hadrus, Methanosphaera stadtmanae e Ruminococcus lactaris. Algumas destas bactérias intestinais poderão, portanto, estar envolvidas na cadeia causal, embora sejam necessárias mais experiências para confirmar esta ligação causal e excluir qualquer eventual coincidência.
10 anos
Pelo menos 10 anos separam a primeira deposição de placas β-amilóides no cérebro e o aparecimento dos primeiros sintomas clínicos da doença de Alzheimer.
Simplificar e melhorar a identificação dos pacientes em risco
Em todo o caso, esta assinatura bacteriana poderá permitir melhorar a previsão da doença, com base num teste efetuado num subgrupo de 65 doentes: a adição destes taxa bacterianos aumenta a precisão dos modelos de previsão. Evidentemente, a melhoria é ligeira (aumentos de sensibilidade de 1,5% e de especificidade de 5,0%) quando o modelo inicial inclui a proteína β-amiloide, que é A assinatura pré-clínica da doença. No entanto, este último dado implica testes complexos. Por outro lado, quando os modelos se baseiam apenas em dados facilmente disponíveis (demografia, covariáveis clínicas e genética), a adição de características taxonómicas, que apenas requerem uma amostra de fezes, melhora a sensibilidade em 6,8% e a especificidade em 27,1%. Deste modo, será mais fácil identificar previamente os doentes de risco para os quais poderão ser prescritos exames mais aprofundados (punção lombar e neuroimagiologia). Por último, o estudo poderá abrir a porta a intervenções sobre a microbiota com o objetivo de limitar a progressão da doença de Alzheimer para estádios clínicos.
É uma história digna de um conto de fadas: era uma vez, uma jovem que não conseguia ter filhos e sofria repetidos abortos espontâneos, até que recebeu de presente uma doação de microbiota vaginal. Engravidou e levou a gravidez a termo.
A utilização de qualquer medicamento é altamente regulamentada e requer uma autorização de introdução no mercado (AIM). No entanto, em casos muito raros, é possível beneficiar de uma dispensa de última instância, conhecida por "uso compassivo": esta permite a utilização de medicamentos sem autorização de introdução no mercado para tratar doenças graves ou raras para as quais não existe solução, quando o tempo se torna essencial. Uma jovem mãe de 30 anos, que desde o seu primeiro filho tinha sofrido uma série de abortos espontâneos, alguns deles muito tardios (até 6 meses de gravidez), pôde beneficiar de um transplante de microbiota vaginal através deste mecanismo. Por outras palavras, em setembro de 2021, a flora saudável de outra mulher foi depositada na sua vagina.
Apenas 1 em cada 2 mulheres
sabe exatamente o que é a flora vaginal (49%) e apenas 1 em cada 5 mulheres afirma saber o significado exato do termo "microbiota vaginal" (21%).
O "transplante" de flora vaginal parece ter-se consolidado muito rapidamente: a disbiose e os seus sintomas desapareceram e os lactobacilos semelhantes aos da dadora colonizaram amplamente a vagina da recetora. Em fevereiro de 2022, a paciente engravidou naturalmente e os lactobacilos continuavam a viver pacificamente na sua vagina. O único problema foi o regresso da Gardnerella spp. na 6ª semana de gravidez. Não houve motivo de preocupação para os investigadores, uma vez que um segundo transplante de microbiota vaginal estava inicialmente previsto para 2 semanas mais tarde..., mas acabou por ser cancelado porque, no dia D, os lactobacilos tinham novamente tomado conta da situação. E como tudo está bem quando acaba bem, no termo dessa gravidez nasceu um menino perfeitamente saudável por cesariana planeada.
Um transplante pode trazer outro...
Já ouviu falar do transplante de microbiota fecal (TMF)? Agora é a vez do transplante de microbiota vaginal! Foi em 2019 que investigadores americanos lançaram as bases para os primeiros ensaios de transplante de microbiota vaginal (TMV) destinado a tratar a vaginose bacteriana. Para testarem a hipótese de que o TMV poderia ser uma opção de tratamento mais eficaz, os cientistas desenvolveram uma abordagem de rastreio universal que envolveu 20 mulheres com idades compreendidas entre os 23 e os 35 anos. Objetivo? Selecionar as dadoras, de modo a encontrar aquelas que apresentavam um risco mínimo de transmissão de agentes patogénicos e uma microbiota vaginal "ótima" para o transplante.
No entanto, é importante não tirar conclusões precipitadas ou acreditar que o transplante de microbiota vaginal é a solução milagrosa para a infertilidade da mulher: este tratou-se apenas um caso, e a paciente também era portadora de outra doença que causa abortos espontâneos e cujo tratamento poderá explicar, total ou parcialmente, o sucesso desta gravidez. Por outras palavras, embora não devamos desprezar os resultados deste estudo de caso, também não devemos cantar a vitória.
Quer se trate de transplante de microbiota vaginal ou de microbiota intestinal, são práticas que podem apresentar riscos para a saúde e devem ser efetuadas sob controlo clínico. Não as reproduza em casa!